sábado, 3 de agosto de 2013

Curso de Padeiro Ensina a Esperar

Arte de Weberson Santiago


Um dia eu cheguei a pensar que o bem-sucedido era aquele que buscava um objetivo sem nunca deixá-lo de lado. Se você pensa assim, como eu já pensei, está enganado.

Foi o que eu aprendi quando fiz um curso de padeiro e confeiteiro. O curso não me ensinou somente a fazer massas de pães ou preparar qualquer tipo de cobertura de confeitaria, me ensinou que o caminho para atingir um objetivo não é persegui-lo obstinadamente.

Com toda a minha empolgação com a arte dos pães, a primeira vez que eu fui sovar uma massa parecia um iniciante ansioso em uma aula de artes marciais. Socava a massa como o lutador ansioso querendo golpear qualquer um que apareça na sua frente. O professor me chamou a atenção. Eu coloquei tanta força que venci a massa por nocaute e ela quase não chegou ao forno. Revi a intensidade.

Logo que a massa ficou homogênea e na textura certa, eu já queria levá-la ao forno e ver o pão assado, quando me lembraram que a massa tinha de descansar para poder crescer. O objetivo era ver o primeiro pão francês assado, feito com as minhas próprias mãos. Ao deixar a massa descansar tive de deixar meu objetivo de lado. Aguentar não fazer nada por ele por um tempo. Tolerar uma hora que me pareceram demorar como se fossem cinco.

Levei essa lição para a vida. Boa parte do que fazemos tem a hora certa de sovar e um intervalo mínimo para descansar. Uma porção de coisas funciona melhor assim, respeitando um intervalo de tempo entre uma ação e outra.

Ao fazer uma dura crítica a alguém na esperança que de a pessoa mude, precisamos dar tempo para que ela mostre (ou não) uma mudança de conduta. Se não dermos esse espaço, apenas criamos as condições para que ela não aguente tanta pressão, não dê conta de mudar e desista.

Quando escrevo um texto, depois de um tempo na redação, deixo-o guardado na gaveta (ou no arquivo do computador) para me distanciar do seu conteúdo e poder enxergar o que ainda não está bom. Quando eu não dou um tempo na revisão e fico relendo repetidamente, passo a não enxergar os erros de ortografia ou a falta de clareza em algum trecho.

Mesmo os objetivos mais grandiosos e arrojados precisam ser deixados de lado em alguns momentos.  Não pensar antes de agir é impulsividade. Não conseguir deixar uma ideia de lado é obsessão. Não saber se segurar é compulsão. Os sentimentos não suportam ter de controlar o incontrolável.

Há momentos em que a melhor opção é deixar o tempo passar, a cabeça esfriar e esperar que as contingências fiquem mais propícias para, então, se comportar. A despreocupação também faz parte do processo de atingir uma meta. É nos momentos em que nos desobrigamos a pensar somente na produtividade que conseguimos encontrar a criatividade para solucionar algum entrave ou pensar em algum acabamento alternativo. O excesso de preocupação só atrapalha, como me atrapalhou a afobação de querer ver o pão assado.

É num momento de despreocupação que a massa cresce. E pra fermentar uma ideia e transforma-la em realidade é preciso saber a hora de sovar a massa – agir – e a hora de descansar – dar espaço para que as coisas aconteçam ou se desenrolem.

Não sabe identificar qual é o momento certo de cada coisa? Faça um curso de padeiro. Além de aprender a fazer pães, descobrirá o que é ser padeiro das emoções.


 UM CAFÉ E A CONTA!
| Massa, recheio e cobertura precisam entrar em concordância. A cobertura não pode ser mais vaidosa do que a massa. O recheio não pode chamar mais a atenção do que a cobertura.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 03/08/2013, Edição Nº 1263. 

sábado, 20 de julho de 2013

Faço Bico Como Repositor

Arte de Weberson Santiago



Vivo fazendo um malabarismo para que os alimentos nunca acabem na hora errada. Não gosto de ser pego de surpresa descobrindo, na hora que eu iria comer, que alguma coisa acabou.

Se tenho pouco tempo disponível para ir ao supermercado, as poucas vezes que eu vou tem de garantir que nada vai faltar.

