![]() |
| Arte de Weberson Santiago |
Fui dar uma aula de pós-graduação em São Paulo e descobri que
não sei mais ser sozinho. Saí numa sexta-feira de manhã rumo à capital e, à
medida que eu me distanciava do meu lar, um sentimento de ausência me ocupou o
peito.
Já na lanchonete do posto que eu sempre paro pra tomar um
café, lembrei que a Anelise adora o leite com chocolate que fazem por lá.
Continuando na estrada, por vezes minha mão procurava a perna macia da Natália
para descansar da aspereza do volante, mas encontrava o vazio.
Para consolar o sentimento, marquei com os amigos que não via
há tempos alguns encontros antes e depois da aula, que aconteceu na noite
daquele dia. No dia seguinte, depois de um bom banho, fui pra Galeria dos Pães.
É uma padaria gigante onde os sanduíches recebem o nome de grandes pintores
como Van Gogh, Da Vinci, Rodin, Salvador Dali e por aí vai.
Foi inevitável pensar que a Natália adora comer o Portinari,
pão francês com queijo branco, tomate e orégano, mas não estava ali para degustar
seu preferido. Foi então que percebi que eu não sei mais ser sozinho, funciono
somente com ou outros dois terços, a Natália e Anelise. A saudade ganha cara de
preocupação. A carência só pode ser disfarçada por meio de alguma compensação. Ao
terminar o café da manhã, parti pro paraíso de pães e doces pra escolher um
quitute para trazer para as duas. Era o que eu podia fazer.
O Mateus, 19 anos, havia conhecido a Carol, 17, há dois meses.
Ficaram naquele passo a passo de aproximação, em que se buscam coincidências de
gostos e datas, com direito a frases de dupla interpretação nas suas páginas do
Facebook. Depois passaram a trocar mensagens diárias por SMS, até que marcaram
um encontro. E depois dos primeiros beijos estavam os dois apaixonados. Os pais
de Mateus estranharam a motivação triplicada, enquanto a mãe da Carol estava notando
ela avoada.
Acontece que o Mateus tinha marcado uma viagem pelas cidades
históricas de Minas Gerais com seus amigos, o que interrompeu o curso do seu
envolvimento amoroso. O amor sempre entra na agenda sem planejamento, ao
contrário das viagens com os amigos.
Enquanto descobria as igrejas de Ouro Preto, passeava pela
praça de Tiradentes, apreciava os artesanatos de Mariana e conhecia os doze
profetas de Aleijadinho em Congonhas do Campo, os seus pensamentos vagavam em
busca da Carol.
Em cada lugar que passou, comprou um presente para a amada.
Miniatura dos profetas em pedra sabão, tapete de tear manual pra ela colocar no
quarto, pedras retiradas das grutas e outras coisas até encher a sua mochila.
Quando ele voltou, a Carol ficou surpresa com a quantidade de mimos que
recebeu, mas ouviu feliz a história de cada coisa que tirava da sacola.
Quando nós não podemos levar quem amamos até um lugar,
roubamos um pedaço do lugar e levamos a quem amamos. O presente de viagem é uma
evidência que mostra a nossa dependência. E entre todos os tipos de dependência
que existem, prefiro a que surge do amor. Como toda dependência tem um pouco de
loucura, justificar racionalmente o incômodo de estar sozinho soa como
fragilidade. Uma loucura chamada insuficiência, que se torna saudável quando
começa em uma falta percebida e termina em um sorriso diante das lembranças
trazidas.
| Demonstre a saudade quando ainda conta com a presença. Diante da
ausência, é preciso ser professor da saudade e ensiná-la a se contentar
apenas com a lembrança.
|


Nenhum comentário:
Postar um comentário