sábado, 10 de maio de 2014

Orgulho de Mãe

Arte de Weberson Santiago



Se você tem dúvida do quanto uma mãe se orgulha dos seus filhos, observe apenas um detalhe: aquela correntinha com os pingentes que representam os filhos que ela tem.
O pingente que mostra a maternidade é como uma medalha no pescoço de uma mãe. Ela o coloca porque gosta de exibir o quanto ela é mãe. Não é pelo número de pingentes, é pelo amor que ela tem por cada um dos que estão ali representados.
Ela deu a luz, está amamentando e arrumou um tempo para comprar o pingente.
Carregando a criança no ventre durante nove meses, ela se encarregou de criar um mundo especial entre quatro paredes para que ele ou ela saia do ventre e tenha um quarto perfeito.
Acolchoou as superfícies duras, impermeabilizou tudo para evitar que a criança não venha a se sujar ou não fique úmida. Cobriu de pano tudo o que era áspero, impediu que qualquer coisa fria pudesse dar calafrios no seu rebento.
Pintou tudo de cor clara para ficar agradável, pendurou a cortina para a luz não ofuscar sua vista ou atrapalhar seu sono diurno. Envolveu o berço de véu para inseto nenhum chegar perto. Quer que o filho fique tão seguro no mundo quanto está na sua barriga.
Quando nasce, ela mata a curiosidade de ver como o filho é. Ainda assim, ela não sabe a cor do olho, não tem ideia de como será o cabelo quando crescer, só sabe se é menino ou menina, mas já se orgulha do filho que tem e acha que ele ou ela é o mais bonito do mundo.
Enquanto a mãe carrega o pingente como uma medalha em seu pescoço, assim que o filho nasce o pai se encarrega de comprar uma roupa do seu time para ver se consegue convencê-lo a seguir sua paixão.
A mãe lhe considera um motivo de orgulho e carrega seu pingente perto do coração para ver se aguenta a saudade durante o dia. O pai impõe o escudo do seu time no peito do filho para que ele o represente enquanto estiver longe.
Nós pais parcelamos todo o nosso amor em algumas condições, condições estas que vamos anunciando assim que a criança é capaz de entender.
Amo o meu filho, mas amarei mais se ele torcer pelo mesmo time que eu.
Amo o meu filho, mas amarei mais se ele seguir a minha profissão e cursar a mesma universidade que eu.
Amo o meu filho, mas amarei mais se ele gostar do mesmo tipo de música do que eu.
Se o amor materno existe antes do filho ser, o amor paterno depende do que o filho será.
É fácil amar o igual, difícil é amar o que constatamos ser diferente de nós ou das nossas expectativas.
O homem é tão egoísta que, quando o filho acerta, puxou pra ele. Quando o filho erra, puxou pra mãe. Quando o filho erra, ele literalmente é um filho da mãe.
Quando um filho erra, o pai se afasta. Quando um filho erra, a mãe dá o colo.
Feliz do filho que tem uma mãe e um pai que deixam as suas vontades de lado, que conseguem abrir mão de um individualismo orgulhoso. Olhar com a bondade do orgulho, sem condições ou restrições, é realmente estar ao lado do filho durante o seu desenvolvimento. Os filhos precisam do nosso orgulho e da nossa aceitação para crescer.
Quando o assunto é orgulho, os pais precisam aprender com as mães.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Mãe é mãe quando o seu amor é incondicional.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 10/05/2014, Edição Nº 1303.

