domingo, 12 de julho de 2015

O Menino que se Tornou Olhos e Ouvidos - Conto


Vitor tinha quatro anos quando o Sr. Arthur se mudou para a casa do outro lado da rua com sua esposa, dona Olímpia. O casal não era de conversa e ninguém da rua sabia de onde tinham vindo. Pouco tempo depois da mudança, a vizinha fofoqueira, dona Elvira, procurou sua mãe para lhe contar o boato que corria na vizinhança. Diziam que o novo morador havia saído fugido de uma cidade do interior de Minas onde morava por ter matado um homem.
A vizinhança cultivou uma distância. Os homens acenavam ou diziam bom dia quando abriam o portão da garagem e encontravam seu Arthur na frente de casa. As mulheres sequer cumprimentavam dona Olímpia. O casal nunca tomou iniciativa para o entrosamento e manteve-se, de certo modo, isolado dos vizinhos.
De ouvir os comentários dos pais, as crianças cresceram com medo do casal. A partir dos sete anos, Vitor e seus amigos passaram a ir pra escola a pé e toda manhã de dia de aula tinham de passar pela calçada da casa de seu Arthur e dona Olímpia para chegar até a escola. Jorjão apertava a campainha da casa deles sem avisar os outros dois amigos e saia correndo na frente, seguido pelos dois. Remela jurava de pé junto que tinha visto um dia, pela fresta entre o portão e o muro, seu Arthur cortando um cadáver com o serrote no fundo do terreno. Todos da rua ouviam barulhos de ferramentas diariamente vindos de lá.
Arte de Weberson Santiago
Depois dos sete anos de idade, Vitor perdeu um pouco do medo e passou a se interessar pelo que lhe causava estranheza. Um dia saiu pra escola sozinho e viu seu Arthur na porta. Desejou-lhe bom dia. Ouviu como resposta um murmúrio seguido de um bom dia mais pra dentro do que pra fora. Na semana seguinte, acompanhado de Jorjão e Remela, viu o seu Arthur de costas, recolhendo as folhas que varreu na calçada. Disse-lhe bom dia e teve o silêncio como resposta. Virando a esquina, os amigos lhe repreenderam:
— Tá louco, Vitor? – perguntou o Remela.
— Você não sabe que ele é um assassino? Não viu a enxada na calçada? Vai que ele resolve arrancar a sua cabeça fora! – emendou o Jorjão.
 Vocês são dois cagões! – respondeu.
Num dia qualquer, após o almoço, a mãe de Vitor foi limpar a gaiola do canário de estimação do menino – batizado por ele de Falcão – quando, sem querer, o deixou escapar. Vitor, que estava por perto, viu que o canário pousou na cadeira da sala de jantar. Na ponta dos pés, se aproximou para tentar capturar o pássaro, mas ele percebeu sua aproximação e bateu asas, deu um rasante na sala de estar e escapou pela janela da frente, para fora da casa. Vitor, que seguiu o pássaro até a sala, subiu na mesa de centro e acompanhou a trajetória do pássaro. Ele foi na direção da casa do seu Arthur e pousou na goiabeira plantada na frente da casa.
Sua mãe, sentindo-se culpada, disse que lhe compraria outro. Mas ele não queria outro. Nenhum canário cantaria tão bonito quanto o Falcão. Se ele quisesse recuperar seu pássaro teria de pedir ajuda para o vizinho enfezado. A goiabeira ficava do lado de dentro da casa, atrás do muro, em frente da varanda da porta de entrada, onde o casal costumava ficar sentado algumas horas do dia.
Vitor não hesitou, atravessou e tocou a campainha.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Às vezes a vida nos impõe mudar de direção. Somos obrigados a ir de encontro ao que evitávamos manter contato.

