sábado, 18 de abril de 2015

Os Avós para a Criança

Arte de Weberson Santiago



Todos os finais de semana vou ao clube. Anelise me acompanha. Enquanto eu faço minha natação, ela brinca pelos espaços do clube. Para que ela tenha diversão, costumo levar algum brinquedo: os patins, um quebra-cabeça ou papeis e lápis de cor. Alguma coisa para que ela se ocupe se ficar entediada com o parquinho ou não encontrar uma amiga pra brincar.
Percebi que a Anelise passava mais tempo naqueles aparelhos chamados de “academia da terceira idade” do que no parquinho infantil. Enquanto íamos embora, ela me contava:
— Fiz uma nova amiga hoje!
— E onde ela estuda?
— Não estuda mais, ela é uma moça de cabelo branco que estava sentada lá.
No caminho para o carro, a amiga mais velha me abordava:
— Parabéns pela sua filha. Como ela é inteligente e educada!
E não foi uma, duas ou três vezes. Isto acontece com frequência. É ela mirar uma senhora pelo clube que ela dá um jeito de se aproximar e ganhar intimidade.
Ela acha a companhia de crianças mais novas sem graça. Prefere as amigas da sua idade ou mais velhas, mas gosta mesmo de conversar com uma senhora a brincar com uma criança.
Eu acredito que é a calma e a paciência que atraem a Ane. Quando ela arruma uma amiga de cabelos brancos, ela conversa, desenha junto e algumas até contam algumas histórias de sua vida para ela.
Anelise me fez lembrar de minha infância. Sempre gostei de estar perto dos mais velhos. Por isso, sempre gostei de frequentar a casa dos meus avós.
Mesmo na adolescência costumava intercalar os programas: um dia ia no clube com os amigos a tarde, no outro passava a tarde na casa dos meus avós. Por diversas vezes recusei o convite dos amigos para ir ao cinema ou comer um lanche para ficar na casa dos meus avós para jantar e assistir ao jornal.
Era uma fuga da agitação da casa dos meus pais – éramos três irmãos homens e uma caçulinha – ou de quando me cansava da minha turma de amigos. Um refúgio onde me sentia em paz e seguro.
Os avós por algumas horas ou os avós de verdade oferecem a uma criança o que os pais não tem condições de oferecer por conta do seu momento de vida. Geralmente estão numa fase em que precisam dispor de muita energia para obter resultado em sua carreira. Sob a justificativa de poder oferecer boas condições financeiras e de conforto para seus filhos, concentram esforços no trabalho, o que diminui a disposição para se jogar nas brincadeiras de uma criança. Falta tempo para ficar ao lado da criança e deixar a imaginação fluir, e é justamente isso que ela encontra nos velhos.
Faz toda a diferença para uma criança poder aproveitar uma avó ou um avô disposto, alguém com tempo e paciência para brincar e conversar.
Avós protegem e cuidam enquanto vamos crescendo. Descansamos de nossa família, da nossa escola enquanto estamos na companhia dos mais velhos.
Estar ao lado de um velho é aprender continuamente, ainda que reine o silêncio.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Na falta dos pais dos seus pais, arrume um avô e uma avó emprestados.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 18/04/2015, Edição Nº 1351.

