sábado, 30 de março de 2013

Uma Pilha de Jornais de Herança

Arte de Augusto Amato Neto



Na minha família, existe uma forma muito particular de pais e filhos trocarem afeto. É a entrega de artigos, o receber recortes de jornal, o ganhar alguma matéria selecionada.

Meu avô Tino, 93 anos, diz que sua bagagem intelectual saiu dos jornais. Apesar de ter  concluído o curso de contabilidade antes de se casar e ter feito faculdade de economia quando já tinha dois filhos, foi debruçado nas páginas do jornal que ele descobriu oportunidades de negócios, de trocar seus carros e esteve por dentro dos assuntos mais importantes de cada época.

Desde que começou a trabalhar, antes de fazer carreira como industrial, foi ajudante de barbeiro. Foi nessa época, aproveitando o tempo livre no salão, que aprendeu a abrir os braços para as notícias e se tornou um hábil espiador de manchetes e letras miúdas. Quando não havia tempo, levava o jornal da véspera para casa e o lia de cabo a rabo.

Quando arrumou seu primeiro emprego assalariado, tornou-se assinante de um importante jornal, sendo hoje um de seus mais antigos leitores.

Nessas décadas, cada notícia lida que remetia a algum de seus filhos ou netos, ele fazia o recorte. Muito antes de eu ter nascido, seu Tino percorre os quatro cantos da notícia com a tesoura para fazer o assunto chegar a quem interessa. Um cuidado para que nós não fiquemos por fora da última notícia.

Quando eu ingressei no curso de psicologia, passou a separar artigos de terapeutas, resenhas de novas obras publicadas, notas elucidando a tradução de um clássico da área.

Mais adiante, depois de treinar minhas habilidades de cozinhar, quando tive a coragem de apresentar algum prato à família, ele passou a guardar o caderno culinário do jornal para que eu pudesse aprimorar os modos de preparo e descobrir novos ingredientes.

E ele fez o mesmo com com os filhos engenheiros, com os netos que estudaram medicina, com o neto publicitário. E teria feito se na família tivesse um advogado, um físico ou um dentista.

O meu pai mantêm a mesma tradição, só que de uma maneira um pouco diferente. Ele é assinante de revistas especializadas na área de gestão de negócios e recursos humanos. Durante as suas leituras assíduas, faz uma clipagem dos artigos que são mais interessantes. Ele grifa os trechos mais importantes da matéria e faz um índice de assuntos em um papel preso na capa. Oportuno para mim, que tenho uma vida corrida e agitada.

Com todo este cuidado, fica difícil recusar a informação. Recortes do meu avô e as revistas encaminhadas pelo meu pai são minhas leituras obrigatórias, o resto é bibliografia complementar.

Trata-se de um compartilhar de informação como se fosse uma troca de bilhetes, um recado de preocupação.

Esse hábito que nasceu com meu avô e já atravessou duas gerações é a versão paterna do lembrete da mãe para levar a blusa de frio ou o guarda-chuva.

Implícito nas entrelinhas das reportagens da vida estão duas máximas em matéria de afeto masculino. Os homens se protegem da chuva com o conhecimento. Os homens se aquecem sabendo da última notícia da sua área de atuação. Meu guarda-chuva e minha colcha são feitos de retalhos de jornal. 

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Um filho meu, ao chegar em casa, não me verá sentado na poltrona com as páginas abertas. Que pena. Na sua memória eu estarei fazendo o mesmo dando piparotes na tela de um tablet.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 30/03/2013, Edição Nº 1245. 

sábado, 16 de março de 2013

Se Meu Espelho Falasse

Arte de Weberson Santiago



Se meu espelho falasse, não aceitaria apenas assistir ao entra e sai todos os dias.

Se meu espelho falasse, conversaria comigo durante todo o tempo que passo no banheiro. Iria querer saber exatamente o que eu faço durante o período que estou fora de casa. Tentaria entender porque eu saio renovado da ducha e volto cansado, precisando de um bom banho.

Se o espelho falasse, mostraria o quanto eu estou diferente a cada dia. Provaria que, seguindo o mesmo ritual todas as manhãs, o resultado nunca é o mesmo. E insistiria até me mostrar que o resultado é diferente de como eu imagino que estou.

