sábado, 2 de abril de 2016

O Pôr da Sol

Arte de Weberson Santiago




Reencontrei a Sol dia destes, na fila da padaria. Enquanto esperávamos nossa vez de pegar o pão nosso de cada dia, aproveitei a oportunidade de me atualizar sobre a vida dela. Sua filha mais velha estava grávida e ela seria avó em quatro meses.
Embora a notícia do neto fosse prodigiosa, Sol compartilhou comigo a preocupação com o futuro do neto. “A vida está muito difícil nos dias de hoje, tem que pensar muito antes de pôr uma criança no mundo”, disse. Ela reclamou que não sabe se a filha fez um bom casamento.
Foi quando percebi que ela continuava a mesma dos tempos em que convivemos. Sol e eu fomos contemporâneos nos tempos estudantis. Fizemos o ensino fundamental na mesma escola. Ela é alguns anos mais velha do que eu, mas sua irmã estudou na minha sala.
Daquele tempo, me recordo que Sol foi sempre uma garota levemente deprimida e, ao mesmo tempo, complacente. Vivia rodeada de amigas, mas tinha um jeito peculiar de ser. Uma espécie de pessimismo congênito, uma mania de ver o lado negativo das coisas. Resistia brincar de pega-pega porque poderia cair e quebrar um dente. Ao contrário das outras crianças, não comemorava quando a escola planejava uma excursão. Não gostava de sair da rotina. Ainda assim, Sol era uma apática simpática.
Ia cabisbaixa para a aula de educação física porque tinha que correr. Sol era tão reflexiva e vagarosa que não conseguia conciliar o movimento e o pensamento nas aulas de vôlei. Ou ela olhava a trajetória e pensava onde a bola iria cair, ou ela corria. E a Sol nunca acertava a bola, nem quando ela vinha redonda em sua direção. Se era para dar o toque, ela tentava uma manchete e tomava uma bolada no peito. Se era para dar manchete, tentava o toque e via a bola cair entre as suas mãos, rente ao seu corpo. Sol não era movimento, sol era contemplação.
As crianças, em seu jeito de ser, costumam ser empolgadas e inocentes ou agitadas e agressivas. Sol não. Sol esbanjava marasmo e talvez por isso despertasse nas outras crianças a vontade de desafiar a sua tristeza com o vigor de sua energia. Nunca conseguiam tirá-la do lugar, mas havia sempre alguém ao seu lado, como se algumas de suas colegas revezassem a companhia. Nunca vi a Sol sozinha. Sol não se sentia a principal estrela, mas Sol sabia que era parte de um sistema solar.
Quando saí da escola e fui fazer o ensino médio em outro colégio, perdi o contato com a Sol. Soube quando ela se casou e quando teve suas filhas. Gostei de reencontrá-la naquele dia e matar a saudade da luz, ou melhor, da sombra da Sol. Mesmo com o discurso igual ao da hiena do desenho da nossa infância: “Ó céus! Ó vida! Ó azar!” e “Isso não vai dar certo...”. Nesta última vez, fiquei com a sensação de que Sol era uma luz quase se apagando, mas que não chegava a incomodar quem queria enxergar.
Um mês depois, soube de uma triste notícia. Sol não aguentou passar pelo solstício de inverno. A escuridão passou a ocupar a maior parte do dia da Sol. A sombra foi crescendo, aumentando. Sol foi ficando pequena, fraca. Sol se matou. Pôs fim a própria vida. Não chegou sequer a conhecer seu neto. Entendi que Sol sempre foi madrugada. Compreendi que Sol era a pura melancolia da noite. Sol era lua. Nunca esquecerei do dia em que a Sol se pôs.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Quem se mata o faz para por fim ao próprio sofrimento, insuportável. E este sofrimento passa para quem fica.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 02/04/2016, Edição Nº 1401.