Menos do que meia caixa de litros de leite, e isso significa 6 litros, é a mesma coisa do que não ter leite. Um bocado para mim já é nada. Dois potes de iogurte é não ter iogurte. Três fatias de presunto é não ter frios na geladeira. Um naco de queijo fresco é o mesmo que não ter queijo.

Fico antecipando o fim, por medo de realmente faltar. Depois que substituí o que está acabando, aí sim me permito terminar com o resto.

Tem gente que acha que geladeira é um livro. Fica folheando as prateleiras para ver se encontra alguma vírgula para dar um tempo no que tem pra fazer. Eu não. Ao invés de procurar um lanche, percorro as páginas da geladeira procurando um espaço vazio entre os alimentos para preencher, uma reticência em três últimos grãos de uva passa que me suscite comprar mais uvas passas.

Busco inspiração nas lacunas da geladeira e procuro logo um bloquinho para fazer uma lista de compras poética e partir a preencher os vazios.

- 1 Kg de tomates desesperadamente vermelhos para virar molho.

- Um pedaço de queijo chique ou metido a besta para beliscar enquanto o jantar de sábado termina de se arrumar.

Alimentos mutilados em nome de uma vida saudável:

- 1 pacote de pão de forma integral light, 1 bandeja de iogurtes desnatados, 2 litros de leite de baixa lactose, 1 pacote de café descafeinado, 1 pacote de sal light que não salga.

Alimento saudável tem que sofrer da falta de algum ingrediente.

Se me incomodo com o que pode acabar, também fico impaciente com o excesso. Não gosto de ver restos de comida espalhados em potinhos plásticos pelos cantos do refrigerador. Por isso, vivo em busca da porção ideal para não sobrar, ou se a comida for muito gostosa, para servir duas refeições sem resto. O desperdício dói.

Conheço geladeiras que mais parecem uma reserva de mantimentos, pronta para enfrentar qualquer tipo de catástrofe. Se um meteoro cair na terra agora e a distribuição de alimentos cessar totalmente, este tipo de família sobrevive três meses com a comida acumulada no refrigerador.

Minha obsessão é evitar o fim e o excesso. A desculpa é manter o essencial.

Ter na geladeira o suficiente de cada coisa sem deixar faltar nada. Eu sei que ter escolhido essa missão não me faz o melhor provedor, nem é isso que me faz ser o marido mais fiel. Também não me torna o mais gentil dos cavalheiros ao respeitar o gosto das minhas meninas nas compras.

E por mais que eu tente não ser insosso trazendo uma coisa gostosa e diferente de vez em quando, pode ser que a mania da reposição seja cansativa, já que desde que eu me casei não permiti a solidão da margarina fazendo companhia à indiferença da água gelada.

De uma coisa eu não tenho dúvida. Se um dia a minha geladeira ficar vazia é porque eu desaprendi a ser família.

 UM CAFÉ E A CONTA!
|Mostre-me o conteúdo de sua geladeira e eu te direi quem você é.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 20/07/2013, Edição Nº 1261. 

sábado, 6 de julho de 2013

Amor de Circo

Arte de Augusto Amato Neto



João, o avô do Ricardo vivia repetindo a história de como começou seu casamento.

João conheceu Doralice quando tinha dez anos, nos idos dos anos 20. Ela tinha onze. Era a terceira vez que visitava o circo, mas no registro de sua memória aquela sempre foi a primeira. Na tradicional visita anual do Circo Ciconelli à cidadezinha do interior, João estava sentado na arquibancada de madeira com sua família, longe do picadeiro.

Foi quando Doralice e sua irmã Dorotéia foram anunciadas como malabaristas mirins que João ficou enfeitiçado pela menina de nariz e queixo finos e cabelos claros acinzentados, presos em um rabo de cavalo. Nem prestou atenção na habilidade de Doralice com as argolas, não conseguiu desviar do seu rosto nem quando o reflexo dos brilhantes do collant ofuscou sua vista.

João não esqueceu aquela cena, sonhava com a volta do circo, imaginava o reencontro. Só queria olhar para ela mais de perto. Passado um ano, quando soube que o Circo Ciconelli estava na cidade vizinha, João não conseguiu mais dormir, sonhava acordado.