sábado, 4 de abril de 2015

Os Defeitos de Uma Casa

Arte de Weberson Santiago



A Natália e eu compartilhávamos o sonho da casa própria. Moramos em duas casas de aluguel, mas queríamos mesmo uma casa para financiar que atendesse as nossas necessidades e que fosse bonita. Começamos a listar as características necessárias para isso (ao mesmo tempo em que começamos a sonhar com ela): uma garagem para dois carros lado a lado (nas duas casas alugadas um carro ficava atrás do outro) para evitar ter de tirar o carro pro outro sair, que tivesse pelo menos dois quartos (com a possibilidade de vir a ter um terceiro), com uma cozinha espaçosa (porque gostamos de ficar cozinhando no tempo livre), etc.
Fomos juntando as economias para a entrada até que apareceu uma casa em construção em um dos bairros que imaginávamos morar. Entre o início da negociação com o proprietário e a assinatura de contrato, passando pela finalização da parte interna da casa até o financiamento se concretizar foram exatamente 6 meses e 17 dias. Tivemos de conciliar todas nossas atividades profissionais com a compra de materiais, gerenciamento da obra, inúmeras idas ao banco e ao cartório, e lidar com alguns contratempos.
Acredito que a gente aprende a lidar com imprevistos. Quando fazemos uma mesma coisa por um longo tempo, vamos ficando escolados no enfrentamento de problemas e criando uma lista de possíveis soluções. Como era nossa primeira obra, não estávamos preparados para lidar com aquilo que não saía conforme o combinado ou com os atrasos nos prazos estabelecidos.
Muitos finais de tarde foram de irritação ao descobrir um resultado diferente do que deveria ser. Consertar é mais difícil do que fazer corretamente, já que vai mais tempo e mais material. Foi um processo muito desgastante. E não foi exclusividade de um único profissional. A cada novo serviço, algum ponto sempre veio a dar problema. Tive até de lidar com um ajudante bêbado, que se recusava a trabalhar.
Quem se envolveu em obra ou reforma já sabe bem do que eu estou falando. Se você ainda não se envolveu, não quero que desista do seu sonho. Se prepare para enfrentar os imprevistos e respire fundo buscando paciência. No meio de todo processo que vivemos, no auge da turbulência com os problemas da obra e da documentação uma amiga nossa disse uma coisa que me ajudou muito e que eu gostaria de dividir com você.
Ela repetiu um conselho que recebera de sua mãe: “quando se muda para uma casa nova é preciso se acostumar com os defeitos que a casa tem”. Foi quando ela disse isso que eu percebi que foi a expectativa de uma casa perfeita que nos deixou frustrados com os problemas que surgiram no caminho.
Quando dependemos do trabalho dos outros não temos como garantir a perfeição. Lidamos com seres-humanos e suas imperfeições. É preciso muita habilidade para lidar com as pessoas e o resultado do seu trabalho. Nós mesmos não conseguimos ser excelentes naquilo que fazemos o tempo todo.
Os defeitos de uma casa são suas cicatrizes e mostram a imperfeição dos que moram nela ou trabalharam na sua construção.
Sonhar foi muito importante para vir a ter a nossa casa, mas entre a ideia e a concretização foram muitas doses de uma dura realidade.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Tudo passa. E é sinal que passou quando a gente se lembra e é capaz de dar risada.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 04/04/2015, Edição Nº 1349.