Vitor atravessou a rua correndo e tocou a campainha da casa do seu Arthur. Alguns minutos depois saiu dona Olímpia. Vitor contou que seu pássaro havia fugido e que viu ele pousando na goiabeira da frente da casa deles. Seu Arthur, que viu a mulher indo em direção ao portão, interrompeu a conversa lá de dentro perguntando: “Quem é, mulher?”. Ela se virou de costas e, olhando no rosto do marido, disse: “É o menino que mora aí na frente. O canário dele fugiu e ele acha que está aqui na nossa árvore”. “Manda ele esperar aí que eu vou pegar meus óculos e uma ferramenta pra ajudar” – respondeu o dono da casa.
Vitor sentiu um enorme frio na barriga. Começou a imaginar que seu Arthur traria alguma ferramenta para lhe punir por alguma daquelas vezes que aprontou com seus amigos. Suas pernas finas começaram a tremer e ele sentiu uma enorme vontade de sair correndo e voltar pra casa. Foi quando avistou o velho Arthur, que saiu pelos fundos da casa até sua oficina e deu a volta pelo quintal, empunhando uma vara. Em pensamento Vitor já tinha atravessado a rua, fechado o portão da sua casa quando a parte final da vara chegou a seu campo de visão e ele viu um aro e um saco de tule. “Uso isso pra apanhar manga lá no fundo, acho que pode nos ajudar a pegar seu canário” – disse o senhor – “vamos lá, me mostra onde ele está, menino”.
“Eu não sei direito, mas fiquei de olho e ele não saiu daqui” – respondeu Vitor enquanto dava voltas no pé de goiaba. Dona Olímpia, sentada na varanda, interrompeu: “Você tem que falar com o meu marido com a boca voltada para os olhos dele. Ele perdeu a audição no tempo em que trabalhou na mineração, mas consegue ler o movimento do seu lábio.” Vitor enxergou o canário bem no alto e apontou o dedo em sua direção, sem lembrar da instrução que havia acabado de receber. “Olímpia, busca uma caixa de sapato”, disse o velho à esposa. Em seguida, combinou com Vitor: “Temos de agir rápido pro seu canário não escapar. Eu vou dar o bote com a rede e trazer em sua direção, você vai estar com a caixa e vai tampar o aro pra ele não escapar, depois eu te ajudo a colocar ele dentro da caixa”. “Tá certo” – respondeu o menino.
O velho partiu para a captura empunhando a ferramenta e foi em direção ao topo da árvore, onde estava o canário. Vitor se posiciona a distância exata do comprimento da vara para que seu Arthur pudesse descer a rede diretamente na direção da caixa. Quando balançou a rede pelas costas do canário, o pássaro voou. Embora Arthur dispusesse de grande vigor físico, os 77 anos lhe trouxeram como consequência alguma lentidão nos movimentos, tempo suficiente para o pássaro escapar, sabe-se lá pra onde.
Arte deWeberson Santiago
O velho ficou decepcionado e pediu desculpas por não ter conseguido. O menino ficou dividido entre a tristeza de ter perdido seu canário e a pena do velho que teve tão boa vontade. Os dois estavam cabisbaixos quando o velho disse: “Tive uma ideia! Venha aqui que eu quero te mostrar uma coisa”.
Vitor seguiu Arthur pelo quintal até a área coberta do fundo, onde também havia um cômodo. Lá estavam diversas ferramentas, madeiras, troncos, móveis. “O senhor é que fez isso aqui?” – perguntou apontando as pequenas esculturas de madeira. “Sim, desde que me aposentei da mineração, trabalho como marceneiro, mas não é isso que eu queria te mostrar”.
E continuou: “Olha aqui, eu tenho esse casal de Diamante de Gould. A fêmea botou quatro ovos anteontem. Daqui a 16 dias eles vão nascer e um deles será seu. Volte daqui a duas semanas para ver se a cria vingou e quando tiver com três semanas de vida você já pode levar pra sua casa. Vitor saiu de lá empolgado. Nunca tinha visto um pássaro daquele, com cores tão diferentes. Entrou em casa correndo, contando pra mãe que iria ganhar um pássaro do vizinho e só se lembrou da perda do canário quando viu a gaiola vazia. A mãe ficou preocupada com a aproximação dos dois, já que a fama do vizinho não era boa, mas pensou que a história acabaria quando o pássaro viesse pra casa. Para Vitor, duas semanas pareciam uma eternidade.
UM CAFÉ E A CONTA!
| O que causa estranheza de longe pode causar uma agradável surpresa quando nos aproximamos.