No dia do espetáculo, colocou sua melhor roupa e saiu com o coração palpitando. O palhaço parecia sem graça, nem se impressionou com o domador brincando na boca do leão. Na hora que Doralice foi anunciada no tecido acrobático João chegou a se levantar. “Senta, João!” – disse a mãe – “Vai atrapalhar as pessoas da fileira de trás”. Os rendimentos da família haviam sido bons naquele ano, estavam todos nas cadeiras, na turma do gargarejo.

João ficou encantado ao vê-la entrar. Doralice, concentrada em seu número, dependurou no tecido e correu em volta do picadeiro até ser levantada. Em uma das decidas tecido abaixo, Doralice parou de ponta cabeça e levantou o tronco e o rosto contra a gravidade. Seu olhar se cruzou com o de João pela primeira vez, por dois segundos, e foi interrompido pelo próximo movimento.

No intervalo que divide o espetáculo na metade ela botou reparo no menino. Doralice ajudava os primos a vender pipoca. Zeca estourava o milho, Juca recebia e dava o troco, Dora enxia e entregava o saquinho. João e seu irmão, que haviam ganhado umas moedas da tia-avó, foram buscar pipoca para toda a família.

Pediram oito pacotes e o irmão de João deu o dinheiro. Dora entregou quatro pacotes para o irmão. João parou na frente dela e ela entregou o primeiro. João colocou junto à barriga, próximo ao cotovelo. Ao receber o segundo saquinho de Dora, tentou segurá-lo com o braço ao lado do primeiro, e acabou deixando-o cair no chão. Ela sorriu discretamente. João ficou sem pipoca, o irmão se recusou a dar-lhe um punhado. Nem se importou, tanta era a sua emoção de ter ficado frente a frente com Dora que a pipoca foi o de menos.

No ano seguinte, João ficou amigo dos primos de Doralice e conseguiu conversar com a menina. Ao mesmo tempo em que reencontrou o que sentia quando estava perto dela, descobriu o quanto a partida era doída. Um ano era tempo demais para rever o seu amor. Nem cartas podiam trocar, pois Dora não tinha endereço fixo. A única opção era esperar as quatro estações passarem.

Dora guardava numa caixinha o papel da bala que ganhou de João no segundo encontro. Para não perder a lembrança, revisitava em pensamento o dia em que ele derrubou a pipoca. Doralice se apaixonou por um detalhe do colarinho da camisa de João. A mãe dele havia bordado uma dupla de raquetes de tênis e uma bolinha na cor azul marinho. Enxergou naquilo uma promessa de virilidade.

Aos quatorze anos, João fugiu com o circo. Queria inverter. Achou melhor visitar a família uma vez por ano a ficar contando 364 dias para rever Doralice. Constituiu uma família circense com Dora.

Nos anos 60, viver do circo começou a ficar complicado. A televisão começou a se popularizar, as pessoas se tornaram mais caseiras e os circos mais vazios. O Circo Ciconelli entrou em decadência, parou de viajar e seus artistas ficaram desempregados em 1964.

João, que havia feito muitos amigos nas cidades onde passou, logo arrumou emprego na indústria e manteve a arte na vida de sua família se apresentando em um teatro da cidade.

Seu neto Ricardo nasceu quando a família já estava fixada na cidade. Na infância, ao ouvir a história de seus avós, pensava que teria sido mais feliz se vivesse viajando com o circo. Na adolescência, passou a achar a repetição da história de amor dos avós nas festas da família uma chatice.

Ricardo não acredita neste tipo de amor. Quando João e Dora resgatam sua história, Ricardo pega seu celular e entra na rede social. Cada perfil de mulher para ele é como um DVD na prateleira da locadora. Merece ocupar apenas algumas horas de seu final de semana. Cada aniversário está com uma namorada diferente. Um namoro começa no final do ano e termina antes do Carnaval.

No fundo, João e Dora repetem incansavelmente sua história porque não aceitam que os amores de uma vida inteira tenham morrido junto com o circo.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Antes de ser circo, é uma família. Antes de ser um espetáculo, é a vida.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p.4, 06/07/2013, Edição Nº 1259. 

sábado, 22 de junho de 2013

A Gula e A Quermesse

Arte de Weberson Santiago



Se Deus me desse a liberdade de retirar um pecado capital da lista, certamente escolheria a gula. Existem tantos pecados desumanos que poderiam entrar no lugar da gula. Uma atenciosa revisão consideraria que, não imperando a escassez de alimento, pudéssemos deixar de cometer um pecado ao exagerar na comida.

