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sábado, 6 de agosto de 2016

A Primeira Pipa

Foto de Augusto Amato Neto



Anelise chegou da escola preocupada naquela segunda-feira que antecedia o Dia dos Pais. No caminho da escola para casa dividiu com a Natália a sua preocupação. Contou que a professora havia lhe dado apenas um papel para desenhar o pai e que seria entregue no dia da comemoração de dia dos pais da escola.
Ela considera que tem dois pais: o pai biológico e eu, o de consideração por estar com a Natália desde que ela era pequenininha. Mesmo que a Natália tenha enviado o valor referente ao pagamento dos dois pais cerca de dois meses antes do ocorrido, a professora não aceitou a alegação da Anelise:
- Mas eu tenho dois pais! – disse ela.
- É que só pode um! – respondeu a professora.
Anelise estava preocupada pois havia convidado os dois e um de nós ficaria sem cartão. Para acalmá-la emergencialmente enquanto a Natália e eu pensávamos em como iríamos resolver o problema, disse que poderia ficar sem, que eu não me importaria de que só o pai Alex recebesse o desenho. Não adiantou muito, ela continuou insatisfeita.
Há cinco anos estudando na mesma escola, sempre vamos os dois na festa de dia dos pais e nunca tínhamos passado por um problema deste tipo. A Natália escreveu um bilhete muito educado para a professora, mesmo que tenhamos nos sentido agredidos pela desconsideração de que nossa família é assim e funciona assim, buscando conviver em harmonia por conta da pequena.
Embora tenhamos ficado incomodados também pela frieza com que a reinvindicação da Anelise de mais um papel para desenhar o outro pai tenha sido recebida, resolvemos ser práticos e objetivos. Natália escreveu que havia mandado o dinheiro e pediu se ela poderia fazer o favor de entregar outro papel para a Anelise pintar. Na terça, a professora lhe entregou outro cartão depois de confirmar o pagamento na secretaria. A Anelise ficou tão feliz que levou uma bolinha de gude de sua coleção de presente no dia seguinte para a sua professora.
Então, chegou o sábado e a comemoração do Dia dos Pais da escola. Nos encontramos na quadra da escola às dez da manhã. Cada pai deveria trazer um brinquedo para interagir com o filho e cada pai ganhou um kit piquenique para ele e a criança. A maioria trouxe uma bola. Eu, que nunca havia empinado uma pipa na infância, providenciei uma. Assisti um tutorial no youtube sobre como fazer o cabresto e o fiz, mas não me atentei e fiz no lado contrário, verso branco do papel. O Alex corrigiu. O professor de Educação Física fez um alongamento e saímos em direção ao clube, onde poderíamos brincar.
Fomos conversando. Anelise era a única criança da escola acompanhada por dois pais. Embora muitas crianças da escola vivam a mesma coisa que a Anelise, apenas um acompanhava a criança: ou o pai biológico ou o atual marido da mãe. A Anelise quis comer assim que chegou.
Tivemos a sorte do clima ter sido favorável: um belo dia de sol e vento suficiente para empinar a pipa. Como eu nunca havia soltado uma, me coloquei na posição de aprendiz e deixei que o Alex ensinasse a técnica.
A felicidade da Ane foi a melhor parte do passeio. Como ela ficou radiante, na primeira vez que soltou uma pipa, em ver a sua lá no alto e de estar acompanhada por duas pessoas que ela ama. O passeio estava tão agradável que ela quis comer mais, sentamos no quiosque de novo e ficamos jogando conversa fora. Quando olhamos ao redor, eramos só nós três. A comemoração terminava onze e meia e já era quase meio dia.
No fim, tudo deu certo. Percebi que vale a pena deixar o orgulho, a vergonha e o medo de lado para fazer o que é melhor para a Anelise. A primeira pipa, a gente nunca esquece.

UM CAFÉ E A CONTA!
| A escola ainda tem dificuldade de aceitar o diferente, mas com jeito, o diferente cabe.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 06/08/2016, Edição Nº 1419.


sábado, 9 de julho de 2016

Você Me Mata de Vergonha!

Arte de Weberson Santiago




Estávamos em casa recebendo um casal de amigos para o jantar. Anelise se arrumava para ir ao aniversário de uma de suas duas melhores amigas. A toda hora ela nos perguntava que horas eram, pois não queria chegar atrasada na festa e perder algum momento importante.
Quando deu a hora, saímos o meu amigo e eu para leva-la até a chácara onde aconteceria o aniversário. Seguimos o mapa que veio com o convite, entramos na estrada de terra e chegamos até o local. Eu desci do carro e perguntei ao pai que esperava na porta:
— Aqui é o aniversário da Júlia?
Sem deixar o pai da aniversariante responder, a Anelise disse:
— Que, Júlia, pai? É Carol! – esbravejou enquanto levava a mão até o rosto como quem passava pelo maior vexame da sua vida, aos sete anos.
O pai da aniversariante, segurando uma long neck de cerveja enquanto recepcionava os convidados da filha, deu risada da situação.
Eu tratei de entrar no carro e dar no pé, fiquei com vergonha do furo e com medo de ter estragado a sua festa. Eu que me achava o máximo por saber o nome de seus programas preferidos, cantores e das suas duas melhores amigas, acabei por inverter o nome delas no dia do aniversário.
Quando nós voltamos ao nosso jantar em casa, o relato do furo foi motivo de risadas. Mas a minha vergonha de mim mesmo só passou quando ela voltou feliz e contente da festa.
Então eu fiquei pensando se é possível educar um filho sem lhe fazer ficar envergonhado com alguma atitude de seus pais. Foi quando me lembrei de outra situação. Quando vou leva-la à escola, costumo colocar uma música que gosto e ir cantando no caminho. Ela costuma me acompanhar no canto, mas conforme vai chegando perto da escola e eu estou empolgado com o refrão, ela me pede para parar de cantar.
— Para pai, senão alguém vai pensar que você é louco e eu vou morrer de vergonha!
— Tá bom...
Ainda não cheguei naquela fase em que o filho pede para deixar numa esquina antes ou a dois quarteirões da escola.
Eu não me importo que ela tenha vergonha da minha aparência ou do nosso carro, porque ela está comparando o que ela tem com que os outros tem. Está construindo sua identidade e experimentando quem é ou gostaria de ser. Isto envolve admirar alguns modelos e rejeitar outros modelos. Quem nunca pensou que seus problemas estariam resolvidos se tivesse nascido em outra família?
O que eu não suportaria é que ela tivesse vergonha de mim pela minha falta de caráter ou pela minha desonestidade. Quando a isso, dou o exemplo. Do resto, sem querer vou lhe dando pequenos bons motivos para se envergonhar.
UM CAFÉ E A CONTA!
| O que te envergonha na infância um dia pode ser motivo de orgulho.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 09/07/2016, Edição Nº 1415.

