segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Bico de Lacre

Ele apareceu na boca da Mel, uma labradora de cor chocolate devoradora de pássaros. Apesar de dócil e até medrosa, usa os pássaros como brinquedo, sem se importar com o quanto é fúnebre. Sara correu assim que viu, não é a primeira vez que os salva, mesmo que custe abrir a boca da mel como se fosse um crocodilo. Esse custou mais trabalho, tratava-se de um Bico de Lacre (Estrilda astrild).

Há quem o chame de Bico de Lata, mas suas características principais são: o tamanho pequeno (comprimento: 10,5 cm; peso: 7,5 g) e o vermelho do bico e na sombra dos olhos que se destaca na penugem acinzentada. A salvo da mel, foi levado pela Sara até um jardim fechado e seguro.

Saímos em busca do ninho ou da mãe, pois alçava os primeiros vôos rasantes. Nenhum sinal da família e resolvi trazê-lo pra minha casa, já que não tenho cachorro nem gato. A Sara aprovou a idéia de mais chance de sobrevivência, mesmo que longe dela. Depois de uma longa busca no Google dos cuidados corretos e uma ligação a um criador, passei a alimentá-lo. Resolvi que não o deixaria preso, mas que colocaria numa gaiola para alimentá-lo até que pudesse se cuidar.

Não gostava que ficasse muito em cima, mas ficava calmo quando solto no meio das pessoas. Me acostumei com a companhia no primeiro dia e já contava com ela nos próximos. No meio de uma conversa fui procurá-lo e ele havia escapado da gaiola. Sempre tentava, mas não passava, até que achou um locar possível e fugiu. A procura terminou vinte minuto depois, quando o achei no quartinho do quintal.

Resolvi acreditar no seu “grito de liberdade” e disponibilizar alimento deixando-o solto. Parecia capaz de caçar insetos e de fugir com rapidez, como quando ia atrás dele. Ele acabou voltando pra dentro de casa e deixei-o solto durante e noite. Na manhã seguinte não o achei. Me senti egoísta até, por querer que dependesse de mim e ficasse por aqui. Pensei “devo aceitar a partida para a vida, deixá-lo voar por aí”. Em outros momentos, o imaginava pródigo, voltando para mostrar que conseguira sobreviver e reconhecendo minha ajuda para isso. Foi aí que fiz aquilo que boa parte dos amantes fazem quando são abandonados, substituí o insensível.

Fui até um criadouro de calopsitas e periquitos australianos. Centenas deles, bem cuidados e criados. Decidi levar um casal e pude até escolher. Batizei o macho esverdeado de Frederick Skinner (ou só Skinner para os íntimos) e a fêmea azul decidi que pesquisaria o nome da esposa de Skinner quando chegasse em casa.

Tudo certo com o casal, descobri que a esposa de Skinner chamava-se Yvonne Blue Skinner, o que casou bem com a cor azul dela. Em breve posto uma foto de Skinner e Yvonne, que ainda estão se adaptando a nova casa.

Hoje pela manhã, a Glaucia foi arrumar a casa e achou o Bico de Lacre 36 horas depois do sumiço, morto debaixo de um móvel. Fiquei chateado, podia tê-lo mantido na gaiola para alimentá-lo, mas isso não garantiria a sua sobrevivência. A Sara ficou chateada com a morte daquele que ela salvou, mas vem dormir aqui hoje para conhecer o Skinner e a Yvonne. Faremos o enterro do Bico de Lacre, que sequer teve tempo de ser batizado.








08/02/2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

E o sol se põe...



Estrada vicinal São José do Rio Pardo - Mococa, 03/02/2010, 19:56

Perspectivas

Na mesma medida em que algumas perspectivas vão por terra, outras novas parecem cair do céu. A perspectiva só pode ser vista se considerarmos que a todo momento estamos diante de escolhas, e que cada uma delas implica na renúncia de algo. Até para a seleção natural, proposta de Charles Darwin para compreensão da evolução, há escolha de uma característica importante para a sobrevivência da espécie em detrimento de outra. Essa escolha tem implicações. Para ter boca, ganhamos o queixo. Para usar a perna para locomoção, ganhamos articulações. Para pegar objetos, ganhamos um polegar que se opõe aos outros dedos.

A perspectiva que cai por terra nada mais é do que uma opção de escolha que deixa de estar disponível. A perspectiva que se abre passa a ser então uma nova opção de escolha ou os novos pesos das escolhas que permaneceram. Olhando nua e cruamente não haveria possibilidade de lamentação, já que minimamente existem perspectivas remanescentes ao invés de novas. O tempo gasto na lamentação seria perdido.

Talvez a melhor saída seria substituir onde o tempo é gasto. A lamentação pode ser substituída no planejamento, em que se pergunta onde quer estar a curto, médio e longo prazo. Daí certamente surgirá a tal. Também pode ser trocada por novas maneiras de enxergar a situação presente, acrescentando novos pontos de vista e, conseqüentemente, novas possibilidades de manejo da situação.

Não se deixe levar pelas perspectivas que vão por terra abaixo. Olhe para cima e verá as novas perspectivas acenando cada vez mais próximas.

03/02/2010

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O que eu espero da psicoterapia?

Espero que ela me ajude a organizar o que estou, sob a forma de autoconhecimento.

Espero que ela não me deixe passar por situações importantes sem parar pra olhá-las.

