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sábado, 23 de julho de 2016

A Guerra do Lençol

Arte de Weberson Santiago



Acordamos discutindo por conta do lençol. Eu lhe acusava de ter puxado e me deixado descoberto. Ela me culpava pelo mesmo.
A verdade é que passamos a noite como num cabo de guerra. Eu puxava de cá e ela puxava de lá. O vento frio entrava pelas frestas da veneziana e a satisfação não podia ser mútua. Se um estivesse coberto, o outro ficava desprotegido.
Nessa disputa pela coberta, pelo edredom ou pelo lençol ninguém se reconhece como o culpado. Você acorda, acende a luz do celular e espia o outro enrolado no lençol como se estivesse em um casulo, mas ao acordar e jogar na cara a cena vista, ele nega. É a mesma história que acontece com o ronco. No casamento, ninguém admite que puxa o lençol e ninguém assume que ronca.
No namoro ninguém passa frio, mesmo se tiver uma toalha de rosto como cobertor. No casamento, um lençol king size trezentos fios acetinado não é capaz de aquecer o casal ao mesmo tempo. Parece até que o lençol vai encolhendo durante a noite, conforme a temperatura cai.
Eu, o prático da casa, propus que adotássemos o costume de cada um usar o seu lençol. Pronto, acabava de incendiar a discussão. A mulher me acusou de ser individualista e antirromântico pela minha desistência precoce em dividir a coberta. Acusou-me de aceitar facilmente a quebra da cumplicidade.
Cobrou-me que lutasse pela continuidade do funcionamento como casal. Lembrou-me que ela é a única que vive a esticar o lençol pela manhã e por todas as vezes que ele fica embolado. Eu não fui capaz de contra argumentar.
Logo fiquei convencido de que a desistência é o caminho mais fácil, mas que desistir nem sempre é o melhor caminho.
Foi quando me lembrei daquelas noites em que eu estava extremamente cansado e incapaz de reagir ao frio nos pés. Me veio à cabeça o prazer que eu tive quando senti que ela havia percebido que eu estava descoberto e feito a delicadeza de me cobrir.
O nosso erro não estava em dormir com um lençol. O nosso erro estava em se preocupar mais consigo próprio do que com o outro. Ao invés de ficar vigilante para quando me faltasse a coberta, deveria ficar atento para quando eu posso cobri-la. E ela o mesmo. Não iremos aumentar a nossa preocupação, apenas mudar o foco com o que se preocupar. Não é tão complicado assim.
Quando sua maior preocupação for a de cobrir a si mesmo, o que você precisa mesmo é redescobrir a gentileza.
UM CAFÉ E A CONTA!
| O maior impedimento para se estabelecer uma relação de parceria é o individualismo.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 23/07/2016, Edição Nº 1417.

