sábado, 5 de outubro de 2013

Faça as Pazes com sua Consciência

Arte de Weberson Santiago


Você sabia que existe uma forma de guardar boas memórias e diminuir as lembranças desagradáveis?

Algumas das lembranças mais desagradáveis são os registros de episódios em que nos comportamos de maneira inadequada e que, quando são recordadas, evocam sentimentos de pesar e de culpa por ter feito algo a alguém ou por ter falhado no autocontrole.

Para preservar boas memórias é preciso esforço para evitar ser desumano ou insensível.

Eu procuro respeitar as pessoas com as quais convivo, acolhendo suas opiniões e ouvindo o que elas têm a dizer. Para isso, preciso desocupar o lugar de dono da verdade, desacreditar de que sou conhecedor de todas as coisas e abrir mão da uma posição ilusória de que sou o centro do universo e de que as pessoas devem orbitar em torno das minhas necessidades.

Para algumas pessoas a insensibilidade é um estilo de vida. Sustentar a posição de supostamente saber tudo é se tornar uma ilha afastada do continente. Não há via de mão dupla para a comunicação, já que o “sabe tudo” não está disposto a ouvir o que o outro pensa. As pessoas se afastam e fingem que acatam sua posição, esperam que o dono da verdade se distancie e fazem aquilo que elas consideram ser o melhor a se fazer.

O dono da verdade tem sempre uma metralhadora de acusações. Vive apontando culpados pelos problemas e os maltratando. Nunca aceita quando foi de fato o responsável pelo problema e não é capaz de ouvir quem tem uma alternativa para lidar com a situação. Ignora justamente quem sabe a solução do problema.

Busco avaliar amplamente uma situação antes de acusar alguém por não ter feito o que é sua responsabilidade, analisando as variáveis que possam ter contribuído para essa falha. Algumas cobranças são perdas de tempo e não tem justificativa. Explico.

Se uma pessoa trabalha atendendo ao público o dia todo, seria injusto acusá-la de ter errado na conferência de alguns documentos. A natureza de seu trabalho de atendimento é incompatível com a concentração necessária para realizar uma conferência. Cobranças recorrentes sobre os erros de conferência seriam perdas de tempo, enquanto propor que ela indique uma proposta de minimização de erros como, por exemplo, a redução de meia hora na jornada diária de atendimento, saindo do balcão para realizar a conferência com mais precisão seriam, de fato, uma solução.

Às vezes assisto, perplexo, à incapacidade das pessoas em pensar junto para tomar uma decisão. Quem pensa junto divide a responsabilidade pelas consequências da decisão. Erra junto, aprende junto, acerta junto e comemora junto. Ninguém é altamente eficiente sozinho. Eficiente é aquele mantem a colaboração em vigor nas suas relações.

Evite colecionar conflitos, arquivar grosserias, tomar decisões arbitrárias com os outros sem ouvir o que as diversas partes têm a dizer sobre o que aconteceu. Aprenda a ouvir a opinião das pessoas, sobretudo quando se trata de uma realidade em que você não tem disponibilidade ou possibilidade para se aproximar para conhecer a fundo.

Observar como você se relaciona com as pessoas não lhe exime de errar em algumas situações, mas preservará na memória relações de apoio mútuo e de respeito, ainda que em meio a situações complexas e turbulentas. Deixar de criar casos no presente é o que permite preservar boas memórias do passado.


UM CAFÉ E A CONTA!
| Um cenário problemático não justifica agir com brutalidade.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, contracapa (p. 2) do primeiro caderno, 05/10/2013, Edição Nº 1270. 

sábado, 14 de setembro de 2013

Recomendações para Usuários do Facebook

Arte de Weberson Santiago


Existem dois comportamentos básicos dos usuários do facebook: o acompanhar o que os outros postam e o comportamento de postar alguma informação.

