sábado, 13 de junho de 2015

O Menino que se Tornou Olhos e Ouvidos

Arte de Weberson Santiago



Vitor tinha quatro anos quando o Sr. Arthur se mudou para a casa do outro lado da rua com sua esposa, dona Olímpia. O casal não era de conversa e ninguém da rua sabia de onde tinham vindo. Pouco tempo depois da mudança, a vizinha fofoqueira, dona Elvira, procurou sua mãe para lhe contar o boato que corria na vizinhança. Diziam que o novo morador havia saído fugido de uma cidade do interior de Minas onde morava por ter matado um homem.
A vizinhança cultivou uma distância. Os homens acenavam ou diziam bom dia quando abriam o portão da garagem e encontravam seu Arthur na frente de casa. As mulheres sequer cumprimentavam dona Olímpia. O casal nunca tomou iniciativa para o entrosamento e manteve-se, de certo modo, isolado dos vizinhos.
De ouvir os comentários dos pais, as crianças cresceram com medo do casal. A partir dos sete anos, Vitor e seus amigos passaram a ir pra escola a pé e toda manhã de dia de aula tinham de passar pela calçada da casa de seu Arthur e dona Olímpia para chegar até a escola. Jorjão apertava a campainha da casa deles sem avisar os outros dois amigos e saia correndo na frente, seguido pelos dois. Remela jurava de pé junto que tinha visto um dia, pela fresta entre o portão e o muro, seu Arthur cortando um cadáver com o serrote no fundo do terreno. Todos da rua ouviam barulhos de ferramentas diariamente vindos de lá.
Depois dos sete anos de idade, Vitor perdeu um pouco do medo e passou a se interessar pelo que lhe causava estranheza. Um dia saiu pra escola sozinho e viu seu Arthur na porta. Desejou-lhe bom dia. Ouviu como resposta um murmúrio seguido de um bom dia mais pra dentro do que pra fora. Na semana seguinte, acompanhado de Jorjão e Remela, viu o seu Arthur de costas, recolhendo as folhas que varreu na calçada. Disse-lhe bom dia e teve o silêncio como resposta. Virando a esquina, os amigos lhe repreenderam:
— Tá louco, Vitor? – perguntou o Remela.
— Você não sabe que ele é um assassino? Não viu a enxada na calçada? Vai que ele resolve arrancar a sua cabeça fora! – emendou o Jorjão.
— Vocês são dois cagões! – respondeu.
Num dia qualquer, após o almoço, a mãe de Vitor foi limpar a gaiola do canário de estimação do menino – batizado por ele de Falcão – quando, sem querer, o deixou escapar. Vitor, que estava por perto, viu que o canário pousou na cadeira da sala de jantar. Na ponta dos pés, se aproximou para tentar capturar o pássaro, mas ele percebeu sua aproximação e bateu asas, deu um rasante na sala de estar e escapou pela janela da frente, para fora da casa. Vitor, que seguiu o pássaro até a sala, subiu na mesa de centro e acompanhou a trajetória do pássaro. Ele foi na direção da casa do seu Arthur e pousou na goiabeira plantada na frente da casa.
Sua mãe, sentindo-se culpada, disse que lhe compraria outro. Mas ele não queria outro. Nenhum canário cantaria tão bonito quanto o Falcão. Se ele quisesse recuperar seu pássaro teria de pedir ajuda para o vizinho enfezado. A goiabeira ficava do lado de dentro da casa, atrás do muro, em frente da varanda da porta de entrada, onde o casal costumava ficar sentado algumas horas do dia.
Vitor não hesitou, atravessou e tocou a campainha.
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Este conto continua na edição do Democrata daqui a 15 dias.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Às vezes a vida nos impõe mudar de direção. Somos obrigados a ir de encontro ao que evitávamos manter contato.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 13/06/2015, Edição Nº 1359.

