quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Lavagem das Poltronas

Arte de Weberson Santiago


Quando na chuva cai a água que subiu, as tardes quentes de verão ficam mais acolhedoras. No burburinho dos gotejos. Na precipitação do choro. Nas águas que refrescam e reconstroem caminhos, me pego pensando sobre os recomeços. Essa nossa insistência em por fim e começar de novo. É assim no ano novo. É assim na volta às aulas. É assim no aniversário. É assim no bom dia.

Precisamos do ritual, de um método e de um procedimento. E depois, lá estamos nós, novos e prontos para o que der e vier. Revigorados pelo cumprimento de uma etapa. Precisamos dessa sensação de conclusão que gera satisfação. E na maioria das vezes não basta sentir, é preciso contar, mostrar, afirmar, concluir, ser visto e reconhecido. A montanha russa que segue o trilho das expectativas e que em alguns momentos desafia a gravidade dos sentimentos.

Todo começo de ano tenho a minha cerimônia de lavagem das poltronas do consultório. Trata-se de uma necessidade. Poltronas claras sujam com o uso frequente. Elas me acompanham há meia década e já ocuparam três salas diferentes neste tempo. E com a desculpa da necessidade fiz os testes com o aparelho de vapor, depois tentei a lavagem a seco, passando para o limpa-carpete e uma experiência frustrada. No supermercado, me deparei com um spray de espuma que prometia fazer milagres. Eu desconfiei da promessa, mas ignorei o sentimento. Segui as instruções e ganhei poltronas malhadas com manchas esquisitas. Saí às pressas atrás de outro produto e reverti o resultado.

Esse ritual de lavagem é como varrer cedo a calçada para fazer carinho nos pés de quem vai passar por lá durante o dia. Faz agrado aos olhos, mas sua função é mais do que isso. É a preparação para receber novas pessoas, com novas histórias. É me desfazer de resquícios de todos os atendimentos do ano passado. Uma desfragmentação de minha memória de terapeuta. Uma oportunidade de reorganizar a minha bliblioteca e acomodar os livros recém-chegados.

Quando me vejo, estou cheio de esperança. Esperando novas experiências, esperando as novidades do dia a dia. Esperando dar continuidade a minhas construções em empreitadas árduas, mas consentidas. Jornadas que escolhi encarar, desafios que sou capaz de enfrentar. O medo é só o medo. A quantidade suficiente de medo é o que nos faz saber preservar a própria vida. A rotina é feita para quem tem coragem.

Olhando para os sentimentos e a chuva que cai, compreendo a minha relutância em fechar as janelas. Gosto da brisa que sopra no meu rosto e me dá sensação de liberdade, que depois se torna vendaval, bagunça os cabelos e leva as folhas. De repente tudo para. Cessa a chuva e fica a emoção.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Memória Acorrentada

Arte de Weberson Santiago

Nos primeiros dias de 2011, alguém se incomodou com a corrente que perfurava a grande árvore e a prendia ao muro na Ladeira da Memória, centro da cidade de São Paulo. Já se vai muito tempo desde 1888 e só agora a escravatura do espécime Ficus organensis vem a ser questionada. A princesa Isabel do século XXI a favor da liberdade da natureza foi Cristina Moreno de Castro, jornalista que questionou a corrente no impresso Folha de São Paulo.

Localizada em meio a monumentos no vale do Anhangabaú, ironicamente ninguém na Ladeira da Memória é capaz de resgatar o motivo da colocação dos grilhões que impedem, há mais de vinte anos, a fuga da árvore da Rua Xavier de Toledo. Juntamente com o obelisco, a escadaria e o chafariz, a árvore de quinze metros de altura faz parte do largo que foi inaugurado em 1814 e é patrimônio histórico tombado.

Foto de Adriano Vieland

Nem os mais antigos da região sabem da história daquela corrente, que timidamente venho contar aqui. No começo do século XIX, na Rua Palha, hoje Sete de Abril, o governo encarregou o engenheiro Daniel Pedro Müller da construção da Estrada do Piques para facilitar a comunicação de São Paulo com o Interior. Além da Estrada do Piques, Müller propôs a formação do Largo da Memória com o alargamento das ladeiras do Piques e da Palha e a construção de um chafariz, tudo complementado por um obelisco “à memória do zelo do bem público”.