O primeiro é mantido pelo que descobrimos a respeito dos outros vasculhando o que ele faz ou fez.

O segundo é mantido principalmente pelas curtidas que uma atualização rende, embora possa ser mantido também pela simples função de nos livrarmos de algo que está incomodando, como um desabafo.

Quem me adicionar no facebook verá que eu não tenho vergonha de ser quem eu sou e que sou um tanto quanto exibido.

Não tenho o menor pudor de expor meus sentimentos, como o meu amor pela Natália. Publico bilhetes, cartões, declarações de amor. Posto momentos de intimidades gastronômicas, quando estou cozinhando ou jantando um prato diferente em um restaurante.

Eu não sei mais o que é viver sem me expor, nem começo direito a viver alguma coisa e já estou contando pra todo mundo o que aconteceu.

Me verá no facebook divulgando aquilo que eu produzi que pode agregar alguma coisa a quem escolhe me acompanhar: meus versos em forma de poesia, as crônicas que escrevo, algum texto bacana que li, alguma notícia de jornal que possa interessar aos meus amigos ou alunos, os lugares bonitos que eu visitei, uma coisa diferente que comi.

Mas existe uma lista de coisas que eu me recuso a fazer.

Não me verá levando problemas de relacionamento interpessoal para a rede social. Quem lamenta a decepção com uma pessoa quer buscar a atenção de outra para compensar o distanciamento da primeira.

Não me verá compartilhando foto de pessoas doentes, com deformações no corpo. É mentira que o facebook dará alguns centavos pelo seu compartilhamento, apenas usam seu sentimento para que você compartilhe e a imagem atinja mais pessoas.

O que é fora do padrão chama a atenção. Perceber que não sofremos daquilo que está estampado na imagem não nos torna melhores. Não promovo o sentimento de dó ou piedade. Prefiro compartilhar a informação que promove o desenvolvimento, a autonomia ou a história de quem ignora as limitações impostas.

Não me verá vomitando sentimentos negativos resultantes da minha rotina. Não me permito reclamar de cansaço, esbravejar angústias, transformar o medo em raiva e atacar algo ou alguém. Não é porque eu não tenho em mim este tipo de sentimento, mas porque não cabe ao outro lidar com o que há de pior em mim.

Não me verá brincando de seduzir nas redes sociais. Não apenas porque eu sou casado, mas porque brincar com as emoções é perigoso. Eu não abro a porta do envolvimento para não ter que lidar com a confusão mais adiante. Não é só uma questão de princípios, mas uma vasta noção de consequências.

Na teoria é simples. Quem não quer se expor que se esconda. Quem não gosta do que compartilho que deixe de receber minhas atualizações, o que pode ser feito sem desfazer a amizade e sem que eu saiba que você fez isso.

Na prática, sonegamos a parte mais comum de nossa vida e exibimos o que achamos mais interessante, ao mesmo tempo em que nos satisfazemos assistindo a vida dos outros.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Como é seu uso, qual é o seu abuso e do que você é dependente na internet?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, contracapa (p. 2) do primeiro caderno, 21/08/2013, Edição Nº 1268. 

sábado, 31 de agosto de 2013

Ingrediente Espaçoso, Recheio Folgado

Arte de Augusto Amato Neto



Lembre-se da última vez que você comeu uma pizza e que um ingrediente invadiu um pedaço da pizza do outro sabor. O que você fez?

Deixou de comer o pedaço da pizza de muçarela por causa da ervilha da fatia portuguesa que escorregou para a vizinha? Ou simplesmente retirou a cebola espaçosa que não respeitou o limite da calabresa e invadiu o frango com catupiry?

Nós, humanos, somos como pizza meio a meio. Não respeitamos os limites do próprio pedaço e invadimos o pedaço do outro. É estar lado ao lado que começa a mistura.