sábado, 19 de março de 2016

O Sorriso das Solas




Arte de Weberson Santiago




Tenho saudade do tempo em que eu tinha tempo de lavar os meus tênis. Era um ritual.
Primeiro, removia os cadarços e deixava o par de molho na água com sabão. Pegava a escova de dente velha que minha mãe deixava em um copo no tanque da lavanderia. Esfregava a lateral das solas encardidas com as cerdas despenteadas da escova até que elas voltassem a sua cor original. Esfregava o tecido do tênis com a escova oval de madeira de fios amarelos e brancos duros para remover a sujeira.
O ritual de limpeza do tênis era uma forma de reviver a sensação de usar um tênis novo. Resgatar o efeito da primeira vez que você sai com um par que acabou de tirar da caixa e sente que pisa nas nuvens.
Não me importava que logo na chegada na escola o tênis fosse batizado com um pisão pelo colega marrento. Não reagia, não reclamava. Ele poderia sujá-lo, mas não me tirava a sensação de usar um tênis como se ele fosse novo de novo.
Eu esfregava a lateral como se escovasse os dentes da sola. Para que pisasse no chão com um sorriso dentro de mim, sem que me fosse necessário mostrar os dentes.
Na última vez que saí de férias, tive tempo de resgatar o ritual. Me lembrei o quanto é bom limpar meu par de sapatênis e sorrir com as solas. Fiquei pensando que não havia tido tempo de limpar meus tênis por um longo ano. E não o fiz porque limpar os tênis não é algo urgente. Não se é recriminado por andar com os tênis sujos. Quem usa um par encardido não é impedido de entrar num teatro ou num restaurante. A vida continua sem que se limpe os tênis.
Mas por mais que não seja urgente, limpar os tênis é algo muito importante. Enquanto percorremos os caminhos da vida, vamos acumulando poeira, colecionando sujeira e imundice. Não somente nas solas, mas também no mundo dos sentimentos.
Nossos sentimentos negativos vão deixando suas marcas. Os subprodutos emocionais de nossas experiências vão nos encardindo. Precisamos de um tempo para limpar essa sujeira e ficar renovados para os próximos caminhos.
Dar a devida atenção a uma dor da perda que não desgruda para buscar novas maneiras de se sentir vivo. Esfregar veementemente um risco feito em um momento de raiva para que ela fique de vez para trás. Cutucar uma pedrinha de mágoa que ficou presa nos frisos da sola e que atrapalha o pisar. Suavizar a marca da topada com uma das pedras do caminho.
Viver suja. Viver gasta. Viver estraga muita coisa. Mas só sujamos, gastamos e estragamos porque vivemos.
Viver é sujar e limpar. Gastar e renovar. Estragar e consertar.
Experimente o ritual de lavar o seu par. Saia da passividade. Deixe de reclamar da sujeira.  Não se contente com ela. O importante não é conseguir a proeza de não sujar, mas preservar a disposição para limpar. Faça as suas solas sorrirem!
UM CAFÉ E A CONTA!
| Uma coisa simples pode esconder um efeito surpreendente.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 19/03/2016, Edição Nº 1399.

