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sábado, 9 de setembro de 2017

A Nossa Dança

Arte de Weberson Santiago




Nós dançamos tão bem juntos. Não frequentamos aulas de dança, mas na dança da vida nós dançamos como nenhum outro casal.

Quando escolhemos formar um par, ouvimos de muitas pessoas que formávamos uma bela dupla e cada um de nós ouviu de pessoas do nosso convívio que nosso amor era uma loucura.

E nós? Nós não ouvimos ninguém. Ouvimos apenas a voz que, dentro de nós mesmos, mandava seguirmos adiante como aquele homem e aquela mulher que saem dos dois extremos da pista de dança em direção ao outro, até que se encontram no centro, sob a luz do desejo. E, ofuscados pela luz, esquecemos dos outros e passamos a viver um pelo outro.

Eu lhe convidando com meu cavalheirismo para lhe apresentar mais adiante a paixão que mora dentro do meu amor. Você me convidando com o movimento da beirada da sua saia para descobrir o calor da paixão que é velado pelo pano da saia do seu amor.

Nessa nossa dança, tivemos todas as trilhas sonoras possíveis. Desde as músicas mais animadas até as mais melancólicas. Agitadas e lentas. Como é a vida para todo mundo, mas que nos fizeram perceber o nosso estilo de dançar conforme a música.

Nós dançamos muito bem juntos, mas já perdemos o compasso. Já nos distanciamos por brigas e desentendimentos. Mas nosso amor foi mais forte e nos uniu de novo. Foi quando descobrimos que quando as mãos se soltam, a dança não termina porque continuamos um par mesmo quando estamos distantes.

Nós dançamos bem juntos, mas de vez em quando pisamos um no pé do outro. Eu reclamo quando você pisa na minha unha encravada, você me xinga quando eu piso no seu calo, mas logo estamos dançando de novo. Passa rápido porque a gente não quer desperdiçar o tempo. O resto da vida é pouco para nossa dança.

Quando um sai na frente porque está adiantado em alguma questão-refrão, não dá muitos passos sozinho até voltar para resgatar o outro. Na frente ou atrás é só durante o rodopio do bailado, já que quando estamos sozinhos é frente a frente e quando estamos vivendo é um ao lado do outro. A vida não faz sentido quando não formamos um par.

Como eu admiro seus passos. Sua firmeza delicada. E você me confessou que admira minha postura esguia e meu olhar doce. Nossos olhos dançam aos pares enquanto a vida passa. Eu fui te ensinando a ver o mundo com o olhar da razão onde somente havia o olhar da emoção. E você foi colocando luz na minha sombra de rigidez com o reflexo iluminado de seus olhos de maneira que eu me tornasse mais sensível.

Eu nunca achei que fosse encontrar um par que me completasse tanto. Eu nunca achei que uma dança a dois pudesse me realizar tanto na pista da vida.

Eu sou seu homem e você é minha mulher. E nesses sete anos eu descobri que eu só quero que nossa dança nunca mais acabe.

  UM CAFÉ E A CONTA!
| Entregue-se e viva inteiro.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 09/09/2017, Edição Nº 1476.

sábado, 20 de agosto de 2016

Dar Um Tempo


Arte de Weberson Santiago



Todo relacionamento que se preze tem em seu histórico um conjunto de pequenos motivos para divergir, para brigar, ou para reclamar. Não me causa espanto que um casal que enfrenta um conflito venha a discutir, a se descontrolar, a agredir verbalmente o parceiro. O que eu realmente não entendo é um casal que decide, em conjunto, dar um tempo. Dar um tempo no sentido de suspender o relacionamento temporariamente, com ou sem afastamento físico.
Dar um tempo é optar pelas reticências onde não deveria ter uma vírgula ou então onde se deveria colocar um ponto final. Dar um tempo é adiar a tomada de decisão: se vai ou racha. É preferir a interrogação ao invés da exclamação.
Dar um tempo é a pior maneira que lidar com um problema na relação. Dar um tempo é fugir de enfrentar o conflito.
Dar um tempo é uma atitude que prova a incapacidade de um casal de entrar em consenso. Dar um tempo é aceitar que nenhum dos parceiros está disposto a abrir mão de seu ponto de vista.
Dar um tempo é a melhor maneira de se criar a privação. Opta-se pelo afastamento e perde-se os beijos, os abraços, os amassos, a atenção e a presença.
A privação vai se tornando maior e cada vez mais incômoda. Até que leva a atitudes desesperadas de ter tudo o que foi perdido de volta. Mas só até que se fique menos privado novamente. Ou até que os mesmos motivos anteriores levem a um novo conflito, semelhante ao anterior.
O problema é que o que gerou o conflito não foi encarado, não foi resolvido. Dar um tempo cria uma condição que desvia o foco do que precisa ser cuidado.
Dar um tempo é testar o óbvio. Se não tivessem afinidades, não teriam se aproximado. Se não tivessem química, não teriam mantido uma relação. O que motiva um conflito não é o que um casal tem de bom, o que leva a um conflito são os problemas que surgem no relacionamento.
Para mim, quem escolhe dar um tempo na relação deveria, na verdade, dar um tempo de si mesmo.
Lutar pela relação, se ainda houver amor, é munir-se de ânimo para enfrentar o caminho mais difícil. Fugir da decisão e dar um tempo é optar pelo caminho mais fácil.
Pôr um ponto final na relação, se já está fracassada, ou enfrentar o conflito é coragem. Dar um tempo é covardia.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Relacionamentos: escolhidos ou impostos impõem desafios a serem superados.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, 20/08/2016, Edição Nº 1421.

