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sábado, 8 de março de 2014

A Polêmica da Franja

Arte de Weberson Santiago



Se você é homem, um dia será vítima da polêmica da volta do salão de cabeleireiro. Se as mulheres têm o hábito da mudança do cabelo, mais cedo ou mais tarde o homem cai na discussão criada em cima dos comentários sobre o resultado. Nenhum barbudo, nem mesmo o mais sensível, será brilhante na avaliação em todas as idas dela ao cabeleireiro.
Natália sempre me surpreendeu. Trabalhava o dia todo, estudava à noite e estava sempre com a aparência impecável, como se tivesse passado o dia em um SPA. Tinha a sensação de ser um homem de sorte, já que cada vez que buzinava na porta da casa dela, ela saía na direção do meu carro como quem partia para a passarela, sendo que o desfile terminava em meus braços.
Passado o começo do namoro, passei a compartilhar os custos envolvidos em manter a aparência. Levava o tempo e o dinheiro dela, mas começou a tomar o meu tempo quando fui trocado pelo fim de tarde no cabeleireiro – leia-se 5 horas – ou quando passei a esperar um bom tempo entre a buzinada e a saída. Sem muito esforço, enchia-a de elogios e depois reclamava um pouco da espera. Ela só ouvia a primeira parte.
Não é o elogio ouvido, é a necessidade de saber que ela mudou para alguém além do espelho. Não vale o cabeleireiro. Não vale a manicure. Muito menos aquelas que também optaram pela mudança no salão. Tem que ser dito pelo namorado, marido, ficante ou amante. Na ausência destes, pode ser reconhecida pelo homem que passa na rua. Ela ignora a olhada e a cantada barata, mas sente que ganhou o dia.
Se é o marido ou o namorado, trata-se da prova de fogo para a sobrevivência do relacionamento. Dizem que é difícil dizer o sim no altar, mas o vestibular para medicina do casamento é a reação do homem quando ela chega do cabeleireiro. A mulher não aceita resposta incompleta, já que no vestibular não existe meio certo. E elas comentam, umas com as outras, o que registraram no gabarito de nossas respostas. Definem em conjunto os candidatos aprovados e os reprovados.
Na última vez que ela voltou do salão, foi logo abrindo o caderno da prova:
— E aí, o que achou do corte?
— Ficou bom, mas você ficou mais loira.
— Eu sabia que você não ia gostar.
— Mas eu gostei da cor, só acho que essa franja reta faz parecer que você usa uma peruca.
Ela emudeceu, fez cara feia, se emburrou e depois pareceu ter esquecido. Só pareceu, já que voltou ao assunto no dia seguinte:
— Vamos sair hoje?
— Sim, vamos!
— Vou me arrumar, pena que você não gostou do meu cabelo...
— Mas eu disse que não gostei?
— Não, só disse que está parecendo uma peruca!
— Se você quer saber, a maioria das mulheres gostaria de ter um cabelo como o seu.
— Mas eu fiz pra você...
— Achei que tinha feito porque gostava. Eu gosto do seu cabelo natural, loiro nas pontas e ondulado. Mas se você gosta dele liso e mais claro, sabe que eu te acho linda de qualquer jeito – disse enquanto já me via vencido a aprovar seja qual for a mudança da próxima vez.
Ela não se deu por vencida. Saiu do trabalho no dia seguinte com uma trança diferente. E quando eu disse que gostei, confessou que gastou metade do horário de almoço para a amiga fazer. Mudou a franja de lado, colocou a franja para trás e bagunçou tudo porque sabe que com menos que isso já chama a minha atenção. Eu consegui meu sossego quando ela conseguiu o que queria: ser vista.
Quinze dias depois estávamos em um casamento de uma grande amiga dela. Assistimos a uma longa cerimônia até chegar à festa. Quando fomos cumprimentar o casal, a noiva vira e diz para o noivo na nossa frente:
— Se um dia você disser que eu uso peruca, nosso casamento está acabado.
Com essa polêmica da franja, eu é que quase fiquei careca.


UM CAFÉ E A CONTA!
| Experimente não notar mudança no visual ou esqueça uma data importante e conheça a fúria da sua mulher.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, primeiro caderno, p. 2, 08/03/2014, Edição Nº 1292.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Criatividade Arrogante

Arte de Weberson Santiago


Nessa onda das reflexões de fim de ano cheguei à conclusão que minha criatividade é arrogante. Ela se antecipa em querer descobrir como se faz toda e qualquer coisa que observo. Inspeciona o que está na minha frente até descrever os materiais ou ingredientes. Antes parasse por aí. Que nada. A arrogância faz questão de mostrar que sabe fazer igual, e tem o péssimo hábito de tentar fazer melhor.

