sábado, 28 de novembro de 2015

A Viagem Que Não Fui

Arte de Weberson Santiago




Quando eu tinha oito anos, meu avô Augusto Amato – então com 72 anos – organizou uma viagem para Santos com todos os seus netos homens. Eram quatro: Alexandre (14 anos), Gutinho (12), meu irmão Caio (6) e eu.
Era uma tentativa de criar um “Clube do Bolinha” com os homens da família, mas a viagem foi marcada por uma série de apuros para o meu avô. E foi justamente o que saiu fora da programação o que fez a viagem ser engraçada e inesquecível.
Os primos mais velhos eram adolescentes e só queriam descer pra frente do prédio pra paquerar e não colaboravam em nada. Meu irmão Caio só gostava de misto quente e lasanha e meu avô havia programado sopa de ervilha – de saquinho – para alguns jantares. Quando estavam todos os primos, uns enchiam o saco dos outros e às vezes saía alguma briga. Meu avô que já era careca, perdeu mais alguns fios de cabelo naquela semana.
A trégua vinha quando ele armava o guarda-sol na praia e cada um fazia o que queria. Ele abria o jornal e tinha sua hora de sossego. Numa dessas situações, resolvi tomar um banho de mar e sentei onde a água pegava na minha barriga. A correnteza foi me levando para o lado e quando dei por mim não localizava mais o guarda-sol com meu avô embaixo e o jornal aberto. Era alta temporada, havia muita gente na praia. Localizei um salva-vidas, expliquei o que havia acontecido e ele pediu que eu descrevesse como era o guarda-sol. Fomos caminhando na praia até que eu avistei a família e o salva-vidas esperou de longe que eu chegasse até lá. Como meu avô continuava concentrado no jornal, nem contei o que havia acontecido. Só o revelei em um almoço de família muitos anos depois.
Embora nunca tenha reclamado, não foi atoa que ele nunca mais convidou os netos para uma viagem como essa. Deu muito trabalho daquela vez. Era um mais terrível que o outro.
Com essa história na memória, quis retribuir o desprendimento que ele teve ao propor aquela viagem. No começo do ano, comecei a imaginar como seria levar meu avô – agora com 96 anos – de volta para Santos, cidade onde ele passou sua lua de mel e muitas de suas férias, acompanhado de familiares. A última vez que ele esteve lá foi com minha avó em 2010, e poucos meses depois ela faleceu. Ele iria agora com a Natália, a Anelise e eu.
Quando eu propus a viagem, ele aceitou. Tinha medo que ele recusasse ir para evitar as lembranças da minha avó. A Natália e eu fomos programando a viagem, definindo as questões práticas e logísticas. Já tínhamos pensado nas compras, no que iríamos levar e até quais programas poderíamos fazer. A Anelise criou a expectativa de voltar à praia.
Quando faltava um mês para a data combinada, ele desistiu de ir. Deu algumas desculpas como dores nas costas e a questão de irmos em alta temporada. Era a única época em que eu poderia levá-lo por conta de trabalho. Quando vi que eram apenas desculpas para não ir, confesso que fiquei chateado. Não demonstrei para ele, apenas disse que tudo bem.
Queria que tudo o que eu imaginei para esta viagem se tornasse realidade. Queria vê-lo animado com o passeio, esperando alguma coisa boa para logo adiante. Mas é muito difícil obrigar um idoso a fazer o que a gente acha que é o melhor para ele. É quase impossível fazer que um idoso de idade avançada desconsidere suas limitações físicas e se anime para sair da rotina, que se disponha a buscar novas metas. O que a velhice pede é que a gente seja sensível, respeite as vontades e os limites.
Queria mais uma viagem para colocar na minha coleção de boas lembranças das vivências com meu avô, mas o mais sensato é agradecer que ainda temos tido vivências juntos. Viajei na expectativa e para a praia eu não fui.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Pensei que escreveria algumas crônicas sobre as aventuras desta viagem, mas foi não ter viajado que virou crônica.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 28/11/2015, Edição Nº 1383.