sábado, 26 de abril de 2014

Ombros, Corcundas e Bengalas

Arte de Weberson Santiago



O ombro é o parapeito do nosso tronco. Nele podemos colocar um vaso de plantas, um papagaio, a cueca pra secar, um lenço ou cachecol e até um monte de problemas. É, nem só de graça vive o ombro. A desgraça também pode repousar sobre eles.
No relacionamento interpessoal, fica difícil quando o vizinho não percebe, na divisão dos muros dos ombros, onde termina a propriedade dele e começa a minha, como se os ombros fossem colados. Então, percebo que os fardos dos outros estão no meu parapeito, e o pior, que os carrego há certo tempo. Tem gente que é especialista em vomitar seus problemas e despejar a carga nos ombros alheios.
Se tem algo que eu respeito nos ombros dos outros, esse algo é a corcunda. A corcunda é uma configuração de ombro distorcida chamada pelos médicos de cifose. Em primeiro lugar, meu respeito se dá por observar que ela é fruto da experiência de vida. Em segundo lugar, porque ao contrário da barriga, a corcunda não impede.
Hoje vi uma senhora de corcunda carregando compras a passos largos, com um semblante feliz. Em outros tempos de caminhada, cruzava diariamente com um casal de velhos com corcovas arqueadas e que cumpriam o trajeto religiosamente. Um barrigudo não mantem tal disciplina.
A corcunda é uma deformação inteligente do corpo que acompanha o movimento da vida desde a juventude até a velhice.
Quando jovens, passamos boa parte do tempo sonhando, olhando para as nuvens, fantasiando o futuro. Com o amadurecimento, somos obrigados a deixar uma parte dos sonhos de lado para conseguir concretizar um ou alguns deles. Então, somos obrigados a abaixar o olhar e mirar o horizonte, numa visão mais realista. Porém, doses de realidade trazem consigo responsabilidades que sobrecarregam e dificuldades que pesam nos ombros.
Correndo atrás das metas que vislumbramos no horizonte, atropelamos as coisas e as pessoas com nosso excesso de expectativa, ficamos afobados porque o tempo das realizações é diferente do tempo que estamos dispostos a esperar. Com os fardos que abraçamos em nossos caminhos e decidimos carregar, mais as cargas que depositamos nas costas sobre os ombros, o nosso corpo esculpe a corcunda para tentar dar suporte às nossas experiências.
Na velhice, a corcunda obriga a olhar para o chão, para as sutilezas do caminho que os jovens deixam passar batido. Aí está a beleza: construímos nossas corcundas correndo atrás do futuro e preocupados com o que fizemos no passado e o nosso corpo nos obriga, com a idade, a olhar mais para o presente.
Por isso o velho é sábio: pondera o que fala na medida do que o jovem é capaz de aproveitar com seu nível de maturidade, não se deixa abalar como fazia na juventude, dá a importância exata que as coisas merecem, pois o tempo que tem pela frente é precioso demais para ser dispensado em detalhes irrelevantes. A corcunda ensina a não sofrer com qualquer coisa e a aproveitar mais o que a vida oferece aqui e agora.
Por isso, quando eu ficar velho, faço questão de ter uma corcunda. Se não for pedir muito, gostaria também de ter uma bengala e um bom par de suspensórios. Explico. O cajado é para dar suporte às pernas. Já terão andando muito por aí e sustentado o tronco por muito tempo, e de repente também para dar bengaladas quando for necessário apressar ou corrigir alguém, mas os músculos não tiverem mais o vigor suficiente. O par de suspensórios é por precaução. Se as calças caírem, demorarei muito para levantá-las. Não se mantem a dignidade com a bunda exposta.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Quando ficar velho usarei minha corcunda como prateleira.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 03/05/2014, Edição Nº 1302.



