sexta-feira, 20 de junho de 2014

Uma Mesa de Duas Pernas




Uma mesa de quatro pernas, quando perde uma, pode até conseguir permanecer de pé. Quando perde a segunda perna, a primeira tem de estar escorada.

Para quem, como eu, teve a sorte de ter tido os quatro avós e crescer com eles ao meu redor, perde-los é um bocado difícil. A presença deles é como uma estrutura. Nesta noite perdi a segunda perna da minha mesa: minha avó Malvina.

A notícia no silêncio da noite me vez assistir a um trailer da minha própria infância. A primeira história foi exaustivamente contada por ela durante meus 31 anos: quando eu disse as primeiras palavras aos 10 meses e 30 de vida. Ela falou silabicamente e eu repeti, uma de cada vez. Carro, papai e mamãe. Estava no colo dela. Pediatras desconfiavam, mas ela dispunha de testemunhas. Nunca me cansei de ouvir esta história e se tivesse a vaga ideia de uma partida repentina teria pedido que me contasse mais uma dezena de vezes.

Comemorava quando a escola mandava um livro para leitura. Usava como pretexto para pedir pra ir dormir na casa dela, que era professora de português. O ritual consistia em cobertor e leite na caneca na sala que não tinha TV. Deitado no colo dela, ouvia a história e via as figuras. A partir disso, os livros se tornaram sinônimo de carinho.

Ela gostava de dizer que eu já levava jeito pra psicólogo desde criança. Ela tinha uma mania de passar o rodo na porta de casa após qualquer chuva. Justificava dizendo que era porque tinha medo que alguém caísse. Minha primeira intervenção psicológica, aos 8 anos, foi: “Vó, você não acha que você tem muitos medos? Alguém já caiu aqui?”. Embora a pergunta a tenha deixado desconsertada e a tenha feito pensar, ela gostava de contar o episódio como sendo uma prova de minha vocação. A partir daquele dia, o terraço na porta da casa permanecia molhado até que a água evaporasse.

Houve também uma história engraçada. Éramos crianças quando meus pais nos deixaram, meus irmãos e eu, na casa dela pra sair com os amigos à noite. Tocamos a campainha. Quando ela abriu a porta, sua saia caiu. Estava com uma ceroula por baixo, mas caímos todos nas risadas. Nós sentamos no chão de rir e ela na cadeira de palha perto da porta.

Para quem gosta de ler minhas crônicas, ela teve uma participação importante na construção de minha identidade de escritor quando estava na sexta série, aos 12 anos. A professora me pediu uma redação e eu não tinha ideia do que escrever. A tarde, liguei pra ela e pedi ajuda. Ela me ensinou mais um ritual: procurar um lugar sossegado e gostoso de ficar, de preferência com natureza. Então deixar a imaginação solta até que viesse uma ideia. A redação foi para no mural da sala. Tenho ela guardada até hoje.

Ela esteve comigo quando passei na faculdade, quando me formei na faculdade. Quando entrei no mestrado e quando defendi o mestrado. Assistia minhas palestras em escolas. Recebeu a Natália e a Anelise na família como se já fizessem parte há muito tempo. Comemorou quando resolvemos morar juntos. Veio ver nossa casa quando compramos. Ela me apoiou em cada passo importante. Era, sem dúvida, uma das pessoas que mais acreditavam no meu potencial.

É tudo isso que eu tive e que não terei mais. Estou perdendo algo muito valioso. Junto com a perda deve vir a aceitação de que o que foi vivido não será mais. Sentirei muita falta dela nos próximos passos de minha vida.

O que me consola é que há pouco tempo fizemos uma festa de comemoração dos 60 anos de casamento que teve um momento muito especial. Todos reunidos em volta do casal disseram coisas importantes sobre o que eles foram e são na nossa vida. Quase todos ali presentes falaram o que sentiam. A Natália falou, eu falei. Ela partiu sabendo o quanto foi importante e querida por nós.