sábado, 14 de novembro de 2015

O Medo de Perder

Arte de Weberson Santiago



Às vezes percebo em mim um medo de te perder. Este sentimento começa pequeno, como uma pedrinha que vai parar dentro do sapato. Então, ele persiste como quando a pedrinha fica mudando de lugar dentro do sapato, cada hora fazendo doer uma parte do pé.
A persistência do medo me faz imaginar possíveis motivos que você teria para me deixar. Rastreio possibilidades de motivos ao nosso redor. Se não encontro nenhum palpável, invento um. O medo faz de mim uma caçadora de possíveis motivos. A correria não me permite parar para cuidar deste incômodo. Talvez por isso é que às vezes o medo venha tão forte. Em meio aos meus afazeres sou invadida por um temor enorme de que você não volte mais para mim.
O medo parece um fantasma a me perseguir. O encontro nos lugares menos prováveis, como logo depois de um momento feliz que passamos. Acho que ele é um fantasma do passado. Uma consequência das traições que eu assisti e das traições que eu sofri. Como se nossa história não pudesse ser diferente.
Nossa história já é diferente. Você me faz tão bem e eu te amo tanto. Parece até que aquela música do Chico foi escrita pelo que eu sinto: “Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz”. Talvez, se você fosse um traste, eu não tivesse tanto medo. Ou tivesse. Mas é que apesar de ser chato às vezes, você é romântico, você me cuida, você me protege.
Quando eu confesso meu medo para você, você me recita aquela composição do João Cavalcanti, integrante de uma das suas bandas preferidas: “Sei que entre um cais e outro há incontáveis corações. Não navego neste mar de ilusões. Não aprendi a velejar, sem um norte a alcançar, sem um lar em terra firme”.
E mesmo você tentando me convencer de que você parte todo dia para regressar, meu medo me faz lembrar o final desta mesma canção: “Eu que cheguei a imaginar, no momento em que pisei, no teu chão tão bem cuidado. Que tinha achado meu lugar, que ali seria o rei e que o mar era passado. Mas a calmaria não convém. Que grande ironia é saber. O coração que é do mar, já nasceu pra navegar e não para em terra firme.”
Tenho medo que você descubra que seu coração é do mar, e não da terra. Não adianta vir com argumentos. Já repeti uma série de racionalidades para mim mesma e não adiantou de nada. Medos não seguem a razão, medos seguem o instinto e a intuição.
Queria ter a mesma segurança que você parece ter. Se para ter você eu preciso conviver com o medo de te perder, eu o aceito.
O medo de perder é um medo de amar. Não um medo de vir a amar, mas um medo de quem já ama. E muito.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Aquele que nunca teve medo de perder, nunca amou de verdade.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 14/11/2015, Edição Nº 1381.