sábado, 12 de abril de 2014

Casamento Não é Para a Vida Inteira

Arte de Weberson Santiago



Desconfio de quem acha que casamento é para a vida inteira.
Quem se casa considerando que a relação é eterna entra no casamento como um aposentado. Se aposentar na relação é pensar e agir como se, estando casado, não precisasse mais seduzir, encantar, namorar.
Parte-se do pressuposto que o esforço não é mais necessário. Considera-se que a relação tem obrigação de ser perene porque é um casamento. Aí mora o perigo.
Casamento é disposição. Deves casar sabendo que terás o desafio diário de fazer pelo outro e para o outro. É fácil ser companheiro quando o casal está se conhecendo, se descobrindo. Terás de ser companheiro nos dias ruins, nas manhãs mal-humoradas e nos finais de tarde de esgotamento.
É quando o outro não tem mais energia para agir que deves fazer brotar a força da união. Pode deixar, meu bem, eu cuido disso para você. Se um não aguenta mais correr atrás da criança, o outro que assuma a função. Se um está cansado demais para acompanhar o filho na lição de casa, o outro que ponha sua paciência para trabalhar. Nessa gangorra o casamento funciona, mas se alguém deixar de fazer a sua parte por individualismo, o outro ficará sobrecarregado.
Casamento é abrir mão de si mesmo como prioridade. Tudo deve ser pensado e decidido considerando as duas opiniões, as duas necessidades, as duas vontades. E isso não vem automaticamente quando sobes no altar. Isso se aprende. É na superação dos limites individuais onde está a beleza do casamento, onde ele passa a ter valor.
Deves estar disposto a dar atenção e a ignorar.
A dar atenção aos sinais de como está o parceiro, sendo que estes sinais estão escondidos nas entrelinhas do dia-a-dia. Leia as entrelinhas. Ela sinaliza um descontentamento, deves pensar no que você fez que a deixou assim. Ele demonstra estar sobrecarregado, deves ajuda-lo dele para que ele recupere a disposição.
E a ignorar os comportamentos negativos que são resultantes do que seu parceiro passa durante o dia nas suas obrigações, fora de casa. Se não souber entender e tolerar, irás responder com outros comportamentos negativos, e isso atrapalhará a relação e pode terminar em afastamento.
A vida já se ocupará de criar um afastamento entre os cônjuges. Não duvide e não dê pouca importância a isso. Os problemas roubarão espaço dos pensamentos que levam a gestos que cativam o outro. O trabalho roubará a disposição para dar o seu melhor para a relação.
O cansaço insistirá para que use o seu pijama mais velho para ficar confortável. E isso fará com que a pior aparência que você pode oferecer fique para o lugar onde você mais deveria se preocupar em cuidar.
Os filhos disputarão a sua atenção e poderão criar uma muralha entre você e o seu marido ou você e sua mulher. E lhe caberá não deixar que os filhos impeçam vocês de namorar e de viajar. Deves cultivar um espaço para se conhecerem novamente conforme cada um muda com a vida.
Um casamento acaba quando não se olha para um distanciamento pequeno, que ainda pode se tornar reaproximação. Se um percebe o espaço vago e o outro ignora, não adianta. Ambos precisam estar envolvidos em diminuir a lacuna antes que o distanciamento vire um abismo.
Um casamento não deve ser para a vida inteira, deve ser para hoje. No máximo para esta semana. A relação deve ser olhada em pequenos intervalos de tempo, mas não pode ser olhada apenas nos aniversários de casamento. E tem quem esquece até dessa data. É muito tempo sem olhar a relação. E pouco cuidado para mantê-la.
O casamento que sobrevive à vida inteira é aquele que não se deixa morrer no cotidiano.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você já se aposentou no casamento ou já se casou aposentado?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 12/04/2014, Edição Nº 1299.

sábado, 22 de março de 2014

Já Foi Mais Fácil Ser Poeta


Arte de Weberson Santiago


Já foi mais fácil ser poeta quando a vida não era tão complicada. O mundo parece que não funciona direito e ninguém tem tempo de perceber. Vivo com a sensação que as coisas deveriam ser ao contrário do que são.
Já foi mais fácil ser poeta quando a vida não era cheia de filas. Supermercado, banco, correio, lotérica, caixa de loja de departamentos, banheiro de festa. Não dá pra criar versos e estrofes durante a espera em nenhuma dessas situações.
Já foi mais fácil ser poeta quando não havia a sensação de que você é explorado. Pare e pense. Trabalhamos o máximo que podemos para conquistar apenas o mínimo. E sempre têm alguém que tem mais e alguém que tem menos oportunidades do que a gente. Já foi mais fácil ser poeta quando não gastávamos boa parte do que ganhamos para pagar impostos ou juros. Não é preciso muito esforço para perceber que viver fica mais caro a cada dia e que passaremos o resto da vida tentando dar conta de uma conta cada vez mais alta. Não tem quem mantenha a inspiração com uma saída maior do que a entrada.
Já foi mais fácil ser poeta numa época em que a superficialidade era exceção. Hoje as relações não tem profundidade. Assim como uma conversa se resume a expressões como “nossa que calor!” ou “será que chove hoje?”, uma noite de sexo termina com “qual é o seu nome, mesmo?”. A superficialidade é para as relações como a falta de vocabulário para o poeta.
Já foi mais fácil ser poeta quando as pessoas não tinham tanta pressa. Correr demais pode ser uma forma de perder tempo. Ser tomado pela pressa é uma maneira de arrumar problemas. Já foi mais fácil ser poeta quando o tempo andava, não corria. O poeta precisa de tempo para olhar os detalhes.
Já foi mais fácil ser poeta quando ser jovem ainda era ser sonhador. Hoje ser jovem é não ter objetivos e metas, achar tudo sem graça e ser escravo dos prazeres imediatistas. O imediatismo quer a poesia pronta, mas não quer o trabalho de encarar a folha em branco.
Já foi mais fácil ser poeta quando a privação era maior e o esforço requerido para uma conquista também não era pouco. As vitórias eram mais saborosas. Sem esforço não se mantem a métrica nos versos.
Já foi mais fácil ser poeta quando o maior sonho de uma criança era ganhar uma bicicleta. Não há como ver poesia em um quarto cheio de brinquedos e tecnologias que perdem a graça facilmente. Desse jeito a graça da poesia acaba no meio.
Já foi mais fácil ser poeta quando viver não era ter de controlar sua alimentação para controlar seu corpo e sua aparência. Um alimento se torna vilão e depois é consagrado milagroso. Não se faz rima com o peso da culpa por ter comido um alimento proibido.
O poeta é um inconformado. Ser poeta é algo que precede a própria poesia. Ser poeta é enxergar a mesma coisa de um jeito diferente. É romper com a racionalidade usando o dom de embelezar a realidade, na tentativa de descrever, entender ou explicar sentimentos comuns e compartilhados pelas pessoas.
A poesia nasce quando o poeta escolhe viver ao invés de morrer com dureza a realidade. É, nunca foi fácil ser poeta. Não é fácil ser poeta, mas o poeta precisa da dificuldade.