Neste tempo em que a cidade era um amontoado de casas de taipa de pilão, o português Pedro Luiz de Souza Machado foi um dos que veio com o grupo dos jesuítas para desbravar as terras brasileiras. Quando passaram por São Paulo, parte do grupo se encantou com o clima fresco semelhante ao europeu e fundaram o Real Collegio, grupo do qual fazia parte Souza Machado. O engenheiro Müller contou com a disposição de nobres Senhores da época para a construção do Largo da Memória. Souza Machado inclusive cedeu escravos para trabalhar para o mestre pedreiro Vicente Gomes Pereira, subordinado de Müller.

Por decreto de 08 e carta de 13 de Fevereiro de 1812, Souza Machado teve a concessão do título de Conde de Lousada, como ficou conhecido na cidade desde então. A obra de pedra de cantaria constituía o obelisco de onde emergia de uma bacia de alvenaria com grades de ferro, que servia como reservatório da água. Muitos viajantes cruzavam a Ladeira para encher os cantis em uma bica e prosseguir o trajeto. Numa das tardes no Largo, o Conde de Lousada pressionava o lenço contra a testa enquanto avistou de longe uma jovem dimanada na lomba de um burro. Transporte típico da época, a dama de companhia que conduzia o quadrúpede parou para lhe dar água na Ladeira. Olhares tergiversos provocaram as mais sublimes sensações no Conde e na jovem. Era Leonora de Melo Guimarães, filha de portugueses que se tornaram cafeeiros e nos primeiros anos do século seguinte ocuparam a Avenida Paulista, a primeira via planejada da capital.

No fluxo das pessoas pelo Largo da Memória, galanteios e gracejos aproximaram o Conde cinquentenário da jovem Leonora. Na véspera da inauguração do alargamento da Estrada do Piques e dos monumentos de pedra que constituíram o Largo da Memória, na presença de Müller, de Gomes Pereira, do Conde de Lousada, de Leonora, de um grupo de escravos e de alguns transeuntes foi plantada a figueira. No dia seguinte, 12 de Outubro de 1814, autoridades do governo inauguraram a obra em uma solenidade oficial. O pedido de casamento do Conde para o pai de Leonora se deu alguns meses depois e o casamento foi sacramentado por Dom Mateus de Abreu Pereira em 11 de Outubro de 1815, um ano após o plantio da Ficus, na Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, localizada na Rua do Carmo. Em 1816, nasceu o primeiro filho, batizado com o nome do pai.

Foto de Ricardo Henrique Cardim

Acontece que Leonora considerava enfadonha a vida de Condessa e não demorou a se envolver em um caso perigoso. Encantou-se com os rituais Iorubás, realizados pelos escravos e que frequentava quando o Conde estava fora de casa. Acabou por envolver-se com um escravo, com o qual se encontrava às escondidas. O Conde de Lousada, desconfiado, colocou um capanga no encalço da amada. Quando se percebeu na iminência de ser descoberta e sob o pretexto de sua vida monótona, partiu com o jagunço que deveria constatar a traição, tendo levado consigo parte do dinheiro do Conde.

A tardia entrega ao amor fez com que a traição consternasse a consciência de Pedro Luiz, o Conde de Lousada. Desgostoso da própria vida e da ingratidão de sua "Nôra", encaminhou o filho para estudar em um colégio interno. Sentia fortes dores de cabeça todos os dias, sem encontrar alguma maneira de se sentir melhor. Num momento de desespero, enquanto uma escrava lhe punha compressas de água morna na testa, levantou-se repentinamente, reuniu os escravos do lado de fora da casa e mandou que eles, os únicos que lhe foram fiéis, acorrentassem a figueira com os grilhões do porão, na tentativa de livrar-se das correntes de sua memória, que lhe apertavam a cabeça e foram responsáveis pelo seu adoecimento e depois pela sua morte.