sábado, 30 de maio de 2015

Descascar o Abacaxi

Arte de Augusto Amato Neto



Em nome de uma vida mais saudável, resolvemos manter um estoque de frutas e verduras em nossa cozinha. A ideia era aumentar o consumo de alimentos naturais, o que diminuiria nossa ingestão de alimentos menos saudáveis.
Me lembrei da casa da minha avó, lugar onde comi as melhores frutas da minha vida. Sempre que ela servia uma fruta, ela estava no ponto, gelada e doce. A fruteira sempre repleta de frutas em espera do ponto ideal. Se eu queria o mesmo, conclui que deveria deixar que elas chegassem ao ponto.
Também deveria saber escolher as frutas. E segredos como puxar a folha da coroa do abacaxi e ver se ela se solta com facilidade foi coisa que eu aprendi com a minha avó.
O primeiro abacaxi que comprei ficou por três dias na fruteira. Ele exalava um perfume doce quando conclui que era a hora de descascá-lo e cortá-lo. Quando dei os primeiros golpes de faca descobri que um quarto do abacaxi estava estragado. Não deu pra salvar nada, acabou inteiro no lixo.
Não quis me dar por vencido. O segundo abacaxi comprei com orientação da moça que toma conta do hortifrúti. Pedi que ela me indicasse um abacaxi que estivesse pronto para cortar. Ela utilizou o truque de puxar uma folha da coroa e foi comparando um com o outro.
Cheguei em casa e comecei a descascar. Se você passa a faca muito superficialmente, o abacaxi fica cheio de pontas de cor marrom na lateral. Se você retira uma fatia muito grossa da casca, desperdiça uma parte da polpa. E enquanto você descasca, vai escorrendo uma calda por toda a pia. Descobri que tem que ser descascado em uma vasilha depois de fazer aquela lambança.
Achei que seria fácil, mas descobri o quão difícil é descascar um abacaxi. Não estou falando de resolver os problemas da vida, mas de conseguir aproveitar o melhor da fruta.
O segundo abacaxi eu consegui comer com a Natália e a Anelise. Depois que cortei, deixei gelar. Lá em casa, deixamos a canela num saleiro. Isto eu também aprendi com a minha avó. Eu salpico a canela no abacaxi e mando ver. Fica bom demais.
O terceiro abacaxi, a Natália descascou. Ela se saiu bem, estamos começando a aprender os segredos das frutas. Mas dois dias depois de cortado, ele já começou a escurecer na geladeira. Acabamos desperdiçando uma parte do abacaxi. Deveríamos tê-lo comido mais depressa.
É preciso aprender o tempo da fruta. Conhecer seus detalhes, seus sinais. É preciso dominar a prática. Não desistir facilmente na primeira vez que deu errado. Esse segredo de puxar as folhas nem sempre dá certo. Às vezes ela está dura pra sair mas o abacaxi está doce. Passei a analisar outros fatores: a coloração e o cheiro. Se dois dos três fatores estão indicando que ele está bom, abro o abacaxi. Por exemplo: se a folha se solta com facilidade e a cor está amarelada, pode abrir; ou se o cheiro está doce e a cor amarelada, está no ponto.
Escolher abacaxi é uma ciência. Descascar abacaxi é uma arte. Saudade do tempo em que eu encontrava o abacaxi descascado, fatiado e gelado na mesa.
Amadurecer é aprender a descascar seus próprios abacaxis.
UM CAFÉ E A CONTA!
| A complexidade também está presente nas coisas simples.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 30/05/2015, Edição Nº 1357.