Se meu espelho falasse perguntaria por que, logo depois de acordar, fico alguns minutos olhando para meu reflexo. Questionaria se eu demoro a me reconhecer ou se estou dormindo de olhos abertos.

Se meu espelho falasse, pediria para que eu tentasse mais uma vez. Me aconselharia a diminuir o tempo que eu passo tentando entender tudo o que acontece. Tudo, tanto, o tempo todo. Apenas tente mais um vez, diria ele.

Se meu espelho falasse, alguns dias meu reflexo pediria para que eu saísse da sua frente. Sai da frente que eu quero ficar aqui, já que não posso passar. Cansei de você. Cansei do quanto você se habituou a me ver sem me olhar. Será que percebe como o tempo passou? Ele questionaria.

Se meu espelho falasse, jogaria na minha cara que não é possível dormir com medo e acordar de cara com a coragem. Que quando eu escovo preocupado os dentes pra dormir, é impossível escovar despreocupado os dentes pela manhã. Escancararia que nenhum problema se resolve por si só, depende de esforço.

Se meu espelho falasse, daria gargalhadas comigo. Choraria no meu ombro amigo. E tentaria me convencer a pensar apenas no meu umbigo.

Se o espelho falasse, pediria que eu diminuísse as comparações. Deixe de olhar para o que os outros são e preste mais atenção no que você é, falaria ele. Esqueça o que os outros têm e pense apenas em como você vai fazer para conquistar.

Se meu espelho falasse, um dia ficaria rouco. Perderia a voz e emudeceria de vez em quando. Por vezes ficaria de queixo caído.

E quando ele parasse de falar comigo, me deixaria pensando, até que eu concluísse:

Quando olhamos no espelho, não buscamos encontrar um estado excelente de aparência. Estamos tentando evitar qualquer detalhe estranho que prejudique nossa aceitação.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Se meu espelho falasse não seria mais o meu reflexo, seria o oposto de mim mesmo a me completar.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 4, 16/03/2013, Edição Nº 1243. 

sábado, 2 de março de 2013

O Colecionador de Chapéus

Arte de Augusto Amato Neto




Gustavo, 42 anos, é gerente administrativo de uma empresa. Casado com Tatiana, 39, há 18 anos. O casal tem dois filhos. Luciana, de 15 anos, e Vítor, de 6.

Há dois anos, Gustavo chegou em casa após o expediente de trabalho carregando uma caixa. Curiosa, Tatiana questionou o conteúdo. “Comprei um chapéu Panamá, igual ao do Tom Jobim”, disse. Ela gostou da novidade, sempre achou um charme homem de chapéu.

Na semana seguinte, Gustavo trouxe para casa uma sacola. Tatiana encontrou-a na sala quando chegava com os filhos. Entreabriu a boca do saco plástico e encontrou outro chapéu, diferente do primeiro. Achou estranho o marido repetindo a compra sem sequer ter usado o outro. Gustavo costumava levar a esposa quando saia para comprar roupas e consultava sua opinião a cada troca no provador. Ficou encafifada com a independência repentina, mas acabou esquecendo a atitude incomum do marido.

Passados dez dias, a família toda passeava num shopping. Passando em frente a uma vitrine, Gustavo avisou que iria entrar na loja. Foi direto à prateleira de chapéus e começou a analisar os modelos. Escolheu um exemplar de estampa xadrez pequena, sóbrio. Tatiana ficou sem graça de questionar a compra na frente das vendedoras e dos clientes. Saindo da loja, ela não se conteve:

— Guto, que mania é essa agora de ficar comprando chapéus? Já levou três para casa!

— Não posso mais comprar o que eu quero? – retrucou.

— Só não estou entendendo o motivo da coleção. Você compra o chapéu mas não o usa. Semana passada, fomos no churrasco na casa do Arthur e você não usou o chapéu. No dia seguinte, fomos ao clube e você também não usou.

Ele se calou, não apresentou um motivo sequer. Não justificou as aquisições. As compras continuaram a se repetir. Em um ano, Gustavo juntou dezoito chapéus. Tatiana questionou cada uma das compras. E ele sempre devolveu respostas evasivas. Ficou preocupada, chegou a pensar que o marido estava ficando doido. Consultou um psiquiatra para investigar a possibilidade de Gustavo estar com TOC, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mas ele não se enquadrava no transtorno, já que sua mania se resumia a colecionar chapéus sem usá-los, sem prejuízo algum nas demais atividades.

