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sábado, 5 de maio de 2018

Treinando a Empatia

Arte de Weberson Santiago



Uma das habilidades mais importantes que um ser humano pode ter é a empatia. Todo mundo já ouviu falar essa palavra pelo menos uma vez, mas eu acredito que na prática conseguimos experimentar pouco o exercício dessa habilidade.

A definição mais comum de empatia é como a capacidade de se colocar no lugar do outro. Por isso as pessoas confundem muito a empatia com simpatia. Ser simpático é compreender o que o outro sente. Ter simpatia é ter afinidades com alguém e se sentir espontaneamente atraído a interagir com essa pessoa.

Quando digo que o fulano é simpático, estou descrevendo que o fulano gera em mim um bom sentimento é por isso eu tenho disposição para me aproximar do fulano, mas isso não significa que o fulano e eu sejamos empáticos.

Por conta da definição confundimos empatia com sensibilidade. Sensibilizar-se é quando eu compreendo o que o outro sente e faço alguma coisa para amenizar a sua situação. Agir com base nos sentimentos de pena não é empatia, é compaixão. Ajudar alguém que sofre é solidariedade, e não empatia.

Empatia é fazer o exercício de experienciar o lugar do outro. Não é entender como o outro se sente, é se imaginar de forma efetiva nas condições em que o outro se encontra, tendo como contexto a história de vida do outro.

Por isso é tão difícil desenvolver a habilidade da empatia. É difícil porque a habilidade é complexa e exige muito esforço. O esforço de desprender-se de si mesmo a cada vez que tendemos a enxergar o outro sobre o nosso próprio ponto de vista. Cada vez que você percebe que está utilizando as lentes da sua história para compreender o outro, você deve se esforçar para entender do ponto de vista do outro.

Desistimos antes de nos aproximamos do comportamento empático porque dá muito trabalho. Ficamos com preguiça de tentar de novo, e de novo e de novo. Nos contentamos com simpatia e com a compaixão, que também são sentimentos importantes na vida social, mas não são nem de longe a empatia.

Se você quer treinar a sua habilidade de empatia para que consiga se relacionar melhor com as pessoas, faça os seguintes exercícios:

1. Escolha uma pessoa que você admira e pense em como você se sentiria tendo a vida dela. O trabalho, a família, as responsabilidades, os prazeres, os medos, etc. Se perceber que está voltando a pensar como se fosse você mesmo ao invés da pessoa escolhida, gentilmente volte a buscar pensar como se fosse a pessoa. Avance aos poucos pelas diferentes áreas da vida dessa pessoa. Se o exercício se tornar cansativo, retome-o em outro momento.

2. Escolha uma pessoa que vem lhe incomodando e faça o mesmo.

O segundo exercício é um desafio maior que o primeiro, já que quando a pessoa desperta fortes sentimentos negativos em nós fica mais difícil deixá-los de lado para conseguir experienciar o lugar dela no mundo.

O desafio vale a pena: quando você conseguir ocupar de fato o lugar dessa pessoa em pensamento, talvez ela não seja mais tão incômoda para você.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Treinar a empatia é como fazer Pilates na parte psicológica.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 05/05/2018, Edição Nº 1510.

sábado, 13 de maio de 2017

Madrugadas Corridas

Arte de Weberson Santiago



Você contou aos sete ventos que gosta de me espiar dormindo aos domingos de manhã. Que seu prazer dominical é fazer a vigília do meu sono. O que você não sabe é que eu gosto do inverso: de te espiar acordando nos dias úteis de madrugada.

Quando lhe vejo despertar às cinco e meia, três vezes por semana, para fazer atividade física, sinto que sou casada com a disposição. Admiro o quanto você se esforça para manter um hábito saudável. Você prefere que eu vá com você ao invés de fazer a corrida sozinho. Me avisa de véspera ainda que corra em dias fixos. "Amanhã tem corrida, hein?", diz você quando me vê deitada. Seu lembrete é como se fixasse um post it na minha agenda. Eu sempre durmo com a intenção de lhe acompanhar.

Quando eu venço a preguiça e saio para correr ao seu lado, é como se juntos, correndo lado a lado, estivéssemos a frente de todo o resto do mundo. Como se tivéssemos uma vantagem por levantar primeiro, por estar adiantado em relação a quem ainda está na cama.

Quando a gente acorda correndo, tudo fica pequeno: os problemas, as dificuldades, as diferenças. É como se os problemas encostassem na gente e a gente apertasse o ritmo das passadas, deixando-os para trás. Conforme a gente segue a nossa corrida, vai aumentando a nossa cumplicidade porque a gente sente o quanto é mais forte juntos.