sábado, 5 de setembro de 2015

Envelhecimento

Arte de Weberson Santiago


Ele anda com passos e movimentos mais lentos. Parece que lhe colocaram uma sola de ferro nos sapatos. A musculatura precisa fazer mais esforço para dar conta do peso das pernas. Se esforça para concatenar os passos, a posição do tronco, o movimento dos membros. Faz malabarismos com o corpo, mas se recusa a demonstrar esmorecimento nas atividades.
Os sentidos já não são mais os mesmos, falham. O labirinto não lhe garante equilíbrio. O som ouvido nunca é o suficiente para a compreensão. As mãos tremem na hora de levar a xícara aos lábios. Falta-lhe força nos punhos e coordenação nas mãos para conseguir picar a carne. Falta-lhe precisão para fincar a azeitona com o garfo. Culpa a faca e suas cerdas desgastadas.
Reclama que a comida está sem gosto. É tanto alho que ele está protegido de vampiros num raio de cinquenta quilômetros, mas ele insiste em dizer que faltam sal e tempero na comida. Os olhos não colaboram. A catarata lhe deixou com as vistas embaçadas. Onde tem frango, vê peixe. Onde tem legumes, vê massa. Diante da dificuldade de identificar a comida, pergunta para quem está do lado para descobrir o que vai comer.
Ele funciona como meu notebook. Se ninguém interage, entra em estado suspenso. Ele cochila sentado quando não tem com quem conversar. Cochila na mesa depois das refeições, cochila na sala de televisão com a tevê ligada. Ele sai do estado de hibernação como o meu notebook. Basta um toque. É um grito da novela ou uma propaganda com volume mais alto e ele acorda como se o tempo tivesse parado quando ele começou a cochilar e nada tivesse acontecido no mundo durante este intervalo. Basta que alguém pise mais firme ou abra uma gaveta e ele desperta. É um sono leve para economizar energia, como o do meu notebook. É quase uma meditação oriental. Ele despertou e já tem a consciência de um mestre capaz de distribuir conselhos.
Ela morre de medo dele morrer primeiro e dela ficar só. Ela morre de medo de um monte de coisas. Por isso, todos os dias ela pega sua caixa com dezenas de orações e novenas. Reza por uma ou duas horas, sentada na varanda. Reza pelo marido, por cada um dos filhos e pelos netos. Reza por quem ela vê sofrendo. Tem horas que ela pede, mas tem hora que ela é impositiva com os santos. Às vezes ela faz algum tipo de chantagem ou barganha com eles. Dá uma ameaçada de leve. Faz com os santos do mesmo modo que faz com o marido: ela tenta mandar neles para que eles façam o que ela quer.
Ela sofre com quem adoece e padece quando alguém morre. Sente como se a fila andasse uma posição e a vez dela ou dele se tornasse mais próxima. Ela morre de medo de ficar doente e sofrer prostrada numa cama. Morre de medo de doença. É tanto medo que quase já virou uma doença. Poucas pessoas como ela amaram tanto a vida, viveram cada dia com tanta alegria. Para ela, é difícil continuar tão feliz sabendo que a vida se aproxima do fim. Ela sempre sofreu por antecedência e quis controlar tudo. Agora está antecipando o fim, querendo controlá-lo.
Eles comem pouco. Reclamam que não tem apetite. Se depender do aviso de fome do corpo, ficam sem comer. Comem porque chega a hora, comem pelo hábito ou porque alguém fala que tem que comer. Eles bebem pouca água. Se depender do aviso de sede do corpo, se desidratam. Precisam que alguém os lembre de suas próprias necessidades básicas. Não gostam de depender, mas sentem-se felizes em ter alguém que lhes cuide.
A comunicação mudou com o tempo. Quando se conheceram e eram jovens, falavam pelos olhos, mas a rigorosidade dos pais e irmãos não lhes permitia que conversassem. Quando começaram a namorar, falavam pelo tato, conversavam pelas mãos. Na maturidade do casamento, deixavam recados junto aos objetos pela casa.
Agora, na velhice, ao invés de encontrarem os lábios, a boca vai de encontro ao ouvido do outro. Aproximam-se, pendem o tronco abaixando um dos ombros para o lado onde está o outro, para que um não precise falar muito alto e para que o outro escute o que for falado. Reclamam um do outro. Às vezes saem resmungando da conversa. Mas boa parte do que eles precisam é saber que o outro está ali, por perto. Agora, na velhice, eles aprenderam a conversar com o silêncio da presença.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Viver a decadência do corpo faz parte da vida. O desafio é envelhecer sem perder a dignidade.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 05/09/2015, Edição Nº 1371.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Eternamente Namorados

Arte de Weberson Santiago


Estava no primeiro ano da faculdade, aos 17 anos, quando peguei uma carona partindo de Mococa rumo a São Paulo com o meu tio-avô Roberto Braga e sua esposa, a tia Irai.
Depois de muita conversa, ative-me a leitura de textos passados pelos professores da faculdade no banco de trás. A tia Irai pegou no sono. Numa de minhas pausas para pensar no que o texto dizia, presenciei uma cena que me marcou.
Tio Roberto tocou a perna da tia Irai e afagou-lhe a coxa enquanto ela dormia. Era como se suas mãos quisessem conversar, mas como ela dormia, o tato funcionava como uma resposta. A cena se repetiu mais adiante na estrada, seguida de um olhar generoso com um sorriso no rosto dele para ela dormindo. Percebi que ele ficava feliz em encontra-la ao lado, ainda que ela estivesse cochilando.
O carinho pode ser comum entre jovens apaixonados, mas parece faltar aos casais com mais tempo de união. Fui testemunha ocular do que eu julgo que está em falta. Eles já haviam passado dos 35 anos de casados, mas conservavam o carinho de quando eram apenas namorados.
Quando vi aquela cena, tive uma única certeza: “É isso que eu quero para minha vida”, pensei. Naquele momento eu era inexperiente, nunca havia namorado. Mal sabia beijar direito, mas já definia o que queria como maturidade no meu casamento.
Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade reverencia um casal de mãos dadas ou demonstrando carinho um para com o outro. Eu admiro a preservação do amor a despeito do tamanho da história. Admiro a persistência da gentileza, a insistência do afeto.
Numa das psicoterapias que fiz, antes de mim era atendido um casal de velhos, certamente com mais de oitenta anos cada um. Eu achava um barato os dois investirem tempo e dinheiro para pensar na relação, para cuidar dos sentimentos.
Tio Roberto e tia Irai vão descobrir agora, lendo esta crônica, que me serviram de inspiração. Ela já estava escrita quando vi seus filhos comemorando na rede social os cinquenta anos de casamento durante esta semana, quando minha crônica será publicada. Nada mais oportuno. Aquele gesto simples despertou minha admiração. E este amor preservado pelos dois sem dúvida fez e faz a diferença para a vida dos filhos e dos netos. É uma família bonita, que esbanja amor.
Que eu possa cumprir a promessa, que em primeiro lugar fiz a mim mesmo e mais adiante a Natália, de ser sempre namorado dentro do meu casamento, até o fim de nossas vidas.