sábado, 31 de outubro de 2015

A Rotina Que Te Mata é A Mesma Que Te Salva

Arte de Weberson Santiago



Todos os dias acordo às cinco e meia da manhã e sigo o mesmo ritual. Vou até a cozinha e bebo dois copos de água. Vou ao banheiro, pingo o colírio – tenho glaucoma precoce e a cada 12 horas, pelo resto de minha vida, devo usar uma gota que controla a pressão dos meus olhos, garantindo que continue com o mesmo campo de visão. Volto à cozinha, preparo uma xícara de leite com café. Pronto, depois disso meu dia verdadeiramente começou.
Seguir os mesmos passos diariamente me dá segurança, permite que eu pense menos do que se eu trocasse a ordem dos afazeres e tivesse de fazer todas as mesmas tarefas, sem exceção. Às vezes eu até acordo mais cedo para poder fazer tudo com mais calma. Acredito que se um dia começar corrido e atropelado, tudo o que vem a seguir será bagunçado e confuso.
Assumo que de vez em quando adio o despertador e admito também que já faltei da atividade física – que faço às seis horas por três vezes na semana – por preguiça ou cansaço. Mas continuo em busca da regularidade da rotina.
Tem dias em que trabalho em três lugares diferentes – de manhã, à tarde e à noite. Quando os dois períodos diurnos me exigem demais, saio do expediente com uma sensação estranha. Isso acontece quando passo o dia esbarrando em empecilhos para terminar uma tarefa e a minha variabilidade comportamental não atinge o resultado almejado, ou quando me deparo com problemas graves para resolver e o enfrentamento da resolução me exige muito. Identifico em mim sentimentos esquisitos ao entardecer, quando termina a jornada do dia: parece que meus pensamentos estão emaranhados. É uma sensação desagradável de bagunça, de ter diante de si um quebra-cabeça todo embaralhado. Ao invés de tentar decifrar a confusão, eu apenas sinto. Não faço esforço nenhum para me livrar, apenas deixo que a sensação dure o quanto tiver de durar e que ela passe. Tomo um banho e encaro o terceiro turno com hombridade.
É porque eu preciso do trabalho e é porque as pessoas com quem trabalho precisam de mim que mantenho a repetição. E, enquanto estou vivendo a repetição, não deixo de comemorar pequenas tarefas que consegui dar conta. Valorizo minha própria capacidade quando faço um bom atendimento a um cliente. A produtividade me produz uma sensação prazerosa. Com a maturidade, aprendi a não lamentar o surgimento de uma dificuldade, mas aceitá-la e fazer o melhor que posso para lidar com ela.
Como muitas pessoas, também sinto um leve incômodo quando o domingo vai chegando ao fim, mas o verdadeiro incômodo viria mesmo com uma segunda sem nenhum compromisso. No domingo à noite, ao invés de maldizer a segunda, estou organizando tudo o que posso para vencer mais uma semana.
A repetição que me cansa, me consome e às vezes me esgota é a mesma repetição que me salva, que me inspira e que dá sentido aos meus dias, que dá sentido à minha vida.
UM CAFÉ E A CONTA!
| O tempo passa e a vida voa enquanto tudo se repete. Mas ao invés de só repetir, não faz mais sentido buscar fazer melhor?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 31/10/2015, Edição Nº 1379.

sábado, 17 de outubro de 2015

O Banco na Frente da Casa

Arte de Weberson Santiago


No meio da minha correria de dias úteis avistei um senhor sentado em um banco fixo na frente de sua casa. Ele conversava com outro senhor, que estava de pé ao seu lado. Me deu uma inveja daquele senhor sentado em seu banco vendo a vida passar.
Naquela hora, resgatei a vontade que tive em outras situações de colocar um banco na fachada da minha casa. Imaginava que, colocando o banco, aumentaria a probabilidade de que eu e minha família passássemos a sentar e conversar na porta de nossa casa.
Não fui adiante porque pensava que aquele banco vazio seria um convite para que estranhos se sentassem na frente da minha casa. Temia que meu portão virasse ponto de ônibus. Não saberia pedir licença para um abusado que o ocupasse diariamente por medo de parecer discriminatório. Se não queria convidar as bundas, era melhor que não colocasse o assento. E desistia dessa ideia.
É impressionante como ainda vejo pessoas com esse hábito. Na minha rua mesmo tem quem coloque aquelas cadeiras brancas de plástico na calçada todos os dias. Nas duas cidades que trabalho, no caminho de um compromisso ao outro me deparo com diversos bancos pelas calçadas. Tem aquele típico banco de praça feito de concreto em moldes. Tem banco de ripa de madeira. Tem tronco de árvore serrado. Tem até de alvenaria.
Quando não existia a televisão, quando o rádio era coisa de grã-fino, as notícias corriam à boca pequena nos bancos de praça e nas cadeiras espalhadas pelas calçadas. O costume parece estar longe de morrer, ainda que as novas gerações não consigam fazer uso deste espaço. Como a minha própria geração.
Aquela inveja do senhor sentado foi uma vontade – controlável – de largar todos os meus compromissos de lado e ficar lá sentado, pensando, contemplando, observando o movimento dos outros. Era a vontade de parar um pouco no meio da correria. Mas a verdade é que este sentimento de inveja durou pouco.
Mesmo em meus dias de folga eu não costumo parar muito. Não me vejo parado e sentado por muito tempo. Outro dia resolvi sentar na calçada. Logo fiquei entediado procurando alguma coisa pra fazer. Comecei a retirar folhas secas dos pés e as folhas velhas das plantas.
Percebi que já me acostumei a pensar enquanto estou em movimento, a planejar enquanto estou me deslocando entre um compromisso e outro, a entender meus sentimentos durante a correria.
Definitivamente o banco não é para todas as fachadas. Enquanto uns gostam de ver a vida passar estando parados, outros gostam de ver a vida passar em movimento. O importante é escolher o ponto de vista que você quer ver a vida e ser satisfeito com ele.

