sábado, 22 de março de 2014

Já Foi Mais Fácil Ser Poeta


Arte de Weberson Santiago


Já foi mais fácil ser poeta quando a vida não era tão complicada. O mundo parece que não funciona direito e ninguém tem tempo de perceber. Vivo com a sensação que as coisas deveriam ser ao contrário do que são.
Já foi mais fácil ser poeta quando a vida não era cheia de filas. Supermercado, banco, correio, lotérica, caixa de loja de departamentos, banheiro de festa. Não dá pra criar versos e estrofes durante a espera em nenhuma dessas situações.
Já foi mais fácil ser poeta quando não havia a sensação de que você é explorado. Pare e pense. Trabalhamos o máximo que podemos para conquistar apenas o mínimo. E sempre têm alguém que tem mais e alguém que tem menos oportunidades do que a gente. Já foi mais fácil ser poeta quando não gastávamos boa parte do que ganhamos para pagar impostos ou juros. Não é preciso muito esforço para perceber que viver fica mais caro a cada dia e que passaremos o resto da vida tentando dar conta de uma conta cada vez mais alta. Não tem quem mantenha a inspiração com uma saída maior do que a entrada.
Já foi mais fácil ser poeta numa época em que a superficialidade era exceção. Hoje as relações não tem profundidade. Assim como uma conversa se resume a expressões como “nossa que calor!” ou “será que chove hoje?”, uma noite de sexo termina com “qual é o seu nome, mesmo?”. A superficialidade é para as relações como a falta de vocabulário para o poeta.
Já foi mais fácil ser poeta quando as pessoas não tinham tanta pressa. Correr demais pode ser uma forma de perder tempo. Ser tomado pela pressa é uma maneira de arrumar problemas. Já foi mais fácil ser poeta quando o tempo andava, não corria. O poeta precisa de tempo para olhar os detalhes.
Já foi mais fácil ser poeta quando ser jovem ainda era ser sonhador. Hoje ser jovem é não ter objetivos e metas, achar tudo sem graça e ser escravo dos prazeres imediatistas. O imediatismo quer a poesia pronta, mas não quer o trabalho de encarar a folha em branco.
Já foi mais fácil ser poeta quando a privação era maior e o esforço requerido para uma conquista também não era pouco. As vitórias eram mais saborosas. Sem esforço não se mantem a métrica nos versos.
Já foi mais fácil ser poeta quando o maior sonho de uma criança era ganhar uma bicicleta. Não há como ver poesia em um quarto cheio de brinquedos e tecnologias que perdem a graça facilmente. Desse jeito a graça da poesia acaba no meio.
Já foi mais fácil ser poeta quando viver não era ter de controlar sua alimentação para controlar seu corpo e sua aparência. Um alimento se torna vilão e depois é consagrado milagroso. Não se faz rima com o peso da culpa por ter comido um alimento proibido.
O poeta é um inconformado. Ser poeta é algo que precede a própria poesia. Ser poeta é enxergar a mesma coisa de um jeito diferente. É romper com a racionalidade usando o dom de embelezar a realidade, na tentativa de descrever, entender ou explicar sentimentos comuns e compartilhados pelas pessoas.
A poesia nasce quando o poeta escolhe viver ao invés de morrer com dureza a realidade. É, nunca foi fácil ser poeta. Não é fácil ser poeta, mas o poeta precisa da dificuldade.

