sábado, 21 de julho de 2012

As Manias Também Crescem

Arte de Weberson Santiago



Mania que merece respeito é aquela que carregamos desde a infância. Cresce com a gente numa lealdade de animal de estimação. A mania exige o cuidado de ser alimentada e acariciada todos os dias, mas oferece algumas recompensas. Caso contrário, seria abandonada na sarjeta.

Durante sua meninice, minha amiga Maria Antônia foi vítima da mania dos outros no parque de diversões. Ela não imaginava que a cama elástica era um terreno fértil para a cleptomania. Foi depois de pular incansavelmente, na saída do brinquedo, que ela não encontrou seu par de sapatos.

A estante que abriga tênis, sandálias e chinelos é um convite para exercitar a compulsão. Se um dos pais do moleque tem mania de levar algumas pertences dos outros pra casa, ele não saberá segurar seu impulso quando está esperando no pula-pula. De quebra, a criança vai aprender que não precisa recorrer a loja para ganhar um sapato novo. Pagar pra quê?  A Tonha que o diga, foi um transtorno ir embora pra casa descalça. A mania dela, que desde menina era combinar as cores da roupa com o sapato, teve de se acostumar com a falta das solas naquele dia.

A Anelise tem a mania de ir ao banheiro em qualquer lugar que vai. Na igreja, no supermercado, em toda visita que fazemos. Basta nos acomodarmos na cadeira do restaurante e ela pede. “Mãe, quero fazer xixi!”. A Natália tem que levantar, acompanhar o passo a passo até voltar com ela. Não existe lugar que isso não aconteça. O pior é quando ela está só comigo e não tem banheiro infantil no lugar. Lá vou eu forrar o assento.

Com essa mania, a Anelise parece um cachorro dando uma volta pelo bairro e batizando cada poste. Ao invés de demarcar seu território, a Ane precisa visitar o banheiro para se sentir segura. Além de dar uma voltinha no meio da conversa chata dos adultos, a visita ao banheiro é a maneira que ela encontrou de conhecer o dono do lugar.

É quase um diagnóstico, uma pesquisa de comportamento. Quando a Ane visita o banheiro, descobre os gostos do dono, seus hábitos de higiene. Não vai com a cara do proprietário se percebe o fim do papel higiênico disponível. Quando encontra sabonete líquido para levar as mãos, vê um amigo em potencial. É um teste de confiança, a Anelise só consegue confiar em um adulto depois de conhecer seu banheiro. Tendo aprovado, já existe motivo para a intimidade. A camaradagem fica evidente quando ela deixa de avisar a Natália e pede para usar a latrina diretamente para o dono.

A Ane tem uma amiga que tem uma mania parecida. A Luana, 4 anos, antes de confiar em um adulto, precisa calçar o seu sapato. Não importa que o sapato fique enorme, ou que ela tenha dificuldade de se equilibrar em cima do salto. Ela precisa experimentar o ponto de vista dos pés para ver se o marmanjo passa no crivo.

O seu pai acha esse costume um problema. Sapato é uma cidade de bactérias, ácaros e fungos. Mas foi assim que ela avaliou cada uma de suas professoras no início de ano letivo, que ela aprovou os namorados das tias, que ela parou de chorar na consulta do pediatra.

Nós respeitamos a mania da Anelise até o ponto em que ela vai ao banheiro e não faz xixi nenhum, aí chamamos a atenção sobre esse passeio. De toda maneira, lidamos com esses pedidos com certa naturalidade. Não existe como medir se há vontade de verdade.

Por conta dessa liberdade na visita aos banheiros, dia desses estávamos numa festa de aniversário de uma tia com o meu avô Tino, de 92 anos, e ela estava sentada no colo dele. De repente soltou:

— Vô Tino, quero fazer cocô!