Vitor não aguentou e resolveu contar para os amigos naquele mesmo dia que havia entrado na casa do velho e ficado amigo dele. Jorjão e Remela admiraram a coragem do amigo e pediram para ir junto quando ele fosse buscar o pássaro. Na véspera de ir buscar o pássaro, Vitor não conseguia dormir. A mãe só lhe autorizou passar de lá na volta da escola. O sinal tocou e Vitor disparou no caminho de volta e chegou ofegante na casa do velho Arthur, deixando os amigos para trás.
Dona Olímpia levou o menino até o fundo onde estava o marido e ele viu o filhote pelado no ninho, junto da mãe. A cria tinha vingado, mas ele precisaria esperar alguns dias até poder leva-lo pra casa. Ele já ficou satisfeito em ver o bichinho vivo. Dona Olímpia estava acabando de fazer o almoço e convidou o menino pra ficar e comer com eles. Ele disse que precisava avisar a mãe. Deu um pulo em casa, jogou a mochila e avisou a mãe que voltaria lá. A mãe consentiu, mas viu que teria de se aproximar da vizinha para ver quais eram as intenções do casal.
Enquanto almoçavam, Seu Arthur explicou como alimentar e cuidar do Diamante de Gould. Dona Olímpia questionou qual seria o nome do pássaro. Vitor respondeu prontamente: “Vai se chamar Gavião, dona”. Os velhos riram. Quando acabaram, Arthur convidou Vitor pra chegar na oficina. Arrumou uma cadeira pequena que parecia ter sido feita sob encomenda para acomodar o menino e o colocou num canto seguro longe das ferramentas, para que o velho pudesse trabalhar e, ao mesmo tempo, olhar no rosto do menino para fazer a leitura labial.
Arte de Weberson Santiago
Nasceu aí uma grande amizade entre o menino e o velho. Por duas ou três vezes na semana, Vitor frequentava a casa do casal. Às vezes ia direto da escola e almoçava lá. Outro dia aparecia mais tarde e comia um pedaço do bolo de fubá da Dona Olímpia a tomava café com seu Arthur no intervalo entre as horas de trabalho. Vitor passava as tardes observando o velho trabalhar e construir objetos de madeira dos mais variados. Todo aniversário do garoto, o velho Arthur lhe fazia um presente de madeira. Cerca de três anos se passaram, enquanto Vitor assistiu os movimentos do carpinteiro ficarem mais lentos. Percebeu o aumento da sua dificuldade ao usar a força e viu a catarata dificultar a visão e a leitura labial. Já tinha ouvido todas as suas histórias do garimpo, as aventuras da juventude, sabia de cor a história de como ele conheceu a esposa. Vitor sabia o motivo de cada ruga de Arthur e que a carpintaria era o seu esqueleto, o que o mantinha de pé.
Foi a decadência do corpo do velho mais o interesse aguçado do garoto que fizeram com que Vitor começasse como ajudante e fosse aprendendo passo-a-passo a ser um carpinteiro. Vitor ajudava a atender os clientes, fazia cobranças dos móveis comprados em parcelas. Aos quatorze anos era os olhos, os ouvidos e o braço direito do velho Arthur. O adolescente era o filho e o neto que Arthur e Olímpia não tiveram. O casal eram os avós que Vitor não teve presentes porque moravam longe.
Aos oitenta e quatro anos, pela manhã, Seu Arthur estava trabalhando numa estante quando começou a passar mal e caiu no chão desacordado. Dona Olímpia se assustou quando chegou com o café e encontrou o marido no chão. Ele já estava morto, vítima de uma parada cardíaca.
Quando Vitor saiu da escola, seus pais estavam parados na frente da casa dos velhos. O menino estranhou encontrá-los ali. A mãe o pegou pela mão, o pai lhe colocou a mão no ombro e lhe deram a notícia da perda do amigo. Vitor saiu correndo, subiu o morro onde ele soltava pipa quando era mais novo e ficou sozinho por algum tempo. Não se conformava com o que havia acontecido. Voltou pra casa nervoso, revoltado. Entrou batendo a porta e seguiu em direção a gaiola onde estava o Gavião. Pegou a gaiola e foi até a frente da casa. Abriu a portinhola.
O pássaro ficou parado. O menino ficou olhando. De repente ele saiu do poleiro e pousou na porta da gaiola. Vitor não fez nada para impedir e ele bateu asas. O menino viu pelas grades para onde.
Ele havia ido em direção à oficina, no fundo da casa dos velhos. Demorou alguns dias mas Vitor entendeu o recado. Se ele quisesse que o espírito do velho Arthur continuasse vivo, teria de continuar a carpintaria.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Nós escolhemos as heranças que carregamos para o resto de nossas vidas.