sábado, 5 de março de 2016

Quando Eu Estiver Mal

Arte de Weberson Santiago



Quando eu estiver com raiva, me dê tempo para entendê-la e deixa-la passar. Se estou com raiva é porque me senti agredido. Pode ser que não tenha sido a intenção da pessoa, mas foi o efeito da atitude dela sobre mim. E pode ter sido intencional também. Só não me cobre que eu finja que não estou com raiva. Com o tempo, ela passa.
Quando eu estiver triste, permita que eu passe um tempo sem dar meu melhor e até sem ser aquele de sempre. Sou humano e não consigo manter a excelência o tempo todo. A tristeza é um sentimento que faz parte da vida. Não é saudável aquele que quer parecer feliz o tempo todo e empurra a tristeza para debaixo do tapete. Já dizia a música do Frejat: “que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero”. Encarar a tristeza me deixa mais sensível para me encantar com as coisas boas, ainda que pequenas, da vida.
Quando eu estiver mal-humorado, entenda que esgotei todos os meus recursos para enfrentar as adversidades. Me avise se estiver descontando em alguém, mas evite me cobrar o bom humor. Isso porque é o excesso de cobranças, as minhas próprias e as dos outros, é que me deixaram assim. Eu sei que não é bom conviver com alguém mal-humorado, mas eu também não gosto de ficar assim. Quando vejo que estou ficando, busco me recolher, me poupar e fazer coisas que relaxam para que eu possa retomar a alegria e a esperança.
Quando estiver irritado, me dê um tempo. Me deixe quieto no meu canto. Quando eu estou assim, fico como um porco espinho. Quem se aproximar, acaba se machucando. Não tenho orgulho disso, tenho até muita vergonha. Mas digo isso para o seu bem. Digo isso porque lhe fazer sofrer me irrita mais ainda. Quando eu estiver irritado, se proteja.
Se você quer me ajudar quando eu estiver com raiva, triste, mal-humorado ou irritado, me lembre as coisas que eu tenho de bom. Se você reconhecer algum esforço que eu tenha feito em nossa relação, a raiva ficará pequena. Se você me fizer um elogio, me sentirei importante e a tristeza ficará de lado, ao menos por um tempo. Se me contar algo engraçado, o mal humor deixará de tomar conta. Se me convidar para fazer algo que eu gosto, minha irritação desaparecerá.
Aprendi a respeitar meus sentimentos negativos e a lidar com eles. Eles não são causa, eles são efeitos. São os subprodutos emocionais dos eventos estressores do meu dia-a-dia. Eles não me dão o direito de descontar nos outros e isso eu reconheço que preciso melhorar. Só não me peça para fingir que não os sinto. Só não me cobre que deixe de senti-los imediatamente.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Quando eu me afundar em um sentimento negativo, salve minha vida me levando até onde o ar me inspire.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 05/03/2016, Edição Nº 1397.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Que Faz da Sua Casa Um Lar

Arte de Weberson Santiago



Uma casa, para ser um lar, precisa de ter um par de vasos. As mais clássicas são a samambaia na varanda ou na garagem e a violeta no banheiro. Você pode optar por outras espécies, mas sua casa só será um lar se tiver algumas plantas. Para você provar para si mesmo que é capaz de cultivar e não deixar morrer uma planta.
Já é um bom começo, mas uma casa, para ser um lar, precisa de um animal de estimação. Ao menos um. Não vou entrar na rivalidade de quem defende que o melhor amigo do homem é o gato versus quem acha que o melhor amigo do homem é o cachorro. O importante é ter um melhor amigo de outra espécie dentro de casa, para que ela seja um lar. Um peixe beta, um pássaro ou uma tartaruga.
Se o bicho e a planta sobreviverem, isto significa que você já é capaz de dar conta de aumentar a sua família. Ainda assim, isso não é suficiente para que a sua casa se torne um lar.
Uma casa, para ser um lar, precisa ser perfumada de cheiro de café que acabou de ser coado pela manhã todos os dias. O aroma de café de manhã é o perfume que a casa passa para começar o dia. E, para ser um lar, a casa precisa ser dominada pelo cheiro de bolo ficando pronto de vez em quando.
Para que sua casa seja um lar, é preciso que tenha algum sinal de fé. Uma bíblia, um santo ou uma imagem. Aí você pode me perguntar: mas um ateu não tem lar? Eu lhe diria que até a ausência de um sinal de fé pode significar que existe fé. O esforço em negar é um tipo de fé. O que eu insisto em negar é tão ou mais importante do que qualquer coisa que me desperta a indiferença. E todo ateu acredita em alguma coisa, um dia você descobrirá no que.
Só que não basta ter fé para que sua casa seja um lar, é preciso ter pelo menos uma superstição. Elefante com a bunda virada pra porta, sal grosso para espantar o mal olhado, arruda ou pimenteira na fachada, figa na gaveta, patuá na bolsa. A superstição é uma mania e uma casa sem manias é uma casa vazia.
Uma casa, para ser um lar, precisa também de uma coleção. Coleção de latas de cerveja, de miniaturas de animais ou de carrinhos. Coleção de pratos na parede ou de canecas na prateleira. Coleção de canetas ou de selos. Coleção de moedas antigas ou coleção de caixas de fósforo de hotéis. E a coleção precisa estar exposta, visível para que os parentes e amigos possam lembrar de você, ajudar a aumentar a sua coleção e usar isso como desculpa para lhe visitar.
Só pode ser considerado um lar, uma casa que tem fotos. Antigas e recentes. Para se provar que tem história, para se provar que se valoriza o passado e o presente. Podem estar expostas em murais, álbuns, quadros ou em um par de porta-retratos.
Quando você tiver a maioria dessas coisas na sua casa, ela pode ser considerada um lar. Ou pode ser até que você tenha uma porção de outras coisas que demonstrem investimento, cuidado, carinho e afeto com o lugar onde você mora. Aí ela pode ser considerada um lar. E quando você for viajar, basta que você leve algumas trocas de roupa porque você será capaz de fazer do lugar onde você estiver um lar temporário, mesmo sem nada disso.
O que faz da sua casa um lar é o seu esforço em manter e melhorar o ambiente em que você vive. Quem consegue fazer isso pela sua própria casa é capaz de fazer isso pelas pessoas que cruzarem seu caminho, onde quer que esteja, mesmo fora de casa, mesmo longe de seu lar.
UM CAFÉ E A CONTA!
| O seu lar é o lugar onde habita a sua alma. Sua casa reflete a sua alma?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 20/02/2016, Edição Nº 1395.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Exercício na Dose Certa