Homem influente na sociedade paulistana da época, seus amigos se encarregaram de aumentar os elos da corrente a cada ano, para que a árvore pudesse crescer sadia. Durante um século e meio, o governo municipal de São Paulo interpretou as correntes como uma necessidade de segurança para que a árvore se mantivesse de pé. No meio do Regime Militar Brasileiro, por volta de 1970, a corrente parou de ser trocada e a árvore continuou a crescer em espessura, englobando internamente parte da corrente. Como num grito de liberdade da árvore, recentemente um dos lados da corrente se rompeu e perdeu a função inicial.

Após uma vistoria técnica nestes primeiros dias de 2011, a figueira centenária do largo da Memória foi finalmente libertada. As correntes que a prenderam por décadas ao muro da Xavier de Toledo foram cortadas por técnicos da Prefeitura. Ela não tinha risco de cair e a corrente que a prendia não tinha mais razão de ser para os técnicos. Sabemos nós que a razão de ser era para a memória do Conde de Lousada, que talvez agora tenha sido também liberta. Apenas o pedaço que já estava dentro da árvore não foi removido, porque isso poderia causar ferimentos no tecido da figueira e deixá-la vulnerável a doenças e pragas.

No largo da memória, os grilhões internos imperceptíveis por quem percorre o passeio são os mais difíceis de remover. Haverá de restar alguma cicatriz.

Foto de Felix Lima/ Folhapress











Dedicada ao Professor Paulo Eduardo Vieira, vulgo Curuja.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Resoluções de ano novo disfarçam dívidas do ano velho.

Arte de Weberson Santiago

Para mim não existem promessas de ano novo. Resoluções de ano novo disfarçam dívidas do ano velho. Pendências com sua tendência a renovação na procrastinação. Tropeço no dia trinta e um e caio no dia primeiro como quem ignora o fim do domingo e se encontra na segunda feira.

Decisão de dia novo funciona melhor. Em primeiro lugar, as tarefas do dia. Em segundo lugar, as pendências esperando por disponibilidade. Cumprindo as primeiras e aproveitando as lacunas para resolver as segundas. E talvez assim seja possível mudar a rotina, o hábito, o comportamento repetitivo.

Há dois anos, num desses primeiros dias do ano ouvi de uma amiga de trabalho em tom de boa notícia:

- Fiz sua indicação para ser jurado no fórum da cidade.

Não sabia qual resposta devia dar a ela. Ganha-se para isso? - pensei. Já havia me esquecido da indicação quando a primeira intimação chegou. O tom de ameaça para os casos de ausência me assustou e no dia e hora marcados estava eu lá. Gaba-se quem está na posição de julgar, emitir parecer, avaliar, conceituar. Mas descobri que não há nada de glamouroso na função do jurado.

Passa-se o dia no Tribunal do Juri, proibido de se comunicar, diante de juiz, promotor, advogados de defesa, entre outros. Assistindo depoimentos e inquirições para todos os envolvidos. Muitas vezes as responsabilidades são óbvias, mas nem todos os detalhes são claros. O jurado se sente passivo diante do crime em julgamento e suas penas definidas no código.

Depois de muitas intimações e participações, não houve uma única vez em que, diante da dúvida, ficasse num impasse a favor do réu ou da sociedade (in dubio pro reo ou in dubio pro societate). Mas não foi o réu que me chamou a atenção na última participação, e sim o almoço do promotor.

Já que se passa o dia todo por lá, tem-se o direito ao almoço, servido dentro do tribunal. O juiz não costuma almoçar com os demais, não me perguntem o motivo. O promotor, jovem aparentemente sério e centrado, foi o último a se sentar. A maioria dos sete jurados já havia acabado o almoço.

Pegou o prato e encheu de salada. O advogado de defesa, tendo devorado a sua montanha de comida, fez questão de comentar. Ele se defendeu dizendo que o calor o impedia de comer muito. Uma forma de dizer que queria evitar aquela moleza após a refeição, chamada de repouso pós prandial.