UM CAFÉ E A CONTA!
| O que se repete todos os dias é o que constrói o futuro.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois,10/01/2015, Edição Nº 1339.

sábado, 1 de novembro de 2014

Enxoval de Esperanças

Arte de Weberson Santiago



Luciana se enchia de esperança a cada novo relacionamento. Bastava o primeiro encontro e o telefonema do rapaz na semana seguinte para que ela começasse a se imaginar casando. Conforme o relacionamento avançava, ela que trabalhava no comércio, começava a comprar coisas em lojas de departamento: utensílios domésticos, roupas de cama, mesa e banho.
Quando Carlos, o primeiro namorado, descobriu a compra, se assustou com o tamanho do passo, com a rapidez da evolução. Fugiu do compromisso e abandonou o relacionamento. Luciana ficou muito chateada, perdeu a esperança de se casar, mesmo com as amigas lhe dizendo que ele partiu porque não gostava dela de verdade. Sentiu-se culpada.
Ainda assim, bastava que ficasse com outro rapaz em uma festa e ele demonstrasse a intenção de marcar outro encontro, para que ela fosse tomada por uma coceira incontrolável para comprar algum objeto para quando viesse a se casar. Era uma vontade persistente, que se sustentava em um sonho muito desejado.
Como percebeu que as compras tinham assustado o seu namorado anterior, Luciana passou a adiar mostrar todos os objetos que ela dispunha para usar após o casamento. Mantinha-os em um quartinho na casa de sua mãe. Quando o novo namorado Fábio, conheceu o enxoval, também pulou fora da relação. E foi assim com o Lucas, o Paulo e o Edgar.
Luciana já tinha uma casa completa dentro daquele quarto, entre móveis, enxoval e utensílios de cozinha, mas lhe faltava a esperança. Pouco a pouco ela foi diminuindo, chagando a pensar que não usaria nada daquilo que foi juntando, pois seus namoros não evoluíam.
Até que Luciana conheceu o Marcos, um cliente que atendeu na loja onde trabalhava. Ele era auxiliar administrativo em uma imobiliária do centro da cidade e havia acabado de receber as chaves de um pequeno apartamento que tinha financiado desde a planta. Ele havia entrado na loja para comprar as primeiras coisas pro novo apartamento.
Luciana lhe vendeu um jogo de cama de casal e entendeu que ele tinha a cama, mas não tinha a companhia. Observou as mãos e não encontrou nenhuma aliança. Ele achou ela bonita, mas só tomou alguma iniciativa quando lhe encontrou num restaurante por quilo e a convidou para sentar na mesa dele.
Pronto. Ele tinha o apartamento e ela era dona de tudo o que era preciso para transformar aquele espaço em um lar. Era a panela conhecendo a sua tampa. As metades da laranja que se completavam. Os opostos se atraindo na intensidade de um imã.
— Você não se importa de usar todas aquelas coisas que eu comprei em outros relacionamentos? – perguntou Luciana.
— Não – respondeu Marcos sem titubear – você comprou pra usar com seu marido, mas nenhum deles merecia ocupar este lugar. Você já comprava pra nossa casa, só que ainda não sabia disso.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Relacionamentos que não deram certo devem nos ensinar algo para quando estivermos diante de um relacionamento que pode dar certo.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 01/11/2014, Edição Nº 1329.

