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| Arte de Weberson Santiago |
Ao chegar em casa, parei o carro em frente a garagem para
abrir o portão. Estranhei uma planta do jardim pisada. Do lado de fora da
grade, me aproximei da muda. Ela não estava assim há cinco horas antes, quando
saímos.
Chegávamos em casa depois de uma noite muito agradável. Fazia
tempo que não reencontravamos aquela amiga e sua família. Comíamos comida
mexicana enquanto contávamos as novidades e relembrávamos as histórias da
infância e do passado. Pouco antes da meia noite, a chuva começou a cair. Meia
hora depois da meia noite, resolvemos ir embora.
A Natália, que estava dentro do carro com a Anelise, avistou
alguém escondido atrás da mureta da varanda, espiando quem chegava. Quando
voltei intrigado para dentro do carro, já com o portão aberto, ela alertou:
“Tem alguém lá dentro. Não entra!”. A evidência no jardim confirmava a
possibilidade. Dei ré, buzinei na esperança de afugentar o meliante, mas ele
não saiu. Acionei a polícia e fiquei dando voltas no bairro até que chegassem.
Quando os dois carros e oito policiais entraram, já não havia mais ninguém. O
portão aberto facilitou a fuga.
O assaltante havia feito uma visita à minha casa na véspera,
quando fugiu pelo quintal da vizinha e foi visto. Voltou para realizar o crime
durante a nossa chegada na casa. Não foi eficiente, deixou vestígios na
primeira e na segunda invasões. A muda que eu mesmo plantara uma semana antes
foi o aviso.
Fiquei pensando no motivo desta tentativa. Havia trocado meu
carro por um modelo esportivo do ano na
cor vermelha alguns dias antes do ocorrido. Talvez isso dê a impressão de que
minha casa está repleta de tecnologia. Se ele tivesse entrado, teria se
decepcionado. A televisão é antiga, de vinte polegadas. A geladeira já tem mais
de cinco anos. O único item mais novo é o notebook. Como poderia explicar que o
mais valioso que eu tenho aqui dentro são os objetos baratos que comprei em
minhas andanças por aí, minha coleção de tartarugas, a máquina de escrever da
adolescência e as heranças de valor afetivo?
Meu medo não é de que levem qualquer uma dessas coisas que eu
disse aí em cima. Fico mais preocupado com o que teriam passado a Natália e a
Anelise com o assédio moral característico deste tipo de criminoso. Eles
costumam descontar as privações de que foram vítimas em suas vidas naqueles em
que escolhem como suas vítimas. Levam o que serve como adornos em nossas casas,
mas precisam exercer um domínio sem escrúpulos sobre quem é assaltado. É a
única oportunidade de serem mais fortes, de provocarem medo, de serem notados e
não passarem despercebidos. Não economizam em tapas, beliscões e no jargão
ameaçador típico (como no filme “Cidade de Deus”). Seu prazer é criar o clima
terrorista.
Das suas tentativas de nos roubar me deixou o medo. A semana
que se seguiu teve o sono prejudicado. A sensação de vulnerabilidade é como
andar na corda bamba. A ameaça de cair é grande e o caminho seguro parece ser
muito pequeno. Não foi preciso ter sido de fato assaltado para ficar com a
eminente sensação de invasão, de ser observado em meus passos cotidianos, de
ter alguém me seguindo por todo o tempo.
Desta situação, descobri onde meu lar é frágil. Cerquei a
frente com rolos de arame farpado. Mandei instalar uma câmera para assistir
minha chegada em casa, coloquei iluminação com sensor de presença para mostrar
a quem passa na calçada que eu estou vendo. Novos artifícios foram somados à
grade em todas as janelas, ao alarme monitorado vinte e quatro horas, ao botão
de pânico e as várias trancas nas portas.
E com tudo isso ainda não me sinto seguro. Me sinto um refém.
Seguro eu me sentiria se todo este investimento pudesse ser feito em algo que
deixasse minha casa mais bonita. Tão bonita que quem passasse na porta teria
vontade de entrar e me fazer um visita.
Difícil é explicar pra Anelise porque nós estamos tentando
espantar as pessoas da nossa casa, confundindo a sua fachada com a de um
presídio. Somos os detentos de um mundo em que os culpados são absolvidos e os
inocentes são encarcerados.
| Não se cercar de cuidados é ingenuidade. Sentir-se seguro é uma meia
verdade. A pior arma é a boca.
|
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria
Publicado no Caderno Cultura, p. 3, 10/12/2011, Edição Nº 1177.


Um comentário:
OI AMigo.
Aceitar que é prisioneiro em sua própria casa... poxa ai é demais ...´n..
É por ai mesmo!!!
Deus te abençoe!!
Desejo Um nascimento cheio de Bençaos para o Ano Vindouro..
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