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sábado, 6 de julho de 2013

Amor de Circo

Arte de Augusto Amato Neto



João, o avô do Ricardo vivia repetindo a história de como começou seu casamento.

João conheceu Doralice quando tinha dez anos, nos idos dos anos 20. Ela tinha onze. Era a terceira vez que visitava o circo, mas no registro de sua memória aquela sempre foi a primeira. Na tradicional visita anual do Circo Ciconelli à cidadezinha do interior, João estava sentado na arquibancada de madeira com sua família, longe do picadeiro.

Foi quando Doralice e sua irmã Dorotéia foram anunciadas como malabaristas mirins que João ficou enfeitiçado pela menina de nariz e queixo finos e cabelos claros acinzentados, presos em um rabo de cavalo. Nem prestou atenção na habilidade de Doralice com as argolas, não conseguiu desviar do seu rosto nem quando o reflexo dos brilhantes do collant ofuscou sua vista.

João não esqueceu aquela cena, sonhava com a volta do circo, imaginava o reencontro. Só queria olhar para ela mais de perto. Passado um ano, quando soube que o Circo Ciconelli estava na cidade vizinha, João não conseguiu mais dormir, sonhava acordado.

No dia do espetáculo, colocou sua melhor roupa e saiu com o coração palpitando. O palhaço parecia sem graça, nem se impressionou com o domador brincando na boca do leão. Na hora que Doralice foi anunciada no tecido acrobático João chegou a se levantar. “Senta, João!” – disse a mãe – “Vai atrapalhar as pessoas da fileira de trás”. Os rendimentos da família haviam sido bons naquele ano, estavam todos nas cadeiras, na turma do gargarejo.

João ficou encantado ao vê-la entrar. Doralice, concentrada em seu número, dependurou no tecido e correu em volta do picadeiro até ser levantada. Em uma das decidas tecido abaixo, Doralice parou de ponta cabeça e levantou o tronco e o rosto contra a gravidade. Seu olhar se cruzou com o de João pela primeira vez, por dois segundos, e foi interrompido pelo próximo movimento.

No intervalo que divide o espetáculo na metade ela botou reparo no menino. Doralice ajudava os primos a vender pipoca. Zeca estourava o milho, Juca recebia e dava o troco, Dora enxia e entregava o saquinho. João e seu irmão, que haviam ganhado umas moedas da tia-avó, foram buscar pipoca para toda a família.

Pediram oito pacotes e o irmão de João deu o dinheiro. Dora entregou quatro pacotes para o irmão. João parou na frente dela e ela entregou o primeiro. João colocou junto à barriga, próximo ao cotovelo. Ao receber o segundo saquinho de Dora, tentou segurá-lo com o braço ao lado do primeiro, e acabou deixando-o cair no chão. Ela sorriu discretamente. João ficou sem pipoca, o irmão se recusou a dar-lhe um punhado. Nem se importou, tanta era a sua emoção de ter ficado frente a frente com Dora que a pipoca foi o de menos.

No ano seguinte, João ficou amigo dos primos de Doralice e conseguiu conversar com a menina. Ao mesmo tempo em que reencontrou o que sentia quando estava perto dela, descobriu o quanto a partida era doída. Um ano era tempo demais para rever o seu amor. Nem cartas podiam trocar, pois Dora não tinha endereço fixo. A única opção era esperar as quatro estações passarem.

Dora guardava numa caixinha o papel da bala que ganhou de João no segundo encontro. Para não perder a lembrança, revisitava em pensamento o dia em que ele derrubou a pipoca. Doralice se apaixonou por um detalhe do colarinho da camisa de João. A mãe dele havia bordado uma dupla de raquetes de tênis e uma bolinha na cor azul marinho. Enxergou naquilo uma promessa de virilidade.

Aos quatorze anos, João fugiu com o circo. Queria inverter. Achou melhor visitar a família uma vez por ano a ficar contando 364 dias para rever Doralice. Constituiu uma família circense com Dora.

