sábado, 21 de fevereiro de 2015

Vida de Jardineiro

Arte de Weberson Santiago


Admiro a pessoa que foi capaz de criar e é capaz de cultivar um belo jardim.
A primeira casa que eu aluguei na vida tinha um canteiro que percorria a fachada da casa e terminava na rampa da garagem. Naquele retângulo havia uma árvore conhecida como murta. Bem no ponto onde o tronco se dividia em galhos havia uma farta ramagem de orquídeas. Não conheci o casal de velhos que morou ali, mas sentia uma profunda admiração por quem plantou aquelas orquídeas. Ela havia se adaptado à sombra farta da murta e ao calor que fazia ali durante as tardes de verão. A senhora – imagino eu que tenha sido ela – teve a sensibilidade de colocá-la ali, onde ela cresceu e tomou conta de todo o entorno da árvore. O privilegiado fui eu e quem passava do lado de fora da grade durante o mês de setembro, quando as flores brancas de miolo arroxeado surgiam.
Admiro os cultivadores de plantas da mesma forma que eu admiro pessoas que fizeram uma bela carreira. Que saíram do nada e chegaram muito longe: que plantaram a semente e não deixaram de regar por um dia sequer.
Admiro o jardineiro tanto quanto aquele que sempre trabalhou com a mesma coisa e no mesmo lugar, mas que nunca deixou o sorriso de lado. Este eu admiro por não se importar em ser apenas uma planta em meio a um jardim botânico imenso.
Admiro os cultivadores de plantas como admiro aqueles que construíram uma bela família. Unida nos bons e nos maus momentos, nas estações abundantes e nas escassas. Singular em sua formação, como uma árvore que não se importa que o fruto caia longe do pé. Espontânea em seu jeito de ser como um punhado de árvores cujos galhos crescem desordenadamente.
Admiro os escultores de jardim como admiro os autores de um belo texto. Escritores de seja-qual-for-o-gênero que se dedicam à arte de fazer florescer a consciência com as raízes fincadas na língua. Por se debruçar sobre uma folha em branco, produto de uma árvore morta, e transformar suas ideias em palavras que incentivam alguém a plantar uma muda.
Admiro os jardineiros por serem frios na hora de fazer uma poda drástica e, ao mesmo tempo, sensíveis quando respeitam a vontade da planta e a trocam de lugar para que ela viva melhor.
Admiro os hortelões por não esmorecerem diante da dependência da rega. Por não usar os trancos da vida como desculpas para deixar que a planta morra seca. Por manter o ritual de benzer com água independentemente do seu próprio estado emocional.
Admiro os jardineiros porque são eles que dão o “minha casa, minha vida” aos insetos, pássaros e outros animais. Porque são eles que dão o “bolsa-família” para as abelhas e formigas.
Admiro o plantador porque ele não hesita em presentear um interessado com uma muda. E isto faz dele um multiplicador de vidas.
Admiro o cultivador de plantas porque ele aprende a lidar com o nascimento e com a morte e apreende, na relação com a planta, que a vida não tem fim.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Admiro o jardineiro porque ele escolhe sujar a sua mão com a terra ao invés de sujá-la com o sangue ou com o dinheiro sujo.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 21/02/2015, Edição Nº 1345.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Eu Falo ou Me Calo?