UM CAFÉ E A CONTA!
| É uma questão de órbita. Ou você espera que o mundo gire ao seu redor. Ou você corre para cumprir sua trajetória.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 17/10/2015, Edição Nº 1377.

sábado, 3 de outubro de 2015

O Chamado do Nome

 Jornal da Cidade , Mococa/SP, edição de 12/06/1983



O nome que recebemos de nossos pais é carregado de significado e pode revelar a expectativa daquele que me nomeou para a minha vida. Por mais que possa parecer que a escolha é despretensiosa, ela vem carregada de ideias, imagens, sentimentos e pensamentos.
O nome pode ser, também, uma homenagem a alguém que marcou a história de um dos pais. Já ouvi falar de pessoas que homenagearam seu filho com o nome daquele que ajudou em um momento difícil. Também é comum vermos o nome expressar a superação de algum risco de vida, como quando adicionam Vitória ao nome da filha, por exemplo.
No meu caso, o meu nome é uma homenagem ao meu avô e, ao mesmo tempo, ao meu pai. Nós três temos o mesmo nome. Augusto Amato, Augusto Amato Junior e Augusto Amato Neto. Além de homenagear o meu avô, é uma maneira de continuidade e de tradição.
As comparações de similaridade começaram cedo. Na adolescência uma professora de português disse que havia puxado ao meu avô quando me devolveu uma redação. Meu avô foi Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Mococa há algumas décadas e seus discursos eram publicados pelo jornal da cidade na época, e eram muito elogiados. A oratória sempre foi um diferencial de meu avô. Discursava sobre política, economia e sobre o sentido da vida para casais em cursilhos. Quando comecei a dar palestras e entrevistas como Psicólogo, muitas vezes ouvi que falava bem em público como o meu avô.
Semelhanças à parte, devo confessar que em muitos momentos senti um grande peso por ter este nome. Meu avô teve uma trajetória de vida brilhante. Uma carreira invejável, repleta de conquistas. Resultado de muita dedicação, persistência, paciência e parcimônia. Ser Augusto Amato, em alguns momentos, me fazia sentir que tinha a obrigação de, no mínimo, fazer o mesmo, senão melhor do que ele fez.
Demorou para que eu percebesse que eu não precisaria fazer tudo igual. Embora cada nova geração de Augusto carregue algumas características da anterior, outras características não são – e que bom que não precisam ser – as mesmas. A singularidade é permitida, apesar no nome ser igual.
Dia desses, procurava um documento para meu avô em meio aos seus guardados quando identifiquei um envelope de papel pardo com uma etiqueta branca manuscrita por ele: “Currículo Augusto Amato e Nascimento Augusto Amato Neto”. Quando abri, encontrei um recorte de jornal que ele guardou para mim pouco tempo depois de meu nascimento. Uma página do Jornal da Cidade de Mococa publicado em 12 de junho de 1983 – eu nasci dia 30 de maio de 1983. Nela, o médico Dr. Aloysio Taliberti profetizou o meu encontro com este recorte de jornal. Com a sua sensibilidade e, tomado pelas emoções da grande amizade com meu avô, ele sintetizou a grande responsabilidade que carrego no meu nome e colocou a expectativa de que eu “faça mais bonito” do que fez o meu avô. Terminei a leitura com os olhos marejados, foi emocionante.
O amigo Aloysio me fez entender que a beleza de se ter o mesmo nome que o avô não está em repetir a mesma vida. A beleza é que o nome possa continuar vivo em uma vida nova e diferente.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Todo nome esconde uma missão, definida por quem o escolheu.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 29/09/2015, Edição Nº 1375.

