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sábado, 4 de abril de 2015

Os Defeitos de Uma Casa

Arte de Weberson Santiago



A Natália e eu compartilhávamos o sonho da casa própria. Moramos em duas casas de aluguel, mas queríamos mesmo uma casa para financiar que atendesse as nossas necessidades e que fosse bonita. Começamos a listar as características necessárias para isso (ao mesmo tempo em que começamos a sonhar com ela): uma garagem para dois carros lado a lado (nas duas casas alugadas um carro ficava atrás do outro) para evitar ter de tirar o carro pro outro sair, que tivesse pelo menos dois quartos (com a possibilidade de vir a ter um terceiro), com uma cozinha espaçosa (porque gostamos de ficar cozinhando no tempo livre), etc.
Fomos juntando as economias para a entrada até que apareceu uma casa em construção em um dos bairros que imaginávamos morar. Entre o início da negociação com o proprietário e a assinatura de contrato, passando pela finalização da parte interna da casa até o financiamento se concretizar foram exatamente 6 meses e 17 dias. Tivemos de conciliar todas nossas atividades profissionais com a compra de materiais, gerenciamento da obra, inúmeras idas ao banco e ao cartório, e lidar com alguns contratempos.
Acredito que a gente aprende a lidar com imprevistos. Quando fazemos uma mesma coisa por um longo tempo, vamos ficando escolados no enfrentamento de problemas e criando uma lista de possíveis soluções. Como era nossa primeira obra, não estávamos preparados para lidar com aquilo que não saía conforme o combinado ou com os atrasos nos prazos estabelecidos.
Muitos finais de tarde foram de irritação ao descobrir um resultado diferente do que deveria ser. Consertar é mais difícil do que fazer corretamente, já que vai mais tempo e mais material. Foi um processo muito desgastante. E não foi exclusividade de um único profissional. A cada novo serviço, algum ponto sempre veio a dar problema. Tive até de lidar com um ajudante bêbado, que se recusava a trabalhar.
Quem se envolveu em obra ou reforma já sabe bem do que eu estou falando. Se você ainda não se envolveu, não quero que desista do seu sonho. Se prepare para enfrentar os imprevistos e respire fundo buscando paciência. No meio de todo processo que vivemos, no auge da turbulência com os problemas da obra e da documentação uma amiga nossa disse uma coisa que me ajudou muito e que eu gostaria de dividir com você.
Ela repetiu um conselho que recebera de sua mãe: “quando se muda para uma casa nova é preciso se acostumar com os defeitos que a casa tem”. Foi quando ela disse isso que eu percebi que foi a expectativa de uma casa perfeita que nos deixou frustrados com os problemas que surgiram no caminho.
Quando dependemos do trabalho dos outros não temos como garantir a perfeição. Lidamos com seres-humanos e suas imperfeições. É preciso muita habilidade para lidar com as pessoas e o resultado do seu trabalho. Nós mesmos não conseguimos ser excelentes naquilo que fazemos o tempo todo.
Os defeitos de uma casa são suas cicatrizes e mostram a imperfeição dos que moram nela ou trabalharam na sua construção.
Sonhar foi muito importante para vir a ter a nossa casa, mas entre a ideia e a concretização foram muitas doses de uma dura realidade.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Tudo passa. E é sinal que passou quando a gente se lembra e é capaz de dar risada.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 04/04/2015, Edição Nº 1349.

sábado, 5 de novembro de 2011

A Construção e a Paciência

O projeto e meus pés avistando o resultado.







Tenho o hábito de enxergar a transformação assim que eu me deparo com algo abandonado. Gosto da reciclagem, acredito na reutilização, boto fé na boa vontade e não tenho dúvida de que, mesmo que seja árdua, a mudança vale a pena.

