quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Mãe Preta

Festa de Casamento. Balcão de drinks. Defronte à pista de dança, vazia enquanto os convidados comiam à mesa. Peço uma caipirinha e observo três mulheres. Uma mais velha, uma mais nova e uma criança. A mais nova e a criança dançavam. A mais velha, com semblante de felicidade, se aproxima do balcão com passos de dança. Sorrio como quem também estava contente com o evento. Ela então aproveita a deixa e pergunta:

- Você é irmão da noiva?

- Não, sou primo dela.

- É que eu vi você de padrinho na cerimônia – realizada há pouco no gramado do jardim.

- Eu sou a mãe preta do noivo – diz ela com orgulho.

- Ah, muito prazer! Quer dizer que a senhora cuidou dele desde pequeno?

- Sim, nós moramos no sítio da família há muitos anos. Os meninos iam lá desde criança e vão até hoje. Nós gostamos muito da sua prima, que menina boa, doce, meiga.

- Ela é mesmo, eu estou muito feliz com essa festa hoje, pois todos nós gostamos do noivo também. Cuide bem dela quando ela estiver por lá com vocês.

- Pode deixar!

- Foi um prazer lhe conhecer!

Foi ao me despedir dela que me lembrei da Cida, que cuidou dos meus irmãos e de mim quando crianças. Muitas e muitas vezes dormíamos na casa dela, era tudo uma aventura. Seu afeto era tanto, que vivia a pensar em nós, mesmo quando longe. Sua filha é alguns anos mais velha do que eu, que sou o mais velho dos meus irmãos. Certo dia de nossa infância, numa discussão de mãe e filha, a última disse: “Você só fala nesses filhos brancos, tudo é pra eles!”.

E era assim que ela se referia a nós. O carinho ainda é muito grande, de chorar quando se depara com nossos feitos profissionais ou simplesmente quando nos vê adultos. Felizes dos filhos brancos de mães pretas.

A.A.N.

Outubro de 2009

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Quem não se comporta não pode ser reforçado.

Quem trabalha com educação já deve ter refletido sobre seu papel no processo de aprendizagem do indivíduo. Quais comportamentos do educador são mais eficientes para que haja aprendizagem específica, que atinja o objetivo programado. Do ponto de vista técnico, um recurso didático amplamente usado é o levantamento do conhecimento dos alunos para identificar diferentes formas de definição do termo. Então, o educador estabelece uma ligação entre a definição de senso comum oferecida pelos alunos e o conceito teórico a ser trabalhado. Funcionalmente falando, a técnica é denominada modelagem de comportamento verbal. As primeiras perguntas do professor funcionam como estímulos discriminativos verbais para as respostas dos alunos.

Se pergunto: O que é um comportamento vocal? As respostas dos alunos: “É a comunicação falada”; “Que usa a voz”; “É a linguagem que não é escrita ou gestual”. Da primeira resposta, é possível apontar que o produto do comportamento vocal é acústico. Da segunda, que são as complexas respostas musculares que produzem o comportamento vocal. Da terceira, a diferenciação entre comportamento verbal e comportamento vocal. Escrever, digitar, copiar e expressões faciais e gestuais são comportamentos verbais, mas não vocais. Portanto, todo comportamento vocal é verbal, mas nem todo comportamento verbal é, necessariamente, um comportamento vocal.

O comportamento do professor também é modelado pelo efeito que seus comportamentos têm sobre os alunos. Várias são as dimensões destes comportamentos que retroagem sobre o comportamento do professor: a atenção dos ouvintes durante sua fala, o interesse pelas atividades propostas e, inclusive os comentários dentro e fora de sala de aula. Para que os alunos se exponham é preciso receber suas falas como uma audiência não punitiva. Para a aprendizagem com compreensão, é preciso que os alunos se exponham, ou seja, se comportem, para que sua participação seja reforçada socialmente pelo professor e pelos próprios alunos. De acordo com os princípios da Análise do Comportamento quem não se comporta não pode ser reforçado. Portanto, se exponha!

domingo, 20 de setembro de 2009

Pra bom Analista de Comportamento meia Contingência basta.

O movimento filosófico denominado Behaviorismo Radical, através das práticas da Análise Experimental do Comportamento e da Análise do Comportamento Aplicada, defende que o comportamento humano pode ser compreendido em uma contingência tríplice. Diante de um estímulo ocorre um determinado comportamento, que por sua vez produz uma conseqüência. Estabelece-se um controle de estímulos sobre o comportamento, assim como um controle pela conseqüência, a depender das contingências em vigor durante a ocorrência do comportamento. Isto significa que a contingência é como se chama a interação organismo – ambiente. Há uma sensibilidade a mudanças ambientais. Como bem definiu Maria Amélia Matos (2001) “a prática do analista de comportamento é estudar contingências em seu efeito cumulativo sobre o desempenho dos organismos”.