Publicado em três partes no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, nas capa do caderno Dois das edições Nº 1359, 1361 e 1363.


sábado, 11 de julho de 2015

O Menino que se Tornou Olhos e Ouvidos - Parte 3

Arte de Weberson Santiago



Vitor não aguentou e resolveu contar para os amigos naquele mesmo dia que havia entrado na casa do velho e ficado amigo dele. Jorjão e Remela admiraram a coragem do amigo e pediram para ir junto quando ele fosse buscar o pássaro. Na véspera de ir buscar o pássaro, Vitor não conseguia dormir. A mãe só lhe autorizou passar de lá na volta da escola. O sinal tocou e Vitor disparou no caminho de volta e chegou ofegante na casa do velho Arthur, deixando os amigos para trás.
Dona Olímpia levou o menino até o fundo onde estava o marido e ele viu o filhote pelado no ninho, junto da mãe. A cria tinha vingado, mas ele precisaria esperar alguns dias até poder leva-lo pra casa. Ele já ficou satisfeito em ver o bichinho vivo. Dona Olímpia estava acabando de fazer o almoço e convidou o menino pra ficar e comer com eles. Ele disse que precisava avisar a mãe. Deu um pulo em casa, jogou a mochila e avisou a mãe que voltaria lá. A mãe consentiu, mas viu que teria de se aproximar da vizinha para ver quais eram as intenções do casal.
Enquanto almoçavam, Seu Arthur explicou como alimentar e cuidar do Diamante de Gould. Dona Olímpia questionou qual seria o nome do pássaro. Vitor respondeu prontamente: “Vai se chamar Falcão, dona”. Os velhos riram. Quando acabaram, Arthur convidou Vitor pra chegar na oficina. Arrumou uma cadeira pequena que parecia ter sido feita sob encomenda para acomodar o menino e o colocou num canto seguro longe das ferramentas, para que o velho pudesse trabalhar e, ao mesmo tempo, olhar no rosto do menino para fazer a leitura labial.
Nasceu aí uma grande amizade entre o menino e o velho. Por duas ou três vezes na semana, Vitor frequentava a casa do casal. Às vezes ia direto da escola e almoçava lá. Outro dia aparecia mais tarde e comia um pedaço do bolo de fubá da Dona Olímpia a tomava café com seu Arthur no intervalo entre as horas de trabalho. Vitor passava as tardes observando o velho trabalhar e construir objetos de madeira dos mais variados. Todo aniversário do garoto, o velho Arthur lhe fazia um presente de madeira. Cerca de três anos se passaram, enquanto Vitor assistiu os movimentos do carpinteiro ficarem mais lentos. Percebeu o aumento da sua dificuldade ao usar a força e viu a catarata dificultar a visão e a leitura labial. Já tinha ouvido todas as suas histórias do garimpo, as aventuras da juventude, sabia de cor a história de como ele conheceu a esposa. Vitor sabia o motivo de cada ruga de Arthur e que a carpintaria era o seu esqueleto, o que o mantinha de pé.
Foi a decadência do corpo do velho mais o interesse aguçado do garoto que fizeram com que Vitor começasse como ajudante e fosse aprendendo passo-a-passo a ser um carpinteiro. Vitor ajudava a atender os clientes, fazia cobranças dos móveis comprados em parcelas. Aos quatorze anos era os olhos, os ouvidos e o braço direito do velho Arthur. O adolescente era o filho e o neto que Arthur e Olímpia não tiveram. O casal eram os avós que Vitor não teve presentes porque moravam longe.
Aos oitenta e quatro anos, pela manhã, Seu Arthur estava trabalhando numa estante quando começou a passar mal e caiu no chão desacordado. Dona Olímpia se assustou quando chegou com o café e encontrou o marido no chão. Ele já estava morto, vítima de uma parada cardíaca.
Quando Vitor saiu da escola, seus pais estavam parados na frente da casa dos velhos. O menino estranhou encontrá-los ali. A mãe o pegou pela mão, o pai lhe colocou a mão no ombro e lhe deram a notícia da perda do amigo. Vitor saiu correndo, subiu o morro onde ele soltava pipa quando era mais novo e ficou sozinho por algum tempo. Não se conformava com o que havia acontecido. Voltou pra casa nervoso, revoltado. Entrou batendo a porta e seguiu em direção a gaiola onde estava o Falcão. Pegou a gaiola e foi até a frente da casa. Abriu a portinhola.
O pássaro ficou parado. O menino ficou olhando. De repente ele saiu do poleiro e pousou na porta da gaiola. Vitor não fez nada para impedir e ele bateu asas. O menino viu pelas grades para onde.
Ele havia ido em direção à oficina, no fundo da casa dos velhos. Demorou alguns dias mas Vitor entendeu o recado. Se ele quisesse que o espírito do velho Arthur continuasse vivo, teria de continuar a carpintaria.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Nós escolhemos as heranças que carregamos para o resto de nossas vidas.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 11/07/2015, Edição Nº 1363.