sábado, 23 de julho de 2016

A Guerra do Lençol

Arte de Weberson Santiago



Acordamos discutindo por conta do lençol. Eu lhe acusava de ter puxado e me deixado descoberto. Ela me culpava pelo mesmo.
A verdade é que passamos a noite como num cabo de guerra. Eu puxava de cá e ela puxava de lá. O vento frio entrava pelas frestas da veneziana e a satisfação não podia ser mútua. Se um estivesse coberto, o outro ficava desprotegido.
Nessa disputa pela coberta, pelo edredom ou pelo lençol ninguém se reconhece como o culpado. Você acorda, acende a luz do celular e espia o outro enrolado no lençol como se estivesse em um casulo, mas ao acordar e jogar na cara a cena vista, ele nega. É a mesma história que acontece com o ronco. No casamento, ninguém admite que puxa o lençol e ninguém assume que ronca.
No namoro ninguém passa frio, mesmo se tiver uma toalha de rosto como cobertor. No casamento, um lençol king size trezentos fios acetinado não é capaz de aquecer o casal ao mesmo tempo. Parece até que o lençol vai encolhendo durante a noite, conforme a temperatura cai.
Eu, o prático da casa, propus que adotássemos o costume de cada um usar o seu lençol. Pronto, acabava de incendiar a discussão. A mulher me acusou de ser individualista e antirromântico pela minha desistência precoce em dividir a coberta. Acusou-me de aceitar facilmente a quebra da cumplicidade.
Cobrou-me que lutasse pela continuidade do funcionamento como casal. Lembrou-me que ela é a única que vive a esticar o lençol pela manhã e por todas as vezes que ele fica embolado. Eu não fui capaz de contra argumentar.
Logo fiquei convencido de que a desistência é o caminho mais fácil, mas que desistir nem sempre é o melhor caminho.
Foi quando me lembrei daquelas noites em que eu estava extremamente cansado e incapaz de reagir ao frio nos pés. Me veio à cabeça o prazer que eu tive quando senti que ela havia percebido que eu estava descoberto e feito a delicadeza de me cobrir.
O nosso erro não estava em dormir com um lençol. O nosso erro estava em se preocupar mais consigo próprio do que com o outro. Ao invés de ficar vigilante para quando me faltasse a coberta, deveria ficar atento para quando eu posso cobri-la. E ela o mesmo. Não iremos aumentar a nossa preocupação, apenas mudar o foco com o que se preocupar. Não é tão complicado assim.
Quando sua maior preocupação for a de cobrir a si mesmo, o que você precisa mesmo é redescobrir a gentileza.
UM CAFÉ E A CONTA!
| O maior impedimento para se estabelecer uma relação de parceria é o individualismo.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 23/07/2016, Edição Nº 1417.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O Samba da Rosa Maria