UM CAFÉ E A CONTA!
| O que fazer quando a realidade parece caminhar para o pior? Faça poesia. Sofrer pode ser poético ao invés de ser patético.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 30/03/2014, Edição Nº 1297.


sábado, 8 de março de 2014

A Polêmica da Franja

Arte de Weberson Santiago



Se você é homem, um dia será vítima da polêmica da volta do salão de cabeleireiro. Se as mulheres têm o hábito da mudança do cabelo, mais cedo ou mais tarde o homem cai na discussão criada em cima dos comentários sobre o resultado. Nenhum barbudo, nem mesmo o mais sensível, será brilhante na avaliação em todas as idas dela ao cabeleireiro.
Natália sempre me surpreendeu. Trabalhava o dia todo, estudava à noite e estava sempre com a aparência impecável, como se tivesse passado o dia em um SPA. Tinha a sensação de ser um homem de sorte, já que cada vez que buzinava na porta da casa dela, ela saía na direção do meu carro como quem partia para a passarela, sendo que o desfile terminava em meus braços.
Passado o começo do namoro, passei a compartilhar os custos envolvidos em manter a aparência. Levava o tempo e o dinheiro dela, mas começou a tomar o meu tempo quando fui trocado pelo fim de tarde no cabeleireiro – leia-se 5 horas – ou quando passei a esperar um bom tempo entre a buzinada e a saída. Sem muito esforço, enchia-a de elogios e depois reclamava um pouco da espera. Ela só ouvia a primeira parte.
Não é o elogio ouvido, é a necessidade de saber que ela mudou para alguém além do espelho. Não vale o cabeleireiro. Não vale a manicure. Muito menos aquelas que também optaram pela mudança no salão. Tem que ser dito pelo namorado, marido, ficante ou amante. Na ausência destes, pode ser reconhecida pelo homem que passa na rua. Ela ignora a olhada e a cantada barata, mas sente que ganhou o dia.
Se é o marido ou o namorado, trata-se da prova de fogo para a sobrevivência do relacionamento. Dizem que é difícil dizer o sim no altar, mas o vestibular para medicina do casamento é a reação do homem quando ela chega do cabeleireiro. A mulher não aceita resposta incompleta, já que no vestibular não existe meio certo. E elas comentam, umas com as outras, o que registraram no gabarito de nossas respostas. Definem em conjunto os candidatos aprovados e os reprovados.
Na última vez que ela voltou do salão, foi logo abrindo o caderno da prova:
— E aí, o que achou do corte?
— Ficou bom, mas você ficou mais loira.
— Eu sabia que você não ia gostar.
— Mas eu gostei da cor, só acho que essa franja reta faz parecer que você usa uma peruca.
Ela emudeceu, fez cara feia, se emburrou e depois pareceu ter esquecido. Só pareceu, já que voltou ao assunto no dia seguinte:
— Vamos sair hoje?
— Sim, vamos!
— Vou me arrumar, pena que você não gostou do meu cabelo...
— Mas eu disse que não gostei?
— Não, só disse que está parecendo uma peruca!
— Se você quer saber, a maioria das mulheres gostaria de ter um cabelo como o seu.
— Mas eu fiz pra você...
— Achei que tinha feito porque gostava. Eu gosto do seu cabelo natural, loiro nas pontas e ondulado. Mas se você gosta dele liso e mais claro, sabe que eu te acho linda de qualquer jeito – disse enquanto já me via vencido a aprovar seja qual for a mudança da próxima vez.
Ela não se deu por vencida. Saiu do trabalho no dia seguinte com uma trança diferente. E quando eu disse que gostei, confessou que gastou metade do horário de almoço para a amiga fazer. Mudou a franja de lado, colocou a franja para trás e bagunçou tudo porque sabe que com menos que isso já chama a minha atenção. Eu consegui meu sossego quando ela conseguiu o que queria: ser vista.
Quinze dias depois estávamos em um casamento de uma grande amiga dela. Assistimos a uma longa cerimônia até chegar à festa. Quando fomos cumprimentar o casal, a noiva vira e diz para o noivo na nossa frente:
— Se um dia você disser que eu uso peruca, nosso casamento está acabado.
Com essa polêmica da franja, eu é que quase fiquei careca.