Agora que perdi a minha avó Ina, vou procurar ajuda onde ela me ensinou a procurar: nos livros. Não que vá fugir da dor na literatura. Pegarei uma pilha para me escorar a mesa e ver se mantenho o equilíbrio. Amigos, aqueles que quiserem dar uma força e segurar o tampo da minha mesa, enquanto tento encontrar os livros que irão me ajudar a escorá-la. Não tenho vergonha de dizer que hoje preciso de vocês.

sábado, 7 de junho de 2014

A Individualidade no Relacionamento

Arte de Weberson Santiago


Se apaixonar é o como uma tentativa de contrariar a lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Queremos fazer tudo juntos, ficar o tempo todo grudados.
Busca-se a cumplicidade nas tarefas mais simples. Se pudermos, comemos juntos, tomamos banho juntos, acordamos e dormimos juntos, escovamos os dentes juntos.
Quando comecei a namorar a Natália, em minha casa tinha apenas uma cama de solteiro. Era o suficiente para que passássemos o fim de semana. Ignorávamos a impossibilidade de se mexer durante a noite. Não sentíamos as dores no corpo no dia seguinte. O que nos interessava era ficar perto um do outro.
E nunca achávamos que era o suficiente. A rotina de trabalho só permitia algumas horas aos finais de semana, geralmente do sábado à tarde ao fim do domingo. Durante a semana, eram apenas encontros rápidos. Nem quando ela tirava férias e praticamente morava comigo durante um mês era o bastante para matar a vontade.
Por isso resolvemos morar juntos. Sentíamos a necessidade de seguir adiante, dar um passo a mais na relação. A urgência do amor sempre foi maior do que os nossos medos. Eles estavam lá, em cada passo da nossa relação, mas ficavam pequenos quando decidíamos fazer a relação evoluir.
Assim que passamos a dividir o mesmo teto e a mesma cama, as manias entraram em conflito. Naquele começo da relação, com toda aquela vontade, as manias passam desapercebidas. Já no casamento, as manias respeitam a lei da física: duas manias não podem ocupar o mesmo lugar no espaço de uma casa.
Foi quando percebemos que aquela intensidade do namoro não poderia ser mantida, senão a relação se tornaria sufocante. Se continuássemos a querer fazer tudo juntos, acabaríamos tentando fazer o outro ser como a gente mesmo. Foi preciso ceder, respeitando o jeito de ser, a maneira de fazer. Ora um, ora o outro.
Combinamos que uma vez por semana cada um tem o direito de fazer uma coisa que lhe dá prazer e que não envolva o parceiro. Ela vai no salão se cuidar ou sai com as amigas. Eu vou ao clube praticar uma atividade física ou encontrar um comparsa pra jogar conversa fora.
E mesmo que não consigamos marcar no mesmo dia, aprendemos a aguentar ficar sem o outro neste dia de compromisso externo. Um exercício de liberdade, sem inveja e sem retaliação.
Nós acreditamos que, para o casamento funcionar, é preciso haver uma abertura para que cada um tenha ocupações que nos façam bem fora de casa para que o retorno e a possibilidade de estar em família sejam devidamente valorizados.
Com a vida de casados pusemos fim na distância. Aí percebermos que sem a distância não há saudade. Descobrimos a necessidade de preservar a individualidade para valorizar o reencontro.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Quem não dá liberdade sufoca. Quem se sente sufocado se afasta.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, p. 4, 07/06/2014, Edição Nº 1307.