Eu sou um invasor de pedaços especialista. Não fico satisfeito em me pôr no centro da casa, controlando o vai e vem da Natália e da Anelise. Quando estou trabalhando no computador, não as perco de vista. E quando percebo, já estou atrás de uma delas, invadindo seus espaços e me metendo nas coisas que elas estão fazendo.

Se a Natália está lavando os pés de alface, pergunto como ela deixou de molho e como fez pra lavar. Não me contento em saber o que aconteceu, preciso sugerir outra maneira de fazer. A Natália fica louca de raiva.

Eu que não suporto que belisquem um ingrediente quando estou preparando um prato me intrometo no modo de preparo de uma receita quando a Natália está cozinhando.

Ela conta até dez – vinte ou trinta – pra não discutir, mas não adianta. Depois de um tempo lá estou eu invadindo seu espaço e me metendo onde não deveria.

Com a Anelise é a mesma coisa, pergunto como foi o dia, o que ela fez na escola, se fez a lição e ainda confiro a apostila e o caderno de recados. Me intrometo em suas brincadeiras, interrompo as suas ligações no celular de brinquedo – e converso com o personagem do outro lado – para avisar que ela não pode conversar pois está na hora de tomar banho.

A família é o impeditivo da privacidade. Não existe respeito à intimidade em um lar. Família é uma pizza dividida em oito sabores que se misturam como se o entregador tivesse dado uma volta no globo da morte entre a pizzaria e a sua casa.

E quando a mistura é regra, a divisão fica praticamente impossível.

O intercâmbio de meias nas gavetas é um exemplo de como é difícil dividir. Não importa que eu calce 43 e a Natália 34. As meias têm pés e trocam de gaveta.

Andei encafifado com uma toalha que, mesmo estendida no varal, nunca secava. Nem o sol escaldante me fazia encontrar a toalha seca no final do dia.

Resolvi investigar. Já imaginava uma visita invadindo a casa durante o dia para usar minha toalha. Até que descobri que a Natália e eu estávamos usando apenas uma das toalhas idênticas, enquanto a outra igual permanecia seca, dependurada no banheiro. Aí foi minha vez de contar até dez – vinte ou trinta – pra não discutir. Eu não aguento e vou atrás dela pela casa.

Eu seu, eu sei, eu sou um chato. Mas por trás da minha chatice existe um interesse em participar, em conviver, em interagir. No fundo, minha chatice é um excesso de disposição.

Aqui em casa, toda discussão termina em pizza. Literalmente. Massa fina, sem borda recheada. Meia do meu gosto, metade escolhida pela Natália. E a pizza sempre chega com o recheio invadindo o pedaço do outro sabor.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Se a chatice é o recheio da minha pizza, o carinho é o azeite.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, contracapa (p. 2) do primeiro caderno, 31/08/2013, Edição Nº 1267. 

sábado, 17 de agosto de 2013

Rodovia é Andança, Estrada Vicinal é Bonança

Arte de Augusto Amato Neto


Pode existir muito conforto em uma rodovia duplicada com cinco faixas cada uma, mas não existe sensação melhor do que pegar uma pequena estrada vicinal de mão dupla.

Rodovia duplicada é rápida, mas é impessoal e sem graça. Muita engenharia e pouca inspiração. Tecnologia de sobra no asfalto e na velocidade, com paisagem insossa.

Estrada vicinal é o caminho possível de antigamente. É o trecho onde o boi fazia carga e onde o cavalo carregava as pessoas sob a terra. O trecho tortuoso pelo meio da vizinhança. Você encontra os suportes com barril de leite na porteira da fazenda e, até hoje, ninguém rouba o barril. Não há necessidade de vigia. É um respeito rural, um pacto de honestidade que permite abrir mão de câmeras.

Fecho os olhos, busco no Instagram da minha memória e encontro a imagem de cor perfeita, feita pelo filtro da minha retina com os raios de sol e as cores da natureza na estrada que liga Divinolândia/SP a Poços de Caldas/MG. Uma de minhas estradas preferidas.