Na volta do almoço, ao advogado de defesa foi concedido noventa minutos, inteiramente utilizados. O promotor fazia anotações durante toda a fala. Até que a defesa deixou escapar um “quem não se deixa levar por um momento de nervosismo? Afinal, quem está bebendo em um bar, boa gente não é. Será que ele não merece outra chance?”. Foi interrompido pelo promotor, inconformado com a argumentação. O réu não matou pois a arma falhou diante do peito do cara. Bate-boca na frente do juiz.

Foi quando o tempo dele acabou e a palavra passou ao promotor que o almoço leve mostrou-se eficaz. Com o papel de anotações na mão, foi rebatendo tese a tese da defesa. Trocas de farpas mostraram o que o promotor não engolia. Réplica, tréplica e réplica da tréplica depois, a indigestão foi por parte do advogado de defesa. O duro foi disfarçar a cara de enjoo para tanto debate enquanto aos jurados não restavam mais dúvidas.

Dez horas depois do início do julgamento foi dada a sentença. Ao ouvir a pena, culpado por mais um crime na sua extensa ficha, o réu perguntou: “Com tudo isso que aconteceu aqui eu só peguei quatro anos?”.

Resolução do novo dia: em dia de julgamento, seja lá qual for o seu lugar no tribunal, não coma em excesso.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Elasticozinhos

Arte de Weberson Santiago


Aderi à ordem da arrumação de fim de ano e resolvi dar o que não me serve mais e, o mais difícil, aceitar que devo me desfazer daquilo que guardei e não achei uso e do que não vejo mais finalidade no armazenamento. Em meio aos objetos largados fui encontrando elásticos. Não os amarelos de escritório, e sim os de cabelo. Elasticozinhos. Aqueles pequenos e coloridos, geralmente fosforescentes. Dos que se compra aos punhados e cabem no dedo.

Como um detetive seguia intrigado no rastro das pequenas amarraduras de cabelo e concluí que só poderiam ser da Anelise. Seus cabelos loiros e lisos não aceitam ficar presos por muito tempo. Os elasticozinhos vão escorrendo nos fios até cair no chão. Na pressa, é mais fácil para a mãe dela pegar outro ao invés de sair caçando o elástico perdido.

Anelise é filha da Natália, minha namorada. No dia em que nos conhecemos, ela me contou de sua maternidade. Eu confesso que achei interessante, por mais estranho que isso pareça. Depois compreendi que uma tendência a gostar de novidades disfarçou minhas resistências. Estas eu constatei depois de adiar a contar a meus pais sobre a existência da filha da Natália. Diante da indiferença deles perante a novidade, percebi que o estranhamento era meu, só meu. O receio da reação deles estampou minha dificuldade em pular de cara as páginas do namoro e passar para o álbum de família. Algumas situações trouxeram restrição à nossa liberdade, decorrências deste nascimento anterior ao nosso encontro, mas nada que boa vontade e paciência não venham resolvendo.

Não demorou muito para Anelise e eu sermos apresentados. Foi quando ela conheceu quem era o tal sequestrador de mãe. Depois que nos conhecemos, a mãe dela e eu, não nos desgrudamos mais e eu virei o ladrão. Se não bastassem o trabalho e a faculdade dela, eu apareci como o compromisso adicional, o motivo do abandono. Passei a ocupar horas daquela mulher que deveriam ser apenas dela.

Perto de completar três anos, a pequena está sob efeito da descoberta de que é gente (ou como se diz na psicologia, que tem um eu). Traduzindo em comportamentos: bate o pé por suas vontades, compreende muito do que acontece a sua volta mesmo com tão poucos centímetros de altura e gosta de deixar claro que já tem suas preferências. Mesmo assim, não nos restou outra opção. Tive de abrir mão de certo egoísmo. A Ane também.

Foi aí que percebi que o meu maior desafio não foi conquistar a mãe, mas sim a filha. A intimidade começou gradativamente em conversas pelo celular, passando pela liberdade de lavar sua mão e sua boca suja de chocolate, até um recente convite para nadar em sua piscina. A expectativa dessa progressão geométrica era o natal. Passamos juntos os três na minha família. Estava animado esperando por isso, preparei os presentes e fiz como meu avô fez com meu pai e meu pai fez comigo. Colocamos grama para a rena e saímos para a ceia. O papai Noel visitou a minha casa e deixou os presentes enquanto a rena comeu toda grama.