sábado, 24 de maio de 2014

As Dificuldades de Crescer

Arte de Weberson Santiago



Crescer dói. Não só porque o corpo se estica desde o nascimento até a juventude. Dói porque crescer é ter que aprender continuamente, sem trégua. É receber uma dose maior de responsabilidades a cada ano de vida. É ter de provar seu bom desempenho para a sua família e para a instituição de ensino que escolheram para você e mais tarde, se te derem a liberdade, para a que você escolheu. É ter que provar a si mesmo que você da conta de tudo isso.
Durante as transições, o medo toma conta e a insegurança aumenta. É quando precisamos de alguém que diga: “vá em frente, eu acredito na sua capacidade”.
A Anelise foi para a 1ª série neste ano. Na primeira semana de aula veio colado em seu caderno de recados um calendário de provas. Mudou o formado da apostila de lição de casa, com mais conteúdo e com tarefas um pouco mais complexas. Agora ela entra no portão grande, junto com todos os alunos do ensino fundamental. Pequenas, mas significativas mudanças para uma criança.
Com apenas 6 anos já será avaliada. A responsabilidade pesou. Na segunda-feira da segunda semana de aula chegou em casa contando que não tinha conseguido anotar duas palavras porque tinha ficado conversando com dois coleguinhas.
Poderíamos metralha-la com frases como: “eu já falei que você precisa aprender a se concentrar”, “sua escola é muito cara para você não fazer as coisas que a professora manda”, “se você não fizer a sua parte ficará de castigo”, “ai de você se sua professora reclamar que você fica conversando durante a aula na primeira reunião”.
Recolhi as acusações e ameaças ao lembrar como detestava ouvi-las na minha infância e adolescência.
A Natália e eu tivemos uma conversa com ela, mas em outro sentido: “Anelise, a 1ª série é mais difícil do que os outros anos. Você ainda está se acostumando com essa diferença. Não tem problema que você não anotou as duas palavras hoje. Você só precisa aprender a se concentrar no que a professora está pedindo e terminar a tarefa que ela passou. Deixe pra conversar com seus amigos depois que terminar ou no intervalo do recreio. Uma coisa que pode te ajudar é dormir um pouco a tarde, pois se você fica muito cansada no outro dia, o cansaço atrapalha a prestar atenção. Ainda tem muito tempo pela frente, você vai aprender muito neste ano. Só precisa fazer a sua parte.”
Percebi que ela ficou mais tranquila após a conversa. Para nós, a Ane ter contado o que aconteceu foi muito bom, um sinal de que ela confia em nós. Mais do que isso, ela estava pedindo ajuda. Foi como se ela dissesse: “não estou dando conta do começo da 1ª série e estou preocupada se vou conseguir dar conta até o final”.
No dia seguinte, fui leva-la pra escola. Antes que descêssemos do carro, eu disse:
— Hoje vai ser melhor que ontem, Ane!
— Tomara, Augusto, tomara! – respondeu, com os olhos cheios de esperança, mas ainda um pouco insegura.
Como nós confiamos nela, ela também confiou no que dissemos e se encarregou de dormir um pouco a tarde em todos os dias que se seguiram, sem qualquer cobrança de nossa parte.
Nas semanas seguintes, uma conversa ao final de cada dia nos mostrou que ela estava dando conta do começo. Ela ficou mais confiante e segura.
Novas dificuldades virão. Logo chegarão as provas e precisaremos ajuda-la com a novidade. Que bom! Essas dificuldades mostram que a Anelise está crescendo.
UM CAFÉ E A CONTA!
| A função dos pais é ajudar a enfrentar as dificuldades do caminho, não apenas tomar para si o mérito das vitórias dos filhos.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, caderno Dois, p. 4, 24/05/2014, Edição Nº 1305.