Arte de Weberson Santiago



Faz alguns anos que eu pratico natação por três vezes na semana. O horário que eu encontrei para encaixar o compromisso foi às seis da manhã. Um horário em que a maioria das pessoas tem disponível para praticar uma atividade física é antes de entrar no trabalho.
Vira e mexe aparece um novo praticante na piscina. Não é uma aula de natação, e sim um horário em que a piscina está disponível para quem quiser treinar. Naturalmente, enquanto damos os curtos intervalos entre as idas e vindas, aproveitamos para puxar conversa entre os nadadores.
Durante esta prática, assisti uma coisa acontecendo com diversas pessoas. Elas chegam extremamente empolgadas para começar a nadar. Ir e voltar, ou seja, nadar cinquenta metros, é algo exaustivo para o iniciante. A empolgação faz com que o iniciante empregue todo o seu vigor, como se estivesse brigando ou batendo na água.
Quando converso com este iniciante, percebo que a pessoa que está sedentária e quer retomar a atividade física. Só que não pensa em uma frequência e quantidade que realmente pode encaixar na sua rotina sem prejudicar outros compromissos.
Vou citar um exemplo. Teve um cara me contou que teve um filho há seis meses e que parou de praticar atividade física há alguns anos, mas que pretendia nadar e fazer academia todos os dias. Não precisou de vinte e cinco metros para eu pensar que seria difícil, com um bebê recém-nascido em casa e trabalhando de segunda a sexta, manter essa frequência. Na primeira semana ele foi todos os dias até no sábado. E nunca mais apareceu.
Percebo também que muitos ignoram que o corpo precisa de começar devagar para possa se adaptar gradativamente ao aumento da carga de exercício. Além do cansaço excessivo, aumenta-se muito o risco de lesão. Apesar da natação não ter impacto, as pessoas fazem muito isso com o retorno à academia, sem ter a dimensão do risco que correm.
De que adianta nadar três mil metros durante quinze dias e depois ficar seis meses sem fazer exercício nenhum?
Eu prefiro me manter nos mil metros e nadar três vezes por semana durante o ano todo, inclusive no inverno. Não, eu não sou insensível ao frio. Tenho o privilégio de ter uma piscina aquecida e coberta no clube. E mesmo que no frio dê uma enorme preguiça de ir, me obrigo. Só tem uma exceção que me faz ficar dormindo: quando estou excessivamente cansado. Aí o exercício não me fará bem, pois atuará como um estressor. Nesta condição, me permito faltar.
É preciso respeitar nossos próprios limites. Qualquer pessoa é capaz de perceber os sinais que o seu próprio corpo dá, desde que esteja interessado e disponível a se auto-observar. Nessas conversas de beirada de piscina, algumas vezes ouvi que nado devagar e que nado pouco. Na verdade, eu aprendi a dosar a quantidade e a velocidade errando.
Uma vez acordei empolgado e nadei dois mil metros. O dia foi cheio de compromissos de trabalho e a noite fui dar aula na faculdade. Os alunos de minha supervisão estranharam a bateria rebaixada. Perceberam que eu estava cansado e me disseram. Foi quando eu percebi que havia exagerado na natação.
Quando for começar ou retomar a prática de atividade física, comece devagar e escolha uma frequência que você é capaz de cumprir. Valorize os pequenos progressos e respeite os seus limites. Cada pessoa tem um tempo de aprendizagem e um bom educador físico sabe respeitar este limite.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Exagerar na dose é a maneira mais rápida de produzir a desistência.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 06/02/2016, Edição Nº 1393.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O Samba da Rosa Maria