Não venho em defesa de causa própria, mas pela razão de muitos cristãos. Outro dia, saindo da missa pela lateral da igreja, dei de cara com a quermesse. Cada quadrado produzia e entregava um alimento delicioso. Há como resistir a todas aquelas iguarias ou como atender somente a necessidade do corpo ao se alimentar?

As cozinheiras de mão cheia são aquelas mães e avós que colecionam receitas desde a adolescência. Mulheres que são capazes de fazer comida pra duas ou duzentas pessoas, sem errar a mão no tempero. Eu não sou capaz de me conter. Me comporto como um cliente internado em um spa que é solto numa fábrica de chocolate.

Hoje a quermesse é uma praça de alimentação. É preciso circular uma vez por todos os balcões para ter certeza do que comprar. Tomo uma sopa e como um bauru ou peço um pastel e um espetinho? Aquela porção de frango à passarinho tá com uma cara boa... Tem o yakissoba também. E a panqueca, então? Carne, frango ou presunto e queijo. Vem com pão francês fatiado pra passar no molho.

E eu ainda não entrei na parte dos doces. Doces cristalizados, bolo de tudo que é sabor, com e sem recheio, rocambole, pudim, chocolate quente, brigadeiro gigante.

E tem o quentão pra quem é chegado num mé. Se mirar uma senhorinha de bochechas vermelhas não é o frio cortante, é o quentão fazendo efeito.

Pense comigo. É muita tentação. Na quermesse a gula é inevitável. Quem diz que frequenta a quermesse para ajudar a igreja é um duplo pecador. A mentira também é pecado.

Como meu passado me condena, tive uma recaída na comilança. Começou a quermesse, melhorou minha frequência na missa. Teve fim de semana que assisti a do sábado e a do domingo. Na saída, experimentava outro quitute. Para não ficar manjado como arroz doce de festa junina numa quermesse só, passei a variar de paróquia. Percorri toda a cidade e criei uma escala com as melhores sopas de cebola.

Comecei a avaliar as comidas e a postar no facebook uma nota e um comentário sobre o prato. Quando percebi, estava fazendo campanha viral para contribuir com o público da festa. Fiz propaganda do pecado, promovendo a esbórnia, e agora quero consertar tirando o pecado da lista. Não adianta, não tenho esse poder.

Ainda bem que entre uma quermesse e outra tem um ano inteiro para cumprir a minha penitência.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Quem muito come não chega a experimentar a fome.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p.4, 22/06/2013, Edição Nº 1257. 