Anelise é meu estágio para a paternidade. Estágio é fazer o trabalho de um profissional sem a responsabilidade e a recompensa desse profissional. O cargo de namorado da Natália me incumbe de ser paternal com a Anelise. Ser paternal sem ser pai. Ela sempre gosta de lembrar que tem seu pai, num certo inconformismo por ele não ocupar o lugar que eu ocupo hoje na vida delas. Em algum momento eu me incomodei, até descobrir que ela fala para o pai de um tal amigo Augusto “que tem o carro que pula”. Eu ignoro algumas lombadas e ela adora. Mergulhei nesse estágio de cabeça, sem vergonha de curtir os passeios ao pula-pula, a visita à casa do papai Noel, ao circo e a praça em um fim de semana a três.

Foi neste 2010 que a Natália me conquistou deixando recados quando passava os finais de semana na minha casa. Não na forma de bilhetes, mas pelos objetos deixados e esquecidos que foram encontrando seus lugares. Um creme que ficou pra trás significava um “sinta meu cheiro durante a semana”. Um sapato de salto perto da cama me dizia “este quarto tem dona”. A escova de dente foi a maior declaração de todas: “me casaria com você”.

Aonde vou penso nelas. Na prateleira do supermercado diante da garrafa pet e da minigarrafinha. Olhando para o chocolate de barra e o bombom. Fui pego pela publicidade em uma venda casada, e estou gostando de pagar o preço. Meu presente foi ter encontrado a namorada e ter ganhado uma miniatura de brinde. São minhas escolhas que me fazem pensar que em 2011 estarei em boas companhias, e com uma coleção de pequenos elásticos. Não é apenas no jeito de andar, na vontade de falar e na aparência que elas são iguais. Depois deste fim de semana na minha casa, encontrei uma peça do brinquedo de montar ganho no natal debaixo do colchão onde ela dormia. A pequena também deixa bilhetes. O significado deste: “gostei tanto do fim de semana que eu volto pra buscar a peça que eu esqueci”.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Criatividade Arrogante

Arte de Weberson Santiago


Nessa onda das reflexões de fim de ano cheguei à conclusão que minha criatividade é arrogante. Ela se antecipa em querer descobrir como se faz toda e qualquer coisa que observo. Inspeciona o que está na minha frente até descrever os materiais ou ingredientes. Antes parasse por aí. Que nada. A arrogância faz questão de mostrar que sabe fazer igual, e tem o péssimo hábito de tentar fazer melhor.

Sempre foi assim. Quase que um vício em aprender a fazer. Começou com a culinária. Se engana quem pensa que foi uma tentativa de impressionar. Necessidade mesmo. Cansado de me deparar com o hambúrguer deixado pela empregada no final do dia. Já na adolescência testava o molho bechamel no macarrão. Consultava uma coleção de livro de receitas que minha mãe fez e que vinha toda semana junto com o jornal.

Minha mãe nunca foi de cozinhar durante a semana, mas manteve os livros de todas as culinárias do mundo e a dispensa para que eu pudesse driblar a fome e me fazer cozinheiro. No livro, passo a passo com foto. A invenção de novas combinações foi uma questão de tempo e de preguiça, e não de segurança. Na hora de repetir a receita, a moleza de subir na grande estante de ferro para pegar o livro me levava à variação nas quantidades e ingredientes.

Quando fui morar em São Paulo durante a faculdade, meus principais problemas eram a falta de dinheiro, o preço do aluguel e da comida. Quando abriu a barraca de sanduíche na rua de casa, encontrei o meu Mc Donalds. Foi comendo o Misto Quente de café da manhã até o X-Tudo do jantar que descobri que tinha o mesmo atendimento do Burger King, podia pedir o lanche da minha maneira. Da saída do funcionário do caixa do carrinho me restou o convite para meu primeiro emprego.