UM CAFÉ E A CONTA!
| O que fazer quando a realidade parece caminhar para o pior? Faça poesia. Sofrer pode ser poético ao invés de ser patético.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 30/03/2014, Edição Nº 1297.


sábado, 8 de março de 2014

A Polêmica da Franja

Arte de Weberson Santiago



Se você é homem, um dia será vítima da polêmica da volta do salão de cabeleireiro. Se as mulheres têm o hábito da mudança do cabelo, mais cedo ou mais tarde o homem cai na discussão criada em cima dos comentários sobre o resultado. Nenhum barbudo, nem mesmo o mais sensível, será brilhante na avaliação em todas as idas dela ao cabeleireiro.
Natália sempre me surpreendeu. Trabalhava o dia todo, estudava à noite e estava sempre com a aparência impecável, como se tivesse passado o dia em um SPA. Tinha a sensação de ser um homem de sorte, já que cada vez que buzinava na porta da casa dela, ela saía na direção do meu carro como quem partia para a passarela, sendo que o desfile terminava em meus braços.
Passado o começo do namoro, passei a compartilhar os custos envolvidos em manter a aparência. Levava o tempo e o dinheiro dela, mas começou a tomar o meu tempo quando fui trocado pelo fim de tarde no cabeleireiro – leia-se 5 horas – ou quando passei a esperar um bom tempo entre a buzinada e a saída. Sem muito esforço, enchia-a de elogios e depois reclamava um pouco da espera. Ela só ouvia a primeira parte.
Não é o elogio ouvido, é a necessidade de saber que ela mudou para alguém além do espelho. Não vale o cabeleireiro. Não vale a manicure. Muito menos aquelas que também optaram pela mudança no salão. Tem que ser dito pelo namorado, marido, ficante ou amante. Na ausência destes, pode ser reconhecida pelo homem que passa na rua. Ela ignora a olhada e a cantada barata, mas sente que ganhou o dia.
Se é o marido ou o namorado, trata-se da prova de fogo para a sobrevivência do relacionamento. Dizem que é difícil dizer o sim no altar, mas o vestibular para medicina do casamento é a reação do homem quando ela chega do cabeleireiro. A mulher não aceita resposta incompleta, já que no vestibular não existe meio certo. E elas comentam, umas com as outras, o que registraram no gabarito de nossas respostas. Definem em conjunto os candidatos aprovados e os reprovados.
Na última vez que ela voltou do salão, foi logo abrindo o caderno da prova:
— E aí, o que achou do corte?
— Ficou bom, mas você ficou mais loira.
— Eu sabia que você não ia gostar.
— Mas eu gostei da cor, só acho que essa franja reta faz parecer que você usa uma peruca.
Ela emudeceu, fez cara feia, se emburrou e depois pareceu ter esquecido. Só pareceu, já que voltou ao assunto no dia seguinte:
— Vamos sair hoje?
— Sim, vamos!
— Vou me arrumar, pena que você não gostou do meu cabelo...
— Mas eu disse que não gostei?
— Não, só disse que está parecendo uma peruca!
— Se você quer saber, a maioria das mulheres gostaria de ter um cabelo como o seu.
— Mas eu fiz pra você...
— Achei que tinha feito porque gostava. Eu gosto do seu cabelo natural, loiro nas pontas e ondulado. Mas se você gosta dele liso e mais claro, sabe que eu te acho linda de qualquer jeito – disse enquanto já me via vencido a aprovar seja qual for a mudança da próxima vez.
Ela não se deu por vencida. Saiu do trabalho no dia seguinte com uma trança diferente. E quando eu disse que gostei, confessou que gastou metade do horário de almoço para a amiga fazer. Mudou a franja de lado, colocou a franja para trás e bagunçou tudo porque sabe que com menos que isso já chama a minha atenção. Eu consegui meu sossego quando ela conseguiu o que queria: ser vista.
Quinze dias depois estávamos em um casamento de uma grande amiga dela. Assistimos a uma longa cerimônia até chegar à festa. Quando fomos cumprimentar o casal, a noiva vira e diz para o noivo na nossa frente:
— Se um dia você disser que eu uso peruca, nosso casamento está acabado.
Com essa polêmica da franja, eu é que quase fiquei careca.


