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| Arte de Weberson Santiago |
Cheguei à conclusão que minha criatividade é arrogante. Metida
a besta mesmo. Ela se antecipa em querer descobrir como se faz toda e qualquer
coisa que observo. Inspeciona o que está na minha frente até descrever os
materiais ou ingredientes. Antes parasse por aí. Que nada. A arrogância faz
questão de mostrar que sabe fazer igual, e tem o péssimo hábito de tentar fazer
melhor.
Sempre foi assim. Quase que um vício em aprender a fazer.
Começou com a culinária. Se engana quem pensa que foi uma tentativa de
impressionar. Necessidade mesmo. Estava cansado de me deparar com o hambúrguer
no final do dia. Já na adolescência testava o molho bechamel (ou molho branco)
no macarrão. Consultava uma coleção de livros de receitas da minha mãe, assinada
junto com o jornal.
Ela nunca foi de cozinhar durante a semana, mas manteve os
livros de todas as culinárias do mundo e a dispensa para que eu pudesse driblar
a fome e me fazer cozinheiro. No livro, encontrava o passo a passo com foto. A
invenção de novas combinações foi uma questão de tempo e de preguiça, e não de
segurança. Na hora de repetir a receita, a moleza de subir na grande estante de
ferro para pegar o livro me levava à variação nas quantidades e ingredientes.
Quando fui morar em São Paulo durante a faculdade, meus
principais problemas eram a falta de dinheiro, o preço do aluguel e da comida.
Quando abriu a barraca de sanduíche na rua de casa, encontrei o meu Mc Donalds.
Foi comendo o Misto Quente de café da manhã até o X-Tudo do jantar que descobri
que tinha o mesmo atendimento do Burger King, podia pedir o lanche da minha
maneira. Da saída do funcionário do caixa do carrinho me restou o convite para
meu primeiro emprego.
O dono era um migrante analfabeto, que havia feito o recrutamento
e a seleção ao me observar. Viu minhas habilidades para fazer contas enquanto
comprava dele e teve como prova de minha honestidade o dia em que lhe falei o
erro do Banner/Cardápio de seu estabelecimento móvel: Lanches do Pedrininho (se
bateu o olho e leu Pedrinho, leia novamente). O caixa e as compras eram
fechados por sua mulher, que tinha curso técnico em contabilidade.
Meu papel se resumia a entregar o refrigerante e a cobrar o
cliente. Muitos eu já conhecia de dividir as cadeiras na calçada durante as
refeições. O Pedro se deu bem ao achar um espaço perto de um shopping onde os
próprios vendedores evitavam a praça de alimentação para economizar. Nos finais
de semana era o dia todo de pé, mas a movimentação da rua compensava. Se eu
fosse cronista naquela época, hoje seria pós-graduado em filosofia do
cotidiano.
Para minha criatividade, dar o troco e pegar a lata certa de
refrigerante era pouco. Não cansava de notar o trabalho do chapeiro. Em uma
hora de pouco movimento, resolvi me arriscar, fiz um sanduba completo para mim
mesmo. Numa dessas, chegou um cliente e fez o pedido. Eu mandei o lanche. E de
vez em quando trocava de posto com o amigo da chapa. Quando percebi, me gabava
de quebrar os ovos com apenas uma mão. O ápice da função do chapeiro é jogar o
ovo e o hambúrguer pra cima e ele cair do lado oposto, mas quebrar o ovo com
uma mão já impressiona e demonstra aptidão para o posto.
Na minha primeira experiência em trocar minha mão de obra por
dinheiro, descobri que posso fazer carreira no ramo alimentício. Brinco com a
mulher que nunca passaremos fome. Se ficar sem emprego, trabalharemos com
comida. Ela gosta da ideia e dá o aval toda vez que cozinho em casa.
Dizem que não existe erro em investir em comida, mas essa
regra não se aplica quando não há alvará de funcionamento e a lanchonete
funciona na calçada. A fiscalização da prefeitura terminou com a minha carreira
no ramo do fast-food.
| Receitas
são regras e fugir da regra também pode terminar em prazer na degustação.
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Publicado no Caderno Cultura, p. 3, 03/12/2011, Edição Nº 1176.


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