sábado, 8 de junho de 2013

Pequenas Doses de Infância

Arte de Weberson Santiago



Natália, Anelise e eu jantando. Vou até a cozinha e volto carregando uma manga vermelha e soculenta. Ela olha e diz:
— Nossa, não acredito que essa é a sobremesa! – sua fruta predileta – Minha barriga tá até sonhando!
Aos cinco anos ela descobriu que a barriga sonha com a comida que a gente gosta chegando por lá. E o sonho da barriga é comer uma fruta docinha.
Beirando os trinta, eu já estou cansado de saber que a barriga também tem pesadelo: quando a gente come em excesso o alimento gostoso e proibido. O personagem do pesadelo não é o bicho papão, é o número da balança.
ef
Saindo para uma viagem de quinhentos quilômetros, após quinze minutos de viagem:
Anelise – Mãe, a gente já tá chegando?
Natália – Não Ane, ainda tem muita estrada pela frente.
Cinco minutos depois ela dorme. Depois de uma hora e meia de estrada, parando no posto:
Anelise – Mãe, a gente chegou?
Natália – Ainda não, vamos fazer um lanche.
Barriga cheia, pé na areia. Tanque no alto, roda no asfalto. Ela entra no carro e dorme de novo. Seis horas depois o GPS avisa que alcançamos o destino:
Natália – Acorda, Ane, já chegamos.
Anelise – Nossa, mãe, essa viagem foi muito rápida! Vocês falaram que ia demorar tanto...
ef
Anelise resolve testar o meu ciúme:
— Augusto, tem um menino da escola, que eu não sei que idade ele tem, que fica me olhando. O que você acha que ele quer?
— Ser seu amigo! – respondi.
— Mas ele olha com um sorriso diferente... Ele tá me paquerando! O que eu faço?
— Se ele ficar olhando, fala oi pra ele!
Observação nº 1: falei isso achando que o proibido é mais gostoso e que se ela falar oi, o menino sairá correndo, já que até na adolescência falta coragem, quem dirá na infância.
Observação nº 2: se alguém souber o endereço do menino, por favor envie no meu e-mail. Vou ter uma conversa séria com esse menino sobre uma distância de segurança, pra que ele preserve a sua própria vida.
ef
Tomando café da manhã, arrumando as coisas pra ir à escola:
Anelise - Augusto, quantos quilos você mede?
Augusto - Você quer saber quantos quilos eu peso? Peso é em quilos e altura é em metros. Quantos quilos eu peso? 77 Kg.
Ane - Nossa, quantos! Você está ficando velho...
Gusto - Não, Ane, eu peso 77 Kg, não tenho 77 anos.
Ane - É bastante! Desse jeito, logo você não vai conseguir passar na porta de tão grande.
Gusto - Bom, vamos pra escola, senão você vai chegar atrasada. A noite te explico a diferença de peso, altura e idade...

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Acompanhando o pensamento de uma criança descobrimos o quanto os adultos complicam as coisas simples.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 08/06/2013, Edição Nº 1255. 


sábado, 25 de maio de 2013

Alface Lisa em Crise

Arte de Augusto Amato Neto



A Alface Lisa está deprimida. Sua autoestima está mais baixa que pluviômetro na seca.

Perde-se em seu próprio pensamento lembrando-se de como eram as coisas há um século. A nostalgia de um passado em que ela era o único tipo de alface servida nas mesas brasileiras.

Durante os seus primeiros cinquenta anos reinou absoluta. Não sabia o que era a concorrência. Dividia o espaço nos canteiros com a acelga e a escarola, mas era a única que podia ser comida crua. Eleita a exclusividade em leveza e refrescância na salada servida nos trópicos.

Seu pesadelo começou na meia idade, quando chegou a Alface Crespa. Uma alface com estilo de cabelo de negão. Foi difícil aceitar o black power da hortense vizinha. A Alface Lisa não se conformava com o estilo crespo da prima distante. Era a novidade que toda dona de casa procurava para variar a entrada.

O incômodo nunca passou, mas o desespero veio depois da chegada da Alface Americana. Não teria como competir com a crocância da gringa. Nunca poderia fazer parte de uma Salada Ceasar, combinando com queijo, frango e molho da mesma forma que a Americana.

A Alface Lisa desejava ardentemente que o tempo voltasse. Queria que o Conga e o Bamba fossem os únicos tênis a serem vendidos nas lojas. Maldita globalização, pensava ela.

Tinha saudade de quando decorava o frango assado na prenda da quermesse. Impiedosa essa tal industrialização, comentava.

A desistência em forma de depressão tomou conta quando tomou conhecimento da Alface Romana, da Alface Mimosa e daquela Alface Roxa, que a Lisa apelidou de “tingida”. Não suportava cada vez que um consumidor analisava as variedades e escolhia outro tipo.

Sonhava com o dia em que alguma pesquisa científica descobrisse que todo tipo de Alface, com exceção da Lisa, fariam mal como a gordura trans. Assim, reconquistaria o lugar de outrora nos carrinhos de supermercado.

Para evitar chegar ao fundo do poço, pesou em fazer uma lipo para eliminar a flacidez. Doeu constatar que nem isso poderia, já que Alface não tem gordura. Pensou com uma amiga Lisa na ideia de fazer botox, para ver se ficava parecida com a americana. A amiga fez primeiro e ficou parecendo planta artificial. Achavam que ela era de plástico e também passavam reto.

Amargurada, a Alface Lisa pensou em suicídio. Iria se atirar ao sol do meio dia e murchar até morrer. Ficaria mais mole do que já é até secar. Quem sabe o sofrimento terminasse.