Foto de Augusto amato Neto


O boteco é o lugar onde se passa a vida e onde a vida passa.
André frequentava a roda de samba do Bar do Chorinho desde quando estava na barriga de sua mãe. A batida do coração da Angélica se juntava a batida do tan-tan formando o conforto mais barulhento que um bebê poderia experimentar. Angélica ficava feliz e rodopiava ao ver o samba tocar e André sentia essa felicidade pulsante de dentro de seu ventre.
Foi lá, naquele bar, que seus pais se conheceram. Jader cobiçou Angélica desde a primeira vez que lhe viu com as amigas. Naquele dia já imaginava suas mãos percorrendo as suas coxas como as mãos escorregam pelo pandeiro.
Foi naquela roda de samba que Jader e Angélica deram seu primeiro beijo. “O mar serenou quando ela pisou na areia. Quem samba na beira do mar é sereia” foi o verso que embalou o pega na porta dos banheiros.
Algumas semanas depois André foi concebido na saída da roda de samba, numa noite quente de verão, quando os dois passaram a primeira noite juntos na casa dos pais de Jader. A gravidez caiu como uma bomba na vida dos dois. Jader nunca havia mantido um relacionamento por mais de três meses. Angélica sempre quis se casar, mas não sabia se um dia iria querer ser mãe. E quando se lembrou disso já era.
Os dois resolveram passar por cima dessas individualidades e tentaram ficar juntos em nome do menino. Falando em nome, o pai queria chama-lo de Noel, para homenagear o Rosa. Mas a mãe foi contra. Imaginou que esse nome seria motivo de chacota pelos colegas. Escolheu e bateu o pé para chama-lo de André. O pai cedeu.
André esteve de volta no Bar do Chorinho depois que saiu da barriga aos seis meses, na roda de choro de segunda-feira. Voltava todo mês nas rodas de samba de quinta, sexta ou sábado. Depois que completou um ano, seus pais praticamente voltaram a frequentar a roda como antes de ter o menino.
Mas como a vida não é feita somente de samba-exaltação, a letra do samba entristeceu com os problemas de relacionamento. Jader bem que tentou se controlar e se manter fiel a Angélica, mas teve lá suas recaídas. Angélica não se sentia segura, mesmo não tendo prova cabal da infidelidade do amado.
As brigas por motivos levianos eram frequentes. A primeira briga que levaram pra roda de samba foi quando uma angolana de sessenta e poucos anos tirou Jader pra dançar. Conhecida como a Raimunda do samba. Feia de cara, mas boa de bunda. Não tinha a intenção de roubar homens comprometidos, só de se sentir a musa do samba. Pediu licença a Angélica para dançar com seu homem. Angélica consentiu, mas se contorceu na cadeira vendo o marido dançar com outra.
Ela amarrou a cara, emburrou. Na hora que ele se sentou, a discussão começou. Jader não se conformava com o ciúme. Ela foi ficando cada vez mais irritada. Os dois foram embora antes da roda terminar, carregando André e discutindo pelo caminho. As brigas e discussões se intensificaram, André já tinha cinco anos. Decidiram então se separar.
O samba-canção deu lugar ao samba-choro. A partir daquele momento, Angélica preferiu evitar o samba para não reencontrar o Jader. O menino sofreu. A roda de samba era a sala da sua casa. E não faz sentido ocupar a sala se a família não está completa. Sentia como se abandonasse a mãe ao ir para o samba só com o pai. André pegava a mãe chorando pelos cantos da casa aos finais de tarde quando costumava estar na roda.
Um dia, enquanto estava na roda com o pai, ouviu tocar um samba escrito em 1948 por Aníbal e Eden Silva, que de vez em quando ele ouvia tocar na roda ou em casa. Largou o jogo do tablet na mesa e foi pra junto da roda, cantar: “Um dia encontrei Rosa Maria, na beira da praia, a soluçar. Eu perguntei o que aconteceu, Rosa Maria me respondeu: o nosso amor morreu.”
Foi a única vez que André deixou de sentir a falta da presença da mãe. Era como se ela estivesse presente na roda de samba com a música. A partir daquele dia ele resolveu dividir. A roda toca das 19 às 22 horas. No intervalo das 20:30 ele vai embora fazer companhia para a mãe.
E toda vez que toca “Rosa Maria” e só quando esta música toca, ele se levanta e vai até a roda cantar.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Uma boa música pode ser um remédio para curar uma dor.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 23/01/2016, Edição Nº 1391.
* Esta é uma crônica de ficção baseada na livre criação artística e sem compromisso com a realidade. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

sábado, 14 de novembro de 2015

O Medo de Perder

Arte de Weberson Santiago



Às vezes percebo em mim um medo de te perder. Este sentimento começa pequeno, como uma pedrinha que vai parar dentro do sapato. Então, ele persiste como quando a pedrinha fica mudando de lugar dentro do sapato, cada hora fazendo doer uma parte do pé.
A persistência do medo me faz imaginar possíveis motivos que você teria para me deixar. Rastreio possibilidades de motivos ao nosso redor. Se não encontro nenhum palpável, invento um. O medo faz de mim uma caçadora de possíveis motivos. A correria não me permite parar para cuidar deste incômodo. Talvez por isso é que às vezes o medo venha tão forte. Em meio aos meus afazeres sou invadida por um temor enorme de que você não volte mais para mim.
O medo parece um fantasma a me perseguir. O encontro nos lugares menos prováveis, como logo depois de um momento feliz que passamos. Acho que ele é um fantasma do passado. Uma consequência das traições que eu assisti e das traições que eu sofri. Como se nossa história não pudesse ser diferente.
Nossa história já é diferente. Você me faz tão bem e eu te amo tanto. Parece até que aquela música do Chico foi escrita pelo que eu sinto: “Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz”. Talvez, se você fosse um traste, eu não tivesse tanto medo. Ou tivesse. Mas é que apesar de ser chato às vezes, você é romântico, você me cuida, você me protege.
Quando eu confesso meu medo para você, você me recita aquela composição do João Cavalcanti, integrante de uma das suas bandas preferidas: “Sei que entre um cais e outro há incontáveis corações. Não navego neste mar de ilusões. Não aprendi a velejar, sem um norte a alcançar, sem um lar em terra firme”.
E mesmo você tentando me convencer de que você parte todo dia para regressar, meu medo me faz lembrar o final desta mesma canção: “Eu que cheguei a imaginar, no momento em que pisei, no teu chão tão bem cuidado. Que tinha achado meu lugar, que ali seria o rei e que o mar era passado. Mas a calmaria não convém. Que grande ironia é saber. O coração que é do mar, já nasceu pra navegar e não para em terra firme.”
Tenho medo que você descubra que seu coração é do mar, e não da terra. Não adianta vir com argumentos. Já repeti uma série de racionalidades para mim mesma e não adiantou de nada. Medos não seguem a razão, medos seguem o instinto e a intuição.
Queria ter a mesma segurança que você parece ter. Se para ter você eu preciso conviver com o medo de te perder, eu o aceito.
O medo de perder é um medo de amar. Não um medo de vir a amar, mas um medo de quem já ama. E muito.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Aquele que nunca teve medo de perder, nunca amou de verdade.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 14/11/2015, Edição Nº 1381.

