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| Arte de Weberson Santiago |
Existem duas questões que parecem banais, mas que são grandes
imbróglios para a relação do homem com a
mulher. Parecem apenas perguntas que a mulher faz para o homem, mas disfarçam
importantes dilemas:
1. Com qual vestido você acha que eu devo sair hoje? O verde
estampado ou o bege com renda?
2. Pronta para sair ela pergunta: Você acha que essa roupa
ficou boa?
Não se trata de uma simples consulta de opinião, escondem uma
armadilha. Elas já escolheram, mas querem apenas a confirmação. Se pudessem,
tirariam de suas bolsas um pacotinho que, diluído em água, virasse uma amiga
pra acalmar as suas dúvidas. Como ainda não inventaram este recurso, são
obrigadas a apelar para o homem que já está pronto, há uma hora sentado esperando
no sofá. Se ele não estivesse vestindo uma cara feia, ela pegaria o celular e
ligaria para uma amiga. Acaba por fazer a pergunta para ele para demonstrar o
motivo da demora, justificar a enrolação.
Quando ela pede uma decisão sobre qual vestido usar, espera
que nós tenhamos conhecimento de todo seu guarda-roupa. Chega fazendo a
pergunta sobre as duas opções sem trazer as peças no cabide. Vez por outra eu
me deparo com uma camisa que eu havia esquecido que tinha. Como posso saber
sobre qual vestido ela está falando? A minha sensação é que, se eu passasse uma
semana conhecendo todas as peças do guarda-roupa dela, ainda não teria visto
tudo.
Difícil para mim é a resposta. Não há uma vez que minha réplica
agrade. Se eu escolho um dos dois, ela faz cara de decepção porque queria usar
o outro. Se eu digo que gosto dos dois, ela volta vestida com um terceiro e
parte para a pergunta de número dois.
É diante do “ficou bom?” que eu estrago a situação. Costumo
ser sincero. Se eu não gosto, acabo falando. E ela sai brava, bufando. Pego o
jornal, vejo se tem alguma atualização na rede social, enquanto tento despistar
a espera. A longa espera de um homem para ter ao seu lado a mulher amada, no condição
que ela considera seu estado impecável de beleza.
Para mim, tudo poderia ser rápido e simples. Quando eu
questiono o motivo de toda a indecisão, ela justifica que para as mulheres é
diferente. É preciso casar a roupa com o humor do dia, se meter em um processo
de provador para atingir um resultado satisfatório, às custas de uma sequência
de tentativas. Eu argumento que toda roupa que eu experimento e compro é porque
acho que me cai bem. Ela fica sem argumento, mas não consegue mudar a técnica.
O ato de se arrumar é, para a mulher, como o ato de organizar
o churrasco para o homem. Ele passa a semana pensando em qual carne ele irá
comprar, qual a melhor hora para a cerveja ficar gelada a tempo, calcula a
quantidade de pãezinhos por número de convidados e usa todos os segredos na
hora de assar a carne. Quando ela vai sair, passa dias planejando a roupa,
combinando peças e acessórios no seu pensamento.
Só que a expectativa do churrasco pode não se concretizar na
hora de mandar brasa na carne. Acontece do fogo não querer pegar, da cerveja
ficar quente e a carne assada sem sal. Quando a mulher vai se vestir, ao juntar
as peças e parar diante do espelho, a imagem não confere com o reflexo da sua
imaginação. Esta é a primeira frustração. Quando ela vai tentar uma segunda
opção, já está desanimada. Põe a roupa e imagina como as mulheres presentes no
compromisso a teriam visto vestida desta forma. A segunda vestimenta não passa
no crivo e a irritação atinge um nível gritante. Ela já espera que a terceira
troca não dê certo e, nessa hora, o homem chega e começa a apressar. É quando
ela tem vontade de lhe matar.
Depois que eu percebi tudo isso, passei a tentar que ela apressasse
o banho quando temos uma festa, para ver se ela termina mais cedo, mas só
consegui mudar a hora que começo a apressar. Fiquei escolado diante daquelas duas
perguntas chaves. Passei a fazer sugestões de roupas que eu gosto antes do
compromisso para ver se ela desempacava diante da infinidade de opções, mas ela
desanimou porque tirei sua oportunidade de escolha.
Foi aí que eu encontrei a solução. Achei a minha parceira de
espera. Pego um brinquedo, sento com a pequena e esqueço que estou esperando.
Torço pra adolescência da Anelise demorar a chegar. Não sei o que eu vou fazer
quando tiver de esperar as duas ficarem prontas.
| Depois da escolha da roupa, falta arrumar o cabelo e fazer a
maquiagem. Amar é não ter pressa para sair.
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Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria
Publicado no Caderno Cultura, p. 3, 17/12/2011, Edição Nº 1178.


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