sábado, 16 de maio de 2015

O Primeiro e Último Voo do Teodoro

Arte de Augusto Amato Neto


Foi numa fração de segundo. Enquanto a faxineira limpava a sua gaiola, num instante em que uma fresta ficou aberta. Ele fugiu. Eu assisti a cena. Foi tão rápido que não deu tempo de fazer nada. Num segundo ele estava dentro da gaiola, no outro saiu voando sem dar tempo de enxergar pra que lado foi.
Na hora partimos para a casa dos vizinhos para ver se ele estava nalguma árvore do quintal. Nem sinal dele.
Teodoro era nossa calopsita de estimação. Veio para nossa casa ainda filhote, há mais ou menos um ano. Quando eu fui busca-lo no pet shop, o vendedor insistiu em lhe cortar as asas mesmo eu dizendo que não queria. A partir deste dia ele passou a se esquivar e temer o contato com as mãos. Eu gastei um bom tempo tentando dessensibilizá-lo deste medo, mas ainda não tinha conseguido que ele confiasse em mim a ponto de subir em meu dedo. O ponto que eu havia chegado era o de colocar meu dedo em sua cabeça e lhe fazer um cafuné. Ele adorava: andava pra trás e voltava pra ganhar outro afago.
Se a interação não envolvia a mão, fluía melhor ainda. Alguns meses após chegar, Teodoro aprendeu a piar, depois a cantar. Estava treinando-o a assoviar a música do desenho do pica pau. Ele já havia aprendido as três partes separadas da música, mas ainda não conseguia cantá-la inteira. Teodoro morava na lavanderia, do lado de fora da cozinha, de frente a pia e ao fogão.
A primeira coisa que eu faço quando acordo é tomar água. Às cinco horas da manhã, era eu acender a luz e ele começava a assoviar a música (“re-re-re-re-rê”) e eu respondia continuando a música em assovio. E ele repetia este comportamento toda vez que eu passava pela cozinha. Às vezes assoviávamos um pro outro dos extremos da casa.
Trouxe o Teodoro para casa para alegrar nossos dias e ele alegrou muito. Já tínhamos um pássaro, a periquita australiana Yvonne. Ela já é mais velha e mais pacata, mas Teodoro conseguiu alegrar até a vida dela. Ele era cativante. Tão cativante que foi difícil aceitar o seu sumiço.
A Natália quando chegou em casa e ele não estava sentou no degrau da porta da cozinha e destampou a chorar. A Anelise não se conformou:
— Não tem como a gente ensinar a Yvonne a falar pra ver se ela viu pra onde ele foi e nos dar alguma pista? – questionou a pequena.
Durante alguns dias, eu acordava e ia pro quintal. Chegava do trabalho e ia pro quintal. Dava o assovio inicial (“re-re-re-re-rê”) para ver se ele respondia, na esperança que ele estivesse por perto. O silêncio me doía. A Natália resolveu deixar a porta da gaiola aberta, caso ele encontrasse o caminho de volta. E até hoje, nada.
Como é ruim acordar sem ele do lado de fora. Cozinhar aos finais de semana sem ele dependurado de ponta cabeça na gaiola.
Teodoro deu seu primeiro e único voo de liberdade, ganhando o mundo e nos deixando a saudade.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Se não for na minha gaiola, será na de outro alguém, então que seja na minha pra que eu possa cuidar bem.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 16/05/2015, Edição Nº 1355.

sábado, 2 de maio de 2015

Imagens do Rio de Janeiro

Foto de Augusto amato Neto


Quando o avião percorre um trecho do litoral e se aproxima do Rio de Janeiro já é possível entender porque aquela paisagem encanta desde o descobrimento do país. Na descida para aterrisagem no Aeroporto Santos Dumont, ao passar ao lado do Cristo Redentor no Corcovado, da Urca e do Pão de Açúcar fica fácil compreender porque aquela cidade inspirou tantos poetas, escritores, músicos. São trezentos e sessenta graus de belezas esculpidas pela natureza.
Quando se conhece o Rio de perto, percebe-se que o Cristo Redentor só olha por metade da cidade e dá as costas à outra metade, como fala o Chico Buarque na letra da música Subúrbio. É uma cidade de contrastes: de um lado o condomínio de luxo, girando levemente o pescoço vê-se a favela. É uma cidade encantadora e incômoda ao mesmo tempo. De um lado da montanha as paisagens são bonitas de onde quer que se esteja. Do outro lado do morro tudo é cinza.
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Andando pelas ruas de diversos bairros do Rio, sentia um cheiro de esgoto ou de ralo que me fazia procurar um bueiro vazando. Não achava. De repente, meu olfato era invadido por um perfume delicioso no meio da multidão. Não sei seu nome, queria perguntar a quem estava usando, mas não tinha como identificar no meio de tanta gente. A estada oscilou entre os dois odores opostos.
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Esperando um ônibus no ponto com a Natália, vi um homem de cinquenta anos segurando na mão de filho de aparentes vinte anos. Nitidamente o garoto tinha desenvolvimento atípico, mas não sei qual transtorno ele tinha. Pararam do nosso lado, enquanto o filho batia com a unha nos dentes incisivos repetidamente. Ele se virou e questionou: - “Pai, a vida é difícil?”. Nesse entremeio o ônibus deles chegou e o pai lhe respondeu “É.” enquanto lhe pegou pela mão e entrou no ônibus.
Noutro dia, almoçávamos na Confeitaria Colombo do Forte de Copacabana quando notei uma família. Os pais de um lado da mesa e o filho, portador de Síndrome de Down, do outro lado acompanhado de sua namorada. Ela tinha a cabeça pequena em relação ao corpo, mas parecia não ter comprometimento cognitivo. A felicidade dos quatro era transbordante. Durante todo o tempo que estive lá, as risadas foram muitas. Os pais tomaram um vinho, enquanto o jovem casal competiu na hora de dividir a sobremesa. Foi a cena de convivência familiar mais leve e bonita que presenciei na minha vida, já que não era um filme ou cena de novela.
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Exatamente metade dos motoristas e cobradores de ônibus, balconistas de restaurantes, supermercados e padarias foram extremamente gentis, cordiais e solícitos em nossos pedidos mais diversos. Riram de quando eu falava o erre caipira ao perguntar ou pedir qualquer coisa, mas se contiveram por educação. A outra metade estava de muito mau humor e fazia questão de deixar claro que estava tomado pela ira. Não costumo ser maltratado pelos insatisfeitos com o trabalho ou com a vida, e fui um bom bocado maltratado no Rio. Como estava a passear, ignorei a grosseria e recorri às imagens boas que haviam passado.
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Conheci a famosa noite boêmia da Lapa. Descemos na Marina da Glória e fomos caminhando até os arcos da lapa. Nos entremeios do bairro, cruzei pontos de prostituição, feiras de objetos usados expostos em tapetes usados, muita pobreza até chegar no casarão antigo transformado em bar. No ar-condicionado, curti o som do cantor e compositor da nova geração do samba Moyseis Marques, acompanhado da Banda Joia Rara. Do meu lado esquerdo um casal de alemães, do lado direito um casal e uma mulher mais velha falavam espanhol. Passávamos frio com o ar condicionado, os gringos já haviam retirado casacos das bolsas quando pedi para diminuírem o ar condicionado. As duas mesas ao lado me agradeceram. Ficaram mais felizes com a minha atitude do que quando viram a caipirinha chegando. Ninguém vai ao Rio para passar frio.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Apesar de todas as agruras, as belezas compensam. Voltaria para ficar o dobro do tempo que passei no Rio.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 02/05/2015, Edição Nº 1353.

