sábado, 17 de outubro de 2015

O Banco na Frente da Casa

Arte de Weberson Santiago


No meio da minha correria de dias úteis avistei um senhor sentado em um banco fixo na frente de sua casa. Ele conversava com outro senhor, que estava de pé ao seu lado. Me deu uma inveja daquele senhor sentado em seu banco vendo a vida passar.
Naquela hora, resgatei a vontade que tive em outras situações de colocar um banco na fachada da minha casa. Imaginava que, colocando o banco, aumentaria a probabilidade de que eu e minha família passássemos a sentar e conversar na porta de nossa casa.
Não fui adiante porque pensava que aquele banco vazio seria um convite para que estranhos se sentassem na frente da minha casa. Temia que meu portão virasse ponto de ônibus. Não saberia pedir licença para um abusado que o ocupasse diariamente por medo de parecer discriminatório. Se não queria convidar as bundas, era melhor que não colocasse o assento. E desistia dessa ideia.
É impressionante como ainda vejo pessoas com esse hábito. Na minha rua mesmo tem quem coloque aquelas cadeiras brancas de plástico na calçada todos os dias. Nas duas cidades que trabalho, no caminho de um compromisso ao outro me deparo com diversos bancos pelas calçadas. Tem aquele típico banco de praça feito de concreto em moldes. Tem banco de ripa de madeira. Tem tronco de árvore serrado. Tem até de alvenaria.
Quando não existia a televisão, quando o rádio era coisa de grã-fino, as notícias corriam à boca pequena nos bancos de praça e nas cadeiras espalhadas pelas calçadas. O costume parece estar longe de morrer, ainda que as novas gerações não consigam fazer uso deste espaço. Como a minha própria geração.
Aquela inveja do senhor sentado foi uma vontade – controlável – de largar todos os meus compromissos de lado e ficar lá sentado, pensando, contemplando, observando o movimento dos outros. Era a vontade de parar um pouco no meio da correria. Mas a verdade é que este sentimento de inveja durou pouco.
Mesmo em meus dias de folga eu não costumo parar muito. Não me vejo parado e sentado por muito tempo. Outro dia resolvi sentar na calçada. Logo fiquei entediado procurando alguma coisa pra fazer. Comecei a retirar folhas secas dos pés e as folhas velhas das plantas.
Percebi que já me acostumei a pensar enquanto estou em movimento, a planejar enquanto estou me deslocando entre um compromisso e outro, a entender meus sentimentos durante a correria.
Definitivamente o banco não é para todas as fachadas. Enquanto uns gostam de ver a vida passar estando parados, outros gostam de ver a vida passar em movimento. O importante é escolher o ponto de vista que você quer ver a vida e ser satisfeito com ele.

UM CAFÉ E A CONTA!
| É uma questão de órbita. Ou você espera que o mundo gire ao seu redor. Ou você corre para cumprir sua trajetória.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 17/10/2015, Edição Nº 1377.