UM CAFÉ E A CONTA!
| Experimente não notar mudança no visual ou esqueça uma data importante e conheça a fúria da sua mulher.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, primeiro caderno, p. 2, 08/03/2014, Edição Nº 1292.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cabeça de Inseto

Arte de Weberson Santiago


Outro dia fiquei intrigado com aquela quantidade de insetos que morrem no vidro do nosso carro quando pegamos a estrada durante o entardecer.
Eles se esborracham com tanta força que não se vê nem asa, nem pata pra contar história. E ainda dão um trabalho pra tirar seus restos em forma de gosma do vidro e do farol do carro.
Pesquisando, descobri que os insetos, habitantes da terra muito mais antigos que nós humanos, usavam a luz da lua para se orientar no caminho durante a busca de alimento. Assim, conseguiam se alimentar e pegar o caminho de volta para onde saíram.
Por isso que hoje, qualquer luz artificial colocada em seu caminho lhe desorienta e, geralmente, lhe atrai. Este comportamento geneticamente selecionado é mais forte do que a sua própria capacidade de lutar pela sobrevivência. A busca desenfreada pela luz pode leva-lo à morte. É o caso tanto dos que vão ao encontro de um veículo em movimento, quanto daquele inseto que invadiu sua sala e morreu de tanto dar cabeçadas na luz que fica entre você e a sua televisão.
Logo após pensar na obsessão dos insetos pela luz, cheguei à conclusão que nós humanos não somos muito diferentes disso.
Pense em algum tipo de comportamento persistente que tem consequências ruins a longo prazo para entender que a nossa insistência pode ser perigosa. O pior é que muitas vezes não temos consciência disso.
É o caso de quem consome álcool ou drogas. As drogas liberadas ou proibidas são como amortecedores. Diminuem o impacto das experiências cotidianas. Seu uso é um comportamento de esquiva de sentimentos negativos resultantes da nossa relação com o mundo. E como funciona temporariamente – a curto prazo – seu uso tende a aumentar de frequência e intensidade.
É uma questão de tempo para que as cabeçadas comecem a acontecer repetidamente – a longo prazo – na forma de excesso de consumo, comportamentos de risco (beber ou se drogar e dirigir na estrada, por exemplo) e a própria dependência química. Um caminho sem volta cujas cabeçadas na lâmpada são as recaídas. Há ainda o risco de numa dessas, acabar como o inseto no para-brisa, perdendo a vida.
Outro exemplo é aquele que fica viciado no jogo da sedução. Busca desenfreadamente confirmar o flerte, mas desiste da outra pessoa quando percebe que ela está verdadeiramente envolvida. Quer apenas o desafio da conquista e não o compromisso da relação.
Comportamento selecionado culturalmente entre os homens, hoje é parte do repertório das pegadoras. Trata-se de um vício em sentir aquelas reações fisiológicas típicas da paquera, em querer viver a maior intensidade possível das emoções.
Um escravo das sensações de curto prazo tem dificuldade de construir relacionamentos duradouros a longo prazo. Quando para pra pensar, já é um tiozão no meio da balada. Quando percebe o padrão de relacionamento já é chamada de tia pelos filhos das amigas. Há quem prefira continuar a dar cabeçadas quando o assunto é relacionamento afetivo e sexual.
Viver em buscar prazeres imediatos é o que nós temos em comum com os outros animais. A capacidade de perceber onde esses prazeres nos levam é o que nos diferencia das demais espécies.
O problema não é dar uma cabeçada na vida, é ter cabeça de inseto e ignorar todas as consequências. O problema é quando a cabeçada não lhe faz mudar de direção.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Você é escravo de qual repetição? Que tipo de comportamento você não consegue mudar?