Arte de Weberson Santiago



Tenho uma dificuldade muito grande para corrigir as pessoas. Evito apontar o que o outro fez ou está fazendo de errado porque tenho medo de deixá-lo chateado.
É um excesso de empatia. Me coloco exageradamente no lugar do outro. Ao Imaginar uma pontinha de tristeza, de desgosto ou de aborrecimento após minha correção, desisto de falar.
Na arte da comunicação, uma linha invisível divide os direitos e deverem dos seres humanos. Não basta que eu respeite o direito do outro se ele não cumpre o seu dever. O contrário é verdadeiro. Não adianta que eu cumpra o meu dever se o outro não respeita os meus direitos.
Ainda que existam diversas maneiras de dizer a mesma coisa, ainda que a gente aprenda com os erros que por ventura venhamos a cometer, o fato é que eu não me permito experimentar. Com medo de ser agressivo no relacionamento interpessoal, acabo caindo sempre na passividade.
Mesmo que já tenha explicado uma, duas ou três vezes tenho dificuldade de exigir que a pessoa mude de atitude. Mesmo que o cargo que eu ocupe me permita ser incisivo, não falo. Mesmo que a minha história de relacionamento com a pessoa me dê o direito de ser contundente, me calo. Na hora de exercer a autoridade, eu me esquivo.
Me sinto um fracassado ao deixar passar uma oportunidade de ser assertivo, mas me acalmo imaginando que evitei ser desagradável ou que deixei de comprar uma briga. Como se eu pudesse, com isso, por fim a contrariedade no mundo e na sociedade. Como se eu pudesse com isso extinguir o descontentamento.
Prefiro sair descontente e contrariado do que correr o risco de deixar alguém assim.
Aliás, comigo mesmo a coisa muda. Sou o crítico dos críticos quando avalio a minha própria conduta. Sempre penso que uma cara de aborrecimento de alguém que convive comigo se deve ao que eu falei ou ao que eu fiz. Fico buscando relembrar o que eu disse e supondo qual frase desapontou. Recordo uma palavra que eu disse que pode ter sido mal interpretada.
Quando analiso meu próprio comportamento, acabo sendo duro demais. Me culpo sem ter culpa. Me dou bronca sem ter feito algo errado. Aponto o dedo na minha própria cara. Primeiro me recrimino e depois coleto evidências de que não tenho responsabilidade no problema do outro.
Uma vez relatava esta minha preocupação em desapontar as pessoas e minha tendência a me culpar pela insatisfação alheia quando ouvi de um amigo:
— Mas como você se acha importante! Como se você pudesse ter o poder de ser a causa de tantos sentimentos importantes nos outros!
Emudeci. Percebi que ele tinha razão. Ouvir isso me deu um grande alívio. Uma verdade que me fez perceber que era pretensão demais me responsabilizar por tantas coisas que não tenho controle. E como ele me fez perceber isso? Me dizendo o que ele pensou, na lata, sem rodeios.
Dizer o que se pensa nem sempre é destrutivo. E o silêncio pode impedir o outro de construir algo melhor.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você passa o dia poupando os outros e sendo cruel consigo mesmo?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 07/02/2015, Edição Nº 1343.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Camarotização

Arte de Weberson Santiago


Camarotização é um neologismo que define a tendência a manter segregados os diferentes estratos sociais. Se a palavra camarotização é nova, o fenômeno social de divisão de classes está presente em toda a história da humanidade.
Por volta do século V d.C., com a queda do Império Romano houve uma série de migrações na região Orientas e Ocidental da Europa. Os povos migrantes ficaram conhecidos como bárbaros. Bárbaro, no grego antigo, significava estrangeiro. Para os romanos e, posteriormente, para outros povos, eram os que pertenciam a outra raça ou civilização e falavam outra língua que não a deles. Os bárbaros eram considerados invasores das cidades, que vinham competir com o povo, interferir na cultura, trazendo concepções políticas diferentes. Os povos bárbaros foram, portanto, invasores dos camarotes do império romano. Este movimento de invasão fez com que nobres deixassem as cidades e fundassem os feudos em áreas rurais. Os feudos também eram uma organização camarotizada e, principalmente, determinista. Não era possível nascer entre os servos e ganhar uma grana para frequentar o camarote mais adiante. Quando os servos atravessavam a ponte para o manso senhorial, tinham que pagar pedágio, exceto quando para lá se dirigiam a fim de cuidar das terras do Senhor Feudal. Seria o equivalente a seguinte condição na atualidade: para frequentar o camarote é preciso ter dinheiro suficiente para comprar a pulseirinha, exceto se você for um dos que trabalham no camarote.
No português contemporâneo, o bárbaro significa rude e grosseiro. Podemos considerar que toda pessoa que pertence ao lugar onde ocupam a maioria das pessoas – o povo – e consegue ter acesso a um lugar privilegiado – o camarote – passa a ser vista como um invasor – alguém que representa outro grupo, com costumes diferentes dos frequentadores do camarote – e vem a sofrer algum tipo de rejeição – mínima ou máxima – dentro do camarote. Assim como os povos invasores do Império Romano incomodaram as classes mais altas, alguém que se eleva socialmente na atualidade e tem acesso a um camarote incomoda os indivíduos já pertencentes ao grupo seleto. Desta questão podemos concluir que: [1] um camarote só tem valor se existe uma área externa onde estão os que têm menos privilégios; [2] não pode existir lugar para todos no camarote porque se todos estão no camarote, o lugar deixa de representar o acesso a regalias diferenciadas e [3] quem está fora quer entrar e quem está dentro não quer que todos entrem.
Este contexto Europeu desembarcou no Brasil com os colonizadores portugueses. A diferenciação de classes esteve presente na dominação dos indígenas, no regime da escravidão e na história da Igreja em nosso país. As igrejas coloniais seculares ainda preservam em sua estrutura física áreas isoladas nas laterais do altar onde se colocavam os nobres nas celebrações religiosas. Sim, há muitos séculos atrás na Igreja já existiam os camarotes. Os cinemas e teatros também tinham camarotes.
Nossa sociedade democrática e capitalista está calcada na divisão de classes, ou seja, precisa de alguma forma de camarotização para continuar funcionando. Determinada pelas classes em constante movimento, a ascensão financeira permite acesso a determinados camarotes (restaurantes, viagens, serviços), que são inacessíveis à classe inferior. Entretanto, em relação a uma classe acima, há algum tipo de cerceamento no acesso a camarotes mais caros. A separação física de classes sociais vem tornando novas formas na atualidade, predominando um caráter individualista na tentativa de obtenção de acesso aos camarotes. Cada um por si e a sorte está lançada para todos.
Na teoria, ninguém é superior e ninguém é inferior em relação aos outros seres-humanos. Na prática, todo mundo faz força para se elevar, assim como também se esforça eventualmente para diminuir outrem. Difícil é reverter as consequências de tantos séculos de camarotização e imaginar uma descamarotização se tornando realidade, sobretudo quando não existe iniciativa grupal nesta direção.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Você é o selfie que você tira no camarote que você frequenta.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 24/01/2015, Edição Nº 1341.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Eternamente Namorados