sábado, 19 de setembro de 2015

Memória Acorrentada

Arte de Weberson Santiago


Há alguns anos atrás, alguém se incomodou com a corrente que perfurava a grande árvore e a prendia ao muro na Ladeira da Memória, centro da cidade de São Paulo. Já se vai muito tempo desde 1888 e só agora a escravatura do espécime Ficus organensis vem a ser questionada. A princesa Isabel do século XXI a favor da liberdade da natureza foi Cristina Moreno de Castro, jornalista que questionou a corrente no impresso Folha de São Paulo.
Localizada em meio a monumentos no vale do Anhangabaú, ironicamente ninguém na Ladeira da Memória é capaz de resgatar o motivo da colocação dos grilhões que impedem, há mais de vinte anos, a fuga da árvore da Rua Xavier de Toledo. Juntamente com o obelisco, a escadaria e o chafariz, a árvore de quinze metros de altura faz parte do largo que foi inaugurado em 1814 e é patrimônio histórico tombado.
Foto: Dornicke
Caixa de texto: Foto: DornickeNem os mais antigos da região sabem da história daquela corrente, que timidamente venho contar aqui. No começo do século XIX, na Rua Palha, hoje Sete de Abril, o governo encarregou o engenheiro Daniel Pedro Müller da construção da Estrada do Piques para facilitar a comunicação de São Paulo com o Interior. Além da Estrada do Piques, Müller propôs a formação do Largo da Memória com o alargamento das ladeiras do Piques e da Palha e a construção de um chafariz, tudo complementado por um obelisco “à memória do zelo do bem público”.
Neste tempo em que a cidade era um amontoado de casas de taipa de pilão, o português Pedro Luiz de Souza Machado foi um dos que veio com o grupo dos jesuítas para desbravar as terras brasileiras. Quando passaram por São Paulo, parte do grupo se encantou com o clima fresco semelhante ao europeu e fundaram o Real Collegio, grupo do qual fazia parte Souza Machado. O engenheiro Müller contou com a disposição de nobres Senhores da época para a construção do Largo da Memória. Souza Machado inclusive cedeu escravos para trabalhar para o mestre pedreiro Vicente Gomes Pereira, subordinado de Müller.
Por decreto de 08 e carta de 13 de Fevereiro de 1812, Souza Machado teve a concessão do título de Conde de Lousada, como ficou conhecido na cidade desde então. A obra de pedra de cantaria constituía o obelisco de onde emergia de uma bacia de alvenaria com grades de ferro, que servia como reservatório da água. Muitos viajantes cruzavam a Ladeira para encher os cantis em uma bica e prosseguir o trajeto. Numa das tardes no Largo, o Conde de Lousada pressionava o lenço contra a testa enquanto avistou de longe uma jovem dimanada na lomba de um burro. Transporte típico da época, a dama de companhia que conduzia o quadrúpede parou para lhe dar água na Ladeira. Olhares tergiversos provocaram as mais sublimes sensações no Conde e na jovem. Era Leonora de Melo Guimarães, filha de portugueses que se tornaram cafeeiros e nos primeiros anos do século seguinte ocuparam a Avenida Paulista, a primeira via planejada da capital.