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 22/02/2014, Edição Nº 1290.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma Nota Melhor Como Prova de Amor

Arte de Weberson Santiago



Uma vez, logo no início do namoro, meu pai resolveu provar seu amor para minha mãe. Ambos tinham 14 anos. Minha avó era uma rígida professora da escola onde eles estudavam.  Aproveitou que a dona Rosa havia saído de casa, foi até os materiais de trabalho dela e retirou a caderneta da disciplina de trabalhos manuais, da turma em que minha mãe estudava.
Com cuidado apagou o valor e, imitando a letra da sua mãe, aumentou em um ponto a nota de sua namorada. Correu o risco de ser descoberto, mas queria que ela percebesse que ele correria riscos por ela. Não preciso dizer que ela considerou aquilo uma grande prova de amor.
A travessura adolescente foi revelada mais de quarenta anos depois. De início, minha avó pensou que fosse brincadeira. Depois que meu pai insistiu a autoria do feito, ela acabou dando risada da situação. Se ela tivesse descoberto a adulteração naquela época teria, no mínimo, lhe aplicado um castigo.
Eu sou professor há cinco anos em uma universidade. Há quatro anos passei a dar aulas pra Natália. Todos os semestres, com exceção de um, estive à frente da sua sala com alguma disciplina.
No começo, a Natália reclamava que tinha dificuldade de prestar atenção no conteúdo das minhas aulas. Quando ela percebia, estava prestando atenção nos meus gestos. Tentava ela se concentrar no que eu falava, logo se distraía com o movimento dos meus lábios ou das minhas mãos. Foi preciso um ano inteiro para ela conseguir ficar mais sob controle do conteúdo da aula do que do namorado sendo o seu professor.
Sempre me preocupei com o fato de ter entre meus alunos a minha namorada, hoje minha mulher. Temia que isso atrapalhasse o meu trabalho como professor. Nem sempre é fácil separar as coisas, mas sempre busquei evitar qualquer tipo de problema. Pensava que corria o risco de viver um mal entendido. Me imaginava sendo apontado diante da insatisfação natural de algum aluno com meu trabalho ou com uma nota que lhe dei.
Tenho regras rígidas sobre meu papel como professor e sobre as habilidades e competências que preciso desenvolver em meus alunos para que eles se tornem bons profissionais.
Em todo este tempo, nunca a favoreci com qualquer tipo de regalia por ser minha mulher. Não lhe dei nota além do que ela realmente conseguiu. Nunca lhe dei dicas de assuntos escolhidos entre a matéria para ser uma questão de minhas provas. Muito pelo contrário, talvez tenha sido até mais rigoroso em alguns momentos – e a vejo concordando com a cabeça quando estiver lendo isso.
Ainda assim, a Natália sempre teve um bom desempenho. Com isso, pude concluir duas coisas boas: durmo tranquilo por me manter fiel aos meus princípios e tenho um baita orgulho de que ela, sem qualquer tipo de favorecimento, tenha tido boas notas e nunca tenha ficado de exame ou de dependência em minhas disciplinas.
Existem tantas outras maneiras de provar meu amor do que facilitando sua vida acadêmica: preparando surpresas, dividindo planos de futuro e com declarações de amor. O que meu pai fez foi uma aventura de adolescente. Não pude e posso fazê-lo agora sem uma crise de consciência, sem se sentir culpado pela injustiça com as outras pessoas.
Meu pai me ensinou a dar provas do meu amor, mas primeiro me ensinou a importância da honestidade.

UM CAFÉ E A CONTA!
| É tão bom poder olhar pra trás e ter orgulho de uma trajetória.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, primeiro caderno, p. 2 08/02/2014, Edição Nº 1288.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Com Viver

Arte de Weberson Santiago


Gosto de conviver com gente que fala o que sente. Que sabe que existem emoções que não podem e não merecem ficar guardadas. Não falo do bobo ou do ingênuo, que revela segredos sem perceber. Não falo do linguarudo, que não sabe controlar a impulsividade e acaba falando o que não deve. Me refiro à pessoa transparente. Aquele que, se não expressa pela boca, fala pelo olhar. Prefiro gente que entrega seus verdadeiros motivos, mesmo que não exista em quem confiar. Gosto de conviver com quem não se esconde atrás da mentira.