sábado, 4 de outubro de 2014

A Caixa de Cartas

Arte de Weberson Santiago



Tínhamos acabado de almoçar num sábado, meu avô Tino, com 94 anos, e eu. Tomávamos um café enquanto ele contava uma história do passado, ilustrada com uma foto antiga tirada na época do ocorrido. Papo-vai-papo-vem, questionei como foi o começo do seu namoro com a minha avó Rosa, que infelizmente faleceu há alguns anos.
Ele começou a descrever a paquera sutil em volteios ao redor da fonte dos amores, na praça central de Mococa, os homens no sentido horário e as mulheres no sentido anti-horário. Um namoro muito diferente dos que vemos nos dias de hoje. A relação avançava a passos lentos como os de uma tartaruga. Era uma eternidade para se pegar na mão. Relatou o pedido de casamento para o sogro, a resistência dos irmãos. Pediu-me um minuto e foi para o quarto.
Voltou com uma caixa forrada do lado de fora com papel xadrez, desbotado. As laterais da tampa levemente rasgadas pelo efeito do tempo, mas cuidadosamente preservada inteira há quase setenta anos. Quando ele abriu, percebi que a caixa estava cheia de cartas que eles trocaram durante o namoro.
Papeis envelhecidos, cor-de-café-com-leite. Dobrados em quatro. Posso ver? – perguntei. Claro – respondeu. Abri a primeira, era dele para ela. No papel tinham marcas redondas mais escuras por detrás da tinta. Perguntei o que era. Ele disse que deveria ser a marca do perfume. Contou-me que não tinha perfume quando era jovem, mas que vez por outra pegava a colônia do pai escondido, molhava a ponta do dedo e encostava no papel. Pensei que o perfume da carta deveria fazer a Rosa imaginar o cheiro do seu cangote. Não podendo senti-lo de verdade, restava-lhe a imaginação. Palavras singelas, descompromissadas.
Dobrei e guardei, retirando outra. Era dela pra ele. Comentava amenidades. Alguns pontos com excesso de tinta sugeriam longos suspiros enquanto ela escrevia. Fiquei encantado com aquelas cartas, viajei no tempo, voltei para o início da história deles, mas não quis ver todas, nem ler todas as linhas. Temia ser invasivo. O mais importante foi ter compartilhado da intimidade dos meus avós, me senti privilegiado em ser uma espécie de confidente do meu avô.
Quando fui embora de sua casa, no trajeto de carro, senti um calafrio na barriga. Onde estão os cartões que a Natália me escreveu? – pensei. Não sabia. Nunca me preocupei em recolher os bilhetes carinhosos, os mimos. Cheguei em casa e comecei a procurar. Não achei nenhuma. Senti o peso da displicência. Lia o cartão que ganhava e deixava sobre a mesa da cozinha ou na sala. Esquecia dentro da sacola do presente. Valorizava o presente e abandonava o carinho do recado.
Decidi que começaria a guardar estes registros de sentimento quando ganhasse o próximo. Queria poder mostra-los aos meus filhos ou netos, como fez o meu avô.
Os dias se passaram e alguns finais de semana depois do ocorrido a Anelise teve dor-de-garganta e febre. Cuidávamos da pequena e a Natália me pediu para que pegasse um lenço na sua gaveta de lenços para embeber no álcool e colocar no pescoço da Ane. Enquanto ela dizia qual queria, eu descrevia os que encontrava e vasculhava sua gaveta em busca do que ela queria. Foi quando encontrei, lá no fundo, uma caixa vermelha, em formato de coração.
Abri por curiosidade. Lá estavam todos os nossos, bilhetes, cartões, recados. Ela havia recolhido tudo o que eu larguei jogado e guardou. Respirei aliviado por não ter sido fato consumado o desperdício imaginado.
Amar de verdade é ser um perito dos sentimentos. Amar é colecionar provas do carinho. Ela me ama tanto que tolerou meu desleixo para preservar as memórias do nosso amor.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Mantenha o hábito de escrever um cartão, deixar um bilhete ou uma carta. Mensagens reais valem muito mais do que as virtuais.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 04/10/2014, Edição Nº 1325.

sábado, 5 de julho de 2014

8 Tipos de Abraços

Arte de Weberson Santiago


Adoro o seu abraço de bom dia porque ele é um abraço de edredom. Aconchegante e quentinho. Seu efeito sobre meu corpo é como de uma xícara de café. Me esquenta e, ao mesmo tempo, me faz ficar animado para o que está por vir.
Ele é diferente do seu abraço de despedida quando eu saio para trabalhar. Você já tomou banho e está fresca como a brisa de uma manhã de outono. É sopro de inspiração que me leva embora e me faz ter vontade de que os ventos me tragam de volta aos seus braços.
Gosto quando me abraça de surpresa. Como quando eu estou trabalhando na escrivaninha e você chega enroscando seus braços pelo meu pescoço. A sensação é que vesti um cachecol. Quando seu cotovelo escorrega pela minha nuca me dá a sensação de estar numa massagem.
Não me esqueço do nosso abraço de quando estamos felizes. É um abraço romântico. Seus braços dão a volta em meu pescoço, enquanto meus braços envolvem a sua cintura. É um abraço de braçadeira, nos apertamos, cheios de vontade. De vez em quando rodopiamos. Em outras ocasiões seguimos o ritmo da música e arriscamos alguns passos, já que não tem ninguém olhando.
Tem aquele abraço que você me dá quando percebe que passei por alguma situação difícil e pesada. Você passa seus braços por debaixo dos meus e levanta seus antebraços. Faz um gesto como se pegasse meu desgaste no colo, como se embalasse e ninasse meu esgotamento para que ele acorde como disposição.
Também gosto do seu abraço de final de dia. Cansada das jornadas e dos afazeres, é um abraço de arrimo. Você solta seu corpo com seus braços sobre mim e deita sua cabeça de lado, encaixando sua nuca no meu pescoço. Como eu gosto de ser seu suporte, me sinto importante.
Existe também o abraço paralelo, em que nos encostamos dos pés às cabeças, selando o abraço com um beijo. É o único tipo de abraço que permite sentir a respiração. Esse me lembra do quanto nos completamos.
Tem um abraço de quando você está precisando ser consolada. Ele é facilitado pela nossa diferença de altura: nos abraçamos enquanto você coloca seu rosto de lado, encaixando-o debaixo do meu queixo. Você procura a sombra das minhas palavras, usa meu peito como travesseiro e aperta minhas costas. São dez segundos de conforto.
Mas se tem uma coisa que não tem nos seus abraços são os tapinhas nas costas. Não gosto de dar e receber abraços com tapinha nas costas. Fico imaginando que o tapinha é para distrair a atenção do abraço. Abraço com tapinha é aquele que não respeita o tempo do abraço. Começa-se o abraço querendo terminá-lo. Testei se seu abraço tinha ou não tapinha nas costas em nossos três primeiros encontros. Você foi aprovada e me presenteou com essa coleção de abraços nos nossos anos.
Percebi que nossos olhos sempre se fecham enquanto nos abraçamos. Seja qual for a posição na qual nos abraçamos ou o nosso estado emocional, o tempo que duram nossos abraços são como sonhos.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Um único abraço pode conter vários gestos.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 05/07/2014, Edição Nº 1311.