sábado, 3 de outubro de 2015

O Chamado do Nome

 Jornal da Cidade , Mococa/SP, edição de 12/06/1983



O nome que recebemos de nossos pais é carregado de significado e pode revelar a expectativa daquele que me nomeou para a minha vida. Por mais que possa parecer que a escolha é despretensiosa, ela vem carregada de ideias, imagens, sentimentos e pensamentos.
O nome pode ser, também, uma homenagem a alguém que marcou a história de um dos pais. Já ouvi falar de pessoas que homenagearam seu filho com o nome daquele que ajudou em um momento difícil. Também é comum vermos o nome expressar a superação de algum risco de vida, como quando adicionam Vitória ao nome da filha, por exemplo.
No meu caso, o meu nome é uma homenagem ao meu avô e, ao mesmo tempo, ao meu pai. Nós três temos o mesmo nome. Augusto Amato, Augusto Amato Junior e Augusto Amato Neto. Além de homenagear o meu avô, é uma maneira de continuidade e de tradição.
As comparações de similaridade começaram cedo. Na adolescência uma professora de português disse que havia puxado ao meu avô quando me devolveu uma redação. Meu avô foi Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Mococa há algumas décadas e seus discursos eram publicados pelo jornal da cidade na época, e eram muito elogiados. A oratória sempre foi um diferencial de meu avô. Discursava sobre política, economia e sobre o sentido da vida para casais em cursilhos. Quando comecei a dar palestras e entrevistas como Psicólogo, muitas vezes ouvi que falava bem em público como o meu avô.
Semelhanças à parte, devo confessar que em muitos momentos senti um grande peso por ter este nome. Meu avô teve uma trajetória de vida brilhante. Uma carreira invejável, repleta de conquistas. Resultado de muita dedicação, persistência, paciência e parcimônia. Ser Augusto Amato, em alguns momentos, me fazia sentir que tinha a obrigação de, no mínimo, fazer o mesmo, senão melhor do que ele fez.
Demorou para que eu percebesse que eu não precisaria fazer tudo igual. Embora cada nova geração de Augusto carregue algumas características da anterior, outras características não são – e que bom que não precisam ser – as mesmas. A singularidade é permitida, apesar no nome ser igual.
Dia desses, procurava um documento para meu avô em meio aos seus guardados quando identifiquei um envelope de papel pardo com uma etiqueta branca manuscrita por ele: “Currículo Augusto Amato e Nascimento Augusto Amato Neto”. Quando abri, encontrei um recorte de jornal que ele guardou para mim pouco tempo depois de meu nascimento. Uma página do Jornal da Cidade de Mococa publicado em 12 de junho de 1983 – eu nasci dia 30 de maio de 1983. Nela, o médico Dr. Aloysio Taliberti profetizou o meu encontro com este recorte de jornal. Com a sua sensibilidade e, tomado pelas emoções da grande amizade com meu avô, ele sintetizou a grande responsabilidade que carrego no meu nome e colocou a expectativa de que eu “faça mais bonito” do que fez o meu avô. Terminei a leitura com os olhos marejados, foi emocionante.
O amigo Aloysio me fez entender que a beleza de se ter o mesmo nome que o avô não está em repetir a mesma vida. A beleza é que o nome possa continuar vivo em uma vida nova e diferente.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Todo nome esconde uma missão, definida por quem o escolheu.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 29/09/2015, Edição Nº 1375.