sábado, 21 de março de 2015

De Vendedora à Psicóloga

Arte de Weberson Santiago


Ela trabalha há doze anos nas Lojas Pernambucanas. Começou aos dezessete anos vendendo celulares, até ser contratada para trabalhar vendendo eletrodomésticos. Nestes doze anos, trabalhou de pé de segunda a sábado e por muitos domingos. Quando trabalhava aos domingos, recebia uma folga as terças, quartas ou quintas. Passou doze anos entendendo o que é fim de semana inteiro de folga apenas durante o mês de férias de cada ano.
Na venda, sempre teve destaque no desempenho. Encarava as metas e buscava superá-las. Conseguiu a proeza de bater as suas metas de venda individuais em todos os meses trabalhados nestes doze anos.  Quando atingia a sua cota, ajudava os colegas a atingir as suas, passando as vendas seguintes para eles. Fidelizou uma enorme quantidade de pessoas na loja e muitos deles passaram a querer comprar apenas com ela, mas nem por isso ficou imune a aguentar clientes grosseiros e insatisfeitos com os resultados de suas compras.
Acontece que há cinco anos atrás ela se matriculou na faculdade. Era mãe de uma criança de dois anos quando começou a fazer Psicologia. Durante os últimos cinco anos conciliou a pesada jornada de trabalho com um curso noturno repleto de trabalhos e provas. Arrumou tempo para acompanhar da melhor forma possível o crescimento da filha, participando de todas as reuniões da escola. E passou pelos cinco anos sem pegar nenhuma dependência nas matérias, sem deixar de entregar nenhum trabalho e sem deixar de fazer nenhuma prova, mesmo com a possibilidade de fazer provas substitutivas quando não tinha folga para estudar antes da prova. Quando isso acontecia, estudava no horário de almoço. Quando a filha chegou ao primeiro ano e também passou a fazer provas, estudava com ela quando chegava da faculdade, tarde da noite, ou lhe tomava as matérias da prova do dia seguinte com a filha sentada na tampa da privada enquanto tomava seu banho antes de ir pra faculdade.
Mesmo com todo o excesso de demandas ela deu conta. Deu conta de vender. Deu conta de acompanhar a filha. Deu conta de cuidar da casa. Deu conta de estar presente na vida do marido.
Agora ela é Psicóloga. Ser vendedora de eletrodomésticos não faz mais sentido em sua vida. Vendedora de eletrodomésticos acompanha a vida das pessoas, faz a lista de casamento e também fica sabendo quando a pessoa se separa e precisa repor o que ficou com o marido ou com a esposa na separação. Vendedora de eletrodomésticos entra na intimidade das pessoas, ajuda a decidir o que ela vai levar para dentro de casa e o quanto isso vai representar dentro do orçamento do cliente.
Mas vendedor de eletrodomésticos não é Psicólogo e ela quer trabalhar com a Psicologia. Ela quer tirar o produto do meio da sua relação com seus clientes. Ela quer a calma de ouvir o cliente sentado em poltronas confortáveis, escutando com toda a atenção um único cliente, ajudando a pensar nos seus sentimentos e a tomar decisões que não sejam as decisões de uma compra. Ela quer trabalhar amenizando sofrimentos, encorajando iniciativas, acompanhando processos de mudança e de transformação.
Chegou a hora de encaixotar as calças pretas, as camisetas azuis. Chegou a hora de parar de comprar tênis pretos a cada seis meses para aposentar o velho surrado. Chegou a hora de sair da rotina pesada, mas confortavelmente conhecida e previsível. Chegou a hora de deixar o trabalho que lhe permitiu conquistar tudo o que ela já conquistou até agora, inclusive o diploma de Psicóloga. Chegou a hora de pendurar o uniforme. Chegou a hora de deixar de ser a Natália da Pernambucanas.
É preciso aguentar passar pela situação de ficar sem um emprego para que surjam novas oportunidade de trabalho na área da Psicologia. É preciso encontrar uma instituição que precise de uma Psicóloga. É preciso montar um consultório, comprar uma agenda vazia e construir uma nova carteira de clientes. Está na hora de recomeçar, de começar do zero. Está na hora de fazer uma coisa que ela nunca fez, mas que está se preparando há cinco anos para fazer e que é o que ela um dia sonhou que estaria fazendo.
Ela agradece às Casas Pernambucanas por ter aquecido o seu lar durante esses doze anos, mas ela escolheu deixar a segurança das flanelas, lãs e cobertores sempre por perto.
Da última vez, quando o frio bateu à porta, não precisou que ele batesse duas vezes. Ela deixou o frio entrar.
UM CAFÉ E A CONTA!
| É por isso, e por outras coisas mais, que eu me orgulho dela e da sua trajetória.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 21/03/2015, Edição Nº 1347.