Quando me dispus a encontrar uma casa pra morar relatava aos corretores a necessidade de um mínimo de verde no imóvel. Ao menos um pedaço suficiente para que eu pudesse deitar e ver o céu. Pensei que a procura tinha chegado ao fim quando encontrei o espaço ideal: seis cômodos espaçosos, fachada simpática de casa antiga e um pedaço de terra no quintal, sem nenhuma planta. Na primeira visita enxerguei um gramado, mas na negociação com a dona do imóvel acabei com enfado. Ela queria colocar cimento no pouco de terra que restava e eu, que enxergava a cama de grama como cômodo adicional, me recusei a fechar o contrato.

Foi então que encontrei aquela que se tornaria a minha primeira casa. O número de quartos e seus tamanhos eram ideais, mas o matagal que tomava conta do quintal me fez criar a urgência da assinatura. Havia sido mordido. Não por um inseto, mas pela imagem de um jardim em um sonho acordado. E quando o mosquito da criatividade me morde, enxergo apenas o produto final e não me importo com o trabalho da execução.


Aprendi que tudo o que se faz com as próprias mãos, custa mais barato e descobri que a desculpa do preço é o vício do preguiçoso. Mordido pela ideia, imaginei uma pérgola de eucalipto com uma bela trepadeira fazendo sombra para uma mesa em cima de seixos no chão. Não contente com a ideia, resolvi desenhar o meu primeiro projeto de construção.

Contratei um jardineiro para limpar a bagunça tão logo assinado o contrato. Debaixo do matagal havia um pé de acerola, três roseiras, algumas folhagens verdes e uma planta não identificada. Decidimos, o jardineiro e eu, não retirar a prova da história de quem ali morou. Ganhei da avó o tapete de grama para cobrir todo a terra do quintal e desde então regava meu colchonete para que virasse um colchão de alta densidade.

Engana-se aquele que pensa que o interessante desta história é a ideia ter virado realidade. Não é o antes e o depois que me deixam cheio de orgulho, mas cada lição que eu tive durante a execução, que demorou exatamente um ano. O jardineiro não foi o único parceiro da empreitada. Para escavar um metro de chão e colocar de pé os seis troncos de sustentação, contei com a ajuda do amigo César. Quando o caminhão depositou as pedras de rio na calçada, aproveitei-me da mão-de-obra do amigo Coruja, que tendo furado comigo em um outro dia marcado, fez questão de ajudar no carregamento de dez carriolas até o quintal do fundo, tendo chegado para a tarefa com um fardo de cerveja para comemorarmos a conclusão.

Uma das coisas mais surpreendentes foi a tal planta não identificada. Logo após o plantio da grama, suas folhas começaram a secar. Diante da possível perda da planta, eu me abalei, achando que não era capaz de cuidar de um jardim. Insistia na água, mas as folhas não brotavam. E quando já havia desistido há vários meses daquela batata enfiada na terra, fui pego de surpresa com as folhas crescendo.

Ia passando do quarto do fundo para a casa quanto tomei um susto. De um dia para o outro subiu uma haste no meio das folhas. E no outro dia, ao acordar, me deparei com cinco lírios brancos de pétalas com o centro arroxeado. Compreendi a lição. Ela esperava o momento mais propício. E eu querendo que ela crescesse no meu ritmo. Uma planta me ensinando que a consideração e o cuidado não devem vir acompanhados da cobrança.

E é ali que eu passo boas noites em conversas sem fim, que eu vivo aqueles encontros de um farto churrasco, onde eu podo, planto e rego. É onde eu faço a transição entre as jornadas de trabalho e o chegar em casa, onde eu rolo na grama e ralo o joelho, é o lugar que eu construí para me educar a ter paciência.



 UM CAFÉ E A CONTA!
| Aquele que é capaz de cuidar de uma planta se torna fertilizador de ideias, semeador de sonhos, lavrador de caminhos, irrigador de crescimento e colheiteiro de novas realidades.