sábado, 8 de agosto de 2015

Minha Filha Arrumou um Namorado

Arte de Weberson Santiago



Minha menina completou quinze anos. Não é mais uma criança, não é mais a minha menina. A mãe dela me fez gastar um dinheirão na festa de quinze anos. Disse que era um sonho de nossa filha. Dizem que a festa de quinze anos marca uma passagem: de quando a menina vira mulher.
Eu não quero que ela se torne uma mulher. Eu quero que ela seja sempre a minha menina. O problema dela não ser mais minha menina começou com o fato de eu ter deixado de ser o homem mais importante da vida dela. Desde que ela conheceu aquele branquelo de aparelho, meu reinado ficou abalado. Antes, quando eu parava o carro na garagem, depois de um dia inteiro de trabalho, ela vinha me dar um abraço. Nem o dia mais infernal amarrava minha cara o suficiente para que eu não me derretesse quando ela saia de trás da porta, ou do sofá e corria para agarrar a minha perna e, com o passar do tempo, a minha cintura.
Agora, ela só pensa nele, só fala no whatsapp com ele e só suspira por ele. Eu abro a porta e me deparo com a sua ausência. Tudo bem que a Jessie que me espera abanando o rabo, mas não é a mesma coisa. Se eu vou atrás dela, abro a porta do quarto – que vive fechada – e ela está lá: no computador ou no celular falando com aquele Zé Ruela.
Eu finjo que eu não ligo, tendo transparecer indiferença, mas no fundo queria fazer uma visitinha pro menino e resolver essa história de uma vez por todas. “Que pena! Morreu engasgado com um chiclete preso no aparelho”, eu diria calma e friamente. Pelo menos acabaria com aquela cena de todo domingo: ele comendo lasanha e frango assado sentado na minha frente. Não sabe nem limpar a boca quando come e quer namorar a minha filha.
Ainda bem que a Natália sabe intermediar a relação. Me convenceu de que bancar a melhor amiga é ter acesso a intimidade. Eu não posso nem pensar nessa palavra – in-ti-mi-da-de – sem que seja tomado por uma dor fulminante no meu peito. Só de pensar na mão daquele moleque-branquelo-babão na perna da minha princesinha, eu quase tenho um infarto.
Aquela perna era só minha e era tão pequeninha que eu segurava com as minhas duas mãos – que praticamente davam as voltas nas suas coxas – e a colocava em meus ombros. E enquanto eu segurava suas pernas por segurança, os bracinhos dela davam a volta em minha cabeça. E eu lhe apresentava o mundo de um ponto de vista mais alto, onde ela, sozinha não poderia enxergar.
Foto do Arquivo Pessoal
Como seria bom se o tempo pudesse voltar, se ela pudesse encolher ao invés de crescer. Aquele cheiro de bebê, que durou até os três anos, foi um dos melhores cheiros que eu senti em toda a minha vida. E agora tem um banana pendurado no cangote dela.
Não adianta falar que eu estou exagerando, que eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer. Sim, eu tive alguns medos repentinos de ter de dividir minha princesa desde que ela tinha sete anos, mas eu pensava e lhe dizia que só poderia acontecer lá pelos vinte e cinco anos de idade, e não aos quatorze.
Só quem é pai de menina entende o que eu estou passando. Cheguei ao máximo da pieguice semana passada, quando terminado o expediente, deixei todo mundo ir embora e abri um vídeo em que ela cantava pra mim, aos quatro anos, aquela música gravada pela Adriana Calcanhoto: “Avião sem asa, fogueira sem brasa, sou eu assim sem você. Futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola, sou eu assim sem você. (...) Tô louca pra te ver chegar, tô louca pra te ter nas mãos. Deitar no teu abraço, retomar o pedaço que falta no meu coração. Eu não existo longe de você, e a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas pra poder te ver, mas o relógio tá de mal comigo. Por quê? Por quê?”
E chorava um monte, feito uma criança...
Ela virando mulher e eu voltando a ser uma criança que não sabe dividir o brinquedo.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Feliz Dia dos Pais ao pai do bezerrão branquelo. Espero que não fique ofendido pelos adjetivos que usei para seu filho. Se estivesse no seu lugar, também daria uns tapas nas costas dele por ele estar ficando com uma garota tão linda como ela.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 07/08/2015, Edição Nº 1367.