Gosto de conviver com gente que não cobra uma excelência constante. Ser ótimo o tempo todo não é ser humano. Não gosto de conviver com quem quer que as pessoas se esforcem para tentar ter o controle total sobre tudo. Confio em quem, vez por outra, perde o controle, mas não perde o sentido da vida.

Gosto de conviver com quem perdoa o erro e com quem sabe reconhecer suas falhas. Quem pede desculpas já é obrigado a erguer a cabeça. Sendo desculpado, visualiza novas perspectivas obtidas a partir da aprendizagem que surge do erro. Não gosto de conviver com o orgulho. O orgulhoso é cabisbaixo. Fica olhando para o chão, preso no presente.

Gosto de conviver com o mau humor. Quando convivo com o mau humor, meu bom humor se torna mais necessário ainda. Mas tem uma única condição. Deveria existir um artigo no Estatuto dos Direitos Humanos: todo e qualquer indivíduo tem o direito de acordar mal humorado. Assim como deveria também existir um parágrafo neste artigo que proibisse o mau humor constante durante todo o dia. É insuportável.

Gosto de conviver com a gentileza. Um sorriso no rosto é uma arma que não mata, é uma arma que perfura o corpo, se aloja na alma e causa hemorragia de vida. Não há efeito capaz de multiplicar a gentileza tanto quanto um sonoro “bom dia”, um sóbrio “boa tarde”, um aconchegante “boa noite”. Não há nada mais alinhado do que um “com licença”. Não existe exemplo maior de elegância do que um “por favor” ou um “muito obrigado”. Gosto de conviver com que dá sinais de que não vive sozinho, que faz questão de mostrar que percebe o outro. Logo, não gosto de conviver com quem faz questão de mostrar que considera a existência do outro um incômodo.

Gosto de conviver com pessoas de valores positivos. Que extraem sabedoria das vivências, ao invés de ser apenas levados pela vida.

Gosto de conviver com quem divide seus medos. Aquele que divide suas inseguranças geralmente sabe dar e receber apoio dos outros.

Gosto de conviver com quem aceita seus próprios limites. Que sabe reconhecer os seus defeitos, mas não vive implicando com eles. Tenho novos dias para amenizar os meus defeitos. E se não os tivesse, não haveria desafio nesta jornada.

Gosto de conviver com quem aceita críticas, com quem é sensível ao efeito de suas atitudes nos outros.

Gosto de conviver com quem usa a culpa como um sinal de que deve mudar de atitude. E apenas como um sinal. Carregar a culpa nas costas não permite voltar ao passado e consertar o erro.

Gosto de conviver com quem alimenta os outros com ideias e sonhos.

Se eu não posso escolher todas as pessoas com as quais convivo, posso escolher o espaço que elas ocupam na minha vida. E este espaço é proporcional ao quanto eu gosto de conviver com o que a pessoa está disposta a me oferecer. Gosto de conviver com quem quer ir pra frente junto comigo.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Gosto de viver, mas prefiro conviver. Sozinho nada tem graça.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 25/01/2014, Edição Nº 1286.

sábado, 11 de janeiro de 2014

A Danada da Preguiça

Arte de Weberson Santiago



O que eu vou revelar não pega muito bem. Não é bem visto neste mundo que defende a produtividade máxima. Lá vai a bomba:

Eu sou preguiçoso.

Achou pouco? Achou exagerada minha preocupação em revelar minha preguiça?

Então olhe comigo a definição do dicionário Houaiss para perceber o quanto este estado é considerado negativo: “1. estado de prostração e moleza, de causa orgânica ou psíquica, que leva o indivíduo à inatividade; desânimo, esmorecimento, indolência. 2. aversão ao trabalho; ócio, vadiagem. 3. falta de capricho, de esmero; negligência, desleixo. 4. falta de pressa ou de empenho; morosidade, lentidão”.