sábado, 19 de setembro de 2015

Memória Acorrentada

Arte de Weberson Santiago


Há alguns anos atrás, alguém se incomodou com a corrente que perfurava a grande árvore e a prendia ao muro na Ladeira da Memória, centro da cidade de São Paulo. Já se vai muito tempo desde 1888 e só agora a escravatura do espécime Ficus organensis vem a ser questionada. A princesa Isabel do século XXI a favor da liberdade da natureza foi Cristina Moreno de Castro, jornalista que questionou a corrente no impresso Folha de São Paulo.
Localizada em meio a monumentos no vale do Anhangabaú, ironicamente ninguém na Ladeira da Memória é capaz de resgatar o motivo da colocação dos grilhões que impedem, há mais de vinte anos, a fuga da árvore da Rua Xavier de Toledo. Juntamente com o obelisco, a escadaria e o chafariz, a árvore de quinze metros de altura faz parte do largo que foi inaugurado em 1814 e é patrimônio histórico tombado.
Foto: Dornicke
Caixa de texto: Foto: DornickeNem os mais antigos da região sabem da história daquela corrente, que timidamente venho contar aqui. No começo do século XIX, na Rua Palha, hoje Sete de Abril, o governo encarregou o engenheiro Daniel Pedro Müller da construção da Estrada do Piques para facilitar a comunicação de São Paulo com o Interior. Além da Estrada do Piques, Müller propôs a formação do Largo da Memória com o alargamento das ladeiras do Piques e da Palha e a construção de um chafariz, tudo complementado por um obelisco “à memória do zelo do bem público”.
Neste tempo em que a cidade era um amontoado de casas de taipa de pilão, o português Pedro Luiz de Souza Machado foi um dos que veio com o grupo dos jesuítas para desbravar as terras brasileiras. Quando passaram por São Paulo, parte do grupo se encantou com o clima fresco semelhante ao europeu e fundaram o Real Collegio, grupo do qual fazia parte Souza Machado. O engenheiro Müller contou com a disposição de nobres Senhores da época para a construção do Largo da Memória. Souza Machado inclusive cedeu escravos para trabalhar para o mestre pedreiro Vicente Gomes Pereira, subordinado de Müller.
Por decreto de 08 e carta de 13 de Fevereiro de 1812, Souza Machado teve a concessão do título de Conde de Lousada, como ficou conhecido na cidade desde então. A obra de pedra de cantaria constituía o obelisco de onde emergia de uma bacia de alvenaria com grades de ferro, que servia como reservatório da água. Muitos viajantes cruzavam a Ladeira para encher os cantis em uma bica e prosseguir o trajeto. Numa das tardes no Largo, o Conde de Lousada pressionava o lenço contra a testa enquanto avistou de longe uma jovem dimanada na lomba de um burro. Transporte típico da época, a dama de companhia que conduzia o quadrúpede parou para lhe dar água na Ladeira. Olhares tergiversos provocaram as mais sublimes sensações no Conde e na jovem. Era Leonora de Melo Guimarães, filha de portugueses que se tornaram cafeeiros e nos primeiros anos do século seguinte ocuparam a Avenida Paulista, a primeira via planejada da capital.
No fluxo das pessoas pelo Largo da Memória, galanteios e gracejos aproximaram o Conde cinquentenário da jovem Leonora. Na véspera da inauguração do alargamento da Estrada do Piques e dos monumentos de pedra que constituíram o Largo da Memória, na presença de Müller, de Gomes Pereira, do Conde de Lousada, de Leonora, de um grupo de escravos e de alguns transeuntes foi plantada a figueira. No dia seguinte, 12 de Outubro de 1814, autoridades do governo inauguraram a obra em uma solenidade oficial. O pedido de casamento do Conde para o pai de Leonora se deu alguns meses depois e o casamento foi sacramentado por Dom Mateus de Abreu Pereira em 11 de Outubro de 1815, um ano após o plantio da Ficus, na Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, localizada na Rua do Carmo. Em 1816, nasceu o primeiro filho, batizado com o nome do pai.
Foto: Felix Lima/Folhapres
Acontece que Leonora considerava enfadonha a vida de Condessa e não demorou a se envolver em um caso perigoso. Encantou-se com os rituais Iorubás, realizados pelos escravos e que frequentava quando o Conde estava fora de casa. Acabou por envolver-se com um escravo, com o qual se encontrava às escondidas. O Conde de Lousada, desconfiado, colocou um capanga no encalço da amada. Quando se percebeu na iminência de ser descoberta e sob o pretexto de sua vida monótona, lhe seduziu e partiu com o jagunço que deveria constatar a traição, tendo levado consigo parte do dinheiro do Conde.
A tardia entrega ao amor fez com que a traição consternasse a consciência de Pedro Luiz, o Conde de Lousada. Desgostoso da própria vida e da ingratidão de sua "Nôra", encaminhou o filho para estudar em um colégio interno. Sentia fortes dores de cabeça todos os dias, sem encontrar alguma maneira de se sentir melhor. Num momento de desespero, enquanto uma escrava lhe punha compressas de água morna na testa, levantou-se repentinamente, reuniu os escravos do lado de fora da casa e mandou que eles, os únicos que lhe foram fiéis, acorrentassem a figueira com os grilhões do porão, na tentativa de livrar-se das correntes de sua memória, que lhe apertavam a cabeça e foram responsáveis pelo seu adoecimento e depois pela sua morte.
Homem influente na sociedade paulistana da época, seus amigos se encarregaram de aumentar os elos da corrente a cada ano, para que a árvore pudesse crescer sadia. Durante um século e meio, o governo municipal de São Paulo interpretou as correntes como uma necessidade de segurança para que a árvore se mantivesse de pé. No meio do Regime Militar Brasileiro, por volta de 1970, a corrente parou de ser trocada e a árvore continuou a crescer em espessura, englobando internamente parte da corrente. Como num grito de liberdade da árvore, recentemente um dos lados da corrente se rompeu e perdeu a função inicial.
Após uma vistoria técnica nos primeiros dias de 2011, a figueira centenária do largo da Memória foi finalmente libertada. As correntes que a prenderam por décadas ao muro da Xavier de Toledo foram cortadas por técnicos da Prefeitura. Ela não tinha risco de cair e a corrente que a prendia não tinha mais razão de ser para os técnicos. Sabemos nós que a razão de ser era para a memória do Conde de Lousada, que talvez agora tenha sido também liberta. Apenas o pedaço que já estava dentro da árvore não foi removido, porque isso poderia causar ferimentos no tecido da figueira e deixá-la vulnerável a doenças e pragas.
No largo da memória, as correntes emocionais imperceptíveis por quem percorre o passeio são as mais difíceis de remover.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Em tudo o que for acorrentado haverá de restar alguma cicatriz.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 19/09/2015, Edição Nº 1373.