O dono era um migrante analfabeto, que havia feito o recrutamento e a seleção ao me observar. Viu minhas habilidades para fazer contas enquanto comprava dele e teve como prova de minha honestidade o dia em que lhe falei o erro do Banner/Cardápio de seu estabelecimento móvel: Lanches do Pedrininho (se bateu o olho e leu Pedrinho, leia novamente). O caixa e as compras eram fechados por sua mulher, que tinha curso técnico em contabilidade.

Meu papel se resumia a entregar o refrigerante e a cobrar o cliente. Muitos eu já conhecia de dividir as cadeiras na calçada durante as refeições. O Pedro se deu bem ao achar um espaço perto de um shopping onde os próprios vendedores evitavam a praça de alimentação para economizar. Nos finais de semana era o dia todo de pé, mas a movimentação da rua compensava. Se eu fosse cronista naquela época, hoje seria pós-graduado em filosofia do cotidiano.

Para minha criatividade, dar o troco e pegar a lata certa de refrigerante era pouco. Não cansava de notar o trabalho do chapeiro. Em uma hora de pouco movimento, resolvi me arriscar, fiz um sanduba completo para mim mesmo. Numa dessas, chegou um cliente e fez o pedido. Eu mandei o lanche. E de vez em quando trocava de posto com o amigo da chapa. Quando percebi, me gabava de quebrar os ovos com apenas uma mão. O ápice da função do chapeiro é jogar o ovo e o hambúrguer pra cima e ele cair do lado oposto, mas quebrar o ovo com uma mão já impressiona e demonstra aptidão para o posto. Dizem que não existe erro em investir em comida, mas essa regra não se aplica quando não há alvará de funcionamento e a lanchonete funciona na calçada.

Algum tempo depois de tentar minha carreira na manipulação de alimentos, já estava fadado ao estágio em uma empresa pública. Tive uma amiga que passou um ano fora e que conheceu um grande amor. Foi na vinda dele para o Brasil que minha criatividade ficou irrequieta. O cara era estilista no México, cortava os próprios cabelos e usava um corte moderno, descolado. Esta aí o maior grau de arrogância que a criatividade pode atingir. Rejeitar uma segunda pessoa para acertar o corte é sinal de soberba e deixa qualquer sujeito metido a criativo no chinelo. Comprar peças de roupas que chamam atenção é fácil perto de produzir uma própria escultura capilar. Domínio das próprias mãos, dos próprios cabelos, de alguma técnica e quem sabe até da gravidade.

O problema é que a arrogância da minha criatividade não permite que eu pergunte como se faz. Tem que produzir o próprio caminho, e isso me custa certos tropeços. Sabia que ele usava a máquina e arrumei uma. Foi uma catástrofe. Os funcionários da repartição onde estagiava que exalavam naftalina me olhavam como se eu trabalhasse fantasiado de Adão. Por pena, o mexicano acabou cortando o meu cabelo. Como a criatividade é operante, havia optado por deixar de lado uma nova tentativa de autocorte de cabelo. Acontece que a minha variabilidade comportamental acaba pescando uma vontade já empreendida e nem sempre bem sucedida.

Sem previsão de ir a São Paulo cortar com a Cassia, somei o que aprendi sobre a máquina a vendo cortar meu cabelo nos últimos 10 anos, mais o que aprendi com o mexicano e voilá. Arrisquei o corte e achei que ficou bacana. Meus avós comemoraram a diminuição do comprimento. A namorada ficou em dúvida se eu mesmo havia feito ou se tinha ido a algum salão.

Preocupada com o futuro, ela alertou: “É melhor não pegar o hábito de sempre cortar porque pode dar errado da próxima vez”. Ela não sabia que a arrogância da minha criatividade não aceita terceirização depois que centralizou a execução.



domingo, 12 de dezembro de 2010

Excerto Reflexivo sobre a Abertura da Exposição

Tendo chegado, o dia começou no escuro e demorou a passar até às dezoito horas. Aquarela emoldurada, lembranças feitas, portfólio impresso, banner de divulgação e cartazes espalhados, imprensa convidada. Tudo preparado. Passadas duas horas, ao final, um sentimento de sagacidade. Havia me dedicado por semanas para proporcionar um momento diferente para meus convidados, familiares e amigos. Um entusiasmo inibido e até melancólico, resultante de um momento especial, daqueles únicos, que pode ser chamado sublime. Assim foi a abertura de ÁRVORE DA VIDA.