UM CAFÉ E A CONTA!
| Experimente não notar mudança no visual ou esqueça uma data importante e conheça a fúria da sua mulher.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, primeiro caderno, p. 2, 08/03/2014, Edição Nº 1292.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cabeça de Inseto

Arte de Weberson Santiago


Outro dia fiquei intrigado com aquela quantidade de insetos que morrem no vidro do nosso carro quando pegamos a estrada durante o entardecer.
Eles se esborracham com tanta força que não se vê nem asa, nem pata pra contar história. E ainda dão um trabalho pra tirar seus restos em forma de gosma do vidro e do farol do carro.
Pesquisando, descobri que os insetos, habitantes da terra muito mais antigos que nós humanos, usavam a luz da lua para se orientar no caminho durante a busca de alimento. Assim, conseguiam se alimentar e pegar o caminho de volta para onde saíram.
Por isso que hoje, qualquer luz artificial colocada em seu caminho lhe desorienta e, geralmente, lhe atrai. Este comportamento geneticamente selecionado é mais forte do que a sua própria capacidade de lutar pela sobrevivência. A busca desenfreada pela luz pode leva-lo à morte. É o caso tanto dos que vão ao encontro de um veículo em movimento, quanto daquele inseto que invadiu sua sala e morreu de tanto dar cabeçadas na luz que fica entre você e a sua televisão.
Logo após pensar na obsessão dos insetos pela luz, cheguei à conclusão que nós humanos não somos muito diferentes disso.
Pense em algum tipo de comportamento persistente que tem consequências ruins a longo prazo para entender que a nossa insistência pode ser perigosa. O pior é que muitas vezes não temos consciência disso.
É o caso de quem consome álcool ou drogas. As drogas liberadas ou proibidas são como amortecedores. Diminuem o impacto das experiências cotidianas. Seu uso é um comportamento de esquiva de sentimentos negativos resultantes da nossa relação com o mundo. E como funciona temporariamente – a curto prazo – seu uso tende a aumentar de frequência e intensidade.
É uma questão de tempo para que as cabeçadas comecem a acontecer repetidamente – a longo prazo – na forma de excesso de consumo, comportamentos de risco (beber ou se drogar e dirigir na estrada, por exemplo) e a própria dependência química. Um caminho sem volta cujas cabeçadas na lâmpada são as recaídas. Há ainda o risco de numa dessas, acabar como o inseto no para-brisa, perdendo a vida.
Outro exemplo é aquele que fica viciado no jogo da sedução. Busca desenfreadamente confirmar o flerte, mas desiste da outra pessoa quando percebe que ela está verdadeiramente envolvida. Quer apenas o desafio da conquista e não o compromisso da relação.
Comportamento selecionado culturalmente entre os homens, hoje é parte do repertório das pegadoras. Trata-se de um vício em sentir aquelas reações fisiológicas típicas da paquera, em querer viver a maior intensidade possível das emoções.
Um escravo das sensações de curto prazo tem dificuldade de construir relacionamentos duradouros a longo prazo. Quando para pra pensar, já é um tiozão no meio da balada. Quando percebe o padrão de relacionamento já é chamada de tia pelos filhos das amigas. Há quem prefira continuar a dar cabeçadas quando o assunto é relacionamento afetivo e sexual.
Viver em buscar prazeres imediatos é o que nós temos em comum com os outros animais. A capacidade de perceber onde esses prazeres nos levam é o que nos diferencia das demais espécies.
O problema não é dar uma cabeçada na vida, é ter cabeça de inseto e ignorar todas as consequências. O problema é quando a cabeçada não lhe faz mudar de direção.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Você é escravo de qual repetição? Que tipo de comportamento você não consegue mudar?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 22/02/2014, Edição Nº 1290.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma Nota Melhor Como Prova de Amor