No fluxo das pessoas pelo Largo da Memória, galanteios e gracejos aproximaram o Conde cinquentenário da jovem Leonora. Na véspera da inauguração do alargamento da Estrada do Piques e dos monumentos de pedra que constituíram o Largo da Memória, na presença de Müller, de Gomes Pereira, do Conde de Lousada, de Leonora, de um grupo de escravos e de alguns transeuntes foi plantada a figueira. No dia seguinte, 12 de Outubro de 1814, autoridades do governo inauguraram a obra em uma solenidade oficial. O pedido de casamento do Conde para o pai de Leonora se deu alguns meses depois e o casamento foi sacramentado por Dom Mateus de Abreu Pereira em 11 de Outubro de 1815, um ano após o plantio da Ficus, na Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, localizada na Rua do Carmo. Em 1816, nasceu o primeiro filho, batizado com o nome do pai.
Foto: Felix Lima/Folhapres
Acontece que Leonora considerava enfadonha a vida de Condessa e não demorou a se envolver em um caso perigoso. Encantou-se com os rituais Iorubás, realizados pelos escravos e que frequentava quando o Conde estava fora de casa. Acabou por envolver-se com um escravo, com o qual se encontrava às escondidas. O Conde de Lousada, desconfiado, colocou um capanga no encalço da amada. Quando se percebeu na iminência de ser descoberta e sob o pretexto de sua vida monótona, lhe seduziu e partiu com o jagunço que deveria constatar a traição, tendo levado consigo parte do dinheiro do Conde.
A tardia entrega ao amor fez com que a traição consternasse a consciência de Pedro Luiz, o Conde de Lousada. Desgostoso da própria vida e da ingratidão de sua "Nôra", encaminhou o filho para estudar em um colégio interno. Sentia fortes dores de cabeça todos os dias, sem encontrar alguma maneira de se sentir melhor. Num momento de desespero, enquanto uma escrava lhe punha compressas de água morna na testa, levantou-se repentinamente, reuniu os escravos do lado de fora da casa e mandou que eles, os únicos que lhe foram fiéis, acorrentassem a figueira com os grilhões do porão, na tentativa de livrar-se das correntes de sua memória, que lhe apertavam a cabeça e foram responsáveis pelo seu adoecimento e depois pela sua morte.
Homem influente na sociedade paulistana da época, seus amigos se encarregaram de aumentar os elos da corrente a cada ano, para que a árvore pudesse crescer sadia. Durante um século e meio, o governo municipal de São Paulo interpretou as correntes como uma necessidade de segurança para que a árvore se mantivesse de pé. No meio do Regime Militar Brasileiro, por volta de 1970, a corrente parou de ser trocada e a árvore continuou a crescer em espessura, englobando internamente parte da corrente. Como num grito de liberdade da árvore, recentemente um dos lados da corrente se rompeu e perdeu a função inicial.
Após uma vistoria técnica nos primeiros dias de 2011, a figueira centenária do largo da Memória foi finalmente libertada. As correntes que a prenderam por décadas ao muro da Xavier de Toledo foram cortadas por técnicos da Prefeitura. Ela não tinha risco de cair e a corrente que a prendia não tinha mais razão de ser para os técnicos. Sabemos nós que a razão de ser era para a memória do Conde de Lousada, que talvez agora tenha sido também liberta. Apenas o pedaço que já estava dentro da árvore não foi removido, porque isso poderia causar ferimentos no tecido da figueira e deixá-la vulnerável a doenças e pragas.
No largo da memória, as correntes emocionais imperceptíveis por quem percorre o passeio são as mais difíceis de remover.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Em tudo o que for acorrentado haverá de restar alguma cicatriz.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 19/09/2015, Edição Nº 1373.