sábado, 5 de setembro de 2015

Envelhecimento

Arte de Weberson Santiago


Ele anda com passos e movimentos mais lentos. Parece que lhe colocaram uma sola de ferro nos sapatos. A musculatura precisa fazer mais esforço para dar conta do peso das pernas. Se esforça para concatenar os passos, a posição do tronco, o movimento dos membros. Faz malabarismos com o corpo, mas se recusa a demonstrar esmorecimento nas atividades.
Os sentidos já não são mais os mesmos, falham. O labirinto não lhe garante equilíbrio. O som ouvido nunca é o suficiente para a compreensão. As mãos tremem na hora de levar a xícara aos lábios. Falta-lhe força nos punhos e coordenação nas mãos para conseguir picar a carne. Falta-lhe precisão para fincar a azeitona com o garfo. Culpa a faca e suas cerdas desgastadas.
Reclama que a comida está sem gosto. É tanto alho que ele está protegido de vampiros num raio de cinquenta quilômetros, mas ele insiste em dizer que faltam sal e tempero na comida. Os olhos não colaboram. A catarata lhe deixou com as vistas embaçadas. Onde tem frango, vê peixe. Onde tem legumes, vê massa. Diante da dificuldade de identificar a comida, pergunta para quem está do lado para descobrir o que vai comer.
Ele funciona como meu notebook. Se ninguém interage, entra em estado suspenso. Ele cochila sentado quando não tem com quem conversar. Cochila na mesa depois das refeições, cochila na sala de televisão com a tevê ligada. Ele sai do estado de hibernação como o meu notebook. Basta um toque. É um grito da novela ou uma propaganda com volume mais alto e ele acorda como se o tempo tivesse parado quando ele começou a cochilar e nada tivesse acontecido no mundo durante este intervalo. Basta que alguém pise mais firme ou abra uma gaveta e ele desperta. É um sono leve para economizar energia, como o do meu notebook. É quase uma meditação oriental. Ele despertou e já tem a consciência de um mestre capaz de distribuir conselhos.
Ela morre de medo dele morrer primeiro e dela ficar só. Ela morre de medo de um monte de coisas. Por isso, todos os dias ela pega sua caixa com dezenas de orações e novenas. Reza por uma ou duas horas, sentada na varanda. Reza pelo marido, por cada um dos filhos e pelos netos. Reza por quem ela vê sofrendo. Tem horas que ela pede, mas tem hora que ela é impositiva com os santos. Às vezes ela faz algum tipo de chantagem ou barganha com eles. Dá uma ameaçada de leve. Faz com os santos do mesmo modo que faz com o marido: ela tenta mandar neles para que eles façam o que ela quer.
Ela sofre com quem adoece e padece quando alguém morre. Sente como se a fila andasse uma posição e a vez dela ou dele se tornasse mais próxima. Ela morre de medo de ficar doente e sofrer prostrada numa cama. Morre de medo de doença. É tanto medo que quase já virou uma doença. Poucas pessoas como ela amaram tanto a vida, viveram cada dia com tanta alegria. Para ela, é difícil continuar tão feliz sabendo que a vida se aproxima do fim. Ela sempre sofreu por antecedência e quis controlar tudo. Agora está antecipando o fim, querendo controlá-lo.
Eles comem pouco. Reclamam que não tem apetite. Se depender do aviso de fome do corpo, ficam sem comer. Comem porque chega a hora, comem pelo hábito ou porque alguém fala que tem que comer. Eles bebem pouca água. Se depender do aviso de sede do corpo, se desidratam. Precisam que alguém os lembre de suas próprias necessidades básicas. Não gostam de depender, mas sentem-se felizes em ter alguém que lhes cuide.
A comunicação mudou com o tempo. Quando se conheceram e eram jovens, falavam pelos olhos, mas a rigorosidade dos pais e irmãos não lhes permitia que conversassem. Quando começaram a namorar, falavam pelo tato, conversavam pelas mãos. Na maturidade do casamento, deixavam recados junto aos objetos pela casa.
Agora, na velhice, ao invés de encontrarem os lábios, a boca vai de encontro ao ouvido do outro. Aproximam-se, pendem o tronco abaixando um dos ombros para o lado onde está o outro, para que um não precise falar muito alto e para que o outro escute o que for falado. Reclamam um do outro. Às vezes saem resmungando da conversa. Mas boa parte do que eles precisam é saber que o outro está ali, por perto. Agora, na velhice, eles aprenderam a conversar com o silêncio da presença.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Viver a decadência do corpo faz parte da vida. O desafio é envelhecer sem perder a dignidade.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 05/09/2015, Edição Nº 1371.