sábado, 5 de setembro de 2015

Envelhecimento

Arte de Weberson Santiago


Ele anda com passos e movimentos mais lentos. Parece que lhe colocaram uma sola de ferro nos sapatos. A musculatura precisa fazer mais esforço para dar conta do peso das pernas. Se esforça para concatenar os passos, a posição do tronco, o movimento dos membros. Faz malabarismos com o corpo, mas se recusa a demonstrar esmorecimento nas atividades.
Os sentidos já não são mais os mesmos, falham. O labirinto não lhe garante equilíbrio. O som ouvido nunca é o suficiente para a compreensão. As mãos tremem na hora de levar a xícara aos lábios. Falta-lhe força nos punhos e coordenação nas mãos para conseguir picar a carne. Falta-lhe precisão para fincar a azeitona com o garfo. Culpa a faca e suas cerdas desgastadas.
Reclama que a comida está sem gosto. É tanto alho que ele está protegido de vampiros num raio de cinquenta quilômetros, mas ele insiste em dizer que faltam sal e tempero na comida. Os olhos não colaboram. A catarata lhe deixou com as vistas embaçadas. Onde tem frango, vê peixe. Onde tem legumes, vê massa. Diante da dificuldade de identificar a comida, pergunta para quem está do lado para descobrir o que vai comer.
Ele funciona como meu notebook. Se ninguém interage, entra em estado suspenso. Ele cochila sentado quando não tem com quem conversar. Cochila na mesa depois das refeições, cochila na sala de televisão com a tevê ligada. Ele sai do estado de hibernação como o meu notebook. Basta um toque. É um grito da novela ou uma propaganda com volume mais alto e ele acorda como se o tempo tivesse parado quando ele começou a cochilar e nada tivesse acontecido no mundo durante este intervalo. Basta que alguém pise mais firme ou abra uma gaveta e ele desperta. É um sono leve para economizar energia, como o do meu notebook. É quase uma meditação oriental. Ele despertou e já tem a consciência de um mestre capaz de distribuir conselhos.
Ela morre de medo dele morrer primeiro e dela ficar só. Ela morre de medo de um monte de coisas. Por isso, todos os dias ela pega sua caixa com dezenas de orações e novenas. Reza por uma ou duas horas, sentada na varanda. Reza pelo marido, por cada um dos filhos e pelos netos. Reza por quem ela vê sofrendo. Tem horas que ela pede, mas tem hora que ela é impositiva com os santos. Às vezes ela faz algum tipo de chantagem ou barganha com eles. Dá uma ameaçada de leve. Faz com os santos do mesmo modo que faz com o marido: ela tenta mandar neles para que eles façam o que ela quer.
Ela sofre com quem adoece e padece quando alguém morre. Sente como se a fila andasse uma posição e a vez dela ou dele se tornasse mais próxima. Ela morre de medo de ficar doente e sofrer prostrada numa cama. Morre de medo de doença. É tanto medo que quase já virou uma doença. Poucas pessoas como ela amaram tanto a vida, viveram cada dia com tanta alegria. Para ela, é difícil continuar tão feliz sabendo que a vida se aproxima do fim. Ela sempre sofreu por antecedência e quis controlar tudo. Agora está antecipando o fim, querendo controlá-lo.
Eles comem pouco. Reclamam que não tem apetite. Se depender do aviso de fome do corpo, ficam sem comer. Comem porque chega a hora, comem pelo hábito ou porque alguém fala que tem que comer. Eles bebem pouca água. Se depender do aviso de sede do corpo, se desidratam. Precisam que alguém os lembre de suas próprias necessidades básicas. Não gostam de depender, mas sentem-se felizes em ter alguém que lhes cuide.
A comunicação mudou com o tempo. Quando se conheceram e eram jovens, falavam pelos olhos, mas a rigorosidade dos pais e irmãos não lhes permitia que conversassem. Quando começaram a namorar, falavam pelo tato, conversavam pelas mãos. Na maturidade do casamento, deixavam recados junto aos objetos pela casa.
Agora, na velhice, ao invés de encontrarem os lábios, a boca vai de encontro ao ouvido do outro. Aproximam-se, pendem o tronco abaixando um dos ombros para o lado onde está o outro, para que um não precise falar muito alto e para que o outro escute o que for falado. Reclamam um do outro. Às vezes saem resmungando da conversa. Mas boa parte do que eles precisam é saber que o outro está ali, por perto. Agora, na velhice, eles aprenderam a conversar com o silêncio da presença.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Viver a decadência do corpo faz parte da vida. O desafio é envelhecer sem perder a dignidade.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 05/09/2015, Edição Nº 1371.