sábado, 10 de maio de 2014

Orgulho de Mãe

Arte de Weberson Santiago



Se você tem dúvida do quanto uma mãe se orgulha dos seus filhos, observe apenas um detalhe: aquela correntinha com os pingentes que representam os filhos que ela tem.
O pingente que mostra a maternidade é como uma medalha no pescoço de uma mãe. Ela o coloca porque gosta de exibir o quanto ela é mãe. Não é pelo número de pingentes, é pelo amor que ela tem por cada um dos que estão ali representados.
Ela deu a luz, está amamentando e arrumou um tempo para comprar o pingente.
Carregando a criança no ventre durante nove meses, ela se encarregou de criar um mundo especial entre quatro paredes para que ele ou ela saia do ventre e tenha um quarto perfeito.
Acolchoou as superfícies duras, impermeabilizou tudo para evitar que a criança não venha a se sujar ou não fique úmida. Cobriu de pano tudo o que era áspero, impediu que qualquer coisa fria pudesse dar calafrios no seu rebento.
Pintou tudo de cor clara para ficar agradável, pendurou a cortina para a luz não ofuscar sua vista ou atrapalhar seu sono diurno. Envolveu o berço de véu para inseto nenhum chegar perto. Quer que o filho fique tão seguro no mundo quanto está na sua barriga.
Quando nasce, ela mata a curiosidade de ver como o filho é. Ainda assim, ela não sabe a cor do olho, não tem ideia de como será o cabelo quando crescer, só sabe se é menino ou menina, mas já se orgulha do filho que tem e acha que ele ou ela é o mais bonito do mundo.
Enquanto a mãe carrega o pingente como uma medalha em seu pescoço, assim que o filho nasce o pai se encarrega de comprar uma roupa do seu time para ver se consegue convencê-lo a seguir sua paixão.
A mãe lhe considera um motivo de orgulho e carrega seu pingente perto do coração para ver se aguenta a saudade durante o dia. O pai impõe o escudo do seu time no peito do filho para que ele o represente enquanto estiver longe.
Nós pais parcelamos todo o nosso amor em algumas condições, condições estas que vamos anunciando assim que a criança é capaz de entender.
Amo o meu filho, mas amarei mais se ele torcer pelo mesmo time que eu.
Amo o meu filho, mas amarei mais se ele seguir a minha profissão e cursar a mesma universidade que eu.
Amo o meu filho, mas amarei mais se ele gostar do mesmo tipo de música do que eu.
Se o amor materno existe antes do filho ser, o amor paterno depende do que o filho será.
É fácil amar o igual, difícil é amar o que constatamos ser diferente de nós ou das nossas expectativas.
O homem é tão egoísta que, quando o filho acerta, puxou pra ele. Quando o filho erra, puxou pra mãe. Quando o filho erra, ele literalmente é um filho da mãe.
Quando um filho erra, o pai se afasta. Quando um filho erra, a mãe dá o colo.
Feliz do filho que tem uma mãe e um pai que deixam as suas vontades de lado, que conseguem abrir mão de um individualismo orgulhoso. Olhar com a bondade do orgulho, sem condições ou restrições, é realmente estar ao lado do filho durante o seu desenvolvimento. Os filhos precisam do nosso orgulho e da nossa aceitação para crescer.
Quando o assunto é orgulho, os pais precisam aprender com as mães.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Mãe é mãe quando o seu amor é incondicional.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 10/05/2014, Edição Nº 1303.

sábado, 26 de abril de 2014

Ombros, Corcundas e Bengalas

Arte de Weberson Santiago



O ombro é o parapeito do nosso tronco. Nele podemos colocar um vaso de plantas, um papagaio, a cueca pra secar, um lenço ou cachecol e até um monte de problemas. É, nem só de graça vive o ombro. A desgraça também pode repousar sobre eles.
No relacionamento interpessoal, fica difícil quando o vizinho não percebe, na divisão dos muros dos ombros, onde termina a propriedade dele e começa a minha, como se os ombros fossem colados. Então, percebo que os fardos dos outros estão no meu parapeito, e o pior, que os carrego há certo tempo. Tem gente que é especialista em vomitar seus problemas e despejar a carga nos ombros alheios.
Se tem algo que eu respeito nos ombros dos outros, esse algo é a corcunda. A corcunda é uma configuração de ombro distorcida chamada pelos médicos de cifose. Em primeiro lugar, meu respeito se dá por observar que ela é fruto da experiência de vida. Em segundo lugar, porque ao contrário da barriga, a corcunda não impede.
Hoje vi uma senhora de corcunda carregando compras a passos largos, com um semblante feliz. Em outros tempos de caminhada, cruzava diariamente com um casal de velhos com corcovas arqueadas e que cumpriam o trajeto religiosamente. Um barrigudo não mantem tal disciplina.
A corcunda é uma deformação inteligente do corpo que acompanha o movimento da vida desde a juventude até a velhice.
Quando jovens, passamos boa parte do tempo sonhando, olhando para as nuvens, fantasiando o futuro. Com o amadurecimento, somos obrigados a deixar uma parte dos sonhos de lado para conseguir concretizar um ou alguns deles. Então, somos obrigados a abaixar o olhar e mirar o horizonte, numa visão mais realista. Porém, doses de realidade trazem consigo responsabilidades que sobrecarregam e dificuldades que pesam nos ombros.
Correndo atrás das metas que vislumbramos no horizonte, atropelamos as coisas e as pessoas com nosso excesso de expectativa, ficamos afobados porque o tempo das realizações é diferente do tempo que estamos dispostos a esperar. Com os fardos que abraçamos em nossos caminhos e decidimos carregar, mais as cargas que depositamos nas costas sobre os ombros, o nosso corpo esculpe a corcunda para tentar dar suporte às nossas experiências.
Na velhice, a corcunda obriga a olhar para o chão, para as sutilezas do caminho que os jovens deixam passar batido. Aí está a beleza: construímos nossas corcundas correndo atrás do futuro e preocupados com o que fizemos no passado e o nosso corpo nos obriga, com a idade, a olhar mais para o presente.
Por isso o velho é sábio: pondera o que fala na medida do que o jovem é capaz de aproveitar com seu nível de maturidade, não se deixa abalar como fazia na juventude, dá a importância exata que as coisas merecem, pois o tempo que tem pela frente é precioso demais para ser dispensado em detalhes irrelevantes. A corcunda ensina a não sofrer com qualquer coisa e a aproveitar mais o que a vida oferece aqui e agora.
Por isso, quando eu ficar velho, faço questão de ter uma corcunda. Se não for pedir muito, gostaria também de ter uma bengala e um bom par de suspensórios. Explico. O cajado é para dar suporte às pernas. Já terão andando muito por aí e sustentado o tronco por muito tempo, e de repente também para dar bengaladas quando for necessário apressar ou corrigir alguém, mas os músculos não tiverem mais o vigor suficiente. O par de suspensórios é por precaução. Se as calças caírem, demorarei muito para levantá-las. Não se mantem a dignidade com a bunda exposta.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Quando ficar velho usarei minha corcunda como prateleira.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 03/05/2014, Edição Nº 1302.