A Natália e eu olhamos para os lados, agradecemos em silêncio que o restante da mesa de familiares não tinha ouvido o pedido, enquanto meu avô dava risada. A Natália levantou e levou ela ao banheiro, enquanto eu fiquei na mesa, torcendo para a mania não crescer e ficar só no xixi.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| As manias nascem na infância e são carregadas na lancheira, passam a adolescência na mochila, ocupam os bolsos na vida adulta e se tornam amuletos na velhice.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Primeiro Caderno, p. 7, 21/07/2012, Edição Nº 1209. 

sábado, 7 de julho de 2012

A Memória da Infância é Um Trailer

Arte de Weberson Santiago




Quando eu era criança, minha mãe barbeava minhas blusas de lã. Ela descobriu que o prestobarba resolvia o problema dos fiapos e bolinhas. Quando eu era criança, meu pai não me deixava sair de casa sem os cabelos devidamente penteados. Entrando no carro para ir à escola, ele tolerava o laço do cadarço torto pra um dos lados no bamba azul marinho, mas não admitia os cabelos desgranhados de travesseiro. Se eu poupava o esforço só penteando a frente, ele me fazia descer do carro e acertar a parte detrás do cocuruto.


Ao aparar as rebarbas do meu suéter sem espuma de barbear, minha mãe me deixava de peito limpo para enfrentar o frio da estação. Ao exigir que penteasse meus cabelos antes de sair de casa, meu pai me dava cara de banho para os dias afervorados da infância.

As minhas lembranças desta idade são parcas. A memória da infância é como um trailer. Nunca é como um filme. Costumamos lembrar de certas passagens importantes, mas nunca de toda a narrativa. A recuperação em partes trás consigo o suspense sobre o que não é lembrado. O que será que eu fiz? O que fizeram comigo? O passado deixa de existir pela impossibilidade de recordação.

Para tapar os buracos de nossa própria história, o único recurso é perguntar para alguém que nos assistiu o que foi que aconteceu. O relato de quem nos viu reconstrói algumas cenas cortadas na edição de nossas reminiscências. O problema é que assim criamos memórias de expectador. Passamos a ver nossa experiência como uma cena de filme e não do ponto de vista de quem viveu.

Me lembro de ter caído de bicicleta quando tentava aprender a pedalar, mas não me recordo do ponto de vista do guidão e do caminho que segui até a cambalhota da queda. A minha lembrança é da poltrona na frente da tela, vendo o cambalear das rodas e a queda na terra. Na memória de expectador, vejo a minha imagem no chão do terreno da esquina com o joelho machucado pelas pedras, a tentativa de conter o choro e até o olhar para os lados pra ver quem tinha visto o fracasso. Reconstituí minha memória pelo ponto de vista de quem me viu caindo.

Quando eu era criança, na minha cidade não tinha restaurante. Pra comer uma pizza, tínhamos de ir até uma de duas cidades vizinhas. A pizza compensava a estrada de tão gostosa. Todos se arrumando para sair, era um ritual familiar. Me lembro que as duas pizzarias tinham seus distrativos para enganar a espera da redonda. Uma tinha um aquário cheio de peixes coloridos, a outra tinha um aquário na parede com o forno a lenha de chamas vivazes e dançantes, os potes cheios de ingredientes e os pizzaiolos. Guardo o ritmo da sequência de montagem e o cuidado giratório para assar a pizza por igual. Era apontar a cabeça e eles me presenteavam com uma bolota de massa. Naquelas mesas, vivi a primeira infância do padeiro.

Depois da pizza, tinha a sobremesa. Pedíamos, os três irmãos, uma musse de chocolate. Eu devorava em segundos. O Caio, meu irmão, espaçava em minutos algumas poucas colheradas. Ele costumava levar a sobremesa pra casa e ir comendo um pouco por dia, me fazendo passar vontade. Nas minhas lembranças, enxergo a mesa de cima e a interação da minha família como se assistisse a um seriado.

Neste trecho do trailer da minha infância, tem uma única recordação da perspectiva dos meus olhos. Os irmãos de barriga cheia, do mais velho ao caçula, não havia quem resistisse ao embalar do carro no caminho da volta. Era o melhor cochilo da semana. Quando o carro parava de balancear e eu sentia pender para o lado esquerdo, era sinal que meu pai embocava na garagem. O fim do passeio.

Pensando bem, nessa cena da volta da pizzaria, eu estava sempre dormindo. Não estava totalmente consciente pra saber como era. Não adianta. É muito roteirista para pouco filme. A cada vez que é contada, a memória é alterada. E quando é contada como tendo sido vista e não vivida, deixa de ser uma memória e passa a ser uma história.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O que eu me lembro que aconteceu já não é mais o acontecido.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 07/07/2012, Edição Nº 1207. 

sábado, 23 de junho de 2012

Perder Um Amor é Viver, Perder o Amar é Morrer

Arte de Weberson Santiago




O amor anda esquecido. Parece ter sido deixado de lado. Não vejo as pessoas acordando inspiradas, sorrindo para o dia. Não vejo o amor no bom dia, no boa tarde ou no boa noite.