Você me conhece bem, sabe do meu excesso de preguiça pela manhã e que as últimas são minhas melhores horas de sono, mas mesmo assim nunca desiste de tentar me arrastar.

Quando eu digo que não vou, você me respeita e me deixa descansar. Nunca me cobra por não ter ido, nem briga porque eu preferi descansar mais um pouco em vez de lhe acompanhar.

Para mim, a sua persistência em me querer ao seu lado na corrida é uma prova do seu amor. Você nunca desiste. Para mim, sua aceitação da minha preguiça é uma prova ainda maior do seu amor. Você me aceita com meus defeitos.

Quando meu dia começa com você me convidando para correr eu sinto o nosso amor vivo nos dias úteis, e não somente aos finais de semana ou nas datas especiais.

Quando começamos o dia correndo juntos de madrugada, o sol nasce primeiro dentro da gente antes de apontar no horizonte de todas as outras pessoas.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Você não é despertado pelo sol, você lembra o sol que ele precisa despertar as outras pessoas.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 13/05/2017, Edição Nº 1459.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Exercício na Dose Certa

Arte de Weberson Santiago



Faz alguns anos que eu pratico natação por três vezes na semana. O horário que eu encontrei para encaixar o compromisso foi às seis da manhã. Um horário em que a maioria das pessoas tem disponível para praticar uma atividade física é antes de entrar no trabalho.
Vira e mexe aparece um novo praticante na piscina. Não é uma aula de natação, e sim um horário em que a piscina está disponível para quem quiser treinar. Naturalmente, enquanto damos os curtos intervalos entre as idas e vindas, aproveitamos para puxar conversa entre os nadadores.
Durante esta prática, assisti uma coisa acontecendo com diversas pessoas. Elas chegam extremamente empolgadas para começar a nadar. Ir e voltar, ou seja, nadar cinquenta metros, é algo exaustivo para o iniciante. A empolgação faz com que o iniciante empregue todo o seu vigor, como se estivesse brigando ou batendo na água.
Quando converso com este iniciante, percebo que a pessoa que está sedentária e quer retomar a atividade física. Só que não pensa em uma frequência e quantidade que realmente pode encaixar na sua rotina sem prejudicar outros compromissos.
Vou citar um exemplo. Teve um cara me contou que teve um filho há seis meses e que parou de praticar atividade física há alguns anos, mas que pretendia nadar e fazer academia todos os dias. Não precisou de vinte e cinco metros para eu pensar que seria difícil, com um bebê recém-nascido em casa e trabalhando de segunda a sexta, manter essa frequência. Na primeira semana ele foi todos os dias até no sábado. E nunca mais apareceu.
Percebo também que muitos ignoram que o corpo precisa de começar devagar para possa se adaptar gradativamente ao aumento da carga de exercício. Além do cansaço excessivo, aumenta-se muito o risco de lesão. Apesar da natação não ter impacto, as pessoas fazem muito isso com o retorno à academia, sem ter a dimensão do risco que correm.
De que adianta nadar três mil metros durante quinze dias e depois ficar seis meses sem fazer exercício nenhum?
Eu prefiro me manter nos mil metros e nadar três vezes por semana durante o ano todo, inclusive no inverno. Não, eu não sou insensível ao frio. Tenho o privilégio de ter uma piscina aquecida e coberta no clube. E mesmo que no frio dê uma enorme preguiça de ir, me obrigo. Só tem uma exceção que me faz ficar dormindo: quando estou excessivamente cansado. Aí o exercício não me fará bem, pois atuará como um estressor. Nesta condição, me permito faltar.
É preciso respeitar nossos próprios limites. Qualquer pessoa é capaz de perceber os sinais que o seu próprio corpo dá, desde que esteja interessado e disponível a se auto-observar. Nessas conversas de beirada de piscina, algumas vezes ouvi que nado devagar e que nado pouco. Na verdade, eu aprendi a dosar a quantidade e a velocidade errando.
Uma vez acordei empolgado e nadei dois mil metros. O dia foi cheio de compromissos de trabalho e a noite fui dar aula na faculdade. Os alunos de minha supervisão estranharam a bateria rebaixada. Perceberam que eu estava cansado e me disseram. Foi quando eu percebi que havia exagerado na natação.
Quando for começar ou retomar a prática de atividade física, comece devagar e escolha uma frequência que você é capaz de cumprir. Valorize os pequenos progressos e respeite os seus limites. Cada pessoa tem um tempo de aprendizagem e um bom educador físico sabe respeitar este limite.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Exagerar na dose é a maneira mais rápida de produzir a desistência.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 06/02/2016, Edição Nº 1393.