sábado, 7 de junho de 2014

A Individualidade no Relacionamento

Arte de Weberson Santiago


Se apaixonar é o como uma tentativa de contrariar a lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Queremos fazer tudo juntos, ficar o tempo todo grudados.
Busca-se a cumplicidade nas tarefas mais simples. Se pudermos, comemos juntos, tomamos banho juntos, acordamos e dormimos juntos, escovamos os dentes juntos.
Quando comecei a namorar a Natália, em minha casa tinha apenas uma cama de solteiro. Era o suficiente para que passássemos o fim de semana. Ignorávamos a impossibilidade de se mexer durante a noite. Não sentíamos as dores no corpo no dia seguinte. O que nos interessava era ficar perto um do outro.
E nunca achávamos que era o suficiente. A rotina de trabalho só permitia algumas horas aos finais de semana, geralmente do sábado à tarde ao fim do domingo. Durante a semana, eram apenas encontros rápidos. Nem quando ela tirava férias e praticamente morava comigo durante um mês era o bastante para matar a vontade.
Por isso resolvemos morar juntos. Sentíamos a necessidade de seguir adiante, dar um passo a mais na relação. A urgência do amor sempre foi maior do que os nossos medos. Eles estavam lá, em cada passo da nossa relação, mas ficavam pequenos quando decidíamos fazer a relação evoluir.
Assim que passamos a dividir o mesmo teto e a mesma cama, as manias entraram em conflito. Naquele começo da relação, com toda aquela vontade, as manias passam desapercebidas. Já no casamento, as manias respeitam a lei da física: duas manias não podem ocupar o mesmo lugar no espaço de uma casa.
Foi quando percebemos que aquela intensidade do namoro não poderia ser mantida, senão a relação se tornaria sufocante. Se continuássemos a querer fazer tudo juntos, acabaríamos tentando fazer o outro ser como a gente mesmo. Foi preciso ceder, respeitando o jeito de ser, a maneira de fazer. Ora um, ora o outro.
Combinamos que uma vez por semana cada um tem o direito de fazer uma coisa que lhe dá prazer e que não envolva o parceiro. Ela vai no salão se cuidar ou sai com as amigas. Eu vou ao clube praticar uma atividade física ou encontrar um comparsa pra jogar conversa fora.
E mesmo que não consigamos marcar no mesmo dia, aprendemos a aguentar ficar sem o outro neste dia de compromisso externo. Um exercício de liberdade, sem inveja e sem retaliação.
Nós acreditamos que, para o casamento funcionar, é preciso haver uma abertura para que cada um tenha ocupações que nos façam bem fora de casa para que o retorno e a possibilidade de estar em família sejam devidamente valorizados.
Com a vida de casados pusemos fim na distância. Aí percebermos que sem a distância não há saudade. Descobrimos a necessidade de preservar a individualidade para valorizar o reencontro.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Quem não dá liberdade sufoca. Quem se sente sufocado se afasta.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, p. 4, 07/06/2014, Edição Nº 1307.