O amor está à mingua. Não encontra quem abrace a sua causa. Faltam compositores que  defendam o amor em suas letras ou que reclamem a ausência dele por uma mulher que se foi.

O amor está mais vazio que barriga de morador de rua. É usado para descrever qualquer coisa. Os adolescentes exauriram a palavra de significado. Chamam os amigos de amor quando atendem o celular. Tudo aquilo que gostam, dizem que amam. Provocaram o esgotamento do sentimento ao encarar a falta de vocabulário para viver um mundo cheio de estímulos e sensações.

A única coisa que ele ainda não virou é mercadoria. Amor não se vende e não se compra. O amor é escambo. E só pode ser trocado por amor.

A falta de amor tem lá suas consequências. Vivemos a soberania da estupidez, o esbandalhar da agressividade sob qualquer pretexto. Não há lugar para o amor nas instituições. Sou ofensivo porque fui insultado por outra pessoa que trabalha comigo. Ajo de forma hostil por causa de um sistema de computador que não me dá opções.

Ao explorar as razões da mesquinharia de amor, acredito que faltou alguém pra ensinar a usar. Não existe escassez de amor. Ele é um recurso natural sem possibilidade de desaparecimento. Está aí, disponível para qualquer um. Faltam pessoas para retirar o amor da sarjeta, oferecer um  banho, vesti-lo de roupa limpa para que ele possa circular novamente aqui e acolá cheirando a amaciante.

O amor é mais urgente do que ambulância com passageiro. Tem pressa. Uma pressa que precisa ser dividida com quem está no meio caminho. Atrapalha o cotidiano com a persistência de um chiado de rádio na estação preferida. Exige ser entregue quando visualiza um encontro. O amor é uma das poucas coisas que, quando ignorada, expande.

O amor foi traído, trocado pelo sexo. Empurrado para segundo plano, atrás de qualquer possibilidade de sedução. Pra que conservar o amor, lutar por ele, ser fiel a ele se posso ficar seduzindo uma pessoa diferente a cada sexta e sábado à noite? É um vício pelas emoções, que produz uma aparência de liberdade na saída para dissimular a solidão do dia seguinte. Eu fui partidário do caso fortuito, já quis viver de experimentar. Até aprender, depois de muitos dissabores, que existe prazer em se conter. É possível ser feliz na exclusividade. O amor surge para ser preservado, mas deve ser protegido a dois. O amor é meu pão. É o amor que me alimenta.

Amar não é ficar parado no ponto de ônibus, esperando o carro mais vazio, mais bonito e que faz o percurso mais rápido para o destino da ilusão. Muito menos ficar dando uma voltinha em cada ônibus pra ver qual gosta mais, sem atentar ao destino do trajeto. Amar é saber que entre a garagem da viação e o fim da linha existe um congestionamento de corações, mas que nem toda parada é conveniente.  Amar é se encontrar na pista para se tornar ônibus fretado.

É preciso remover as cortinas das janelas através das quais vemos o mundo e retirar a poeira dos vidros quadrados por onde enxergamos os outros. E vislumbrar que o seu amor não é o que você guardou somente para você, mas todo amor que você deu. Perder um amor é viver, perder a capacidade de amar é morrer.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Que tal copiar essas vinte e cinco palavras amor que aparecem neste texto e colar na sua vida?


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 5, 23/06/2012, Edição Nº 1205. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Dia dos Namorados


Foto do Arquivo Pessoal

SOAR DOS OLHOS

O olhar que me tirou o chão.
O olhar que me fez enxergar um caminho.
O sorriso escondido nos cantos amáveis onde espocam meus beijos.

Quando tudo acalma e nossos olhares se encontram é um brinde.
Os olhares ultrapassam os olhos, entram pelo mundo redondo dos sentimentos,
e dele ressoam emoções de quem conhece por dentro.
O soar dos olhos.
Depois do brinde, duas gotas escorrem até o queixo das taças.
A emoção no ar que foi concentrada numa lágrima.
O suar dos olhos.

Que nos dias especiais possamos brindar com os olhos,
e ver a alegria espumante em cócegas de amor pelos lábios adentro.