sábado, 5 de setembro de 2015

Envelhecimento

Arte de Weberson Santiago


Ele anda com passos e movimentos mais lentos. Parece que lhe colocaram uma sola de ferro nos sapatos. A musculatura precisa fazer mais esforço para dar conta do peso das pernas. Se esforça para concatenar os passos, a posição do tronco, o movimento dos membros. Faz malabarismos com o corpo, mas se recusa a demonstrar esmorecimento nas atividades.
Os sentidos já não são mais os mesmos, falham. O labirinto não lhe garante equilíbrio. O som ouvido nunca é o suficiente para a compreensão. As mãos tremem na hora de levar a xícara aos lábios. Falta-lhe força nos punhos e coordenação nas mãos para conseguir picar a carne. Falta-lhe precisão para fincar a azeitona com o garfo. Culpa a faca e suas cerdas desgastadas.
Reclama que a comida está sem gosto. É tanto alho que ele está protegido de vampiros num raio de cinquenta quilômetros, mas ele insiste em dizer que faltam sal e tempero na comida. Os olhos não colaboram. A catarata lhe deixou com as vistas embaçadas. Onde tem frango, vê peixe. Onde tem legumes, vê massa. Diante da dificuldade de identificar a comida, pergunta para quem está do lado para descobrir o que vai comer.
Ele funciona como meu notebook. Se ninguém interage, entra em estado suspenso. Ele cochila sentado quando não tem com quem conversar. Cochila na mesa depois das refeições, cochila na sala de televisão com a tevê ligada. Ele sai do estado de hibernação como o meu notebook. Basta um toque. É um grito da novela ou uma propaganda com volume mais alto e ele acorda como se o tempo tivesse parado quando ele começou a cochilar e nada tivesse acontecido no mundo durante este intervalo. Basta que alguém pise mais firme ou abra uma gaveta e ele desperta. É um sono leve para economizar energia, como o do meu notebook. É quase uma meditação oriental. Ele despertou e já tem a consciência de um mestre capaz de distribuir conselhos.
Ela morre de medo dele morrer primeiro e dela ficar só. Ela morre de medo de um monte de coisas. Por isso, todos os dias ela pega sua caixa com dezenas de orações e novenas. Reza por uma ou duas horas, sentada na varanda. Reza pelo marido, por cada um dos filhos e pelos netos. Reza por quem ela vê sofrendo. Tem horas que ela pede, mas tem hora que ela é impositiva com os santos. Às vezes ela faz algum tipo de chantagem ou barganha com eles. Dá uma ameaçada de leve. Faz com os santos do mesmo modo que faz com o marido: ela tenta mandar neles para que eles façam o que ela quer.
Ela sofre com quem adoece e padece quando alguém morre. Sente como se a fila andasse uma posição e a vez dela ou dele se tornasse mais próxima. Ela morre de medo de ficar doente e sofrer prostrada numa cama. Morre de medo de doença. É tanto medo que quase já virou uma doença. Poucas pessoas como ela amaram tanto a vida, viveram cada dia com tanta alegria. Para ela, é difícil continuar tão feliz sabendo que a vida se aproxima do fim. Ela sempre sofreu por antecedência e quis controlar tudo. Agora está antecipando o fim, querendo controlá-lo.
Eles comem pouco. Reclamam que não tem apetite. Se depender do aviso de fome do corpo, ficam sem comer. Comem porque chega a hora, comem pelo hábito ou porque alguém fala que tem que comer. Eles bebem pouca água. Se depender do aviso de sede do corpo, se desidratam. Precisam que alguém os lembre de suas próprias necessidades básicas. Não gostam de depender, mas sentem-se felizes em ter alguém que lhes cuide.
A comunicação mudou com o tempo. Quando se conheceram e eram jovens, falavam pelos olhos, mas a rigorosidade dos pais e irmãos não lhes permitia que conversassem. Quando começaram a namorar, falavam pelo tato, conversavam pelas mãos. Na maturidade do casamento, deixavam recados junto aos objetos pela casa.
Agora, na velhice, ao invés de encontrarem os lábios, a boca vai de encontro ao ouvido do outro. Aproximam-se, pendem o tronco abaixando um dos ombros para o lado onde está o outro, para que um não precise falar muito alto e para que o outro escute o que for falado. Reclamam um do outro. Às vezes saem resmungando da conversa. Mas boa parte do que eles precisam é saber que o outro está ali, por perto. Agora, na velhice, eles aprenderam a conversar com o silêncio da presença.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Viver a decadência do corpo faz parte da vida. O desafio é envelhecer sem perder a dignidade.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 05/09/2015, Edição Nº 1371.