As definições do dicionário me soaram como críticas. Eu sou tão preguiçoso e, ao mesmo tempo, tão preocupado com a minha imagem que comecei a rebater as definições para me convencer que meu excesso de preguiça não faz de mim um traste.

Na minha rotina, com três trabalhos diferentes, me sobra pouco tempo para me prostrar ou ficar inativo. E por mais que a preguiça me tome por inteiro, não é tão forte que me leve à indolência. E se ela realmente fosse uma aversão ao trabalho, eu não teria três empregos.

Não sou corajoso o bastante para bancar a vadiagem. Ainda que carregue a minha preguiça na minha mochila todos os dias, não sou capaz de pedir para sair do capitalismo ou tentar lutar contra a globalização. Só de pensar em lutar contra a correnteza, me dá uma preguiça. Nadar a favor da corrente já dá tanto trabalho. Prefiro continuar do jeito que sempre foi: correndo para dar conta, mas cheio de preguiça.

De falta de capricho eu nunca sofri. Gosto de tudo bem acabado. As pessoas costumam dizer que as coisas que eu faço ficam com a minha cara, e eu acredito que isso é capricho. A preguiça que me acompanha não consegue ser maior do que minha preocupação em cuidar dos detalhes.

Agora, se tem uma coisa que eu não posso negar é a falta de pressa. O maior efeito colateral dessa minha preguiça é uma certa lentidão. Penso, repenso e falo com calma. Se não há prejuízo em amadurecer a tomada de decisão, não me verá atropelando a tudo e a todos. Eu não preciso contar até dez, minha preguiça conta pra mim.

Não pense que eu tenho paciência para a morosidade, minha preguiça nunca foi funcionária pública. Minha preguiça é parte da iniciativa privada, é financiada pelo meu trabalho. Por isso mesmo que ela me acompanha nos dias úteis.

Já impliquei com ela, já quis me livrar dela de modo mágico ou com algum esforço, mas não consegui. Resolvi ser cúmplice da minha preguiça. Aceitá-la como companheira desde o meu despertar até minha última obrigação.

Foi aí que ela revelou ser uma ótima parceira.

Quando terminam todos os meus compromissos, ela simplesmente desaparece. A hora que eu posso me jogar no sofá, ela me abandona, vai descansar. Aí eu procuro outra atividade pra fazer e permaneço na ativa. Quando chega o sábado, o domingo ou um feriado, eu acordo no mesmo horário dos dias úteis e me pego fazendo um monte de coisas. A diferença é que nestes dias eu escolho o que fazer.

A preguiça é um efeito colateral das obrigações que nos controlam e nos fazem deixar nossas vontades imediatistas de lado. A preguiça, na verdade, é um sentimento egoísta mimado. A preguiça é um prazer emburrado porque não foi satisfeito.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Não fui eu quem inventou o ritmo no qual o mundo gira. Então, tenho o resto da vida para me acostumar com ele.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, primeiro caderno, p. 5 11/01/2014, Edição Nº 1284.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Pedrinhas de Gratidão

Foto de Lélia Oliveira



Num sábado recente resolvi comprar um livro pela internet. Buscava um presente para a Natália, algo especial para uma data importante de nosso relacionamento.

Ao ler a sinopse do livro de Stephen King tive a sensação que havia achado o presente certo para a data. As palavras ainda ressoam em meus pensamentos: Love é uma parábola sobre a imaginação e o amor, e sobre o poder do amor de transformar e salvar.

Recorri a Estante Virtual, um site que passa suas informações ao vendedor e este manda um e-mail explicando sobre a postagem do livro e o prazo de entrega. Nada fora do convencional, são trocas metódicas. Um detalhe nesta compra tornou a história inusitada.