Sempre foi assim. Quase que um vício em aprender a fazer. Começou com a culinária. Se engana quem pensa que foi uma tentativa de impressionar. Necessidade mesmo. Cansado de me deparar com o hambúrguer deixado pela empregada no final do dia. Já na adolescência testava o molho bechamel no macarrão. Consultava uma coleção de livro de receitas que minha mãe fez e que vinha toda semana junto com o jornal.

Minha mãe nunca foi de cozinhar durante a semana, mas manteve os livros de todas as culinárias do mundo e a dispensa para que eu pudesse driblar a fome e me fazer cozinheiro. No livro, passo a passo com foto. A invenção de novas combinações foi uma questão de tempo e de preguiça, e não de segurança. Na hora de repetir a receita, a moleza de subir na grande estante de ferro para pegar o livro me levava à variação nas quantidades e ingredientes.

Quando fui morar em São Paulo durante a faculdade, meus principais problemas eram a falta de dinheiro, o preço do aluguel e da comida. Quando abriu a barraca de sanduíche na rua de casa, encontrei o meu Mc Donalds. Foi comendo o Misto Quente de café da manhã até o X-Tudo do jantar que descobri que tinha o mesmo atendimento do Burger King, podia pedir o lanche da minha maneira. Da saída do funcionário do caixa do carrinho me restou o convite para meu primeiro emprego.

O dono era um migrante analfabeto, que havia feito o recrutamento e a seleção ao me observar. Viu minhas habilidades para fazer contas enquanto comprava dele e teve como prova de minha honestidade o dia em que lhe falei o erro do Banner/Cardápio de seu estabelecimento móvel: Lanches do Pedrininho (se bateu o olho e leu Pedrinho, leia novamente). O caixa e as compras eram fechados por sua mulher, que tinha curso técnico em contabilidade.

Meu papel se resumia a entregar o refrigerante e a cobrar o cliente. Muitos eu já conhecia de dividir as cadeiras na calçada durante as refeições. O Pedro se deu bem ao achar um espaço perto de um shopping onde os próprios vendedores evitavam a praça de alimentação para economizar. Nos finais de semana era o dia todo de pé, mas a movimentação da rua compensava. Se eu fosse cronista naquela época, hoje seria pós-graduado em filosofia do cotidiano.

Para minha criatividade, dar o troco e pegar a lata certa de refrigerante era pouco. Não cansava de notar o trabalho do chapeiro. Em uma hora de pouco movimento, resolvi me arriscar, fiz um sanduba completo para mim mesmo. Numa dessas, chegou um cliente e fez o pedido. Eu mandei o lanche. E de vez em quando trocava de posto com o amigo da chapa. Quando percebi, me gabava de quebrar os ovos com apenas uma mão. O ápice da função do chapeiro é jogar o ovo e o hambúrguer pra cima e ele cair do lado oposto, mas quebrar o ovo com uma mão já impressiona e demonstra aptidão para o posto. Dizem que não existe erro em investir em comida, mas essa regra não se aplica quando não há alvará de funcionamento e a lanchonete funciona na calçada.

Algum tempo depois de tentar minha carreira na manipulação de alimentos, já estava fadado ao estágio em uma empresa pública. Tive uma amiga que passou um ano fora e que conheceu um grande amor. Foi na vinda dele para o Brasil que minha criatividade ficou irrequieta. O cara era estilista no México, cortava os próprios cabelos e usava um corte moderno, descolado. Esta aí o maior grau de arrogância que a criatividade pode atingir. Rejeitar uma segunda pessoa para acertar o corte é sinal de soberba e deixa qualquer sujeito metido a criativo no chinelo. Comprar peças de roupas que chamam atenção é fácil perto de produzir uma própria escultura capilar. Domínio das próprias mãos, dos próprios cabelos, de alguma técnica e quem sabe até da gravidade.

O problema é que a arrogância da minha criatividade não permite que eu pergunte como se faz. Tem que produzir o próprio caminho, e isso me custa certos tropeços. Sabia que ele usava a máquina e arrumei uma. Foi uma catástrofe. Os funcionários da repartição onde estagiava que exalavam naftalina me olhavam como se eu trabalhasse fantasiado de Adão. Por pena, o mexicano acabou cortando o meu cabelo. Como a criatividade é operante, havia optado por deixar de lado uma nova tentativa de autocorte de cabelo. Acontece que a minha variabilidade comportamental acaba pescando uma vontade já empreendida e nem sempre bem sucedida.

Sem previsão de ir a São Paulo cortar com a Cassia, somei o que aprendi sobre a máquina a vendo cortar meu cabelo nos últimos 10 anos, mais o que aprendi com o mexicano e voilá. Arrisquei o corte e achei que ficou bacana. Meus avós comemoraram a diminuição do comprimento. A namorada ficou em dúvida se eu mesmo havia feito ou se tinha ido a algum salão.

Preocupada com o futuro, ela alertou: “É melhor não pegar o hábito de sempre cortar porque pode dar errado da próxima vez”. Ela não sabia que a arrogância da minha criatividade não aceita terceirização depois que centralizou a execução.