E que qualquer amanhecer seja especial.
Quando nos esbarrarmos pela casa,
Que não deixemos de ganhar tempo do dia em nossos abraços.

Que o bom dia seja o seu encontro com o meu peito,
E que o boa noite seja o meu repouso no seu colo.

Assim todos os dias vão passar.
Se hoje somos noiva e noivo, sempre teremos sido namorados.

Percorrendo o caminho desenhado pelos nossos olhares,
Um dia eu serei marido, e você sempre terá sido a minha mulher.

sábado, 9 de junho de 2012

Tal Pai, Tal Líder

Arte de Weberson Santiago



Quando um homem se torna pai, seus companheiros de trabalho é que ganham com o nascimento do filho.

Acompanhei a gestação do meu parceiro de trabalho João e outro dia quis confirmar, com a esposa dele, se ele tinha mudado depois da paternidade. Percebi que o João tinha ficado mais paciencioso com a montanha russa da rotina de uma empresa, inclusive nos dias em que a noite de sono haviam sido mais fatiadas do que um pão de forma para cuidar da pequena Mariana.

Quando ela respondeu que sim, a Natália me perguntou se eu havia mudado no trabalho depois da entrada da Anelise na minha vida.

A verdade é que minha vida toda mudou depois que ela chegou, mas a mudança mais significativa foi mesmo no trabalho.

Não é possível negar a ida ao banheiro para a Anelise, independente de onde eu estiver. É preciso arrumar uma latrina a qualquer custo, e deixar de lado o que eu estava fazendo. Não se pode pedir para ignorar a sede quando uma criança pede água, mesmo que tenha acabado de me acomodar depois de um longo dia. A Anelise me obrigou a sair da posição de considerar somente as minhas necessidades e me ensinou a ser mais sensível com as necessidades dos outros. Ganhou quem precisa de mim no trabalho, que me encontra mais disposto para acolher os pedidos e entender os motivos. Hoje sei reconhecer suas precisões mais básicas.

Me encanto com os passos de independência da Ane, quando ela aprende a fazer alguma coisa sozinha, como amarrar o tênis, por exemplo. Só que até ela aprender, precisei repetir as instruções incansáveis vezes e ir estimulando cada passo. Com isso, percebi que alguns princípios que eu defendo profissionalmente devem ser repetidos com frequência para que ninguém esqueça. Assim, notei que ser coerente no que eu falo e no que eu faço é uma forma de dar segurança e incentivo para que trabalha ao meu lado.

As lições de casa da Ane são verdadeiros desafios. Para ela, é um exercício de concentração. Para mim, um exercício de paciência. Depois de ler as instruções e ajuda-la a começar o exercício deixado pela professora, de tempos em tempos ela pede aprovação. “Está ficando bom?”. “Tá bonito?”. A Anelise me fez aprender a gostar de acompanhar o desenvolvimento de quem trabalha comigo. Fez com que eu ajudasse meus parceiros a colocar um foco nas tarefas essenciais, sem esquecer do objetivo final, que é o crescimento.

Para mim, existe uma relação entre como a pessoa lida com seu filho e como ela se dirige e administra as pessoas que trabalham com ela. Um pai que acompanha seu filho, é capaz de fazer os funcionários que estão a sua volta se desenvolverem. Já um pai ausente terá dificuldade de se aproximar de um companheiro de trabalho, o que fará de vez em quando somente para cobrar os motivos de suas insatisfações. Um pai que economiza elogios ao seu rebento não saberá estimular seus colegas de serviço. Se não é um bom pai, não há de ser um bom líder.

Não devemos compensar nossas relações familiares nas nossos relacionamentos profissionais. Contudo, não podemos ignorar que o modelo que somos dentro de casa é o mesmo modelo que levamos para fora dela, inclusive, para dentro do trabalho.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Dizem que grandes líderes são responsáveis, tem posicionamento adequado e autocontrole, são pacientes e compreensivos, sabem delegar, são comprometidos, honestos e autênticos. Só é tudo isso quem tem a coragem de buscar o autoconhecimento.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 5, 09/06/2012, Edição Nº 1203. 

sábado, 26 de maio de 2012

O Dia-a-dia em 4 Fotos

Arte de Weberson Santiago



Parei para observar quatro partes do dia que são como surtos. Pessoas cruzam a cidade para chegar ao seu destino e cumprir seus compromissos. Tive de me obrigar a parar para observar, porque na maioria das vezes faço parte do impulso repentino da correria. Estou me deslocando de um lugar para o outro enquanto todo mundo está indo de um lugar para o outro. Tirei uma foto de cada surto da coletividade para tentar mostrar o que acontece com as pessoas.