Naquela Biblioteca, pessoas muito importantes: meus quatro avós, pais, irmã, tios e tias, um grupo de jogadores de basquete que intervenho, amigos de trabalho do clube, um grande amigo médico com quem dividia o consultório e a oficina de artes, sua família. Pessoas que me acompanharam no período em que cada obra foi feita, que viram cada painel sendo pintado.

No decorrer deste ano de 2010, quatro artistas foram convidados para uma exposição de 40 dias, sendo 20 na Biblioteca e 20 na Academia do clube. Quando o Marketing da Associação Esportiva Mocoquense, a partir da ideia de Diretora de Cultura Matiza R. Lima , convidava os sócios artistas para exporem seus trabalhos no Projeto Arte no Clube, resolvi me inscrever.

Comecei a pintar tampas de caixas de madeira como passatempo e presenteava os amigos. Quando montei minha primeira sala de atendimentos em 2006, resolvi pintar um painel para enfeitar. Ficou interessante, mas pequeno para a parede. Comprei outra do mesmo tamanho e explorei a mesma temática para compor um par. Daí que parti para telas maiores e com propostas variadas, acumulando até 2010 oito painéis e uma dezena de aquarelas.

Buscar os quadros presenteados foi uma aventura, precisei viajar, marcar encontros, pedir envios, fazer novena para nada estragar no transporte. Cada uma que voltava as minhas mãos, dispunha na sala de espera do atual consultório e observava. Olhava para aquelas produções e resgatava uma lembrança ou um esquecimento. Cada um que chegava era catalogado, descrito. E quando chegaram os últimos pude olhar para minhas pinturas como um todo.

Exposição é um nome pesado, um fardo. Se expor pode ser arriscado, mas em nenhum momento me senti desnudado e sim orgulhoso em expulsar de mim todos aqueles sentimentos. Não conseguia pensar em outro aforismo mais apropriado que o de Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da verdade”. O que seria de minha saúde psicológica sem esses painéis?

Inclui uma crônica escrita a quatro mãos com o amigo e aluno César, em março deste ano, quando percebi que, dos oito painéis pintados, sete contém árvores. Conversando com o Fábio Vieira, aluno e ator, descobri que ele faz uma performance chamada Árvore da Vida, que me encenou no dia seguinte. A apresentação pareceu-me ter sido feita para a exposição que, por sua vez, casava com a crônica.

A sequência programada foi: abertura pela Diretora de Cultura, minha leitura da crônica e a apresentação da performance com o Fábio, o ponto mais emocionante do evento. Uma forma de avaliar um acontecimento é analisar os efeitos que ele produziu. Observei que todos os presentes com os quais me encontrei no dia seguinte carregavam consigo um sorriso de satisfação. O objetivo da abertura havia sido atingido.

Recebi ligações e depoimentos diversos sobre a valia dos momentos vividos e impressões diante das pinturas. Não obstante, fiquei surpreso com o maior sucesso: a tela Madrugada. A grande janela preta com um caminho e árvores em alto relevo. Cheguei a ver diante de mim olhos marejados, os que conseguiram arrestar os sentimentos que tive no momento da criação.

Matiza, em seu discurso de abertura, dizia que sou um artista em formação, iniciante. E não haveria como não ser em meus primeiros painéis. Ela definia a desambição com que tudo começou. Citou, também, certo traço infantil, que acredito ser uma verdade. Talvez a maturidade que me exige o cotidiano tenha sido amenizada por comportamentos infantis em algumas pinceladas. Uma esquiva criativa. Definições à parte, enchi meus pulmões de inspiração para uma nova ceifa de painéis, com previsão inicial de serem expostos em 2015.

Cada convidado recebeu um minivaso com uma muda de planta suculenta com o objetivo de estimular o cuidado, a paciência, a interação com a vida. Não ao acaso, um papel preso ao vaso. Impressa em letras destacadas, a frase: “A despretensão pode esconder o nascimento de uma grande construção”.