São 31,4 Km com uma topografia repleta de caminhos tortuosos e paisagens incríveis. Um trajeto com tantas curvas que os braços oscilam mais do que para-brisas na chuva forte. Os aclives e declives fazem do percurso uma montanha russa às avessas, sem frio na barriga, sem medo da próxima parte. Espera-se a próxima imagem depois da curva. Não há como atravessar esta estrada com pressa, foi feita para ser percorrida calmamente. A calma é amiga da contemplação. Quem escolhe uma vicinal, aprende a observar as paisagens.

Neste caminho tem a Igreja de Três Barras, que fica de fronte ao caminho de quem vem de Divinolândia e vai para Poços. Mais adiante, a estrada corta um distrito de Divinolândia chamado Campestrinho. É praticamente um bairro de oito quarteirões cuja rua principal é a própria estrada, com uma rua paralela abaixo e acima. É tão pequena que não tem supermercado, apenas o mercadinho que vende de tudo, da verdura até a panela. Nas portas, vê-se boa parte da mercadoria pendurada do lado de fora. Bola de futebol pra molecada, vassoura de palha caipira e tudo mais o que não cabe no interior do mercadinho.

É por essas e por outras que eu prefiro os caminhos diferentes e pouco conhecidos.

Não admiro uma grande veia ou artéria do coração. Se uma delas entope, são os pequenos vasos que garantem a irrigação do sangue pelo coração. Eles se ramificam ainda mais, aumentam seu calibre quando uma veia ou artéria é obstruída e são capazes de prolongar uma vida. As artérias mais finas, chamadas capilares, são responsáveis pela troca de dióxido de carbono por oxigênio nos pulmões, por eliminar as substâncias que o organismo não pode aproveitar através da urina no rim. No intestino, é nos capilares que os nutrientes são absorvidos e os resíduos não aproveitáveis são liberados. São os pequenos tuneis que saem do coração que fazem as extremidades respirarem.

Aprendi, pelas estradas da vida e pelos caminhos do coração, a não desprezar as estradas pequenas. Não recuso uma rodovia quando estou com pressa, mas prefiro a estrada vicinal quando posso escolher. Se não posso pegar uma estrada vicinal, viajo por dentro das minhas veias vicinais, percorro os caminhos por onde pulsam o meu coração.

A rodovia duplicada permite a mão do homem fique na coxa da mulher o tempo todo, pois o cambio permanece a maior parte do tempo na quinta marcha. Mas somente a estrada tortuosa e simples estabelece ocasião para a correspondência.

É na vicinal que a mão da mulher repousa na perna do homem. Ela retribui o carinho quando as curvas não permitem que ele solte uma das mãos do volante ou tenha que ficar mudando a marcha com frequência.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| As estradas da vida não são retas, nem expressas. O caminho é sinuoso, desconhecido e repleto de obstáculos.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 17/08/2013, Edição Nº 1265. 

sábado, 3 de agosto de 2013

Curso de Padeiro Ensina a Esperar

Arte de Weberson Santiago


Um dia eu cheguei a pensar que o bem-sucedido era aquele que buscava um objetivo sem nunca deixá-lo de lado. Se você pensa assim, como eu já pensei, está enganado.

Foi o que eu aprendi quando fiz um curso de padeiro e confeiteiro. O curso não me ensinou somente a fazer massas de pães ou preparar qualquer tipo de cobertura de confeitaria, me ensinou que o caminho para atingir um objetivo não é persegui-lo obstinadamente.

Com toda a minha empolgação com a arte dos pães, a primeira vez que eu fui sovar uma massa parecia um iniciante ansioso em uma aula de artes marciais. Socava a massa como o lutador ansioso querendo golpear qualquer um que apareça na sua frente. O professor me chamou a atenção. Eu coloquei tanta força que venci a massa por nocaute e ela quase não chegou ao forno. Revi a intensidade.