sábado, 18 de abril de 2015

Os Avós para a Criança

Arte de Weberson Santiago



Todos os finais de semana vou ao clube. Anelise me acompanha. Enquanto eu faço minha natação, ela brinca pelos espaços do clube. Para que ela tenha diversão, costumo levar algum brinquedo: os patins, um quebra-cabeça ou papeis e lápis de cor. Alguma coisa para que ela se ocupe se ficar entediada com o parquinho ou não encontrar uma amiga pra brincar.
Percebi que a Anelise passava mais tempo naqueles aparelhos chamados de “academia da terceira idade” do que no parquinho infantil. Enquanto íamos embora, ela me contava:
— Fiz uma nova amiga hoje!
— E onde ela estuda?
— Não estuda mais, ela é uma moça de cabelo branco que estava sentada lá.
No caminho para o carro, a amiga mais velha me abordava:
— Parabéns pela sua filha. Como ela é inteligente e educada!
E não foi uma, duas ou três vezes. Isto acontece com frequência. É ela mirar uma senhora pelo clube que ela dá um jeito de se aproximar e ganhar intimidade.
Ela acha a companhia de crianças mais novas sem graça. Prefere as amigas da sua idade ou mais velhas, mas gosta mesmo de conversar com uma senhora a brincar com uma criança.
Eu acredito que é a calma e a paciência que atraem a Ane. Quando ela arruma uma amiga de cabelos brancos, ela conversa, desenha junto e algumas até contam algumas histórias de sua vida para ela.
Anelise me fez lembrar de minha infância. Sempre gostei de estar perto dos mais velhos. Por isso, sempre gostei de frequentar a casa dos meus avós.
Mesmo na adolescência costumava intercalar os programas: um dia ia no clube com os amigos a tarde, no outro passava a tarde na casa dos meus avós. Por diversas vezes recusei o convite dos amigos para ir ao cinema ou comer um lanche para ficar na casa dos meus avós para jantar e assistir ao jornal.
Era uma fuga da agitação da casa dos meus pais – éramos três irmãos homens e uma caçulinha – ou de quando me cansava da minha turma de amigos. Um refúgio onde me sentia em paz e seguro.
Os avós por algumas horas ou os avós de verdade oferecem a uma criança o que os pais não tem condições de oferecer por conta do seu momento de vida. Geralmente estão numa fase em que precisam dispor de muita energia para obter resultado em sua carreira. Sob a justificativa de poder oferecer boas condições financeiras e de conforto para seus filhos, concentram esforços no trabalho, o que diminui a disposição para se jogar nas brincadeiras de uma criança. Falta tempo para ficar ao lado da criança e deixar a imaginação fluir, e é justamente isso que ela encontra nos velhos.
Faz toda a diferença para uma criança poder aproveitar uma avó ou um avô disposto, alguém com tempo e paciência para brincar e conversar.
Avós protegem e cuidam enquanto vamos crescendo. Descansamos de nossa família, da nossa escola enquanto estamos na companhia dos mais velhos.
Estar ao lado de um velho é aprender continuamente, ainda que reine o silêncio.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Na falta dos pais dos seus pais, arrume um avô e uma avó emprestados.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 18/04/2015, Edição Nº 1351.