No fim da tarde de uma quarta-feira, Gustavo e Tatiana receberam uma ligação dos pais de Tatiana pedindo que eles fossem até lá para uma conversa urgente. Preocupados, deixaram o que faziam em casa e foram ao encontro do casal. Sebastião, o pai de Tatiana, descobriu naquele dia que estava com câncer de próstata. Seria operado ainda naquela semana e depois passaria por sessões de quimioterapia.
Após a cirurgia, quando Sebastião havia tido alta para o quarto, Gustavo e Tatiana se dirigiram ao hospital para uma visita. Foi quando Gustavo desceu do carro, abriu o porta-malas e retirou uma caixa.

— O que é isso, Guto? – questionou surpresa.

— Você vai ver.

Entraram no hospital e foram em direção ao quarto onde Sebastião se recuperava. Entregou a caixa ao sogro. Era o primeiro chapéu que Gustavo havia comprado, entregue para que ele usasse quando o seu cabelo caísse após a quimioterapia.

Ao assistir a cena, Tatiana suspeitou entender, ainda que vagamente, o motivo da coleção. Saindo de lá, Gustavo lhe explicou que a palavra câncer era proibida na casa de seus pais. Quando a doença foi descoberta e divulgada, os motivos do seu aparecimento eram pouco claros. Evitar falar o nome da doença, naquela época, era tentar que ela passasse longe dos entes queridos. Ouvia seus pais se referindo ao câncer como “aquilo” ou “a coisa”.

Gustavo percebeu que deixar de falar não evitava um câncer ao observar a perda de alguns amigos e colegas. Passou a se preocupar com a doença e se deparou com sua origem silenciosa e imprevisível. Não conseguia falar sobre o assunto com a esposa, tão forte era a regra que vigorou na sua infância. Foi aí que decidiu colecionar chapéus. Se ele viesse a descobrir uma neoplasia em seu corpo, quando enfrentasse o tratamento, queria ter uma coleção de chapéus para usar a cada dia, uma tentativa de manter viva a esperança.

Se fosse agraciado de não passar por um câncer, entregaria os chapéus para os que tivessem de enfrentar a doença. Não escolheria o doente, poderiam ser pessoas que ama ou até um desconhecido que cruzasse seus caminhos e ele soubesse que lutava pela vida.

A partir do dia que descobriu isso, Tatiana começou a colecionar lenços sem usá-los. Passaram, os dois, a proteger a cabeça e a fazer um carinho no cocuruto dos bravos que enfrentam um câncer.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O melhor analgésico é se sentir cuidado.



Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 02/03/2013, Edição Nº 1241. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Vida Continua Depois do Carnaval

Arte de Weberson Santiago


Quarta feira de cinzas, 14 horas, dia chuvoso de fevereiro. Hora marcada para a reunião dos integrantes do “No Comando do Seu Peso”, um grupo que se encontra com o objetivo de incentivar a “eliminação” de quilos indesejados. Cristina é a presidente da reunião, comanda o grupo, leva materiais para discussão e acompanha os resultados da balança. Algo discreto. Sobe-se no pesadouro em frente aos demais presentes.

O que importa a tal privacidade se Cristina conseguiu “eliminar”, como ela própria diz, 45 quilos sem cirurgia? Cada membro novo que chega às reuniões, ela exibe a foto de um passado obeso. Aquela foto que durante muito tempo ela tinha horror só de imaginar, hoje usa como medalha pendurada no pescoço. O programa americano adaptado no Brasil diz que o líder deve ser um exemplo de comportamento.

Depois de mais de uma hora de palestra temática para aprender a diferenciar a “fome física” da “fome compulsiva”, o que segundo Cristina “é a chave do sucesso”, abre-se espaço para quem quiser falar. O momento que precede a pesagem mais parece um confessionário de farras alimentares.