Na tarde do sábado seguinte recebi um e-mail que confirmava o pagamento e informava que o livro seria postado na segunda-feira. Comprava do Beto Chade, o livreiro dos Araçás, que pareceu querer algo mais do que me vender o livro, o que concluí ao ler seu e-mail:

“Há muito pensei uma forma de poder estar mais próximo àqueles que cruzam em meu caminho e parece-me que encontrei uma forma simples, porém muito verdadeira. Então enviarei junto ao seu embrulho, um presentinho, algo que não tem valor material, e sim espiritual. Para se ter a exata dimensão do meu sentir, remeto em anexo uma crônica minha que explicará as razões de toda essa história. Caso tenha tempo, leia.”

Beto criou uma expectativa e minha curiosidade esticou o tempo até a chegada do livro. Fechei o portão na cara do carteiro e logo abri o pacote. Me deparei com o livro, uma pedra branca e um papel dobrado dentro de um envelope, a crônica.

Devorei o texto, queria entender o que ele queria. Beto conta que caminhava pela praia com os pés na areia quando começou e recolher pedras brancas do chão e se lembrou de um livro que leu. O autor defendia que não havia nada mais precioso do que o poder da gratidão. Palavras do Beto:

“É certo que se deve almejar sempre algo mais ou melhor. Mas, por outro lado, não conseguiremos isso maldizendo a vida que possuímos, as coisas materiais que temos, reclamando das pessoas em torno de nós. Um dos autores desse livro queria dedicar um ou dois minutos de seu dia para agradecer por tudo aquilo que a vida lhe entregara, mas, com o atropelo da rotina, quase sempre se esquecia. Um dia, olhando uma gaveta, achou uma velha pedrinha que sua filha, quando ainda era uma criança, lhe deu como presente. Sorriu com satisfação. Era uma lembrança boa. Agradeceu pelos filhos perfeitos que possuía. Pegou a pedra na mão e teve uma brilhante ideia: ‘Vou levar essa pedrinha comigo, em meu bolso, todos os dias’. Todas as manhãs a rotina se cumpria, junto a sua carteira, aliança, celular, lá estava sua pedrinha. Ao pegá-la, agradecia em pensamento tudo aquilo que fazia parte de sua vida. À noite, quando chegava em casa, repetia o ritual ao contrário, pois ao esvaziar os bolsos estava lá o ‘lembrete’ simbolizado pela pedra. E, novamente, fazia seus agradecimentos.”

Enquanto caminhava na praia, Beto resolveu juntar um punhado de pedras e ensinar aquilo que ele passou a fazer depois de ler esse livro. Queria entregar uma pedra branca e um pedaço de papel para aqueles que lhe são caros entendessem o significado e o funcionamento do ritual. Ao imaginar a cena, conta que ficou constrangido com a situação de entregar pedrinhas. Teve medo de parecer bobo. Apesar disso, escreveu esta crônica para contar a história, mas decidiu que esperaria que as pessoas lhe pedissem a sua pedra:

“Porque elas são muito preciosas para estarem nas mãos de pessoas que não as valorizem. Então, escolhi entregá-las à medida que forem sendo pedidas. Sei que muitos daqueles para os quais peguei as pedras irão pedi-las. Posso ter feito mal juízo de alguns, mas podem ter certeza, cada um dos que pedir me trará uma alegria para o coração.”

Eu fui escolhido para receber uma pedra destas junto com meu livro. Depois deste dia, passei a leva-la comigo no bolso, junto com todas as bugigangas que carrego. Quando vou coloca-la no bolso agradeço por algo ou alguém que faz parte da minha vida. Ao final do dia, quando a retiro, faço o mesmo. Um breve agradecimento. Como se tornou corriqueiro, varia o motivo da gratidão. Já agradeci até pelos problemas que me fazer progredir.

O presente da Natália deixou de ser o livro. Ela recebeu o envelope com a crônica e outra pedra branca.

UM CAFÉ E A CONTA!
| Não perca a oportunidade de passar uma coisa boa adiante.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 28/12/2013, Edição Nº 1282.