sábado, 12 de abril de 2014

Casamento Não é Para a Vida Inteira

Arte de Weberson Santiago



Desconfio de quem acha que casamento é para a vida inteira.
Quem se casa considerando que a relação é eterna entra no casamento como um aposentado. Se aposentar na relação é pensar e agir como se, estando casado, não precisasse mais seduzir, encantar, namorar.
Parte-se do pressuposto que o esforço não é mais necessário. Considera-se que a relação tem obrigação de ser perene porque é um casamento. Aí mora o perigo.
Casamento é disposição. Deves casar sabendo que terás o desafio diário de fazer pelo outro e para o outro. É fácil ser companheiro quando o casal está se conhecendo, se descobrindo. Terás de ser companheiro nos dias ruins, nas manhãs mal-humoradas e nos finais de tarde de esgotamento.
É quando o outro não tem mais energia para agir que deves fazer brotar a força da união. Pode deixar, meu bem, eu cuido disso para você. Se um não aguenta mais correr atrás da criança, o outro que assuma a função. Se um está cansado demais para acompanhar o filho na lição de casa, o outro que ponha sua paciência para trabalhar. Nessa gangorra o casamento funciona, mas se alguém deixar de fazer a sua parte por individualismo, o outro ficará sobrecarregado.
Casamento é abrir mão de si mesmo como prioridade. Tudo deve ser pensado e decidido considerando as duas opiniões, as duas necessidades, as duas vontades. E isso não vem automaticamente quando sobes no altar. Isso se aprende. É na superação dos limites individuais onde está a beleza do casamento, onde ele passa a ter valor.
Deves estar disposto a dar atenção e a ignorar.
A dar atenção aos sinais de como está o parceiro, sendo que estes sinais estão escondidos nas entrelinhas do dia-a-dia. Leia as entrelinhas. Ela sinaliza um descontentamento, deves pensar no que você fez que a deixou assim. Ele demonstra estar sobrecarregado, deves ajuda-lo dele para que ele recupere a disposição.
E a ignorar os comportamentos negativos que são resultantes do que seu parceiro passa durante o dia nas suas obrigações, fora de casa. Se não souber entender e tolerar, irás responder com outros comportamentos negativos, e isso atrapalhará a relação e pode terminar em afastamento.
A vida já se ocupará de criar um afastamento entre os cônjuges. Não duvide e não dê pouca importância a isso. Os problemas roubarão espaço dos pensamentos que levam a gestos que cativam o outro. O trabalho roubará a disposição para dar o seu melhor para a relação.
O cansaço insistirá para que use o seu pijama mais velho para ficar confortável. E isso fará com que a pior aparência que você pode oferecer fique para o lugar onde você mais deveria se preocupar em cuidar.
Os filhos disputarão a sua atenção e poderão criar uma muralha entre você e o seu marido ou você e sua mulher. E lhe caberá não deixar que os filhos impeçam vocês de namorar e de viajar. Deves cultivar um espaço para se conhecerem novamente conforme cada um muda com a vida.
Um casamento acaba quando não se olha para um distanciamento pequeno, que ainda pode se tornar reaproximação. Se um percebe o espaço vago e o outro ignora, não adianta. Ambos precisam estar envolvidos em diminuir a lacuna antes que o distanciamento vire um abismo.
Um casamento não deve ser para a vida inteira, deve ser para hoje. No máximo para esta semana. A relação deve ser olhada em pequenos intervalos de tempo, mas não pode ser olhada apenas nos aniversários de casamento. E tem quem esquece até dessa data. É muito tempo sem olhar a relação. E pouco cuidado para mantê-la.
O casamento que sobrevive à vida inteira é aquele que não se deixa morrer no cotidiano.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você já se aposentou no casamento ou já se casou aposentado?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 12/04/2014, Edição Nº 1299.

sábado, 30 de novembro de 2013

Uma Casa pra Chamar de Nossa

Arte de Weberson Santiago



É, meu bem, e não é que sobrevivemos ao tempo? Sobrevivemos às dúvidas, driblamos os medos e seguimos construindo a nossa história.

Dia destes, quando eu saía do trabalho, me peguei pensado em como é bom voltar pra casa. Mas que casa?
A nossa família é minha morada. É de onde eu saio e é para onde eu volto todos os dias.

Quantas pessoas buscam o que nós dois já encontramos? Alguém para morar. Um coração para ser seu lar. Um seio para me confortar. Um peito para você repousar.

Somos, ao mesmo tempo, porto seguro e navegantes. Somos, os dois, barcos à vela e terra firme. A nossa única certeza é o reencontro.

Agora que já temos um mundo abstrato de amor que nos uniu e nos mantém juntos, sinto que nos falta o que de mais concreto uma família pode ter. Uma casa.

Amar é solucionar um dilema para encontrar outro. Se antes o problema era a dúvida – será que um dia encontrarei meu grande amor? – hoje a questão é onde habitará a nossa união.

Não que a casa que alugamos não esteja boa para nós, mas o problema é que ela não é nossa. Amar é não se contentar com o provisório, quem ama busca o definitivo.

Quero fazer marcações da altura da Anelise atrás da porta conforme ela cresce sem me preocupar com o que vou fazer se a gente mudar de casa.