sábado, 8 de agosto de 2015

Minha Filha Arrumou um Namorado

Arte de Weberson Santiago



Minha menina completou quinze anos. Não é mais uma criança, não é mais a minha menina. A mãe dela me fez gastar um dinheirão na festa de quinze anos. Disse que era um sonho de nossa filha. Dizem que a festa de quinze anos marca uma passagem: de quando a menina vira mulher.
Eu não quero que ela se torne uma mulher. Eu quero que ela seja sempre a minha menina. O problema dela não ser mais minha menina começou com o fato de eu ter deixado de ser o homem mais importante da vida dela. Desde que ela conheceu aquele branquelo de aparelho, meu reinado ficou abalado. Antes, quando eu parava o carro na garagem, depois de um dia inteiro de trabalho, ela vinha me dar um abraço. Nem o dia mais infernal amarrava minha cara o suficiente para que eu não me derretesse quando ela saia de trás da porta, ou do sofá e corria para agarrar a minha perna e, com o passar do tempo, a minha cintura.
Agora, ela só pensa nele, só fala no whatsapp com ele e só suspira por ele. Eu abro a porta e me deparo com a sua ausência. Tudo bem que a Jessie que me espera abanando o rabo, mas não é a mesma coisa. Se eu vou atrás dela, abro a porta do quarto – que vive fechada – e ela está lá: no computador ou no celular falando com aquele Zé Ruela.
Eu finjo que eu não ligo, tendo transparecer indiferença, mas no fundo queria fazer uma visitinha pro menino e resolver essa história de uma vez por todas. “Que pena! Morreu engasgado com um chiclete preso no aparelho”, eu diria calma e friamente. Pelo menos acabaria com aquela cena de todo domingo: ele comendo lasanha e frango assado sentado na minha frente. Não sabe nem limpar a boca quando come e quer namorar a minha filha.
Ainda bem que a Natália sabe intermediar a relação. Me convenceu de que bancar a melhor amiga é ter acesso a intimidade. Eu não posso nem pensar nessa palavra – in-ti-mi-da-de – sem que seja tomado por uma dor fulminante no meu peito. Só de pensar na mão daquele moleque-branquelo-babão na perna da minha princesinha, eu quase tenho um infarto.
Aquela perna era só minha e era tão pequeninha que eu segurava com as minhas duas mãos – que praticamente davam as voltas nas suas coxas – e a colocava em meus ombros. E enquanto eu segurava suas pernas por segurança, os bracinhos dela davam a volta em minha cabeça. E eu lhe apresentava o mundo de um ponto de vista mais alto, onde ela, sozinha não poderia enxergar.
Foto do Arquivo Pessoal
Como seria bom se o tempo pudesse voltar, se ela pudesse encolher ao invés de crescer. Aquele cheiro de bebê, que durou até os três anos, foi um dos melhores cheiros que eu senti em toda a minha vida. E agora tem um banana pendurado no cangote dela.
Não adianta falar que eu estou exagerando, que eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer. Sim, eu tive alguns medos repentinos de ter de dividir minha princesa desde que ela tinha sete anos, mas eu pensava e lhe dizia que só poderia acontecer lá pelos vinte e cinco anos de idade, e não aos quatorze.
Só quem é pai de menina entende o que eu estou passando. Cheguei ao máximo da pieguice semana passada, quando terminado o expediente, deixei todo mundo ir embora e abri um vídeo em que ela cantava pra mim, aos quatro anos, aquela música gravada pela Adriana Calcanhoto: “Avião sem asa, fogueira sem brasa, sou eu assim sem você. Futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola, sou eu assim sem você. (...) Tô louca pra te ver chegar, tô louca pra te ter nas mãos. Deitar no teu abraço, retomar o pedaço que falta no meu coração. Eu não existo longe de você, e a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas pra poder te ver, mas o relógio tá de mal comigo. Por quê? Por quê?”
E chorava um monte, feito uma criança...
Ela virando mulher e eu voltando a ser uma criança que não sabe dividir o brinquedo.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Feliz Dia dos Pais ao pai do bezerrão branquelo. Espero que não fique ofendido pelos adjetivos que usei para seu filho. Se estivesse no seu lugar, também daria uns tapas nas costas dele por ele estar ficando com uma garota tão linda como ela.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 07/08/2015, Edição Nº 1367.