sábado, 7 de março de 2015

Coceira de Comprar

Arte de Weberson Santiago


— Amor, olha o que eu trouxe? – abrindo a sacola.
— Outro pote, Dulce?
— Mas não é lindo, amor?
— Dulce, nossos armários estão cheios de potes para guardar mantimentos!
— É que eles estavam em promoção: paguei R$ 29,90 pelos três potes. E eles têm tampa que fecha sob pressão. Assim nossos alimentos não irão estragar como estragam quando ficam dentro do saquinho com um prendedor na ponta.
— Olha aqui Dulce, todos os alimentos que temos na dispensa já estão dentro de potes como estes!
— É que eles combinavam com o restante nossa cozinha. Você reparou que eles têm galinhas? Combinam com a lixeira e com o porta-detergente, Marcos Roberto! Ah, e com o pano de prato que minha mãe me deu, olha!
— Quer dizer que tudo o que você encontrar pela frente e que tiver uma galinha você irá trazer para casa? Você já deu uma olhada aqui dentro, não tem mais espaço em nossos armários pra mais nenhum objeto. Desse jeito vamos ter que guardar coisas de cozinha no nosso guarda-roupa!
— Você não me entende, Marcos Roberto! – diz ela já em prantos – Eu me mato de trabalhar, cuido dessa casa de noite e aos finais de semana, me desdobro em dez para dar conta das coisas do Robertinho e não posso nem comprar um pote novo que você acaba comigo?
— Mas toda semana você vem com alguma coisa nova. Nunca tá bom, nunca tem fim essa sua vontade de comprar?
— Você não me entende! – chorando mais ainda – Sempre me critica! Alguma vez eu não dei conta de pagar as coisas que eu compro? Se eu trabalho, eu posso gastar com o que eu bem entender!
— Ah, Dulce, vamos parar de discutir, vai! Não adianta nada. Toda vez é isso, eu implico e você continua comprando mesmo...
— É que quando eu passo na frente da loja e vejo uma coisa legal, me dá uma coceirinha de comprar... Aí eu penso: eu mereço me dar de presente!
— Eu não acho que você está certa de ficar compensando as dificuldades da sua vida comprando, mas como você disse, faz o que bem entender com o seu dinheiro. Eu não quero ficar brigando, afinal hoje é sexta-feira e está começando o nosso final de semana. Vou arrumar minhas coisas que amanhã cedo vou pra pescaria com os meus amigos.
Quinze minutos depois, com a parafernália de pesca espalhada na mesa da cozinha.
— Marcos Roberto, que molinete dourado é este aí? E essas iscas imitando peixes? Eu não conhecia esses seus apetrechos...
— Eu comprei agora saindo do trabalho. Estava precisando. Estas iscas são pra pescar durante a noite, brilham no escuro. Apaga a luz pra você ver.
— Mas você tem três caixas cheias de coisas de pescar. Não tem mais onde colocar essas suas coisas de pescaria naquele quartinho do fundo...
UM CAFÉ E A CONTA!
| O que você não deixa de comprar mesmo quando não tem mais necessidade?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 07/03/2015, Edição Nº 1345.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Vida de Jardineiro

Arte de Weberson Santiago


Admiro a pessoa que foi capaz de criar e é capaz de cultivar um belo jardim.
A primeira casa que eu aluguei na vida tinha um canteiro que percorria a fachada da casa e terminava na rampa da garagem. Naquele retângulo havia uma árvore conhecida como murta. Bem no ponto onde o tronco se dividia em galhos havia uma farta ramagem de orquídeas. Não conheci o casal de velhos que morou ali, mas sentia uma profunda admiração por quem plantou aquelas orquídeas. Ela havia se adaptado à sombra farta da murta e ao calor que fazia ali durante as tardes de verão. A senhora – imagino eu que tenha sido ela – teve a sensibilidade de colocá-la ali, onde ela cresceu e tomou conta de todo o entorno da árvore. O privilegiado fui eu e quem passava do lado de fora da grade durante o mês de setembro, quando as flores brancas de miolo arroxeado surgiam.
Admiro os cultivadores de plantas da mesma forma que eu admiro pessoas que fizeram uma bela carreira. Que saíram do nada e chegaram muito longe: que plantaram a semente e não deixaram de regar por um dia sequer.
Admiro o jardineiro tanto quanto aquele que sempre trabalhou com a mesma coisa e no mesmo lugar, mas que nunca deixou o sorriso de lado. Este eu admiro por não se importar em ser apenas uma planta em meio a um jardim botânico imenso.
Admiro os cultivadores de plantas como admiro aqueles que construíram uma bela família. Unida nos bons e nos maus momentos, nas estações abundantes e nas escassas. Singular em sua formação, como uma árvore que não se importa que o fruto caia longe do pé. Espontânea em seu jeito de ser como um punhado de árvores cujos galhos crescem desordenadamente.
Admiro os escultores de jardim como admiro os autores de um belo texto. Escritores de seja-qual-for-o-gênero que se dedicam à arte de fazer florescer a consciência com as raízes fincadas na língua. Por se debruçar sobre uma folha em branco, produto de uma árvore morta, e transformar suas ideias em palavras que incentivam alguém a plantar uma muda.
Admiro os jardineiros por serem frios na hora de fazer uma poda drástica e, ao mesmo tempo, sensíveis quando respeitam a vontade da planta e a trocam de lugar para que ela viva melhor.
Admiro os hortelões por não esmorecerem diante da dependência da rega. Por não usar os trancos da vida como desculpas para deixar que a planta morra seca. Por manter o ritual de benzer com água independentemente do seu próprio estado emocional.
Admiro os jardineiros porque são eles que dão o “minha casa, minha vida” aos insetos, pássaros e outros animais. Porque são eles que dão o “bolsa-família” para as abelhas e formigas.
Admiro o plantador porque ele não hesita em presentear um interessado com uma muda. E isto faz dele um multiplicador de vidas.
Admiro o cultivador de plantas porque ele aprende a lidar com o nascimento e com a morte e apreende, na relação com a planta, que a vida não tem fim.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Admiro o jardineiro porque ele escolhe sujar a sua mão com a terra ao invés de sujá-la com o sangue ou com o dinheiro sujo.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 21/02/2015, Edição Nº 1345.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Eu Falo ou Me Calo?