Arte de Weberson Santiago


Estava no primeiro ano da faculdade, aos 17 anos, quando peguei uma carona partindo de Mococa rumo a São Paulo com o meu tio-avô Roberto Braga e sua esposa, a tia Irai.
Depois de muita conversa, ative-me a leitura de textos passados pelos professores da faculdade no banco de trás. A tia Irai pegou no sono. Numa de minhas pausas para pensar no que o texto dizia, presenciei uma cena que me marcou.
Tio Roberto tocou a perna da tia Irai e afagou-lhe a coxa enquanto ela dormia. Era como se suas mãos quisessem conversar, mas como ela dormia, o tato funcionava como uma resposta. A cena se repetiu mais adiante na estrada, seguida de um olhar generoso com um sorriso no rosto dele para ela dormindo. Percebi que ele ficava feliz em encontra-la ao lado, ainda que ela estivesse cochilando.
O carinho pode ser comum entre jovens apaixonados, mas parece faltar aos casais com mais tempo de união. Fui testemunha ocular do que eu julgo que está em falta. Eles já haviam passado dos 35 anos de casados, mas conservavam o carinho de quando eram apenas namorados.
Quando vi aquela cena, tive uma única certeza: “É isso que eu quero para minha vida”, pensei. Naquele momento eu era inexperiente, nunca havia namorado. Mal sabia beijar direito, mas já definia o que queria como maturidade no meu casamento.
Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade reverencia um casal de mãos dadas ou demonstrando carinho um para com o outro. Eu admiro a preservação do amor a despeito do tamanho da história. Admiro a persistência da gentileza, a insistência do afeto.
Numa das psicoterapias que fiz, antes de mim era atendido um casal de velhos, certamente com mais de oitenta anos cada um. Eu achava um barato os dois investirem tempo e dinheiro para pensar na relação, para cuidar dos sentimentos.
Tio Roberto e tia Irai vão descobrir agora, lendo esta crônica, que me serviram de inspiração. Ela já estava escrita quando vi seus filhos comemorando na rede social os cinquenta anos de casamento durante esta semana, quando minha crônica será publicada. Nada mais oportuno. Aquele gesto simples despertou minha admiração. E este amor preservado pelos dois sem dúvida fez e faz a diferença para a vida dos filhos e dos netos. É uma família bonita, que esbanja amor.
Que eu possa cumprir a promessa, que em primeiro lugar fiz a mim mesmo e mais adiante a Natália, de ser sempre namorado dentro do meu casamento, até o fim de nossas vidas.