A primeira foto é o surto da manhã. Falo da transição entre a noite e o dia, da alvorada. O dia amanhece e obriga a cair da cama. A Lúcia programa o despertador para às seis horas da manhã, mas se acostumou a acordar às quatro e meia só para confirmar que tem mais de uma hora de sono. Isto porque às seis da manhã começa a correria. Preparar o café da manhã, trocar as crianças, leva-las pra escola e ir trabalhar. Quando Lúcia está dentro do carro com os meninos e da ré na garagem ela é engolida pelo surto. Só pra sair da garagem é uma novela. Quando não são os carros passando em ritmo de corrida, é a bicicleta na contramão ou o transeunte cruzando a garagem fora da calçada. Interessante observar que, pela velocidade, ninguém parece recém-acordado, e sim muito atrasado.

A segunda foto é o surto do almoço. É quando a gente se pega incomodado de ter de deixar o que estava fazendo por uma hora, ainda que seja para satisfazer uma necessidade primordial: a fome. Você descobre que trabalha demais quando já não é capaz de perceber, pelas reações do seu corpo, a hora de se alimentar. Neste segundo momento de desespero do dia, é preciso buscar as crianças na escola e levar para almoçar. Toda semana o André fica bravo com seu filho porque ele vive a convidar algum amigo para ir brincar em casa sem a sua permissão. O André precisa reverter o combinado, apressadamente, na porta da escola e depois dá uma bronca no menino no caminho para casa. Mastigar fica incompatível com a correria, a gente engole a comida para arrumar tempo para digerir mais algumas pendências. O André aproveita a volta do almoço pra passar no banco antes de deixar seu filho no primeiro compromisso da tarde. O problema é enfrentar o pequeno congestionamento nas esquinas do centro da cidade, já que ele não é o único que se desloca nesse horário.

O lusco-fusco marca a terceira foto do anoitecer. Para alguns é o fim da jornada de trabalho, para outros o início. Para a maioria, o fim de um dia produtivo e a hora de cuidar da casa ou de ir estudar. Mariana trabalha todos os dias das sete às dezessete horas. Para ela, no intervalo da saída do serviço até o início das aulas na faculdade, cabe um banho e um lanche rápido. Ela estuda em outra cidade e a van sai uma hora antes da aula começar. Lucas aproveita esse intervalo para para passar no supermercado. O fim de tarde é o horário de pico para fazer as compras. Este terceiro surto do dia é definido pela certeza de pegar fila no caixa do supermercado ou no posto de gasolina para abastecer o carro.  

Na quarta foto, o vai-e-vem cai pela metade. Depois das dez da noite, uma parte das pessoas já se recolheu em sua casa e não pretende por os pés pra fora até que um novo dia comece. Dentre essas, uma parte está jogada na cama ou no sofá, enquanto a outra parte ainda está correndo, só que dentro de casa para terminar o que falta antes do dia chegar ao fim. E é nesse momento, que os estudantes do período noturno saem aos bandos das escolas da cidade, que as vans de universitários devolvem os futuros profissionais em suas casas.

Um curto período de tempo de silêncio até que este álbum recomece na primeira foto.

Num dia tão fragmentado, o complexo  é fazer uma coisa de cada vez pensando naquilo que  está fazendo, e não no que se tem pra fazer depois. Difícil também é ocupar todos os nossos papeis na hora certa – o do pai, o do chefe, o do trabalhador, o do marido, o do amigo ou os outros papeis que vamos ocupando vida afora – ao invés de ser uma média de todos esses, sem ser nenhum. Há o risco de trocar o papel da situação – ser pai do amigo, o chefe da mulher e o funcionário da filha e por aí vai. Em cada parte do dia, o difícil mesmo é ser inteiro.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| As cenas não fotografadas são mais definitivas para a nossa vida do que as que encontramos em nossos álbuns. O que se repete todos os dias é o que constrói o futuro.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 5, 26/05/2012, Edição Nº 1201.