sábado, 12 de abril de 2014

Casamento Não é Para a Vida Inteira

Arte de Weberson Santiago



Desconfio de quem acha que casamento é para a vida inteira.
Quem se casa considerando que a relação é eterna entra no casamento como um aposentado. Se aposentar na relação é pensar e agir como se, estando casado, não precisasse mais seduzir, encantar, namorar.
Parte-se do pressuposto que o esforço não é mais necessário. Considera-se que a relação tem obrigação de ser perene porque é um casamento. Aí mora o perigo.
Casamento é disposição. Deves casar sabendo que terás o desafio diário de fazer pelo outro e para o outro. É fácil ser companheiro quando o casal está se conhecendo, se descobrindo. Terás de ser companheiro nos dias ruins, nas manhãs mal-humoradas e nos finais de tarde de esgotamento.
É quando o outro não tem mais energia para agir que deves fazer brotar a força da união. Pode deixar, meu bem, eu cuido disso para você. Se um não aguenta mais correr atrás da criança, o outro que assuma a função. Se um está cansado demais para acompanhar o filho na lição de casa, o outro que ponha sua paciência para trabalhar. Nessa gangorra o casamento funciona, mas se alguém deixar de fazer a sua parte por individualismo, o outro ficará sobrecarregado.
Casamento é abrir mão de si mesmo como prioridade. Tudo deve ser pensado e decidido considerando as duas opiniões, as duas necessidades, as duas vontades. E isso não vem automaticamente quando sobes no altar. Isso se aprende. É na superação dos limites individuais onde está a beleza do casamento, onde ele passa a ter valor.
Deves estar disposto a dar atenção e a ignorar.
A dar atenção aos sinais de como está o parceiro, sendo que estes sinais estão escondidos nas entrelinhas do dia-a-dia. Leia as entrelinhas. Ela sinaliza um descontentamento, deves pensar no que você fez que a deixou assim. Ele demonstra estar sobrecarregado, deves ajuda-lo dele para que ele recupere a disposição.
E a ignorar os comportamentos negativos que são resultantes do que seu parceiro passa durante o dia nas suas obrigações, fora de casa. Se não souber entender e tolerar, irás responder com outros comportamentos negativos, e isso atrapalhará a relação e pode terminar em afastamento.
A vida já se ocupará de criar um afastamento entre os cônjuges. Não duvide e não dê pouca importância a isso. Os problemas roubarão espaço dos pensamentos que levam a gestos que cativam o outro. O trabalho roubará a disposição para dar o seu melhor para a relação.
O cansaço insistirá para que use o seu pijama mais velho para ficar confortável. E isso fará com que a pior aparência que você pode oferecer fique para o lugar onde você mais deveria se preocupar em cuidar.
Os filhos disputarão a sua atenção e poderão criar uma muralha entre você e o seu marido ou você e sua mulher. E lhe caberá não deixar que os filhos impeçam vocês de namorar e de viajar. Deves cultivar um espaço para se conhecerem novamente conforme cada um muda com a vida.
Um casamento acaba quando não se olha para um distanciamento pequeno, que ainda pode se tornar reaproximação. Se um percebe o espaço vago e o outro ignora, não adianta. Ambos precisam estar envolvidos em diminuir a lacuna antes que o distanciamento vire um abismo.
Um casamento não deve ser para a vida inteira, deve ser para hoje. No máximo para esta semana. A relação deve ser olhada em pequenos intervalos de tempo, mas não pode ser olhada apenas nos aniversários de casamento. E tem quem esquece até dessa data. É muito tempo sem olhar a relação. E pouco cuidado para mantê-la.
O casamento que sobrevive à vida inteira é aquele que não se deixa morrer no cotidiano.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você já se aposentou no casamento ou já se casou aposentado?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 12/04/2014, Edição Nº 1299.