Espero que me mostre mais uma perspectiva naquilo que eu acabei de relatar, que nada mais é que um único ponto de vista.

Espero que exercite minha competência em mudar as estratégias, sobretudo aquelas que não têm tido o resultado esperado.

Espero que a minha relação com o terapeuta seja natural, mas não como qualquer outra.

Que permita a minha expressão sem me preocupar com a reação do ouvinte.

Que possa me ajudar a entender os caminhos percorridos em minha história de vida,

E que esteja presente comigo construindo o futuro.

Porque quem faz terapia, acredita na capacidade de mudança.

E descobre que tem coisas que só se aprende quando se está em terapia.









29/01/2010

O Lugar do Terapeuta

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

À Carpinejar

Ela gosta das verdades do amor

Porque encontra nelas o que é comum nos relacionamentos.

Descobre que nos é permitido apenas “felicidade à vista”, vivida no ato.

Que o amor precisa mais de exalação do que de inspiração.

Então ela dá sentido ao que vive: “a paixão é o medo de se perder; o amor é o medo de perdê-lo”.

Percebe então que as palavras não ditas a deixam nervosa.

E se acalma com as doses de verdade em letras e espaços.

Desvenda que “o amor é não pedir segredo e ser todo guardado”.

É-lhe dito que “o pessimista no amor não é o que pensa que a relação pode acabar, e sim aquele que pensa que a relação nunca existiu”.

Revelado que “amor é quando a gente conta o que está acontecendo para todo mundo e o segredo nunca se esgota”.

E que “o verdadeiro amor platônico começa depois da transa”.

O que a leva a concluir que “costumamos chamar de amor o que a gente já conhece, mas que ele é o que não sabemos”.

Porém, e se ela vier a acreditar que não pode vivê-lo?

É porque não aceita que o amor que ele pode lhe dar não é o que ela espera.

Mas, enfim, ela suspira aliviada ao ler:

“No amor, em algum momento, você terá que ser ingênuo e acreditar. Terá que largar uma vida, refazer sua vida. Terá que abandonar a filosofia pessimista, a inteligência solteira do botequim e se declarar apaixonado. Terá que ser incoerente, contradizer fundamentos inegociáveis. Terá que rasgar a certidão negativa, a proteção bancária, os manifestos de aversão ao casamento e filhos”.

E a pergunta que não quer calar:

Esta ela à Carpinejar?

-oOo-

Entre aspas aforismos de autoria de Fabrício Carpinejar extraídos de seu Blog e Twitter [carpinejar.blogspot.com][twitter.com/CARPINEJAR].






21.01.2010


domingo, 17 de janeiro de 2010

Domingo-Feira

Domingo definitivamente é dia da feira. Qualquer cidade que se preze tem feira aos domingos. E resta alguma dúvida de que a feira é um lugar excelente para observar comportamentos?

A feira é descendente do escambo, a famosa troca de mercadorias que foi forma dominante de comércio nalgum lugar de nossa história. Se você quer realmente conhecer uma cidade, conheça a sua feira, ela dará a ficha completa: alimentos típicos, formas de preparo, pessoas e hábitos, poder aquisitivo e distribuição de renda, oportunidade de conversar e interagir.

O comum entre todas é que começam cedo, antes do sol raiar, mas os melhores preços são os do fim da feira, o que ocorre geralmente pouco depois do meio dia e é conhecido no Brasil como hora da xepa. No sul é chamado de guimba.

A feira é como o samba, tem o dom de agregar pessoas de todas as classes sociais. As crianças contam moedas, os adultos choram o desconto. Quem resiste ao produto trazido direto do produtor, recém colhido e fresco?

Costumava freqüentar a feira da Rua João Guimarães Rosa, travessa da Consolação e da Augusta, a um quarteirão de minha casa em São Paulo. Aproveitava o Minhocão interditado para pedestres e ciclistas pra dar uma volta e ia à feira. O bacalhau fresco era uma das opções que levava pro almoço. Há uma semelhança entre o trânsito das ruas e das feiras em São Paulo: a concorrência entre carrinhos é grande, e a pressa é companheira até na hora da feira. Os feirantes gritam para atrair os fregueses, alguns até se posicionam à frente da barraca oferecendo degustação seguida de um “não vai levar mesmo?”.

Hoje vou à da Rua Pernambuco, em Mococa. Também muito freqüentada, tem produtores que vendem seus cultivos apenas aos domingos. Não se houve gritos dos feirantes, apenas o burburinho das vendas e conversas. A comida típica é uma das partes mais interessantes de qualquer feira. Hoje assisti a uma senhora montando as pamonhas com queijo e cozinhando na hora e fiquei até agradecido em ficar na fila, pois vi a feitura antes de trazê-la pra casa. O pastel é um clássico da feira, geralmente cada um tem a sua barraca preferida. É impossível sair com poucas sacolas, mesmo com pouco dinheiro.

Engana-se quem pensa que apenas comida é vendida na feira. Quem não se importa com a pirataria volta pra casa cheio dos filmes inéditos, roupas, tênis e sapatos. Pode-se esolher mudas diversas, galinhas vivas, apetrechos de cozinha, brinquedos e até pen drive e MP3 player.

Indico que procure a mais próxima e freqüente aos domingos. Dá até pra paquerar na feira!

Uma dica: percorra todas as barracas até última e faça as comprar na volta, assim não corre o risco de achar mais barato ou de melhor qualidade depois que já comprou.





17.01.2010