Publicado no Jornal Democratacoluna Crônicas de Padaria

Publicado no Caderno Cultura, p. 3, 05/11/2011, Edição Nº 1172.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A Construção e a Paciência











O projeto de 01/02/2010 e
o resultado em 01/01/2011







Tenho o hábito de enxergar a transformação assim que eu me deparo com algo abandonado. Gosto da reciclagem, acredito na reutilização, boto fé na boa vontade e não tenho dúvida de que, mesmo que seja árdua, a mudança vale a pena.

Quando me dispus a encontrar uma casa pra morar sozinho relatava aos corretores a necessidade de um mínimo de verde no imóvel. Ao menos um pedaço suficiente para que eu pudesse deitar e ver o céu.

Pensei que a procura tinha chegado ao fim quando encontrei o espaço ideal, seis cômodos espaçosos, fachada simpática de casa antiga e um pedaço de terra no quintal, sem nenhuma planta. Na primeira visita enxerguei um gramado, mas na primeira negociação com a dona acabei com enfado. Ela queria colocar cimento no pouco de terra que restava e eu, que enxergava a cama de grama como cômodo adicional, me recusei a fechar o contrato.

Foi então que encontrei aquela que se tornaria a minha primeira casa. O número de quartos e seus tamanhos eram ideais, mas o matagal que tomava conta do quintal me fez criar a urgência da assinatura. Havia sido mordido. Não por um inseto, mas pela imagem de um jardim em um sonho acordado. E quando o mosquito da criatividade me morde, enxergo apenas o produto final e não me importo com o trabalho da execução.

Aprendi que tudo o que se faz com as próprias mãos, custa mais barato e descobri que a desculpa do preço é o vício do preguiçoso. Mordido pela ideia, imaginei uma pérgola de eucalipto com uma bela trepadeira fazendo sombra para uma mesa em cima de seixos no chão. Não contente com a ideia, resolvi desenhar o meu primeiro projeto de construção.

O primeiro passo foi contratar um jardineiro para limpar a bagunça tão logo assinado o contrato. Debaixo do matagal havia um pé de acerola, três roseiras, algumas folhagens verdes e uma planta não identificada. Decidimos, o jardineiro e eu, não retirar a prova da história de quem ali morou. Ganhei da avó o tapete de grama e desde então regava meu colchonete para que virasse uma cama box.

Engana-se aquele que pensa que o interessante desta história é a ideia ter virado realidade. Não é o antes e o depois que me deixam cheio de orgulho, mas cada lição que eu tive durante a execução, que demorou exatamente um ano. O jardineiro não foi o único parceiro da empreitada. Para escavar um metro de chão e colocar de pé os seis troncos de sustentação, contei com a ajuda do amigo César. Quando o caminhão depositou as pedras de rio na calçada, aproveitei-me da mão-de-obra do amigo Coruja, que tendo furado comigo em um dia marcado, fez questão de ajudar no carregamento de dez carriolas até o quintal do fundo, tendo chegado para a tarefa com um fardo de cerveja para comemorarmos a conclusão.

Uma das coisas mais surpreendentes foi a tal planta não identificada. Logo após o plantio da grama, suas folhas começaram a secar. Diante da possível perda da planta, eu me abalei, achando que não era capaz de cuidar de um jardim. Insistia na água, mas as folhas não brotavam. E quando já havia desistido há vários meses daquela “batata” enfiada na terra, fui pego de surpresa com as folhas crescendo.

Ia passando do quarto do fundo para a casa quanto tomei um susto. De um dia para o outro subiu uma haste no meio das folhas. E no outro dia, ao acordar, me deparei com cinco lírios brancos de pétalas com o centro arroxeado. Compreendi a lição. Ela esperava o momento mais propício. E eu querendo que ela crescesse no meu ritmo. Uma planta esquisita me ensinando que a consideração e o cuidado não devem vir acompanhados da cobrança.

E é ali que eu passo boas noites em conversas sem fim, que eu vivo aqueles encontros de um farto churrasco, onde eu podo, planto e rego. É onde eu faço a transição entre as jornadas e o chegar em casa, onde eu rolo na grama e ralo o joelho, é o lugar que eu construí para me educar a ter paciência.