Foto de Augusto amato Neto


O boteco é o lugar onde se passa a vida e onde a vida passa.
André frequentava a roda de samba do Bar do Chorinho desde quando estava na barriga de sua mãe. A batida do coração da Angélica se juntava a batida do tan-tan formando o conforto mais barulhento que um bebê poderia experimentar. Angélica ficava feliz e rodopiava ao ver o samba tocar e André sentia essa felicidade pulsante de dentro de seu ventre.
Foi lá, naquele bar, que seus pais se conheceram. Jader cobiçou Angélica desde a primeira vez que lhe viu com as amigas. Naquele dia já imaginava suas mãos percorrendo as suas coxas como as mãos escorregam pelo pandeiro.
Foi naquela roda de samba que Jader e Angélica deram seu primeiro beijo. “O mar serenou quando ela pisou na areia. Quem samba na beira do mar é sereia” foi o verso que embalou o pega na porta dos banheiros.
Algumas semanas depois André foi concebido na saída da roda de samba, numa noite quente de verão, quando os dois passaram a primeira noite juntos na casa dos pais de Jader. A gravidez caiu como uma bomba na vida dos dois. Jader nunca havia mantido um relacionamento por mais de três meses. Angélica sempre quis se casar, mas não sabia se um dia iria querer ser mãe. E quando se lembrou disso já era.
Os dois resolveram passar por cima dessas individualidades e tentaram ficar juntos em nome do menino. Falando em nome, o pai queria chama-lo de Noel, para homenagear o Rosa. Mas a mãe foi contra. Imaginou que esse nome seria motivo de chacota pelos colegas. Escolheu e bateu o pé para chama-lo de André. O pai cedeu.
André esteve de volta no Bar do Chorinho depois que saiu da barriga aos seis meses, na roda de choro de segunda-feira. Voltava todo mês nas rodas de samba de quinta, sexta ou sábado. Depois que completou um ano, seus pais praticamente voltaram a frequentar a roda como antes de ter o menino.
Mas como a vida não é feita somente de samba-exaltação, a letra do samba entristeceu com os problemas de relacionamento. Jader bem que tentou se controlar e se manter fiel a Angélica, mas teve lá suas recaídas. Angélica não se sentia segura, mesmo não tendo prova cabal da infidelidade do amado.
As brigas por motivos levianos eram frequentes. A primeira briga que levaram pra roda de samba foi quando uma angolana de sessenta e poucos anos tirou Jader pra dançar. Conhecida como a Raimunda do samba. Feia de cara, mas boa de bunda. Não tinha a intenção de roubar homens comprometidos, só de se sentir a musa do samba. Pediu licença a Angélica para dançar com seu homem. Angélica consentiu, mas se contorceu na cadeira vendo o marido dançar com outra.
Ela amarrou a cara, emburrou. Na hora que ele se sentou, a discussão começou. Jader não se conformava com o ciúme. Ela foi ficando cada vez mais irritada. Os dois foram embora antes da roda terminar, carregando André e discutindo pelo caminho. As brigas e discussões se intensificaram, André já tinha cinco anos. Decidiram então se separar.
O samba-canção deu lugar ao samba-choro. A partir daquele momento, Angélica preferiu evitar o samba para não reencontrar o Jader. O menino sofreu. A roda de samba era a sala da sua casa. E não faz sentido ocupar a sala se a família não está completa. Sentia como se abandonasse a mãe ao ir para o samba só com o pai. André pegava a mãe chorando pelos cantos da casa aos finais de tarde quando costumava estar na roda.
Um dia, enquanto estava na roda com o pai, ouviu tocar um samba escrito em 1948 por Aníbal e Eden Silva, que de vez em quando ele ouvia tocar na roda ou em casa. Largou o jogo do tablet na mesa e foi pra junto da roda, cantar: “Um dia encontrei Rosa Maria, na beira da praia, a soluçar. Eu perguntei o que aconteceu, Rosa Maria me respondeu: o nosso amor morreu.”
Foi a única vez que André deixou de sentir a falta da presença da mãe. Era como se ela estivesse presente na roda de samba com a música. A partir daquele dia ele resolveu dividir. A roda toca das 19 às 22 horas. No intervalo das 20:30 ele vai embora fazer companhia para a mãe.
E toda vez que toca “Rosa Maria” e só quando esta música toca, ele se levanta e vai até a roda cantar.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Uma boa música pode ser um remédio para curar uma dor.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 23/01/2016, Edição Nº 1391.
* Esta é uma crônica de ficção baseada na livre criação artística e sem compromisso com a realidade. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Férias de Verdade