sábado, 4 de outubro de 2014

A Caixa de Cartas

Arte de Weberson Santiago



Tínhamos acabado de almoçar num sábado, meu avô Tino, com 94 anos, e eu. Tomávamos um café enquanto ele contava uma história do passado, ilustrada com uma foto antiga tirada na época do ocorrido. Papo-vai-papo-vem, questionei como foi o começo do seu namoro com a minha avó Rosa, que infelizmente faleceu há alguns anos.
Ele começou a descrever a paquera sutil em volteios ao redor da fonte dos amores, na praça central de Mococa, os homens no sentido horário e as mulheres no sentido anti-horário. Um namoro muito diferente dos que vemos nos dias de hoje. A relação avançava a passos lentos como os de uma tartaruga. Era uma eternidade para se pegar na mão. Relatou o pedido de casamento para o sogro, a resistência dos irmãos. Pediu-me um minuto e foi para o quarto.
Voltou com uma caixa forrada do lado de fora com papel xadrez, desbotado. As laterais da tampa levemente rasgadas pelo efeito do tempo, mas cuidadosamente preservada inteira há quase setenta anos. Quando ele abriu, percebi que a caixa estava cheia de cartas que eles trocaram durante o namoro.
Papeis envelhecidos, cor-de-café-com-leite. Dobrados em quatro. Posso ver? – perguntei. Claro – respondeu. Abri a primeira, era dele para ela. No papel tinham marcas redondas mais escuras por detrás da tinta. Perguntei o que era. Ele disse que deveria ser a marca do perfume. Contou-me que não tinha perfume quando era jovem, mas que vez por outra pegava a colônia do pai escondido, molhava a ponta do dedo e encostava no papel. Pensei que o perfume da carta deveria fazer a Rosa imaginar o cheiro do seu cangote. Não podendo senti-lo de verdade, restava-lhe a imaginação. Palavras singelas, descompromissadas.
Dobrei e guardei, retirando outra. Era dela pra ele. Comentava amenidades. Alguns pontos com excesso de tinta sugeriam longos suspiros enquanto ela escrevia. Fiquei encantado com aquelas cartas, viajei no tempo, voltei para o início da história deles, mas não quis ver todas, nem ler todas as linhas. Temia ser invasivo. O mais importante foi ter compartilhado da intimidade dos meus avós, me senti privilegiado em ser uma espécie de confidente do meu avô.
Quando fui embora de sua casa, no trajeto de carro, senti um calafrio na barriga. Onde estão os cartões que a Natália me escreveu? – pensei. Não sabia. Nunca me preocupei em recolher os bilhetes carinhosos, os mimos. Cheguei em casa e comecei a procurar. Não achei nenhuma. Senti o peso da displicência. Lia o cartão que ganhava e deixava sobre a mesa da cozinha ou na sala. Esquecia dentro da sacola do presente. Valorizava o presente e abandonava o carinho do recado.
Decidi que começaria a guardar estes registros de sentimento quando ganhasse o próximo. Queria poder mostra-los aos meus filhos ou netos, como fez o meu avô.
Os dias se passaram e alguns finais de semana depois do ocorrido a Anelise teve dor-de-garganta e febre. Cuidávamos da pequena e a Natália me pediu para que pegasse um lenço na sua gaveta de lenços para embeber no álcool e colocar no pescoço da Ane. Enquanto ela dizia qual queria, eu descrevia os que encontrava e vasculhava sua gaveta em busca do que ela queria. Foi quando encontrei, lá no fundo, uma caixa vermelha, em formato de coração.
Abri por curiosidade. Lá estavam todos os nossos, bilhetes, cartões, recados. Ela havia recolhido tudo o que eu larguei jogado e guardou. Respirei aliviado por não ter sido fato consumado o desperdício imaginado.
Amar de verdade é ser um perito dos sentimentos. Amar é colecionar provas do carinho. Ela me ama tanto que tolerou meu desleixo para preservar as memórias do nosso amor.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Mantenha o hábito de escrever um cartão, deixar um bilhete ou uma carta. Mensagens reais valem muito mais do que as virtuais.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 04/10/2014, Edição Nº 1325.