Arte de Weberson Santiago



Tenho uma dificuldade muito grande para corrigir as pessoas. Evito apontar o que o outro fez ou está fazendo de errado porque tenho medo de deixá-lo chateado.
É um excesso de empatia. Me coloco exageradamente no lugar do outro. Ao Imaginar uma pontinha de tristeza, de desgosto ou de aborrecimento após minha correção, desisto de falar.
Na arte da comunicação, uma linha invisível divide os direitos e deverem dos seres humanos. Não basta que eu respeite o direito do outro se ele não cumpre o seu dever. O contrário é verdadeiro. Não adianta que eu cumpra o meu dever se o outro não respeita os meus direitos.
Ainda que existam diversas maneiras de dizer a mesma coisa, ainda que a gente aprenda com os erros que por ventura venhamos a cometer, o fato é que eu não me permito experimentar. Com medo de ser agressivo no relacionamento interpessoal, acabo caindo sempre na passividade.
Mesmo que já tenha explicado uma, duas ou três vezes tenho dificuldade de exigir que a pessoa mude de atitude. Mesmo que o cargo que eu ocupe me permita ser incisivo, não falo. Mesmo que a minha história de relacionamento com a pessoa me dê o direito de ser contundente, me calo. Na hora de exercer a autoridade, eu me esquivo.
Me sinto um fracassado ao deixar passar uma oportunidade de ser assertivo, mas me acalmo imaginando que evitei ser desagradável ou que deixei de comprar uma briga. Como se eu pudesse, com isso, por fim a contrariedade no mundo e na sociedade. Como se eu pudesse com isso extinguir o descontentamento.
Prefiro sair descontente e contrariado do que correr o risco de deixar alguém assim.
Aliás, comigo mesmo a coisa muda. Sou o crítico dos críticos quando avalio a minha própria conduta. Sempre penso que uma cara de aborrecimento de alguém que convive comigo se deve ao que eu falei ou ao que eu fiz. Fico buscando relembrar o que eu disse e supondo qual frase desapontou. Recordo uma palavra que eu disse que pode ter sido mal interpretada.
Quando analiso meu próprio comportamento, acabo sendo duro demais. Me culpo sem ter culpa. Me dou bronca sem ter feito algo errado. Aponto o dedo na minha própria cara. Primeiro me recrimino e depois coleto evidências de que não tenho responsabilidade no problema do outro.
Uma vez relatava esta minha preocupação em desapontar as pessoas e minha tendência a me culpar pela insatisfação alheia quando ouvi de um amigo:
— Mas como você se acha importante! Como se você pudesse ter o poder de ser a causa de tantos sentimentos importantes nos outros!
Emudeci. Percebi que ele tinha razão. Ouvir isso me deu um grande alívio. Uma verdade que me fez perceber que era pretensão demais me responsabilizar por tantas coisas que não tenho controle. E como ele me fez perceber isso? Me dizendo o que ele pensou, na lata, sem rodeios.
Dizer o que se pensa nem sempre é destrutivo. E o silêncio pode impedir o outro de construir algo melhor.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você passa o dia poupando os outros e sendo cruel consigo mesmo?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 07/02/2015, Edição Nº 1343.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Camarotização