Eu quero encontrar o nosso pedaço de terra permanente para plantar uma muda e esperar ela virar árvore. Você quer encontrar um lugar para que nossos familiares e amigos possam ser de casa.

Quero vê-la despertar no amanhecer e abrir a janela com os cabelos cuidadosamente desarrumados, espiando o céu enquanto eu vejo seu corpo na contraluz sem mudar a cena de moldura.

E você poderá me ver espreguiçar na varanda da sala no domingo de manhã, se na nossa casa tiver uma varanda. E se não tiver varanda, pegando o jornal do dia na garagem.

A paciência não é minha melhor amiga. A pressa é meu animal de estimação, vive na minha cola, quando não entra na minha frente. Quero ver o telhado sobre as nossas cabeças, não quero acompanhar cada um dos tijolos sendo empilhados. Quero pra ontem.

Nossos alicerces são sólidos para construir um assobradado. Nossos valores são os mesmos. Se trocássemos nossos olhos, veríamos o mundo da mesma maneira. Já temos uma base suficiente.

Me pego sonhando com a nossa casa. Tiro os pés do chão. Vejo-me no futuro cantando pra você, dentro de nossa casa, aquele samba do Martinho da Vila: “Está em você o que o amor gerou. Ele vai nascer e há de ser sem dor. Ah! Eu hei de ver, você ninar e ele dormir. Hei de vê-lo andar, falar, cantar, sorrir.”

Mas como um sonho é feito de um dia após o outro, preciso conter a minha expectativa e trabalhar para isso. E você precisa seguir com seus compromissos para me ajudar a fazer este dia chegar. Então, prossigamos com nossa rotina atribulada, ela fará do nosso sonho uma realidade.

Quando eu acordo para trabalhar você ainda está dormindo. Quando você chega da faculdade, sou eu quem já fui dormir. Nossos desencontros calculados nos enchem de esperança de que um dia encontraremos uma casa para chamar de nossa.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Quem casa não quer casa, quer um lar. Telhado é proteção, parede é carinho. Portas e janelas são pontes para a vida.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 30/11/2013, Edição Nº 1278. 

sábado, 17 de agosto de 2013

Rodovia é Andança, Estrada Vicinal é Bonança

Arte de Augusto Amato Neto


Pode existir muito conforto em uma rodovia duplicada com cinco faixas cada uma, mas não existe sensação melhor do que pegar uma pequena estrada vicinal de mão dupla.

Rodovia duplicada é rápida, mas é impessoal e sem graça. Muita engenharia e pouca inspiração. Tecnologia de sobra no asfalto e na velocidade, com paisagem insossa.

Estrada vicinal é o caminho possível de antigamente. É o trecho onde o boi fazia carga e onde o cavalo carregava as pessoas sob a terra. O trecho tortuoso pelo meio da vizinhança. Você encontra os suportes com barril de leite na porteira da fazenda e, até hoje, ninguém rouba o barril. Não há necessidade de vigia. É um respeito rural, um pacto de honestidade que permite abrir mão de câmeras.

Fecho os olhos, busco no Instagram da minha memória e encontro a imagem de cor perfeita, feita pelo filtro da minha retina com os raios de sol e as cores da natureza na estrada que liga Divinolândia/SP a Poços de Caldas/MG. Uma de minhas estradas preferidas.

São 31,4 Km com uma topografia repleta de caminhos tortuosos e paisagens incríveis. Um trajeto com tantas curvas que os braços oscilam mais do que para-brisas na chuva forte. Os aclives e declives fazem do percurso uma montanha russa às avessas, sem frio na barriga, sem medo da próxima parte. Espera-se a próxima imagem depois da curva. Não há como atravessar esta estrada com pressa, foi feita para ser percorrida calmamente. A calma é amiga da contemplação. Quem escolhe uma vicinal, aprende a observar as paisagens.

Neste caminho tem a Igreja de Três Barras, que fica de fronte ao caminho de quem vem de Divinolândia e vai para Poços. Mais adiante, a estrada corta um distrito de Divinolândia chamado Campestrinho. É praticamente um bairro de oito quarteirões cuja rua principal é a própria estrada, com uma rua paralela abaixo e acima. É tão pequena que não tem supermercado, apenas o mercadinho que vende de tudo, da verdura até a panela. Nas portas, vê-se boa parte da mercadoria pendurada do lado de fora. Bola de futebol pra molecada, vassoura de palha caipira e tudo mais o que não cabe no interior do mercadinho.

É por essas e por outras que eu prefiro os caminhos diferentes e pouco conhecidos.