Tereza, 43 anos, casada, 2 filhos que moram em outra cidade, 112 Kg, pede a palavra: “Sempre gostei de carnaval. Esse ano eu fui assistir ao desfile das escolas de samba da cidade. Meu marido, como sempre, não quis me acompanhar. Os meninos foram viajar com os amigos. Então chamei e Kelly, minha vizinha, e fomos pro sambódromo. Como na semana passada aprendemos a nos preparar para quando saímos da rotina alimentar, peguei uma sacola térmica e coloquei os lanches do jeito que mandava a dieta. Aí, tivemos que chegar cedo pra pegar um bom lugar. Esperamos na fila no meio de um monte de gente e quando olhei para o lado, cadê a sacola de comida? Algum esfomeado ficou de olho e pegou quando me distraí com o aquecimento da bateria. Aí, sabe como é, né? Aquela vaca da Kelly, magra de ruindade, ficou do meu lado comendo tudo o que passava vendendo. Era churros, pastel, pipoca, amendoim... Eu fiquei lá mais de 12 horas, como não ia comer nada? Mas eu tentei controlar a quantidade...”.

Marcos, 52 anos, solteiro, 169 quilos, interrompe dizendo: “É por isso que eu não gosto de carnaval, uma bagunça, aquele povo bêbado, aquela pouca vergonha. Não vou a um lugar desses nem me pagando. Fiquei o feriado todo em casa. Assisti alguma coisa pela televisão, até porque só passa isso. Na segunda, eram três horas da manhã, aquele desfile sem fim e a narração sem graça da TV, começou a me dar uma fome... Não compro mais doces, pra não ter recaídas nessas horas. Como não tinha nada de sustância, me deu vontade de comer caqui porque eu tenho um pé em casa. Fui lá no fundo e matei minha vontade: comi três dúzias de caqui”.

Em meio às risadas incontroláveis e patéticas, Maria, 37 anos, deprimida e solitária com seus 143 quilos: “Eu não vejo graça nessa história do caqui. Até acho que vocês dois deveriam comemorar. Um não queria sair e ficou em casa. A outra não deixou de fazer o que queria. Meu carnaval foi mais trágico que isso, essa data completa 12 anos...”. “Que o seu namorado te largou, abandonou sem muitas explicações e levou tudo o que você tinha, não é, Maria?”, antecipa Marcos. “Sei que vocês já estão cansados da minha história, mas eu nunca me senti tão sozinha. Não sei onde eu achei forças para ir até o salão de festa do condomínio, onde todo ano fazem uma matinê. Bem que tentei paquerar por lá, mas o único homem desimpedido era o Seu Joaquim, aposentado e viúvo de 78 anos. Resumindo, já que vocês sempre ficam irritados com as minhas histórias: esse meu carnaval teve confete e serpentina. Enchi a cara de chopp na festa do condomínio e terminei a noite comendo chocolates coloridos no sofá da sala, sozinha”.

“Que tal vermos como cada um está em relação a sua meta, pessoal?”, diz Cristina.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Se o ano começa depois do carnaval, deixa eu me apressar que agora é pra valer. Pelo menos até o próximo feriado.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 16/02/2013, Edição Nº 1239. 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Admiração Está Nos Olhos de Quem Vê

Arte de Weberson Santiago



Quando ela me vê descobrindo as coisas e os lugares da cidade, admira a minha capacidade de encontrar as novidades que estão escondidas nos percursos de sempre. Enxerga um desbravador de oceanos em busca do novo continente onde existe apenas um curioso.

Quando ele me vê trabalhando por muitos dias seguidos sem folga, admira a minha capacidade de encontrar forças onde deveria faltar disposição. Avista uma mulher de super poderes onde está apenas uma pessoa que batalha muito para conquistar o suficiente.

Quando ela me vê trazendo um objeto novo para uso de toda a família, acredita que se eu quisesse seria capaz de fazer um calendário de surpresas diárias.

Quando ele me vê cuidando de casa, me diz que as coisas que eu fiz e os lugares que passei sorriem com semblante de felicidade.

Quando ela me vê cuidando das plantas, imagina que vai receber o carinho das pétalas.

Quando ele me vê cozinhando, pensa que vai lamber o prato.

Quando ela me vê quieto, emudecido, fica tentando entender o silêncio. E com o passar dos anos, ficou boa em acertar o que me entristeceu.