Logo que a massa ficou homogênea e na textura certa, eu já queria levá-la ao forno e ver o pão assado, quando me lembraram que a massa tinha de descansar para poder crescer. O objetivo era ver o primeiro pão francês assado, feito com as minhas próprias mãos. Ao deixar a massa descansar tive de deixar meu objetivo de lado. Aguentar não fazer nada por ele por um tempo. Tolerar uma hora que me pareceram demorar como se fossem cinco.

Levei essa lição para a vida. Boa parte do que fazemos tem a hora certa de sovar e um intervalo mínimo para descansar. Uma porção de coisas funciona melhor assim, respeitando um intervalo de tempo entre uma ação e outra.

Ao fazer uma dura crítica a alguém na esperança que de a pessoa mude, precisamos dar tempo para que ela mostre (ou não) uma mudança de conduta. Se não dermos esse espaço, apenas criamos as condições para que ela não aguente tanta pressão, não dê conta de mudar e desista.

Quando escrevo um texto, depois de um tempo na redação, deixo-o guardado na gaveta (ou no arquivo do computador) para me distanciar do seu conteúdo e poder enxergar o que ainda não está bom. Quando eu não dou um tempo na revisão e fico relendo repetidamente, passo a não enxergar os erros de ortografia ou a falta de clareza em algum trecho.

Mesmo os objetivos mais grandiosos e arrojados precisam ser deixados de lado em alguns momentos.  Não pensar antes de agir é impulsividade. Não conseguir deixar uma ideia de lado é obsessão. Não saber se segurar é compulsão. Os sentimentos não suportam ter de controlar o incontrolável.

Há momentos em que a melhor opção é deixar o tempo passar, a cabeça esfriar e esperar que as contingências fiquem mais propícias para, então, se comportar. A despreocupação também faz parte do processo de atingir uma meta. É nos momentos em que nos desobrigamos a pensar somente na produtividade que conseguimos encontrar a criatividade para solucionar algum entrave ou pensar em algum acabamento alternativo. O excesso de preocupação só atrapalha, como me atrapalhou a afobação de querer ver o pão assado.

É num momento de despreocupação que a massa cresce. E pra fermentar uma ideia e transforma-la em realidade é preciso saber a hora de sovar a massa – agir – e a hora de descansar – dar espaço para que as coisas aconteçam ou se desenrolem.

Não sabe identificar qual é o momento certo de cada coisa? Faça um curso de padeiro. Além de aprender a fazer pães, descobrirá o que é ser padeiro das emoções.


 UM CAFÉ E A CONTA!
| Massa, recheio e cobertura precisam entrar em concordância. A cobertura não pode ser mais vaidosa do que a massa. O recheio não pode chamar mais a atenção do que a cobertura.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 03/08/2013, Edição Nº 1263. 

sábado, 20 de julho de 2013

Faço Bico Como Repositor

Arte de Weberson Santiago



Vivo fazendo um malabarismo para que os alimentos nunca acabem na hora errada. Não gosto de ser pego de surpresa descobrindo, na hora que eu iria comer, que alguma coisa acabou.

Se tenho pouco tempo disponível para ir ao supermercado, as poucas vezes que eu vou tem de garantir que nada vai faltar.

Menos do que meia caixa de litros de leite, e isso significa 6 litros, é a mesma coisa do que não ter leite. Um bocado para mim já é nada. Dois potes de iogurte é não ter iogurte. Três fatias de presunto é não ter frios na geladeira. Um naco de queijo fresco é o mesmo que não ter queijo.

Fico antecipando o fim, por medo de realmente faltar. Depois que substituí o que está acabando, aí sim me permito terminar com o resto.

