![]() |
| Arte de Weberson Santiago |
Reencontrei a Sol dia destes, na fila da padaria. Enquanto esperávamos
nossa vez de pegar o pão nosso de cada dia, aproveitei a oportunidade de me
atualizar sobre a vida dela. Sua filha mais velha estava grávida e ela seria
avó em quatro meses.
Embora a notícia do neto fosse prodigiosa, Sol compartilhou comigo a
preocupação com o futuro do neto. “A vida está muito difícil nos dias de hoje,
tem que pensar muito antes de pôr uma criança no mundo”, disse. Ela reclamou
que não sabe se a filha fez um bom casamento.
Foi quando percebi que ela continuava a mesma dos tempos em que
convivemos. Sol e eu fomos contemporâneos nos tempos estudantis. Fizemos o ensino
fundamental na mesma escola. Ela é alguns anos mais velha do que eu, mas sua
irmã estudou na minha sala.
Daquele tempo, me recordo que Sol foi sempre uma garota levemente
deprimida e, ao mesmo tempo, complacente. Vivia rodeada de amigas, mas tinha um
jeito peculiar de ser. Uma espécie de pessimismo congênito, uma mania de ver o
lado negativo das coisas. Resistia brincar de pega-pega porque poderia cair e
quebrar um dente. Ao contrário das outras crianças, não comemorava quando a
escola planejava uma excursão. Não gostava de sair da rotina. Ainda assim, Sol
era uma apática simpática.
Ia cabisbaixa para a aula de educação física porque tinha que correr.
Sol era tão reflexiva e vagarosa que não conseguia conciliar o movimento e o
pensamento nas aulas de vôlei. Ou ela olhava a trajetória e pensava onde a bola
iria cair, ou ela corria. E a Sol nunca acertava a bola, nem quando ela vinha
redonda em sua direção. Se era para dar o toque, ela tentava uma manchete e
tomava uma bolada no peito. Se era para dar manchete, tentava o toque e via a
bola cair entre as suas mãos, rente ao seu corpo. Sol não era movimento, sol
era contemplação.
As crianças, em seu jeito de ser, costumam ser empolgadas e inocentes ou
agitadas e agressivas. Sol não. Sol esbanjava marasmo e talvez por isso
despertasse nas outras crianças a vontade de desafiar a sua tristeza com o
vigor de sua energia. Nunca conseguiam tirá-la do lugar, mas havia sempre
alguém ao seu lado, como se algumas de suas colegas revezassem a companhia.
Nunca vi a Sol sozinha. Sol não se sentia a principal estrela, mas Sol sabia
que era parte de um sistema solar.
Quando saí da escola e fui fazer o ensino médio em outro colégio, perdi
o contato com a Sol. Soube quando ela se casou e quando teve suas filhas.
Gostei de reencontrá-la naquele dia e matar a saudade da luz, ou melhor, da
sombra da Sol. Mesmo com o discurso igual ao da hiena do desenho da nossa
infância: “Ó céus! Ó vida! Ó azar!” e “Isso não vai dar certo...”. Nesta última
vez, fiquei com a sensação de que Sol era uma luz quase se apagando, mas que
não chegava a incomodar quem queria enxergar.
Um mês depois, soube de uma triste notícia. Sol não aguentou passar pelo
solstício de inverno. A escuridão passou a ocupar a maior parte do dia da Sol. A
sombra foi crescendo, aumentando. Sol foi ficando pequena, fraca. Sol se matou.
Pôs fim a própria vida. Não chegou sequer a conhecer seu neto. Entendi que Sol
sempre foi madrugada. Compreendi que Sol era a pura melancolia da noite. Sol
era lua. Nunca esquecerei do dia em que a Sol se pôs.
|
| Quem
se mata o faz para por fim ao próprio sofrimento, insuportável. E este
sofrimento passa para quem fica.
|


Um comentário:
Poético, comovedor o texto. Amei. Quanta gente Sol que conhecemos e que não é capaz de enxergar a própria luz. Gente que se entrega. Niilistas incapazes de se dar a oportunidade de descobrir a beleza, de sentir a ternura do outro, egoístas que não percebem que outros nem Sol são, são sombras e não se queixam, esperando que, um dia, sejam atingidas por um raio de Lua. Beijão, querido Augusto.
Postar um comentário