Não admiro uma grande veia ou artéria do coração. Se uma delas entope, são os pequenos vasos que garantem a irrigação do sangue pelo coração. Eles se ramificam ainda mais, aumentam seu calibre quando uma veia ou artéria é obstruída e são capazes de prolongar uma vida. As artérias mais finas, chamadas capilares, são responsáveis pela troca de dióxido de carbono por oxigênio nos pulmões, por eliminar as substâncias que o organismo não pode aproveitar através da urina no rim. No intestino, é nos capilares que os nutrientes são absorvidos e os resíduos não aproveitáveis são liberados. São os pequenos tuneis que saem do coração que fazem as extremidades respirarem.

Aprendi, pelas estradas da vida e pelos caminhos do coração, a não desprezar as estradas pequenas. Não recuso uma rodovia quando estou com pressa, mas prefiro a estrada vicinal quando posso escolher. Se não posso pegar uma estrada vicinal, viajo por dentro das minhas veias vicinais, percorro os caminhos por onde pulsam o meu coração.

A rodovia duplicada permite a mão do homem fique na coxa da mulher o tempo todo, pois o cambio permanece a maior parte do tempo na quinta marcha. Mas somente a estrada tortuosa e simples estabelece ocasião para a correspondência.

É na vicinal que a mão da mulher repousa na perna do homem. Ela retribui o carinho quando as curvas não permitem que ele solte uma das mãos do volante ou tenha que ficar mudando a marcha com frequência.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| As estradas da vida não são retas, nem expressas. O caminho é sinuoso, desconhecido e repleto de obstáculos.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 17/08/2013, Edição Nº 1265. 

sábado, 20 de julho de 2013

Faço Bico Como Repositor

Arte de Weberson Santiago



Vivo fazendo um malabarismo para que os alimentos nunca acabem na hora errada. Não gosto de ser pego de surpresa descobrindo, na hora que eu iria comer, que alguma coisa acabou.

Se tenho pouco tempo disponível para ir ao supermercado, as poucas vezes que eu vou tem de garantir que nada vai faltar.

Menos do que meia caixa de litros de leite, e isso significa 6 litros, é a mesma coisa do que não ter leite. Um bocado para mim já é nada. Dois potes de iogurte é não ter iogurte. Três fatias de presunto é não ter frios na geladeira. Um naco de queijo fresco é o mesmo que não ter queijo.

Fico antecipando o fim, por medo de realmente faltar. Depois que substituí o que está acabando, aí sim me permito terminar com o resto.

Tem gente que acha que geladeira é um livro. Fica folheando as prateleiras para ver se encontra alguma vírgula para dar um tempo no que tem pra fazer. Eu não. Ao invés de procurar um lanche, percorro as páginas da geladeira procurando um espaço vazio entre os alimentos para preencher, uma reticência em três últimos grãos de uva passa que me suscite comprar mais uvas passas.

Busco inspiração nas lacunas da geladeira e procuro logo um bloquinho para fazer uma lista de compras poética e partir a preencher os vazios.

- 1 Kg de tomates desesperadamente vermelhos para virar molho.

- Um pedaço de queijo chique ou metido a besta para beliscar enquanto o jantar de sábado termina de se arrumar.

Alimentos mutilados em nome de uma vida saudável:

- 1 pacote de pão de forma integral light, 1 bandeja de iogurtes desnatados, 2 litros de leite de baixa lactose, 1 pacote de café descafeinado, 1 pacote de sal light que não salga.

Alimento saudável tem que sofrer da falta de algum ingrediente.

Se me incomodo com o que pode acabar, também fico impaciente com o excesso. Não gosto de ver restos de comida espalhados em potinhos plásticos pelos cantos do refrigerador. Por isso, vivo em busca da porção ideal para não sobrar, ou se a comida for muito gostosa, para servir duas refeições sem resto. O desperdício dói.

Conheço geladeiras que mais parecem uma reserva de mantimentos, pronta para enfrentar qualquer tipo de catástrofe. Se um meteoro cair na terra agora e a distribuição de alimentos cessar totalmente, este tipo de família sobrevive três meses com a comida acumulada no refrigerador.

Minha obsessão é evitar o fim e o excesso. A desculpa é manter o essencial.

Ter na geladeira o suficiente de cada coisa sem deixar faltar nada. Eu sei que ter escolhido essa missão não me faz o melhor provedor, nem é isso que me faz ser o marido mais fiel. Também não me torna o mais gentil dos cavalheiros ao respeitar o gosto das minhas meninas nas compras.

E por mais que eu tente não ser insosso trazendo uma coisa gostosa e diferente de vez em quando, pode ser que a mania da reposição seja cansativa, já que desde que eu me casei não permiti a solidão da margarina fazendo companhia à indiferença da água gelada.

De uma coisa eu não tenho dúvida. Se um dia a minha geladeira ficar vazia é porque eu desaprendi a ser família.

 UM CAFÉ E A CONTA!
|Mostre-me o conteúdo de sua geladeira e eu te direi quem você é.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 20/07/2013, Edição Nº 1261.