Faltou-lhe coragem.

Até que um dia, algum consumidor de gosto tradicional escolheu uma Alface Lisa e um pé de Almeirão e os colocou lado a lado no carrinho. Então, a Lisa descobriu que o Almeirão sentia a mesma coisa que ela em relação à Couve e à Escarola.

O sentimento de rejeição uniu a Alface Lisa ao Almeirão. Tendo um ao outro e dividindo os sentimentos, passaram a sofrer menos com a escolha do consumidor e a se comparar menos com as outras verduras.

Tranquilizador mesmo é descobrir que existe alguém que passa pela mesma coisa que a gente.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Se você descobrisse que os vegetais tem sentimento, continuaria a comê-los?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p.4, 22/05/2013, Edição Nº 1253. 

sábado, 11 de maio de 2013

Onde Está Doendo?

Arte de Weberson Santiago


Meu amigo Paulo reclamou de ter pegado um resfriado e, de brinde, uma dor de garganta. Disse que ficar doente atrapalha o cumprimento das obrigações do dia-a-dia, mas que o pior foi que adoeceu justamente quando chegou o fim de semana da sua viagem.

Adoecer, na maioria dos casos, é o resultado de ser exigido ao extremo, sem ter um tempo de recuperação entre as exigências.

Como um carro depois de percorrer um longo e sinuoso trajeto, com direito e subidas e descidas até o seu destino. Quando é que o carro dá sinais de desgaste?

Quando ele estaciona na garagem. É quando ele para que a ventoinha começa a girar para remediar o superaquecimento.

Não é durante o percurso por entre as adversidades que aparece a doença. Ainda que tenhamos que nos manter em primeira e segunda marcha por um bom tempo, ignoramos os primeiros sinais de desgaste para dar conta da jornada até o fim.

Assim aconteceu com o Paulo, que teve de lidar com muitas situações estressantes, e a oportunidade de descanso e lazer pareciam não chegar nunca. Como as contingências da sua vida não o permitiram parar, só pôde se contentar com a contagem regressiva para a viagem.

Quando as coisas se acalmaram e a viagem chegou, o organismo do Paulo arregou, superaqueceu. E seres-humanos não vêm com ventoinha de série.

Ninguém gosta de ficar doente, salvo alguém que apela para a barganha ou quer tirar alguma vantagem. A doença é um impedimento, um lembrete para mostrar que temos limites. Por outro lado, a doença é também uma proteção, um sinal que chegou a hora de parar e se cuidar.

Não é todo mundo que consegue identificar os motivos do adoecimento. É preciso de um bocado de sensibilidade, tempo e disposição para isso. A maioria prefere aliviar os sintomas com a medicação a entender os mecanismos e as causas do seu aparecimento.

Uma dor-de-cabeça pode ser dor-de-pensar. Pode ter a função de esquiva de alguns problemas nos dias em que estamos sem disposição para encará-los de frente. A cabeça dói.

Uma dor-de-barriga pode ser resultado de um forte medo do que esta por vir. Uma diarreia pode ser uma dificuldade em aceitar que não se tem controle do que acontece ao redor.

Uma dor-de-estômago pode ser dificuldade de digerir os acontecimentos. Repare como é difícil comer quando estamos brigados com quem estamos acostumados a tomar as refeições. É preciso estar relaxado para digerir. Caso contrário, a comida não desce, ou desce causando incômodo.

Uma dor nas costas pode ser falta de jogo de cintura. Travar as costas pode ser falta de flexibilidade. Sempre acompanhados por uma tensão muscular anterior ignorada. Na hora de um esforço de alongamento ou agachamento além dos limites do corpo, a lesão acontece.

A insônia pode ser uma compensação da inércia. Uma recusa do corpo em relaxar e descansar, resultado de ter se comportado ao contrário do contexto. Explico. Na hora de agir, ficou paralisado. De tanto esperar que as coisas se resolvessem por si só e, sabendo da própria responsabilidade, obriga-se a remoer os problemas na hora de repousar.

A doença, quando está nos outros, é o que de mais poético existe. A doença, da parte do doente, não é dele e não deveria estar nele.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Ignore a dor e espere que ela irá gritar.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p.4, 08/05/2013, Edição Nº 1251.