Tem gente que acha que geladeira é um livro. Fica folheando as prateleiras para ver se encontra alguma vírgula para dar um tempo no que tem pra fazer. Eu não. Ao invés de procurar um lanche, percorro as páginas da geladeira procurando um espaço vazio entre os alimentos para preencher, uma reticência em três últimos grãos de uva passa que me suscite comprar mais uvas passas.

Busco inspiração nas lacunas da geladeira e procuro logo um bloquinho para fazer uma lista de compras poética e partir a preencher os vazios.

- 1 Kg de tomates desesperadamente vermelhos para virar molho.

- Um pedaço de queijo chique ou metido a besta para beliscar enquanto o jantar de sábado termina de se arrumar.

Alimentos mutilados em nome de uma vida saudável:

- 1 pacote de pão de forma integral light, 1 bandeja de iogurtes desnatados, 2 litros de leite de baixa lactose, 1 pacote de café descafeinado, 1 pacote de sal light que não salga.

Alimento saudável tem que sofrer da falta de algum ingrediente.

Se me incomodo com o que pode acabar, também fico impaciente com o excesso. Não gosto de ver restos de comida espalhados em potinhos plásticos pelos cantos do refrigerador. Por isso, vivo em busca da porção ideal para não sobrar, ou se a comida for muito gostosa, para servir duas refeições sem resto. O desperdício dói.

Conheço geladeiras que mais parecem uma reserva de mantimentos, pronta para enfrentar qualquer tipo de catástrofe. Se um meteoro cair na terra agora e a distribuição de alimentos cessar totalmente, este tipo de família sobrevive três meses com a comida acumulada no refrigerador.

Minha obsessão é evitar o fim e o excesso. A desculpa é manter o essencial.

Ter na geladeira o suficiente de cada coisa sem deixar faltar nada. Eu sei que ter escolhido essa missão não me faz o melhor provedor, nem é isso que me faz ser o marido mais fiel. Também não me torna o mais gentil dos cavalheiros ao respeitar o gosto das minhas meninas nas compras.

E por mais que eu tente não ser insosso trazendo uma coisa gostosa e diferente de vez em quando, pode ser que a mania da reposição seja cansativa, já que desde que eu me casei não permiti a solidão da margarina fazendo companhia à indiferença da água gelada.

De uma coisa eu não tenho dúvida. Se um dia a minha geladeira ficar vazia é porque eu desaprendi a ser família.

 UM CAFÉ E A CONTA!
|Mostre-me o conteúdo de sua geladeira e eu te direi quem você é.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 20/07/2013, Edição Nº 1261. 

sábado, 6 de julho de 2013

Amor de Circo

Arte de Augusto Amato Neto



João, o avô do Ricardo vivia repetindo a história de como começou seu casamento.

João conheceu Doralice quando tinha dez anos, nos idos dos anos 20. Ela tinha onze. Era a terceira vez que visitava o circo, mas no registro de sua memória aquela sempre foi a primeira. Na tradicional visita anual do Circo Ciconelli à cidadezinha do interior, João estava sentado na arquibancada de madeira com sua família, longe do picadeiro.

Foi quando Doralice e sua irmã Dorotéia foram anunciadas como malabaristas mirins que João ficou enfeitiçado pela menina de nariz e queixo finos e cabelos claros acinzentados, presos em um rabo de cavalo. Nem prestou atenção na habilidade de Doralice com as argolas, não conseguiu desviar do seu rosto nem quando o reflexo dos brilhantes do collant ofuscou sua vista.

João não esqueceu aquela cena, sonhava com a volta do circo, imaginava o reencontro. Só queria olhar para ela mais de perto. Passado um ano, quando soube que o Circo Ciconelli estava na cidade vizinha, João não conseguiu mais dormir, sonhava acordado.

No dia do espetáculo, colocou sua melhor roupa e saiu com o coração palpitando. O palhaço parecia sem graça, nem se impressionou com o domador brincando na boca do leão. Na hora que Doralice foi anunciada no tecido acrobático João chegou a se levantar. “Senta, João!” – disse a mãe – “Vai atrapalhar as pessoas da fileira de trás”. Os rendimentos da família haviam sido bons naquele ano, estavam todos nas cadeiras, na turma do gargarejo.