sábado, 22 de agosto de 2015

Quando Sinto Ciúme

Arte de Weberson Santiago


A Natália e eu resolvemos melhorar os nossos hábitos alimentares para perder alguns quilos que ganhamos nos últimos anos devido a uma rotina estressante. Com uma mudança de hábitos na hora das compras, orientação nutricional individualizada, atividade física, muita organização e comprometimento conseguimos emagrecer sem perder o prazer em comer. Em três meses, ela emagreceu sete quilos e eu cinco.
Então, chegou o dia em que eu fui dar um curso em Ribeirão Preto e a Natália foi me acompanhar. Durante a nossa permanência em Ribeirão, comecei a perceber uma série de olhares para ela.
No almoço do primeiro dia, enquanto entramos no restaurante, um homem de meia idade ficou olhando para ela. Eu fiquei muito irritado. Dei uma encarada no cara, arregalando os olhos e levantando a sobrancelha como quem diz “não está vendo que ela tá acompanhada?” ou “por que não olha pra minha cara ao invés de ficar olhando pra ela?”.
Se comportamentos agressivos fossem parte de meu repertório comportamental já teria soltado um “tá olhando o quê?” e teria partido pra cima, caso ele não enfiasse o rabo no meio das pernas. Como não é assim que eu costumo agir, percebi que fiquei cercando ela tentando impedir novos olhares. Esse incômodo se repetiu no shopping, depois do curso que eu dei, com outro olhar descarado de um cara que a secou dos pés a cabeça.
Quando eu vejo um homem olhando para a minha mulher, eu trato de demarcar meu território como um cachorro que faz xixi no poste. O cara olha, eu trato de passar o braço pelo ombro dela, dando o recado: “tem dono, olha outra!”. Se o cara fica olhando ela vindo, me ponho atrás dela só pra tampar a sua bunda e não deixar o cara ver depois que a gente passar.
É por gerar este tipo de situação que eu já li em materiais de psicologia que o cônjuge passa a boicotar o emagrecimento de seu parceiro, oferecendo comida, pois ele ou ela prefere evitar o desconforto do ciúme do que aprender a lidar com este sentimento. O boicote é menos custoso do que o esforço para manter o interesse do parceiro, dá menos trabalho do que exercitar a sedução. O ruim é que o fracasso de engordar novamente, intenção das tentativas de boicote, custa a autoestima do parceiro.
Quando expus meu incômodo pra Natália, percebi que ela nem tinha notado os caras lhe olhando. Percebi que o incômodo era meu e com o comportamento do cara. A única responsabilidade dela era o fato de ser atraente, já que não foi um comportamento inadequado dela o que despertou o interesse do cara. Percebi, também, que ela gostou de saber que eu me preocupo em demonstrar que ela é minha mulher e que eu busco preservar nossa relação.
Mas, diferentemente de mim, o ciúme da Natália é mais contido e elegante. Ela prefere ignorar o interesse alheio por mim. Não porque não se importa em me perder, mas porque no fundo não se sente ameaçada.
Já o meu ciúme é do tipo guarda-costas. Fico em volta, cercando e protegendo ela dos olhares alheios. Ela não se incomoda com isso e eu não pretendo mudar meu comportamento. O que me incomoda não é o fato dela ser bonita e atraente. Fico incomodado com a petulância e a falta de vergonha na cara de quem fica olhando pra ela na cara dura e na minha frente.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Tenho ciúme porque valorizo.
 Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 22/08/2015, Edição Nº 1369.