sábado, 4 de abril de 2015

Os Defeitos de Uma Casa

Arte de Weberson Santiago



A Natália e eu compartilhávamos o sonho da casa própria. Moramos em duas casas de aluguel, mas queríamos mesmo uma casa para financiar que atendesse as nossas necessidades e que fosse bonita. Começamos a listar as características necessárias para isso (ao mesmo tempo em que começamos a sonhar com ela): uma garagem para dois carros lado a lado (nas duas casas alugadas um carro ficava atrás do outro) para evitar ter de tirar o carro pro outro sair, que tivesse pelo menos dois quartos (com a possibilidade de vir a ter um terceiro), com uma cozinha espaçosa (porque gostamos de ficar cozinhando no tempo livre), etc.
Fomos juntando as economias para a entrada até que apareceu uma casa em construção em um dos bairros que imaginávamos morar. Entre o início da negociação com o proprietário e a assinatura de contrato, passando pela finalização da parte interna da casa até o financiamento se concretizar foram exatamente 6 meses e 17 dias. Tivemos de conciliar todas nossas atividades profissionais com a compra de materiais, gerenciamento da obra, inúmeras idas ao banco e ao cartório, e lidar com alguns contratempos.
Acredito que a gente aprende a lidar com imprevistos. Quando fazemos uma mesma coisa por um longo tempo, vamos ficando escolados no enfrentamento de problemas e criando uma lista de possíveis soluções. Como era nossa primeira obra, não estávamos preparados para lidar com aquilo que não saía conforme o combinado ou com os atrasos nos prazos estabelecidos.
Muitos finais de tarde foram de irritação ao descobrir um resultado diferente do que deveria ser. Consertar é mais difícil do que fazer corretamente, já que vai mais tempo e mais material. Foi um processo muito desgastante. E não foi exclusividade de um único profissional. A cada novo serviço, algum ponto sempre veio a dar problema. Tive até de lidar com um ajudante bêbado, que se recusava a trabalhar.
Quem se envolveu em obra ou reforma já sabe bem do que eu estou falando. Se você ainda não se envolveu, não quero que desista do seu sonho. Se prepare para enfrentar os imprevistos e respire fundo buscando paciência. No meio de todo processo que vivemos, no auge da turbulência com os problemas da obra e da documentação uma amiga nossa disse uma coisa que me ajudou muito e que eu gostaria de dividir com você.
Ela repetiu um conselho que recebera de sua mãe: “quando se muda para uma casa nova é preciso se acostumar com os defeitos que a casa tem”. Foi quando ela disse isso que eu percebi que foi a expectativa de uma casa perfeita que nos deixou frustrados com os problemas que surgiram no caminho.
Quando dependemos do trabalho dos outros não temos como garantir a perfeição. Lidamos com seres-humanos e suas imperfeições. É preciso muita habilidade para lidar com as pessoas e o resultado do seu trabalho. Nós mesmos não conseguimos ser excelentes naquilo que fazemos o tempo todo.
Os defeitos de uma casa são suas cicatrizes e mostram a imperfeição dos que moram nela ou trabalharam na sua construção.
Sonhar foi muito importante para vir a ter a nossa casa, mas entre a ideia e a concretização foram muitas doses de uma dura realidade.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Tudo passa. E é sinal que passou quando a gente se lembra e é capaz de dar risada.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 04/04/2015, Edição Nº 1349.