João ficou encantado ao vê-la entrar. Doralice, concentrada em seu número, dependurou no tecido e correu em volta do picadeiro até ser levantada. Em uma das decidas tecido abaixo, Doralice parou de ponta cabeça e levantou o tronco e o rosto contra a gravidade. Seu olhar se cruzou com o de João pela primeira vez, por dois segundos, e foi interrompido pelo próximo movimento.

No intervalo que divide o espetáculo na metade ela botou reparo no menino. Doralice ajudava os primos a vender pipoca. Zeca estourava o milho, Juca recebia e dava o troco, Dora enxia e entregava o saquinho. João e seu irmão, que haviam ganhado umas moedas da tia-avó, foram buscar pipoca para toda a família.

Pediram oito pacotes e o irmão de João deu o dinheiro. Dora entregou quatro pacotes para o irmão. João parou na frente dela e ela entregou o primeiro. João colocou junto à barriga, próximo ao cotovelo. Ao receber o segundo saquinho de Dora, tentou segurá-lo com o braço ao lado do primeiro, e acabou deixando-o cair no chão. Ela sorriu discretamente. João ficou sem pipoca, o irmão se recusou a dar-lhe um punhado. Nem se importou, tanta era a sua emoção de ter ficado frente a frente com Dora que a pipoca foi o de menos.

No ano seguinte, João ficou amigo dos primos de Doralice e conseguiu conversar com a menina. Ao mesmo tempo em que reencontrou o que sentia quando estava perto dela, descobriu o quanto a partida era doída. Um ano era tempo demais para rever o seu amor. Nem cartas podiam trocar, pois Dora não tinha endereço fixo. A única opção era esperar as quatro estações passarem.

Dora guardava numa caixinha o papel da bala que ganhou de João no segundo encontro. Para não perder a lembrança, revisitava em pensamento o dia em que ele derrubou a pipoca. Doralice se apaixonou por um detalhe do colarinho da camisa de João. A mãe dele havia bordado uma dupla de raquetes de tênis e uma bolinha na cor azul marinho. Enxergou naquilo uma promessa de virilidade.

Aos quatorze anos, João fugiu com o circo. Queria inverter. Achou melhor visitar a família uma vez por ano a ficar contando 364 dias para rever Doralice. Constituiu uma família circense com Dora.

Nos anos 60, viver do circo começou a ficar complicado. A televisão começou a se popularizar, as pessoas se tornaram mais caseiras e os circos mais vazios. O Circo Ciconelli entrou em decadência, parou de viajar e seus artistas ficaram desempregados em 1964.

João, que havia feito muitos amigos nas cidades onde passou, logo arrumou emprego na indústria e manteve a arte na vida de sua família se apresentando em um teatro da cidade.

Seu neto Ricardo nasceu quando a família já estava fixada na cidade. Na infância, ao ouvir a história de seus avós, pensava que teria sido mais feliz se vivesse viajando com o circo. Na adolescência, passou a achar a repetição da história de amor dos avós nas festas da família uma chatice.

Ricardo não acredita neste tipo de amor. Quando João e Dora resgatam sua história, Ricardo pega seu celular e entra na rede social. Cada perfil de mulher para ele é como um DVD na prateleira da locadora. Merece ocupar apenas algumas horas de seu final de semana. Cada aniversário está com uma namorada diferente. Um namoro começa no final do ano e termina antes do Carnaval.

No fundo, João e Dora repetem incansavelmente sua história porque não aceitam que os amores de uma vida inteira tenham morrido junto com o circo.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Antes de ser circo, é uma família. Antes de ser um espetáculo, é a vida.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p.4, 06/07/2013, Edição Nº 1259.