Quando ele me vê cansada, me sugere um banho. Sabe que eu vou me sentir nova ao sair da ducha.

Quando ela me vê produzindo, diz que ninguém é mais criativo do que eu.

Quando ele me vê trabalhando, se esconde para ficar olhando minha maneira de interagir. Ele sorri quando lhe pego me olhando. Como quem estava contente em espiar e fica decepcionado em ser descoberto.

Quando ela acorda depois de uma noite de sexo, fica mais bonita. E ouve das pessoas naquele dia que está mais bonita.

Quando ele dorme depois do sexo descobre que o sexo continua nos sonhos.

Quando ela me vê entrando em casa carregando o pão junto ao peito, ao invés de segurar o saco dependurado, pensa que eu só poderia ser um ótimo pai.

Quando ele me vê cortando o mamão em metades, pensa que retirar as sementes e levar os dois pratos à mesa é o sinal de um verdadeiro encontro.

Quando ela me vê de olhos cansados, imagina que é um sorriso de ponta cabeça.

Quando ele me vê de olhos marejados, fica enxugando as lágrimas que escorrem para formar uma poça de esperança. Encharca os dedos indicadores para secá-los apontando as perspectivas.

Amar é não ser cego para o dia a dia. É ver nos olhos de quem se ama quais são seus próprios sentimentos.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O sol de quem ama nasce na luz dos olhos do seu amado. O céu de quem ama está no contorno dos olhos enamorados.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 02/02/2013, Edição Nº 1237. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

O Sabor Amargo da Traição

Arte de Augusto Amato Neto




Me deixei seduzir pela novidade. Não resisti à tentação de experimentar um pão francês nunca antes degustado. Traí a minha padaria preferida.

Parei o carro na porta e cheguei a hesitar na entrada. Sempre defendi a fidelidade ao balcão escolhido. Nunca pensei que seria capaz de enganar meus próprios hábitos.

Levado pelo impulso, no afã do desejo pela novidade. Entrei pela porta, olhando para os lados, temendo ser visto. Nem havia cometido o pecado e já me queimava em culpa.

Cruzei o caixa próximo à porta quando vi aquela cena. A balconista passou a faca serrilhada no sentido transversal pela casca crocante, dividindo-o em duas metades.

Há quem prefira começar a comer pela parte de cima e deixar a de baixo por último. Eu prefiro comer primeiro a parte de baixo e deixar a de cima por último. Para mim, aquela parte que tem a fenda aberta com a lâmina, que caracteriza o francês, é a metade mais gostosa. Tenho a mania de querer deixar o melhor para o final.

Já vi cortarem no sentido longitudinal,  dividindo o pão em duas metades iguais. Não concordo, não vejo graça em começar e terminar comendo duas partes iguais. Veja bem, não sou contra quem come meio pãozinho, mas que corte na perpendicular e depois no sentido transversal. Ainda assim terá duas partes diferentes, a de baixo e a de cima para completar o ritual. Mas vamos deixar o procedimento e voltar ao dia que cometi o engano.

Quando a balconista besuntou a metade do recém-saído-da-fornada com manteiga, ela derreteu-se automaticamente entre os relevos desiguais dos miolos. Eu não resisti. Pedi um e me lambuzei.

Não teve como passar batido, omitir a prova. Deixei minhas digitais amanteigadas nos guardanapos de papel.

Rubem Braga narrou em crônica publicada em 1955, a crueldade envolvida na morte de um carneirinho para se transformar em diversos pratos degustados em reunião de família. Depois de provar o sabor das iguarias concluiu que o crime compensa.

O mesmo não aconteceu com a minha infidelidade. O pecado não compensou.

O pão não estava fresquinho, ficou dando rodadelas em minha boca com sua textura macia. Se eu usasse dentadura, poderia tê-la esquecido em casa e ainda assim teria deglutido o famigerado pãozinho.

Não bastasse o pão murcho, a moça esguia e magra economizou na manteiga. Essa foi outra lição. Não confie nas balconistas magrelas. Nunca terão lambido uma tampa de alumínio do potinho de iogurte, muito menos saberão lamber a faca com resto do requeijão sem cortar a língua.

E devo confessar sussurrando, para não passar muita vergonha, que de longe o pão parecia ser o mais crocante que já vi.