sábado, 22 de março de 2014

Já Foi Mais Fácil Ser Poeta


Arte de Weberson Santiago


Já foi mais fácil ser poeta quando a vida não era tão complicada. O mundo parece que não funciona direito e ninguém tem tempo de perceber. Vivo com a sensação que as coisas deveriam ser ao contrário do que são.
Já foi mais fácil ser poeta quando a vida não era cheia de filas. Supermercado, banco, correio, lotérica, caixa de loja de departamentos, banheiro de festa. Não dá pra criar versos e estrofes durante a espera em nenhuma dessas situações.
Já foi mais fácil ser poeta quando não havia a sensação de que você é explorado. Pare e pense. Trabalhamos o máximo que podemos para conquistar apenas o mínimo. E sempre têm alguém que tem mais e alguém que tem menos oportunidades do que a gente. Já foi mais fácil ser poeta quando não gastávamos boa parte do que ganhamos para pagar impostos ou juros. Não é preciso muito esforço para perceber que viver fica mais caro a cada dia e que passaremos o resto da vida tentando dar conta de uma conta cada vez mais alta. Não tem quem mantenha a inspiração com uma saída maior do que a entrada.
Já foi mais fácil ser poeta numa época em que a superficialidade era exceção. Hoje as relações não tem profundidade. Assim como uma conversa se resume a expressões como “nossa que calor!” ou “será que chove hoje?”, uma noite de sexo termina com “qual é o seu nome, mesmo?”. A superficialidade é para as relações como a falta de vocabulário para o poeta.
Já foi mais fácil ser poeta quando as pessoas não tinham tanta pressa. Correr demais pode ser uma forma de perder tempo. Ser tomado pela pressa é uma maneira de arrumar problemas. Já foi mais fácil ser poeta quando o tempo andava, não corria. O poeta precisa de tempo para olhar os detalhes.
Já foi mais fácil ser poeta quando ser jovem ainda era ser sonhador. Hoje ser jovem é não ter objetivos e metas, achar tudo sem graça e ser escravo dos prazeres imediatistas. O imediatismo quer a poesia pronta, mas não quer o trabalho de encarar a folha em branco.
Já foi mais fácil ser poeta quando a privação era maior e o esforço requerido para uma conquista também não era pouco. As vitórias eram mais saborosas. Sem esforço não se mantem a métrica nos versos.
Já foi mais fácil ser poeta quando o maior sonho de uma criança era ganhar uma bicicleta. Não há como ver poesia em um quarto cheio de brinquedos e tecnologias que perdem a graça facilmente. Desse jeito a graça da poesia acaba no meio.
Já foi mais fácil ser poeta quando viver não era ter de controlar sua alimentação para controlar seu corpo e sua aparência. Um alimento se torna vilão e depois é consagrado milagroso. Não se faz rima com o peso da culpa por ter comido um alimento proibido.
O poeta é um inconformado. Ser poeta é algo que precede a própria poesia. Ser poeta é enxergar a mesma coisa de um jeito diferente. É romper com a racionalidade usando o dom de embelezar a realidade, na tentativa de descrever, entender ou explicar sentimentos comuns e compartilhados pelas pessoas.
A poesia nasce quando o poeta escolhe viver ao invés de morrer com dureza a realidade. É, nunca foi fácil ser poeta. Não é fácil ser poeta, mas o poeta precisa da dificuldade.

UM CAFÉ E A CONTA!
| O que fazer quando a realidade parece caminhar para o pior? Faça poesia. Sofrer pode ser poético ao invés de ser patético.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 30/03/2014, Edição Nº 1297.