sábado, 5 de julho de 2014

8 Tipos de Abraços

Arte de Weberson Santiago


Adoro o seu abraço de bom dia porque ele é um abraço de edredom. Aconchegante e quentinho. Seu efeito sobre meu corpo é como de uma xícara de café. Me esquenta e, ao mesmo tempo, me faz ficar animado para o que está por vir.
Ele é diferente do seu abraço de despedida quando eu saio para trabalhar. Você já tomou banho e está fresca como a brisa de uma manhã de outono. É sopro de inspiração que me leva embora e me faz ter vontade de que os ventos me tragam de volta aos seus braços.
Gosto quando me abraça de surpresa. Como quando eu estou trabalhando na escrivaninha e você chega enroscando seus braços pelo meu pescoço. A sensação é que vesti um cachecol. Quando seu cotovelo escorrega pela minha nuca me dá a sensação de estar numa massagem.
Não me esqueço do nosso abraço de quando estamos felizes. É um abraço romântico. Seus braços dão a volta em meu pescoço, enquanto meus braços envolvem a sua cintura. É um abraço de braçadeira, nos apertamos, cheios de vontade. De vez em quando rodopiamos. Em outras ocasiões seguimos o ritmo da música e arriscamos alguns passos, já que não tem ninguém olhando.
Tem aquele abraço que você me dá quando percebe que passei por alguma situação difícil e pesada. Você passa seus braços por debaixo dos meus e levanta seus antebraços. Faz um gesto como se pegasse meu desgaste no colo, como se embalasse e ninasse meu esgotamento para que ele acorde como disposição.
Também gosto do seu abraço de final de dia. Cansada das jornadas e dos afazeres, é um abraço de arrimo. Você solta seu corpo com seus braços sobre mim e deita sua cabeça de lado, encaixando sua nuca no meu pescoço. Como eu gosto de ser seu suporte, me sinto importante.
Existe também o abraço paralelo, em que nos encostamos dos pés às cabeças, selando o abraço com um beijo. É o único tipo de abraço que permite sentir a respiração. Esse me lembra do quanto nos completamos.
Tem um abraço de quando você está precisando ser consolada. Ele é facilitado pela nossa diferença de altura: nos abraçamos enquanto você coloca seu rosto de lado, encaixando-o debaixo do meu queixo. Você procura a sombra das minhas palavras, usa meu peito como travesseiro e aperta minhas costas. São dez segundos de conforto.
Mas se tem uma coisa que não tem nos seus abraços são os tapinhas nas costas. Não gosto de dar e receber abraços com tapinha nas costas. Fico imaginando que o tapinha é para distrair a atenção do abraço. Abraço com tapinha é aquele que não respeita o tempo do abraço. Começa-se o abraço querendo terminá-lo. Testei se seu abraço tinha ou não tapinha nas costas em nossos três primeiros encontros. Você foi aprovada e me presenteou com essa coleção de abraços nos nossos anos.
Percebi que nossos olhos sempre se fecham enquanto nos abraçamos. Seja qual for a posição na qual nos abraçamos ou o nosso estado emocional, o tempo que duram nossos abraços são como sonhos.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Um único abraço pode conter vários gestos.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 05/07/2014, Edição Nº 1311.

sábado, 7 de junho de 2014

A Individualidade no Relacionamento

Arte de Weberson Santiago


Se apaixonar é o como uma tentativa de contrariar a lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Queremos fazer tudo juntos, ficar o tempo todo grudados.
Busca-se a cumplicidade nas tarefas mais simples. Se pudermos, comemos juntos, tomamos banho juntos, acordamos e dormimos juntos, escovamos os dentes juntos.
Quando comecei a namorar a Natália, em minha casa tinha apenas uma cama de solteiro. Era o suficiente para que passássemos o fim de semana. Ignorávamos a impossibilidade de se mexer durante a noite. Não sentíamos as dores no corpo no dia seguinte. O que nos interessava era ficar perto um do outro.
E nunca achávamos que era o suficiente. A rotina de trabalho só permitia algumas horas aos finais de semana, geralmente do sábado à tarde ao fim do domingo. Durante a semana, eram apenas encontros rápidos. Nem quando ela tirava férias e praticamente morava comigo durante um mês era o bastante para matar a vontade.
Por isso resolvemos morar juntos. Sentíamos a necessidade de seguir adiante, dar um passo a mais na relação. A urgência do amor sempre foi maior do que os nossos medos. Eles estavam lá, em cada passo da nossa relação, mas ficavam pequenos quando decidíamos fazer a relação evoluir.
Assim que passamos a dividir o mesmo teto e a mesma cama, as manias entraram em conflito. Naquele começo da relação, com toda aquela vontade, as manias passam desapercebidas. Já no casamento, as manias respeitam a lei da física: duas manias não podem ocupar o mesmo lugar no espaço de uma casa.
Foi quando percebemos que aquela intensidade do namoro não poderia ser mantida, senão a relação se tornaria sufocante. Se continuássemos a querer fazer tudo juntos, acabaríamos tentando fazer o outro ser como a gente mesmo. Foi preciso ceder, respeitando o jeito de ser, a maneira de fazer. Ora um, ora o outro.
Combinamos que uma vez por semana cada um tem o direito de fazer uma coisa que lhe dá prazer e que não envolva o parceiro. Ela vai no salão se cuidar ou sai com as amigas. Eu vou ao clube praticar uma atividade física ou encontrar um comparsa pra jogar conversa fora.
E mesmo que não consigamos marcar no mesmo dia, aprendemos a aguentar ficar sem o outro neste dia de compromisso externo. Um exercício de liberdade, sem inveja e sem retaliação.
Nós acreditamos que, para o casamento funcionar, é preciso haver uma abertura para que cada um tenha ocupações que nos façam bem fora de casa para que o retorno e a possibilidade de estar em família sejam devidamente valorizados.
Com a vida de casados pusemos fim na distância. Aí percebermos que sem a distância não há saudade. Descobrimos a necessidade de preservar a individualidade para valorizar o reencontro.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Quem não dá liberdade sufoca. Quem se sente sufocado se afasta.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, p. 4, 07/06/2014, Edição Nº 1307.

