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sábado, 18 de outubro de 2014

Aniversários

Arte de Weberson Santiago



O que você faz no dia do seu aniversário? Você comemora ou prefere que a data passe batida?
O aniversário é o ano novo do calendário individual. O fim de um ciclo e o início de outro, embora muitas coisas continuem iguais após o aumento da idade.
Aprendemos a comemorar este dia especial com uma festa que reúne familiares e amigos em nossa própria casa ou em salões de festa. Geralmente comemos salgadinhos e cachorro-quente. Por último fazemos uma roda em volta de um bolo duplamente recheado e coberto, contornado por brigadeiros e outros docinhos para cantar a famosa música que deseja felicidades e vida longa. O aniversariante e sua família oferecem a festa e os convidados retribuem com presentes.
Essa é a prática cultural dominante e padrão de como passar por esta data. Por meio desta prática, crianças aprendem a comemorar os seus anos completos e contam os dias para receber os presentes. Mas será que este ritual faz sentido para um adulto?
Para muitos deles sim. A Natália, por exemplo, adora fazer a reunião em casa. Gosta da festa tradicional, com os comes e bebes clássicos, se deixarem distribui até chapeuzinhos.
Já este que lhes escreve não. Não gosto de comemorar aniversário fazendo a festa clássica em casa. Quando tive a oportunidade, tirei o dia para fazer uma viagem curta, almocei em um restaurante gostoso e voltei pra casa. Mas também já trabalhei o dia todo sem contar para ninguém que era o “grande dia”.
Não me sinto mal nesta data, gosto da sabedoria extraída das experiências que vem com o passar dos anos. Só não gosto de marcar uma reunião neste dia. Em períodos de finalização e recomeço, costumo ficar reflexivo e gosto de me recolher. Não me isolo por ser antissocial, mas por respeito aos meus próprios sentimentos. Não abro mão da companhia da Natália e da Anelise, mas as duas já bastam para que eu me sinta comemorando.
Provavelmente quem gosta de comemorar está me achando um chato. Quem também não gosta está se sentindo bem por não ser o único.
Quando alguém com quem convivo me diz que sua data está chegando, pergunto o que ele ou ela irá fazer. Se a resposta é uma dúvida, sempre digo a mesma coisa: faça o que você gosta, faça alguma coisa que lhe dê prazer. Afinal, é o seu dia! Comemore do jeito que lhe faz se sentir bem!
Só não vale fazer a festa e depois ficar reclamando da mancha da comida que o filho do convidado deixou cair no seu sofá. Ou ir dormir chorando por conta da troca de farpas que rolou entre os familiares que não se dão bem.
A festa tem que ser feita porque faz sentido para você e é assim que você quer comemorar, não porque você precisa fazer para agradar aos outros. Lembre-se: é o seu dia!
UM CAFÉ E A CONTA!
| Para vocês o aniversário é um dia especial ou um dia comum?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 18/10/2014, Edição Nº 1327.

sábado, 22 de junho de 2013

A Gula e A Quermesse

Arte de Weberson Santiago



Se Deus me desse a liberdade de retirar um pecado capital da lista, certamente escolheria a gula. Existem tantos pecados desumanos que poderiam entrar no lugar da gula. Uma atenciosa revisão consideraria que, não imperando a escassez de alimento, pudéssemos deixar de cometer um pecado ao exagerar na comida.

Não venho em defesa de causa própria, mas pela razão de muitos cristãos. Outro dia, saindo da missa pela lateral da igreja, dei de cara com a quermesse. Cada quadrado produzia e entregava um alimento delicioso. Há como resistir a todas aquelas iguarias ou como atender somente a necessidade do corpo ao se alimentar?

As cozinheiras de mão cheia são aquelas mães e avós que colecionam receitas desde a adolescência. Mulheres que são capazes de fazer comida pra duas ou duzentas pessoas, sem errar a mão no tempero. Eu não sou capaz de me conter. Me comporto como um cliente internado em um spa que é solto numa fábrica de chocolate.

Hoje a quermesse é uma praça de alimentação. É preciso circular uma vez por todos os balcões para ter certeza do que comprar. Tomo uma sopa e como um bauru ou peço um pastel e um espetinho? Aquela porção de frango à passarinho tá com uma cara boa... Tem o yakissoba também. E a panqueca, então? Carne, frango ou presunto e queijo. Vem com pão francês fatiado pra passar no molho.

E eu ainda não entrei na parte dos doces. Doces cristalizados, bolo de tudo que é sabor, com e sem recheio, rocambole, pudim, chocolate quente, brigadeiro gigante.

E tem o quentão pra quem é chegado num mé. Se mirar uma senhorinha de bochechas vermelhas não é o frio cortante, é o quentão fazendo efeito.

Pense comigo. É muita tentação. Na quermesse a gula é inevitável. Quem diz que frequenta a quermesse para ajudar a igreja é um duplo pecador. A mentira também é pecado.

Como meu passado me condena, tive uma recaída na comilança. Começou a quermesse, melhorou minha frequência na missa. Teve fim de semana que assisti a do sábado e a do domingo. Na saída, experimentava outro quitute. Para não ficar manjado como arroz doce de festa junina numa quermesse só, passei a variar de paróquia. Percorri toda a cidade e criei uma escala com as melhores sopas de cebola.

Comecei a avaliar as comidas e a postar no facebook uma nota e um comentário sobre o prato. Quando percebi, estava fazendo campanha viral para contribuir com o público da festa. Fiz propaganda do pecado, promovendo a esbórnia, e agora quero consertar tirando o pecado da lista. Não adianta, não tenho esse poder.

Ainda bem que entre uma quermesse e outra tem um ano inteiro para cumprir a minha penitência.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Quem muito come não chega a experimentar a fome.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p.4, 22/06/2013, Edição Nº 1257.