Nos anos 60, viver do circo começou a ficar complicado. A televisão começou a se popularizar, as pessoas se tornaram mais caseiras e os circos mais vazios. O Circo Ciconelli entrou em decadência, parou de viajar e seus artistas ficaram desempregados em 1964.

João, que havia feito muitos amigos nas cidades onde passou, logo arrumou emprego na indústria e manteve a arte na vida de sua família se apresentando em um teatro da cidade.

Seu neto Ricardo nasceu quando a família já estava fixada na cidade. Na infância, ao ouvir a história de seus avós, pensava que teria sido mais feliz se vivesse viajando com o circo. Na adolescência, passou a achar a repetição da história de amor dos avós nas festas da família uma chatice.

Ricardo não acredita neste tipo de amor. Quando João e Dora resgatam sua história, Ricardo pega seu celular e entra na rede social. Cada perfil de mulher para ele é como um DVD na prateleira da locadora. Merece ocupar apenas algumas horas de seu final de semana. Cada aniversário está com uma namorada diferente. Um namoro começa no final do ano e termina antes do Carnaval.

No fundo, João e Dora repetem incansavelmente sua história porque não aceitam que os amores de uma vida inteira tenham morrido junto com o circo.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Antes de ser circo, é uma família. Antes de ser um espetáculo, é a vida.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p.4, 06/07/2013, Edição Nº 1259. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Admiração Está Nos Olhos de Quem Vê

Arte de Weberson Santiago



Quando ela me vê descobrindo as coisas e os lugares da cidade, admira a minha capacidade de encontrar as novidades que estão escondidas nos percursos de sempre. Enxerga um desbravador de oceanos em busca do novo continente onde existe apenas um curioso.

Quando ele me vê trabalhando por muitos dias seguidos sem folga, admira a minha capacidade de encontrar forças onde deveria faltar disposição. Avista uma mulher de super poderes onde está apenas uma pessoa que batalha muito para conquistar o suficiente.

Quando ela me vê trazendo um objeto novo para uso de toda a família, acredita que se eu quisesse seria capaz de fazer um calendário de surpresas diárias.

Quando ele me vê cuidando de casa, me diz que as coisas que eu fiz e os lugares que passei sorriem com semblante de felicidade.

Quando ela me vê cuidando das plantas, imagina que vai receber o carinho das pétalas.

Quando ele me vê cozinhando, pensa que vai lamber o prato.

Quando ela me vê quieto, emudecido, fica tentando entender o silêncio. E com o passar dos anos, ficou boa em acertar o que me entristeceu.

Quando ele me vê cansada, me sugere um banho. Sabe que eu vou me sentir nova ao sair da ducha.

Quando ela me vê produzindo, diz que ninguém é mais criativo do que eu.

Quando ele me vê trabalhando, se esconde para ficar olhando minha maneira de interagir. Ele sorri quando lhe pego me olhando. Como quem estava contente em espiar e fica decepcionado em ser descoberto.

Quando ela acorda depois de uma noite de sexo, fica mais bonita. E ouve das pessoas naquele dia que está mais bonita.

Quando ele dorme depois do sexo descobre que o sexo continua nos sonhos.

Quando ela me vê entrando em casa carregando o pão junto ao peito, ao invés de segurar o saco dependurado, pensa que eu só poderia ser um ótimo pai.

Quando ele me vê cortando o mamão em metades, pensa que retirar as sementes e levar os dois pratos à mesa é o sinal de um verdadeiro encontro.

Quando ela me vê de olhos cansados, imagina que é um sorriso de ponta cabeça.

Quando ele me vê de olhos marejados, fica enxugando as lágrimas que escorrem para formar uma poça de esperança. Encharca os dedos indicadores para secá-los apontando as perspectivas.