sábado, 8 de agosto de 2015

Minha Filha Arrumou um Namorado

Arte de Weberson Santiago



Minha menina completou quinze anos. Não é mais uma criança, não é mais a minha menina. A mãe dela me fez gastar um dinheirão na festa de quinze anos. Disse que era um sonho de nossa filha. Dizem que a festa de quinze anos marca uma passagem: de quando a menina vira mulher.
Eu não quero que ela se torne uma mulher. Eu quero que ela seja sempre a minha menina. O problema dela não ser mais minha menina começou com o fato de eu ter deixado de ser o homem mais importante da vida dela. Desde que ela conheceu aquele branquelo de aparelho, meu reinado ficou abalado. Antes, quando eu parava o carro na garagem, depois de um dia inteiro de trabalho, ela vinha me dar um abraço. Nem o dia mais infernal amarrava minha cara o suficiente para que eu não me derretesse quando ela saia de trás da porta, ou do sofá e corria para agarrar a minha perna e, com o passar do tempo, a minha cintura.
Agora, ela só pensa nele, só fala no whatsapp com ele e só suspira por ele. Eu abro a porta e me deparo com a sua ausência. Tudo bem que a Jessie que me espera abanando o rabo, mas não é a mesma coisa. Se eu vou atrás dela, abro a porta do quarto – que vive fechada – e ela está lá: no computador ou no celular falando com aquele Zé Ruela.
Eu finjo que eu não ligo, tendo transparecer indiferença, mas no fundo queria fazer uma visitinha pro menino e resolver essa história de uma vez por todas. “Que pena! Morreu engasgado com um chiclete preso no aparelho”, eu diria calma e friamente. Pelo menos acabaria com aquela cena de todo domingo: ele comendo lasanha e frango assado sentado na minha frente. Não sabe nem limpar a boca quando come e quer namorar a minha filha.
Ainda bem que a Natália sabe intermediar a relação. Me convenceu de que bancar a melhor amiga é ter acesso a intimidade. Eu não posso nem pensar nessa palavra – in-ti-mi-da-de – sem que seja tomado por uma dor fulminante no meu peito. Só de pensar na mão daquele moleque-branquelo-babão na perna da minha princesinha, eu quase tenho um infarto.
Aquela perna era só minha e era tão pequeninha que eu segurava com as minhas duas mãos – que praticamente davam as voltas nas suas coxas – e a colocava em meus ombros. E enquanto eu segurava suas pernas por segurança, os bracinhos dela davam a volta em minha cabeça. E eu lhe apresentava o mundo de um ponto de vista mais alto, onde ela, sozinha não poderia enxergar.
Foto do Arquivo Pessoal
Como seria bom se o tempo pudesse voltar, se ela pudesse encolher ao invés de crescer. Aquele cheiro de bebê, que durou até os três anos, foi um dos melhores cheiros que eu senti em toda a minha vida. E agora tem um banana pendurado no cangote dela.
Não adianta falar que eu estou exagerando, que eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer. Sim, eu tive alguns medos repentinos de ter de dividir minha princesa desde que ela tinha sete anos, mas eu pensava e lhe dizia que só poderia acontecer lá pelos vinte e cinco anos de idade, e não aos quatorze.
Só quem é pai de menina entende o que eu estou passando. Cheguei ao máximo da pieguice semana passada, quando terminado o expediente, deixei todo mundo ir embora e abri um vídeo em que ela cantava pra mim, aos quatro anos, aquela música gravada pela Adriana Calcanhoto: “Avião sem asa, fogueira sem brasa, sou eu assim sem você. Futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola, sou eu assim sem você. (...) Tô louca pra te ver chegar, tô louca pra te ter nas mãos. Deitar no teu abraço, retomar o pedaço que falta no meu coração. Eu não existo longe de você, e a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas pra poder te ver, mas o relógio tá de mal comigo. Por quê? Por quê?”
E chorava um monte, feito uma criança...
Ela virando mulher e eu voltando a ser uma criança que não sabe dividir o brinquedo.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Feliz Dia dos Pais ao pai do bezerrão branquelo. Espero que não fique ofendido pelos adjetivos que usei para seu filho. Se estivesse no seu lugar, também daria uns tapas nas costas dele por ele estar ficando com uma garota tão linda como ela.
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 07/08/2015, Edição Nº 1367.