UM CAFÉ E A CONTA!
| O que se repete todos os dias é o que constrói o futuro.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois,10/01/2015, Edição Nº 1339.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Palpites para o Seu 2015

Arte de Weberson  Santiago


Se você me permitisse palpitar na sua lista de resoluções para o próximo ano eu lhe daria as seguintes recomendações:
— Em 2015, aprenda a descansar. Existe uma doença a solta por aí cujos sintomas são: vício em trabalho, sentimento de culpa em parar de produzir e pensamentos persistentes em assuntos ligados ao trabalho. O vírus acomete a humanidade há alguns séculos, mas suas mutações recentes tem causado sintomas mais graves. A doença é contagiosa, tem acometido cada vez mais pessoas. Os doentes costumam achincalhar quem defenda breves períodos de descanso, como se isso fosse sinônimo de vagabundagem. É tão grave que o doente pensa que tirar férias é um pecado mortal. Quem é acometido por esta doença costuma ignorar o seu próprio limite físico e emocional. Não percebe que este desrespeito consigo mesmo tem como consequência a S.E.P. – Síndrome do Emputecimento Progressivo. A S.E.P. é um conjunto de sintomas de impaciência e intolerância em nível crescente. Pessoas com S.E.P. costumam atribuir a culpa de seu arrombo de agressividade aos outros. O único remédio para esta doença é aprender, iniciando com doses homeopáticas e aumentando o tempo gradativamente, a descansar. É seu direito. Em 2015, faça ele ser respeitado.
— Em 2015, se você tiver filhos, quando se encontrar com ele(s) no fim do dia e perguntar como foi o dia na escola, não se contente com a resposta “legal” ou “tudo bem”. Pergunte coisas que ele ou ela se interesse em responder como, por exemplo: “se você pudesse ser um de seus colegas, quem você escolheria?” ou “Que palavra diferente a sua professora te ensinou hoje?” (a americana Liz Evans publicou no seu blog ‘25 maneiras de perguntar a seus filhos ‘Como foi a escola hoje?’ e obter respostas”, pesquise no Google e se inspire). Em 2015, converse mais com seus filhos e acompanhe suas dúvidas, dilemas e inseguranças.
— Em 2015, se você tem avós, estabeleça uma frequência possível de estar ao lado deles. Arrume um tempo para ouvir as histórias da vida de seus avós. Pergunte como eram as coisas na época em que eles eram jovens. Descubra as histórias de amor de seus avós e de seus bisavós.  Pesquise sua origem e a trajetória de sua família pelo mundo. Descubra as profissões de seus antepassados. Você certamente entenderá como alguns de seus comportamentos têm uma base no comportamento de seus ascendentes. Sua vida terá muito mais sentido com essas informações. Se seu pai ou mãe é idoso, vale o mesmo palpite. Em 2015, não desperdice a oportunidade de aprender com seus avós, pois esta oportunidade pode não estar disponível mais adiante.
— Em 2015, se apaixone por uma atividade física (se é que você já não vive uma paixão). Saia do sedentarismo encontrando o seu esporte favorito. Manter-se ativo é a melhor maneira de evitar doenças físicas e emocionais. Atividade física, quando praticada com regularidade, é um antidepressivo natural. É um jeito de fazer amigos e expandir seus relacionamentos. Você pode estar pensando que já tentou e não conseguiu manter-se na prática regular. Pense em como você agiu na situação. A grande maioria das pessoas que desistiu da atividade física começou mirando resultados rápidos de mudança no corpo, exagerou no tempo e na frequência do exercício inicialmente, sem permitir uma adaptação gradativa do organismo. Comece estabelecendo dias e horários que poderá de fato encaixar a atividade física e se manter praticando, sem criar condições para desistir. Seja realista. Pense em alguma atividade que lhe dê prazer, existe uma infinidade de opções. É possível que no começo tenha de se obrigar, mas depois não conseguirá ficar mais sem. Em 2015, movimente-se.
— Em 2015, viaje. Faça pelo menos uma viagem ao ano. Se possível duas. Saia da sua rotina para voltar mais inspirado. Conheça lugares diferentes daquele onde você vive. Entre em contato com outras culturas, outros hábitos. Falta de dinheiro não é uma boa desculpa. Percorra a distância que seu bolso permite. Planeje e, em 2015, faça uma viagem.
— Em 2015, persiga o equilíbrio. E ainda que siga desequilibrando, mire como meta o equilíbrio. Como diz o ditado: nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Deixe de lado o oito ou oitenta. Teste o quarenta e três, depois o cinquenta e sete. Se só conseguir agir no doze e no setenta e sete, terá sido melhor do que no oito e no oitenta. Você tem o resto da vida para se aproximar do equilíbrio. Em 2015, persiga o equilíbrio.
UM CAFÉ E A CONTA!
|Em 2015, que você consiga resgatar a sua inspiração.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois,27/12/2014, Edição Nº 1337.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Dançando com a Vida