Arte de Weberson Santiago



Uma vez, logo no início do namoro, meu pai resolveu provar seu amor para minha mãe. Ambos tinham 14 anos. Minha avó era uma rígida professora da escola onde eles estudavam.  Aproveitou que a dona Rosa havia saído de casa, foi até os materiais de trabalho dela e retirou a caderneta da disciplina de trabalhos manuais, da turma em que minha mãe estudava.
Com cuidado apagou o valor e, imitando a letra da sua mãe, aumentou em um ponto a nota de sua namorada. Correu o risco de ser descoberto, mas queria que ela percebesse que ele correria riscos por ela. Não preciso dizer que ela considerou aquilo uma grande prova de amor.
A travessura adolescente foi revelada mais de quarenta anos depois. De início, minha avó pensou que fosse brincadeira. Depois que meu pai insistiu a autoria do feito, ela acabou dando risada da situação. Se ela tivesse descoberto a adulteração naquela época teria, no mínimo, lhe aplicado um castigo.
Eu sou professor há cinco anos em uma universidade. Há quatro anos passei a dar aulas pra Natália. Todos os semestres, com exceção de um, estive à frente da sua sala com alguma disciplina.
No começo, a Natália reclamava que tinha dificuldade de prestar atenção no conteúdo das minhas aulas. Quando ela percebia, estava prestando atenção nos meus gestos. Tentava ela se concentrar no que eu falava, logo se distraía com o movimento dos meus lábios ou das minhas mãos. Foi preciso um ano inteiro para ela conseguir ficar mais sob controle do conteúdo da aula do que do namorado sendo o seu professor.
Sempre me preocupei com o fato de ter entre meus alunos a minha namorada, hoje minha mulher. Temia que isso atrapalhasse o meu trabalho como professor. Nem sempre é fácil separar as coisas, mas sempre busquei evitar qualquer tipo de problema. Pensava que corria o risco de viver um mal entendido. Me imaginava sendo apontado diante da insatisfação natural de algum aluno com meu trabalho ou com uma nota que lhe dei.
Tenho regras rígidas sobre meu papel como professor e sobre as habilidades e competências que preciso desenvolver em meus alunos para que eles se tornem bons profissionais.
Em todo este tempo, nunca a favoreci com qualquer tipo de regalia por ser minha mulher. Não lhe dei nota além do que ela realmente conseguiu. Nunca lhe dei dicas de assuntos escolhidos entre a matéria para ser uma questão de minhas provas. Muito pelo contrário, talvez tenha sido até mais rigoroso em alguns momentos – e a vejo concordando com a cabeça quando estiver lendo isso.
Ainda assim, a Natália sempre teve um bom desempenho. Com isso, pude concluir duas coisas boas: durmo tranquilo por me manter fiel aos meus princípios e tenho um baita orgulho de que ela, sem qualquer tipo de favorecimento, tenha tido boas notas e nunca tenha ficado de exame ou de dependência em minhas disciplinas.
Existem tantas outras maneiras de provar meu amor do que facilitando sua vida acadêmica: preparando surpresas, dividindo planos de futuro e com declarações de amor. O que meu pai fez foi uma aventura de adolescente. Não pude e posso fazê-lo agora sem uma crise de consciência, sem se sentir culpado pela injustiça com as outras pessoas.
Meu pai me ensinou a dar provas do meu amor, mas primeiro me ensinou a importância da honestidade.

UM CAFÉ E A CONTA!
| É tão bom poder olhar pra trás e ter orgulho de uma trajetória.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, primeiro caderno, p. 2 08/02/2014, Edição Nº 1288.