Arte de Weberson Santiago



Depois de longos meses de trabalho, recebi o aviso de férias. Nele aparecia a data de quando eu descansaria. O dia em que as obrigações dariam trégua, quando estaria livre das amarras dos compromissos.
O que eu fiz? Comecei a imaginar o que eu faria a partir desta data. Sem pestanejar, comecei a fazer uma lista de afazeres para as minhas férias.
Preciso consertar aquelas coisas pequenas que me incomodaram durante o ano, mas que não tive tempo de arrumar. Inclui:
Prender com aquele ferrinho a maçaneta da porta para que ela não saia mais na minha mão;
Parafusar o porta toalhas do lavabo para que ele não caia de vez;
Dependurar o quadro que ganhei de um amigo;
Retirar o globo dos lustres que a Natália me cobra há meses para que a faxineira possa remover o cemitério de insetos;
— Substituir algumas telhas da lavanderia por telhas de vidro, que foram compradas há três meses, mas ficaram amontoadas no quartinho do fundo;
— Trocar as plantas de vaso para aliviar as raízes do sufoco e podar a árvore da calçada para que ela não continue crescendo desordenadamente;
Quando a lista de afazeres já havia atingido o comprimento de um pergaminho, notei que estava substituindo minha rotina de trabalho por uma rotina de afazeres em casa. Percebi que estava evitando entrar em contato com o tempo ocioso e que não estava me permitindo fazer coisas que gosto. Queria resolver pendências, mas boa parte do que faço na rotina de trabalho é resolver pendências. Passar as férias fazendo o que se faz quando não se está de férias, não é férias de verdade. Férias de verdade devem incluir coisas que dão prazer e que não temos disponibilidade de fazer enquanto estamos trabalhando.
Como somos humanos e não temos um botão de liga e desliga, sair do ritmo alucinado da repetição do cotidiano e ocupar a ausência total de tarefas das férias é um processo que exige tempo. Alguns dias são necessários para se adaptar. Ir desacelerando, mudando de ritmo. Por isso é que a primeira e a última semana das férias, ou os primeiros e últimos dias, são os mais difíceis. São os dias de transição.
Quando saímos de férias, nos deparamos com o vazio da rotina. Me pergunto: quem sou eu sem todos aqueles compromissos? Quando as férias estão se aproximando do fim, nos deparamos com a ansiedade do retorno. A questão é: vai voltar tudo outra vez! Será que eu dou conta?
O meio das férias é a melhor parte, é quando conseguimos aproveitar mais. Por isso, as férias não podem ser curtas demais, para dar tempo de aproveitar.
As férias são um distanciamento da rotina que serve para se desligar e para descansar. Só voltaremos verdadeiramente renovados para a rotina se nos permitirmos desligar e descansar.
Sua vida só anda se você parar. Pelo menos uma vez ao ano.
UM CAFÉ E A CONTA!
| As pessoas olham o descanso e as férias com maus olhos. Ignoram o fato de que a qualidade do trabalho cai se não há trégua.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 09/01/2016, Edição Nº 1389.