Foto do Arquivo Pessoal



Noutro domingo, resolvi passear em Ribeirão Preto com as minhas meninas. Tinha ouvido falar de um evento chamado Projeto Café com Choro. Trata-se de um baile que ocorre há 20 anos no meio do campus da USP de Ribeirão Preto.
Todos os domingos, das dez horas da manhã ao meio dia, as pessoas se reúnem para dançar ao som do Grupo Rouxinóis. Pessoas de todas as idades se encontram na pista ladeada de bancos de alvenaria em frente ao par de coretos, sendo que o maior deles abriga a banda. Fica bem do lado do Museu do Café e um pouco atrás do casarão sede da antiga fazenda que se tornou campus universitário, cujo prédio hoje abriga um Museu Histórico.
É um lugar carregado de história e que continua fazendo história com o baile que se repete aos domingos durante o ano todo. Além dos músicos e casais pés-de-valsa, muitos turistas comparecem para admirar a simplicidade cativante do evento. São recebidos com suco, café, chá e bolachas, daí o nome Café com Choro. Já adianto que a beleza está na simplicidade. Se não é capaz de enxerga-la ou senti-la, prefira o shopping.
Descemos do carro e fomos em direção ao som. Ficamos encantados com o que vimos. Uma banda composta por cabeças brancas e alguns novatos. Entre os dançarinos, jovens com habilidade para dançar o forró, casais de meia idade em sintonia na dança de salão e exemplares casais de idosos esbanjando disposição.
Procuramos lugar nos bancos em volta. Observei uma toalha esticada no assento e supus que tinha alguém sentado ali. Ao lado uma garrafa de água. Percebi que os frequentadores trazem um kit e tem seu ritual para participar do baile.
Achamos dois lugares, onde a Natália e a Anelise se sentaram, enquanto eu subi numa parte superior atrás do banco e comecei a tirar fotos. Não fazia nem cinco minutos que estávamos ali. Uma senhora de cabelos brancos, vestido marrom e sapato de salto preto, que estava dançando, saiu da pista quando a música terminou, se aproximou da Natália e disse: “Adorei o seu vestido” – referindo-se ao vestido preto com rosas amarelas e vermelhas dela. “Ah, obrigado. O da senhora também é muito bonito”, respondeu prontamente a Natália. Outra senhora que estava do lado resolveu participar: “A Ivone sempre está bem vestida, acho que a filha dela é dona de boutique!”.
Percebi que estava num lugar diferente e com pessoas felizes, algo raro nos dias de hoje. Respirei aliviado por existirem lugares assim. Agradeci por estar naquele lugar.
Enquanto observava os casais dançando, me chamou a atenção a postura ereta de uma senhora elegante. Ela tinha uma postura fina ao dançar e um semblante alegre. Quando a música terminou, ela começou a conversar com seu parceiro, um senhor de chapéu de palha, camisa preta e cruz de prata no peito. Ele listava os bailes da cidade que já participou, perguntando se ela os conhecia. Ela respondeu: “Faz apenas cinco anos que eu saio. Passei a vida toda cuidando da casa, dos filhos. Descobri a dança faz pouco tempo.”
O dono da toalha parou de dançar e sentou-se ao lado da Natália. Um senhor barrigudo, de camisa azul e dois botões abertos. Retirou do bolso uma bala de menta e ofereceu pra Anelise. Ela não aceitou, seguindo a regra que repetimos de nunca aceitar bala de estranhos. Eu queria poder explicar pra ela que tem lugares como aquele que ainda se pode aceitar uma bala de um estranho, mas me mantive observando. Ele insistiu, ela negou, então ele abriu e chupou a bala.
Envolvidos pelo clima, Natália e eu resolvemos arriscar um dois-pra-lá, dois-pra-cá. Alguém da banda tirou umas fotos nossas. Quando a música terminou, voltamos pro banco e perguntei: “Anelise, quer dançar?”
Ela ficou encabulada. Aquela senhora de postura esguia e que aprendeu a ir ao baile há cinco anos se aproximou e perguntou o nome dela. Disse-lhe com uma voz doce, num ritmo cadenciado: “Anelise, dança com ele! A dança é uma coisa muito boa, é uma alegria, a gente se sente leve, se sente bem. Na vida a gente precisa aprender a dançar!”
Eu sempre imaginei que a dança fizesse bem, mas naquele dia eu tive a certeza.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Mais um objetivo na vida: aprender a dançar. Um dia vou encontrar tempo para fazer aulas semanais.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 13/12/2014, Edição Nº 1335.