Amar é não ser cego para o dia a dia. É ver nos olhos de quem se ama quais são seus próprios sentimentos.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O sol de quem ama nasce na luz dos olhos do seu amado. O céu de quem ama está no contorno dos olhos enamorados.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 02/02/2013, Edição Nº 1237. 

domingo, 26 de setembro de 2010

O AMOR É POUPANÇA E NÃO JOGO DE AZAR

Durante algum tempo pensei que amor era jogo de azar. Vivia esperando a grande oportunidade. A cartada certeira na rodada que me garantiria uma relação feliz e duradoura. Quando percebia a oportunidade fazia um baita investimento, punha largas expectativas e me enganava acreditando que a minha vontade era mais do que o suficiente para provar o quando meus sentimentos eram fortes e para convencê-la de que estar ao meu lado era esbanjar alegrias no futuro.

Tudo isso até aprender, à duras penas, que o amor não é investimento de risco. Não é o tamanho do montante que dispomos inicialmente que determinará seu lugar no infinito. Amor é como poupança. Começa sem exigir valor mínimo de depósito e não promete facilidades em multiplicar a moeda. Quem poupa esperando rendimento se decepciona. Acompanhar obsessivamente os ganhos é garantia de frustração. É preciso dar espaço e tempo para poder render. O sentimento do encontro deve ser vivido, as lembranças das sutilezas merecem ocupar espaço nos devaneios, mas o amor não suporta viver de débitos e sobrevive com a concessão de créditos. Os juros desta conta estão no futuro, o investimento está no presente.

Chegava para mais uma sessão da terapia. Adentrava a sala de espera com as mãos ocupadas com papéis, carteira, chave do carro e celular. O velho hábito de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Fui pegar um café e perdi o equilíbrio como um malabarista iniciante. O café caiu na minha camisa e no chão com os objetos, evento seguido pelos olhares dos pacientes que aguardavam.

Saí em direção ao banheiro, peguei papel para limpar o chão e molhei a camisa na esperança de amenizar a mancha. Olho no espelho e vejo que, além da mancha, minha camisa estava com problema de alagamento. “Seca” - pensei. Voltei pro meu lugar no sofá como se nada tivesse acontecido, quando olhei e a peguei sorrindo. Ela tratou de disfarçar. O interesse não combina com olhar fixo, mas o olhar desviado é reincidente. Não era um sorriso de chacota, mas de quem havia acompanhado toda a cena e concluía algo a meu respeito. Foi ao vê-la ser chamada que descobri que ela buscava alívio para o desconforto na fisioterapia, enquanto eu buscava o conforto na psicoterapia.

Naquele dia tratei de outros assuntos com o terapeuta, mas aquele sorriso não saía da minha cabeça. Não saiu durante a semana inteira, assim como a ideia de encontrá-la na sessão seguinte e do medo da não repetição do encontro. Chegado o dia, não a vejo ao entrar e a decepção toma conta. De repente havia mudado de horário ou recebido alta. Para minha surpresa, ela chega após alguns minutos, mas ao mesmo tempo em que eu sou chamado para entrar. E ali, durante alguns segundos a gente se olhou com o interesse de algumas horas, sem que ninguém percebesse. Com algumas desviadas de olhar demonstramos alegria e constrangimento.

Na semana seguinte, nos encontramos chegando do lado de fora, quando nos apresentamos e começamos a conversar. Este passou a ser também o espaço para nossas esbarradas semanais. Passamos a chegar mais cedo para um pouco de papo, descobrindo um pouco mais um do outro. Queríamos a conversa e a disponibilidade para o encontro foi sendo naturalmente maior. Lembrávamos-nos da história do café e caíamos na risada. Ela se apaixonou pela minha disposição para consertar a besteira e pela minha indiferença com uma tentativa frustrada. Eu me apaixonei pelo seu sorriso divertido diante das minhas trapalhadas e pela ingenuidade madura de seu olhar.

Ensaiei algumas sessões para contar ao meu terapeuta esta história até o dia em que percebi o detalhe ignorado durante um ano frequentando o consultório. Uma frase do Mario Quintana em adesivo acima do batente da porta de saída do corredor. “O segredo não é correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Concluí que tem questões pessoais que não precisam ser abordadas em terapia para serem trabalhadas.

Continuamos adeptos da fisioterapia e da psicoterapia, mas o alívio para o desconforto dela e para a minha necessidade de conforto foram resolvidos na sala de espera.