Arte de Weberson Santiago


Camarotização é um neologismo que define a tendência a manter segregados os diferentes estratos sociais. Se a palavra camarotização é nova, o fenômeno social de divisão de classes está presente em toda a história da humanidade.
Por volta do século V d.C., com a queda do Império Romano houve uma série de migrações na região Orientas e Ocidental da Europa. Os povos migrantes ficaram conhecidos como bárbaros. Bárbaro, no grego antigo, significava estrangeiro. Para os romanos e, posteriormente, para outros povos, eram os que pertenciam a outra raça ou civilização e falavam outra língua que não a deles. Os bárbaros eram considerados invasores das cidades, que vinham competir com o povo, interferir na cultura, trazendo concepções políticas diferentes. Os povos bárbaros foram, portanto, invasores dos camarotes do império romano. Este movimento de invasão fez com que nobres deixassem as cidades e fundassem os feudos em áreas rurais. Os feudos também eram uma organização camarotizada e, principalmente, determinista. Não era possível nascer entre os servos e ganhar uma grana para frequentar o camarote mais adiante. Quando os servos atravessavam a ponte para o manso senhorial, tinham que pagar pedágio, exceto quando para lá se dirigiam a fim de cuidar das terras do Senhor Feudal. Seria o equivalente a seguinte condição na atualidade: para frequentar o camarote é preciso ter dinheiro suficiente para comprar a pulseirinha, exceto se você for um dos que trabalham no camarote.
No português contemporâneo, o bárbaro significa rude e grosseiro. Podemos considerar que toda pessoa que pertence ao lugar onde ocupam a maioria das pessoas – o povo – e consegue ter acesso a um lugar privilegiado – o camarote – passa a ser vista como um invasor – alguém que representa outro grupo, com costumes diferentes dos frequentadores do camarote – e vem a sofrer algum tipo de rejeição – mínima ou máxima – dentro do camarote. Assim como os povos invasores do Império Romano incomodaram as classes mais altas, alguém que se eleva socialmente na atualidade e tem acesso a um camarote incomoda os indivíduos já pertencentes ao grupo seleto. Desta questão podemos concluir que: [1] um camarote só tem valor se existe uma área externa onde estão os que têm menos privilégios; [2] não pode existir lugar para todos no camarote porque se todos estão no camarote, o lugar deixa de representar o acesso a regalias diferenciadas e [3] quem está fora quer entrar e quem está dentro não quer que todos entrem.
Este contexto Europeu desembarcou no Brasil com os colonizadores portugueses. A diferenciação de classes esteve presente na dominação dos indígenas, no regime da escravidão e na história da Igreja em nosso país. As igrejas coloniais seculares ainda preservam em sua estrutura física áreas isoladas nas laterais do altar onde se colocavam os nobres nas celebrações religiosas. Sim, há muitos séculos atrás na Igreja já existiam os camarotes. Os cinemas e teatros também tinham camarotes.
Nossa sociedade democrática e capitalista está calcada na divisão de classes, ou seja, precisa de alguma forma de camarotização para continuar funcionando. Determinada pelas classes em constante movimento, a ascensão financeira permite acesso a determinados camarotes (restaurantes, viagens, serviços), que são inacessíveis à classe inferior. Entretanto, em relação a uma classe acima, há algum tipo de cerceamento no acesso a camarotes mais caros. A separação física de classes sociais vem tornando novas formas na atualidade, predominando um caráter individualista na tentativa de obtenção de acesso aos camarotes. Cada um por si e a sorte está lançada para todos.
Na teoria, ninguém é superior e ninguém é inferior em relação aos outros seres-humanos. Na prática, todo mundo faz força para se elevar, assim como também se esforça eventualmente para diminuir outrem. Difícil é reverter as consequências de tantos séculos de camarotização e imaginar uma descamarotização se tornando realidade, sobretudo quando não existe iniciativa grupal nesta direção.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você é o selfie que você tira no camarote que você frequenta.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 24/01/2015, Edição Nº 1341.