sábado, 29 de novembro de 2014

Coxinha Injustiçada





“O Augusto é coxinha”. Já tinha ouvido por aí alguns caras serem chamados de coxinha, mas foi quando o meu nome foi associado ao salgado que resolvi investigar a fundo o que é um homem coxinha.
Depois de muita investigação e leitura pude concluir que o coxinha é um mauricinho-versão-atualizada. O coxinha é um cara tão certinho que irrita. É um almofadinha que se preocupa com sua imagem e com o que os outros pensam dele. O coxinha é vaidoso, mantem o cabelo sempre impecável. Evita qualquer atividade que desmanche o seu topete. Não frequenta qualquer ambiente e não se mistura muito, mas quer que os outros pensem que ele é descolado e que é popular entre seu seleto grupo de amigos.
O coxinha não se arrisca, não ousa. Prefere tudo no seu lugar. Desde a camisa pólo por dentro da bermuda bege até a foto de família-tradicional-feliz. O coxinha é o orgulho dos pais: nunca repetiu de ano, sempre soube dividir o tempo entre o namoro e os estudos para o vestibular e por isso entrou cedo na faculdade. Casou logo, já que o coxinha é o sinônimo da estabilidade futura no mercado das solteiras.
Alguns blogueiros teóricos, dedicados a chegar ao perfil exato e definitivo do coxinha, defendem que eles estão por todas as partes, em diversas profissões, grupos e classes sociais. Eu fiquei confuso com a divergência entre as definições, porque o coxinha pode ser muita coisa. Pode-se ser chamado de coxinha quando discute futebol, quando dá opinião sobre política ou até se for falar de amor. O cara te incomodou? Chama de coxinha.
Quando ouvi esse papo de coxinha, confesso que me pareceu engraçado. Mas quando fui pensar a respeito da comparação, achei injusto um salgado gostoso ser equiparado a tantas características sem graça. O que o salgado dourado e crocante, recheado de frango e catupiry tem a ver com todos esses tipos de comparação pejorativa? O que está por trás desta injustiça com a coxinha, caro leitor?
Recentemente a coxinha ganhou sobrenome gourmet em versões variadas de recheios e massas. Tem até coxinha de pato. Versão de sobremesa com massa de brigadeiro e recheio de morango. Acredito que se trata de um complô dos outros salgados, invejosos do status que a coxinha conseguiu alcançar nos últimos tempos. Cidades tornaram-se ponto turístico por venderem coxinhas. A coxinha está sendo boicotada em seu momento mais glorioso.
Defendo a igualdade entre os salgados. Ou a coxinha deixa de ser xingamento ou todos os salgados devem ser usados para a difamação.
Se você não concorda com a minha teoria, não adianta me chamar de coxinha. Você pode se enquadrar no que eu chamo de rissoles: aquele tipo de pessoa que quando você espreme (pressiona), o recheio pula pra fora (não dá conta). Pode ser que você seja um quibe: o que o vernáculo das gírias outrora denominou de cagão (medroso). Pode ser ainda que você se enquadre no perfil do empadinha: parece alguém de gosto requintado e elegante, mas que quando você chega perto percebe que é gorduroso e o recheio é popular. Afinal, a tampinha sempre esconde o recheio de frango ralado, palmito e azeitona.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Se você for chamado de coxinha não questione. Um coxinha nunca aceita que é coxinha.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 29/11/2014, Edição Nº 1333.