Devo vociferar minha culpa, para quem sabe assim não me seduza por qualquer quitute acenando na vitrine de uma padaria qualquer. Fui pensando que poderia descobrir um gostinho diferente e experimentei o sabor amargo da traição.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Já adianto que até a publicação desta crônica terei recaído. Nunca serei capaz de mudar de calçada diante de uma padaria. No mínimo, vou torcer o pescoço e dar uma última espiada no pão que ficou pra trás e que não experimentei.



Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 19/01/2013, Edição Nº 1235. 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Promessas de Ano Novo Revelam as Dívidas do Ano Velho

Arte de Weberson Santiago



Eu não confio em quem faz promessas de ano novo. Para mim, as resoluções de ano novo disfarçam algumas dívidas que fizemos consigo mesmos no ano que acabou de terminar. As promessas mostram as pendências. Se não foram cumpridas no ano que terminou, como vou acreditar que serão cumpridas em uma renovação?

Existe uma tendência à procrastinação, uma disposição em deixar para depois, de amolecer na decisão, de se perder no meio de outras necessidades e até de se distrair com qualquer novidade. No dia trinta e um de dezembro imitamos políticos em campanha. Prometemos mundos e fundos em comícios em que somos, ao mesmo tempo, falantes e ouvintes. Passada a posse do primeiro dia do ano, as promessas são esquecidas.

Acredito que todo mundo tem o direito de querer mudar, mas deve tomar cuidado com aquilo que promete. Pior do que cair na lábia de um terceiro é ser enganado pelo que se diz a si mesmo. Todo momento pode ser uma oportunidade de mudança. Não é a virada de ano a única ocasião para recomeçar.

Acredito que a maior aliada para uma mudança é a organização. Quantos pegam uma folha de papel e enumeram sua lista de necessidades? Ninguém quer registrar a promessa, criar a prova para caso venha a falhar. É o medo do próprio julgamento, da severidade do delegado que existe na consciência de cada um. A lista de necessidades nos torna capazes de administrar as prioridades. Com ela é mais difícil de esquecer o que é importante.

Antes de desejar um ano novo cheio de mudanças, pare e observe o quanto o ano que terminou lhe exigiu adaptação, paciência, jogo de cintura, habilidade para lidar com pessoas difíceis. Ao invés de querer que a vida lhe ofereça novas possibilidades, seja sincero consigo e encare todas as oportunidades que você deixou passar, as verdades que você preferiu não olhar, as palavras que você escolheu não dizer.

O meu maior medo em uma passagem de ano é tropeçar no dia trinta e um de dezembro e cair no dia primeiro de janeiro, ignorando o terminar e o recomeçar como um momento de reflexão.

A vida fica sem graça demais se não podemos aprimorar os próprios valores e sem as situações que colocam em questionamento as nossas crenças. Qual o sentido da sua vida? Onde você quer chegar com ela? No que você acredita? O que você valoriza e pretende lutar para que não escorra pelos vãos existentes entre os seus dedos? Como você tem agido emocionalmente? Como você compartilha seus recursos, o que você tem de melhor?

Responder a estas perguntas é mais difícil do que fazer um teste de múltipla escolha daqueles de revista e contar os pontos para que você saiba o resultado. Algumas das questões que levantei acima podem ficar sem resposta.

As pequenas mudanças são possíveis apenas quando temos coragem de encarar grandes reflexões. A felicidade não está em uma resposta absoluta a estas perguntas, mas no questionamento constante, já que a vida muda, as coisas mudam e as pessoas ao nosso redor mudam.

Por isso, eu desejo a você e aos seus queridos um 2013 cheio de mudanças, para que desenvolvam as suas capacidades de adaptação. E na hora de agir, que cresçam as suas ousadias, para que vocês não fiquem presos às atitudes de sempre.  Desejo, principalmente a você que, ao final de 2013, refaça aquelas perguntas e as suas respostas lhe deixem mais satisfeito, com um sentimento de renovação.

E talvez assim, nesse árduo e agradável caminho do viver, torne-se possível mudar a rotina, o hábito e o comportamento repetitivo.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Um feliz ano novo é o que começa igual e termina diferente.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 05/01/2013, Edição Nº 1233.