sábado, 25 de julho de 2015

Fome de Música

Arte de Weberson Santiago


Outro dia fiquei pensando em como eu escuto música. Funciona assim:
1. Eu compro o CD físico ou compro o disco virtual no iTunes.
2. Começo a ouvir as músicas. Neste momento, a maioria delas me causa estranhamento. Fico na dúvida se fiz um bom negócio em comprar o disco. Uma ou outra elicia em mim uma sensação agradável.
3. Então continuo escutando apenas o disco novo em todos os trajetos de carro e quando estou em casa, enquanto tomo banho ou estou cozinhando. Pela repetição, o estranhamento já não existe mais e as músicas preferidas já estão definidas. É quando eu saio por aí cantando, na rua, sem nenhuma vergonha. Não chego a usar o celular como microfone, como fazia uma moça que parou atrás do meu carro no semáforo, mas não ligo nem um pouco para o que os outros vão pensar.
4. Mesmo que esteja rolando o mesmo som há algumas semanas, continuo ouvindo o ex-CD novo. Volto a faixa quando as preferidas terminam ou pulo aquelas que não gosto até chegar em uma música que eu gosto. De repente o disco já não preenche os trajetos mais longos porque as músicas que não gosto começam a me irritar. É o primeiro sinal de desgaste.
5. O disco está rodando muito quando chega uma hora em que eu não aguento mais ouvir aquelas músicas – estou saciado – e eu arquivo o CD junto com os outros na estante.
6. Está na hora de buscar outras trilhas sonoras para minha vida.
Sigo estes passos com todos os discos que compro. Pelo padrão de comportamento, descobri que eu não ouço música, e sim consumo música. Escuto, escuto e escuto até enjoar.
Às vezes vasculho a pilha de CDs e encontro algum disco que eu não me lembrava que tinha, mas que as músicas imediatamente me remetem ao momento da vida em que elas tocaram. Levo o CD velho para dar umas voltas no carro, mas logo enjoo novamente.
Reencontrar um CD que marcou é igual a ver novamente um chocolate preferido que saiu de linha de volta às prateleiras. Foi assim com o Milkbar, que chamava Lolo. Foi assim com o Kit-Kat.
O que seriam de nossos novos gostos se não fossem as nossas antigas paixões?

UM CAFÉ E A CONTA!
| Estou enjoado de toda a minha discografia. Estou precisando de música nova para me inspirar. Tem alguma sugestão?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 25/07/2015, Edição Nº 1365.