sábado, 12 de abril de 2014

Casamento Não é Para a Vida Inteira

Arte de Weberson Santiago



Desconfio de quem acha que casamento é para a vida inteira.
Quem se casa considerando que a relação é eterna entra no casamento como um aposentado. Se aposentar na relação é pensar e agir como se, estando casado, não precisasse mais seduzir, encantar, namorar.
Parte-se do pressuposto que o esforço não é mais necessário. Considera-se que a relação tem obrigação de ser perene porque é um casamento. Aí mora o perigo.
Casamento é disposição. Deves casar sabendo que terás o desafio diário de fazer pelo outro e para o outro. É fácil ser companheiro quando o casal está se conhecendo, se descobrindo. Terás de ser companheiro nos dias ruins, nas manhãs mal-humoradas e nos finais de tarde de esgotamento.
É quando o outro não tem mais energia para agir que deves fazer brotar a força da união. Pode deixar, meu bem, eu cuido disso para você. Se um não aguenta mais correr atrás da criança, o outro que assuma a função. Se um está cansado demais para acompanhar o filho na lição de casa, o outro que ponha sua paciência para trabalhar. Nessa gangorra o casamento funciona, mas se alguém deixar de fazer a sua parte por individualismo, o outro ficará sobrecarregado.
Casamento é abrir mão de si mesmo como prioridade. Tudo deve ser pensado e decidido considerando as duas opiniões, as duas necessidades, as duas vontades. E isso não vem automaticamente quando sobes no altar. Isso se aprende. É na superação dos limites individuais onde está a beleza do casamento, onde ele passa a ter valor.
Deves estar disposto a dar atenção e a ignorar.
A dar atenção aos sinais de como está o parceiro, sendo que estes sinais estão escondidos nas entrelinhas do dia-a-dia. Leia as entrelinhas. Ela sinaliza um descontentamento, deves pensar no que você fez que a deixou assim. Ele demonstra estar sobrecarregado, deves ajuda-lo dele para que ele recupere a disposição.
E a ignorar os comportamentos negativos que são resultantes do que seu parceiro passa durante o dia nas suas obrigações, fora de casa. Se não souber entender e tolerar, irás responder com outros comportamentos negativos, e isso atrapalhará a relação e pode terminar em afastamento.
A vida já se ocupará de criar um afastamento entre os cônjuges. Não duvide e não dê pouca importância a isso. Os problemas roubarão espaço dos pensamentos que levam a gestos que cativam o outro. O trabalho roubará a disposição para dar o seu melhor para a relação.
O cansaço insistirá para que use o seu pijama mais velho para ficar confortável. E isso fará com que a pior aparência que você pode oferecer fique para o lugar onde você mais deveria se preocupar em cuidar.
Os filhos disputarão a sua atenção e poderão criar uma muralha entre você e o seu marido ou você e sua mulher. E lhe caberá não deixar que os filhos impeçam vocês de namorar e de viajar. Deves cultivar um espaço para se conhecerem novamente conforme cada um muda com a vida.
Um casamento acaba quando não se olha para um distanciamento pequeno, que ainda pode se tornar reaproximação. Se um percebe o espaço vago e o outro ignora, não adianta. Ambos precisam estar envolvidos em diminuir a lacuna antes que o distanciamento vire um abismo.
Um casamento não deve ser para a vida inteira, deve ser para hoje. No máximo para esta semana. A relação deve ser olhada em pequenos intervalos de tempo, mas não pode ser olhada apenas nos aniversários de casamento. E tem quem esquece até dessa data. É muito tempo sem olhar a relação. E pouco cuidado para mantê-la.
O casamento que sobrevive à vida inteira é aquele que não se deixa morrer no cotidiano.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você já se aposentou no casamento ou já se casou aposentado?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 12/04/2014, Edição Nº 1299.