A ciência do comportamento constituiu uma história voltada à previsão, controle e interpretação do comportamento. Estes três pilares justificam a nomenclatura Radical que acompanha o nome Behaviorismo, pois denota a busca pelas raízes do comportamento e de suas variáveis de controle. A multiplicidade de controles exercidos pelas variáveis sobre o mais simples comportamento é parte do engodo encontrado pelo Analista de Comportamento na sua prática. As pesquisas produzidas trazem conhecimentos úteis e de significado prático, permitindo o uso dos conceitos no cotidiano. Nem sempre as variáveis estão acessíveis e permitem uma “leitura” tríplice do comportamento de um indivíduo, mas podemos supor, diante de uma conseqüência produzida, qual comportamento tem maior ou menor probabilidade de ser emitido no futuro. Da mesma forma, observando contextos, condições e dimensões ambientais que alguns comportamentos são mais prováveis diante destes estímulos. Pode-se concluir, portanto, que: pra bom Analista de Comportamento, meia Contingência basta.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sensação e Percepção

Despertador. Trabalhar!
Carro. Sol na cara.
Vejo aquela pessoa. O que será que ela vai me falar?
Estou com fome. O que eu comi hoje?
Cai a cadeira. Susto!
Deu a hora. Saio Correndo...
Penso. Não posso esquecer!
Anoto. Onde vou guardar?
Suspiro. Estou cansado.
Chego. Começo a falar.
Perguntam. Presto Atenção.
Respondo. Fui claro?
Fazem a piada. Todos dão risada.
Chove forte. A luz acaba.
Escuro. Luz de Emergência.
Apagão. Dispensa!
Dirijo. Vou devagar.
Termino. Jantar?
Banho. Relaxar!
Roupa no cesto. Checagem do bolso.
Lembrete. Esqueci!
Corro. Cadê o telefone?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Complementar[idade]

João não gostava de bagunça. Apesar de seus sete anos, não permitia nada fora do seu respectivo lugar. Janete bem que sabia disso, afinal, era empregada doméstica ali desde antes de seu nascimento. Naquela época era diferente, era tudo comum. O serviço de um casal, rotina sem graça. Agora, temia as broncas do menino sobre como arrumava a cama ou limpava a cozinha. João não admitia que ela colocasse qualquer louça dentro da pia, pois o ralo é um local cheio de micróbios e bactérias. E quando iria lavar a louça, tinha de ser com água quente. Sem contar os passos que deveria cumprir na limpeza, sempre correndo para que tudo estivesse em ordem quando ele chegasse da escola. Janete só não entendia o motivo de tudo aquilo, mas seguia fazendo sem questionar. João era filho único, de pai Engenheiro e mãe Advogada. Ambos chegavam em casa e eram obrigados a tirar os calçados antes de abrir a porta, indo direto a lavar a mão. A mãe era indiferente a João, queria ter tido uma filha. O pai era o cuidador desde os primeiros dias. Era ele quem acordava durante as noites quando João chorava, mas sempre achou que nunca fizera o suficiente para suprir a displicência da mãe. Ela, por sua vez, no pouco que agia para com João, se incomodava com suas manias, queixando-se para o marido. Ele compreendia a insatisfação dela, mas não conseguia deixar de cumprir as vontades do filho. E não seria Janete quem ousaria contrariar qualquer um deles.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Antes Tarde

- Moço, eu quero falar com o gerente.

- Ele fica naquele prédio, contorna aquele jardim, na entrada que tem por trás.

Caminha até lá.

- Pois não – diz ele.

- Oi moço, meu nome é Josy, e eu queria saber se você pode me ajudar. É que eu tive aqui no ano passado, mais ou menos no mês de Agosto, num evento que teve a noite. Aí, eu conheci um cara, nós saímos e depois de dois meses eu descobri que estava grávida.

- Espera – diz ele surpreso. Mas você conheceu ele naquela noite?

- Sim, sabe como é, né?

- Não, não sei, você tinha bebido muito?

- Ah, acho que sim...

- E quantas vezes vocês saíram? – questiona.

- Só aquele dia.

- Espera. Eu não sei como eu posso ajudar você...

- Sabe o que é, eu queria saber se tem como você ver quem entrou aqui naquele dia.

- Bom, mas você precisa provar que ele esteve neste evento?

- Não, eu preciso achar ele.

- Mas você não manteve contato com ele?

- Não, foi só aquele dia.

- Qual é o nome dele?

- Não sei – disse ela – eu sei que ele é moreno, cabelo e olhos pretos.

- E qual foi o dia?

- Não sei, mas acho que foi numa sexta-feira em agosto do ano passado.

- Não sei se conseguirei te ajudar. Eu posso levantar a lista de pessoas que entraram nesses dias, mas sem um nome, será difícil localizar.

- Eu reconheço ele pela foto.

- Mas eu não posso mostrar o cadastro das pessoas aqui. Além disso, você precisa tomar muito cuidado com a acusação que vai fazer. Caso o exame de DNA dê negativo, você poderá ser processada por danos morais.

- Me ajuda, por favor! – com voz trêmula e lágrimas nos olhos – Meu pai fica dizendo que meu filho vai me cobrar de mim quem é o pai dele e eu não vou saber falar...

- Eu vou ver o que posso fazer. Qual seu nome?

- Josy Maria da Cunha.

- Josi Maria da Cunha – ele escreve.

- Não, Josy com ipsilon.