sábado, 21 de março de 2015

De Vendedora à Psicóloga

Arte de Weberson Santiago


Ela trabalha há doze anos nas Lojas Pernambucanas. Começou aos dezessete anos vendendo celulares, até ser contratada para trabalhar vendendo eletrodomésticos. Nestes doze anos, trabalhou de pé de segunda a sábado e por muitos domingos. Quando trabalhava aos domingos, recebia uma folga as terças, quartas ou quintas. Passou doze anos entendendo o que é fim de semana inteiro de folga apenas durante o mês de férias de cada ano.
Na venda, sempre teve destaque no desempenho. Encarava as metas e buscava superá-las. Conseguiu a proeza de bater as suas metas de venda individuais em todos os meses trabalhados nestes doze anos.  Quando atingia a sua cota, ajudava os colegas a atingir as suas, passando as vendas seguintes para eles. Fidelizou uma enorme quantidade de pessoas na loja e muitos deles passaram a querer comprar apenas com ela, mas nem por isso ficou imune a aguentar clientes grosseiros e insatisfeitos com os resultados de suas compras.
Acontece que há cinco anos atrás ela se matriculou na faculdade. Era mãe de uma criança de dois anos quando começou a fazer Psicologia. Durante os últimos cinco anos conciliou a pesada jornada de trabalho com um curso noturno repleto de trabalhos e provas. Arrumou tempo para acompanhar da melhor forma possível o crescimento da filha, participando de todas as reuniões da escola. E passou pelos cinco anos sem pegar nenhuma dependência nas matérias, sem deixar de entregar nenhum trabalho e sem deixar de fazer nenhuma prova, mesmo com a possibilidade de fazer provas substitutivas quando não tinha folga para estudar antes da prova. Quando isso acontecia, estudava no horário de almoço. Quando a filha chegou ao primeiro ano e também passou a fazer provas, estudava com ela quando chegava da faculdade, tarde da noite, ou lhe tomava as matérias da prova do dia seguinte com a filha sentada na tampa da privada enquanto tomava seu banho antes de ir pra faculdade.
Mesmo com todo o excesso de demandas ela deu conta. Deu conta de vender. Deu conta de acompanhar a filha. Deu conta de cuidar da casa. Deu conta de estar presente na vida do marido.
Agora ela é Psicóloga. Ser vendedora de eletrodomésticos não faz mais sentido em sua vida. Vendedora de eletrodomésticos acompanha a vida das pessoas, faz a lista de casamento e também fica sabendo quando a pessoa se separa e precisa repor o que ficou com o marido ou com a esposa na separação. Vendedora de eletrodomésticos entra na intimidade das pessoas, ajuda a decidir o que ela vai levar para dentro de casa e o quanto isso vai representar dentro do orçamento do cliente.
Mas vendedor de eletrodomésticos não é Psicólogo e ela quer trabalhar com a Psicologia. Ela quer tirar o produto do meio da sua relação com seus clientes. Ela quer a calma de ouvir o cliente sentado em poltronas confortáveis, escutando com toda a atenção um único cliente, ajudando a pensar nos seus sentimentos e a tomar decisões que não sejam as decisões de uma compra. Ela quer trabalhar amenizando sofrimentos, encorajando iniciativas, acompanhando processos de mudança e de transformação.
Chegou a hora de encaixotar as calças pretas, as camisetas azuis. Chegou a hora de parar de comprar tênis pretos a cada seis meses para aposentar o velho surrado. Chegou a hora de sair da rotina pesada, mas confortavelmente conhecida e previsível. Chegou a hora de deixar o trabalho que lhe permitiu conquistar tudo o que ela já conquistou até agora, inclusive o diploma de Psicóloga. Chegou a hora de pendurar o uniforme. Chegou a hora de deixar de ser a Natália da Pernambucanas.
É preciso aguentar passar pela situação de ficar sem um emprego para que surjam novas oportunidade de trabalho na área da Psicologia. É preciso encontrar uma instituição que precise de uma Psicóloga. É preciso montar um consultório, comprar uma agenda vazia e construir uma nova carteira de clientes. Está na hora de recomeçar, de começar do zero. Está na hora de fazer uma coisa que ela nunca fez, mas que está se preparando há cinco anos para fazer e que é o que ela um dia sonhou que estaria fazendo.
Ela agradece às Casas Pernambucanas por ter aquecido o seu lar durante esses doze anos, mas ela escolheu deixar a segurança das flanelas, lãs e cobertores sempre por perto.
Da última vez, quando o frio bateu à porta, não precisou que ele batesse duas vezes. Ela deixou o frio entrar.
UM CAFÉ E A CONTA!
| É por isso, e por outras coisas mais, que eu me orgulho dela e da sua trajetória.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 21/03/2015, Edição Nº 1347.