sábado, 27 de junho de 2015

O Menino que se Tornou Olhos e Ouvidos - Parte 2

Arte de Weberson Santiago


Continuação do conto publicado na edição 1.359. A primeira parte está disponível clicando aqui.
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Vitor atravessou a rua correndo e tocou a campainha da casa do seu Arthur. Alguns minutos depois saiu dona Olímpia. Vitor contou que seu pássaro havia fugido e que viu ele pousando na goiabeira da frente da casa deles. Seu Arthur, que viu a mulher indo em direção ao portão, interrompeu a conversa lá de dentro perguntando: “Quem é, mulher?”. Ela se virou de costas e, olhando no rosto do marido, disse: “É o menino que mora aí na frente. O canário dele fugiu e ele acha que está aqui na nossa árvore”. “Manda ele esperar aí que eu vou pegar meus óculos e uma ferramenta pra ajudar” – respondeu o dono da casa.
Vitor sentiu um enorme frio na barriga. Começou a imaginar que seu Arthur traria alguma ferramenta para lhe punir por alguma daquelas vezes que aprontou com seus amigos. Suas pernas finas começaram a tremer e ele sentiu uma enorme vontade de sair correndo e voltar pra casa. Foi quando avistou o velho Arthur, que saiu pelos fundos da casa até sua oficina e deu a volta pelo quintal, empunhando uma vara. Em pensamento Vitor já tinha atravessado a rua, fechado o portão da sua casa quando a parte final da vara chegou a seu campo de visão e ele viu um aro e um saco de tule. “Uso isso pra apanhar manga lá no fundo, acho que pode nos ajudar a pegar seu canário” – disse o senhor – “vamos lá, me mostra onde ele está, menino”.
“Eu não sei direito, mas fiquei de olho e ele não saiu daqui” – respondeu Vitor enquanto dava voltas no pé de goiaba. Dona Olímpia, sentada na varanda, interrompeu: “Você tem que falar com o meu marido com a boca voltada para os olhos dele. Ele perdeu a audição no tempo em que trabalhou na mineração, mas consegue ler o movimento do seu lábio.” Vitor enxergou o canário bem no alto e apontou o dedo em sua direção, sem lembrar da instrução que havia acabado de receber. “Olímpia, busca uma caixa de sapato”, disse o velho à esposa. Em seguida, combinou com Vitor: “Temos de agir rápido pro seu canário não escapar. Eu vou dar o bote com a rede e trazer em sua direção, você vai estar com a caixa e vai tampar o aro pra ele não escapar, depois eu te ajudo a colocar ele dentro da caixa”. “Tá certo” – respondeu o menino.
O velho partiu para a captura empunhando a ferramenta e foi em direção ao topo da árvore, onde estava o canário. Vitor se posiciona a distância exata do comprimento da vara para que seu Arthur pudesse descer a rede diretamente na direção da caixa. Quando balançou a rede pelas costas do canário, o pássaro voou. Embora Arthur dispusesse de grande vigor físico, os 77 anos lhe trouxeram como consequência alguma lentidão nos movimentos, tempo suficiente para o pássaro escapar, sabe-se lá pra onde.
O velho ficou decepcionado e pediu desculpas por não ter conseguido. O menino ficou dividido entre a tristeza de ter perdido seu canário e a pena do velho que teve tão boa vontade. Os dois estavam cabisbaixos quando o velho disse: “Tive uma ideia! Venha aqui que eu quero te mostrar uma coisa”.
Vitor seguiu Arthur pelo quintal até a área coberta do fundo, onde também havia um cômodo. Lá estavam diversas ferramentas, madeiras, troncos, móveis. “O senhor é que fez isso aqui?” – perguntou apontando as pequenas esculturas de madeira. “Sim, desde que me aposentei da mineração, trabalho como marceneiro, mas não é isso que eu queria te mostrar”.
E continuou: “Olha aqui, eu tenho esse casal de Diamante de Gould. A fêmea botou quatro ovos anteontem. Daqui a 16 dias eles vão nascer e um deles será seu. Volte daqui a duas semanas para ver se a cria vingou e quando tiver com três semanas de vida você já pode levar pra sua casa. Vitor saiu de lá empolgado. Nunca tinha visto um pássaro daquele, com cores tão diferentes. Entrou em casa correndo, contando pra mãe que iria ganhar um pássaro do vizinho e só se lembrou da perda do canário quando viu a gaiola vazia. A mãe ficou preocupada com a aproximação dos dois, já que a fama do vizinho não era boa, mas pensou que a história acabaria quando o pássaro viesse pra casa. Para Vitor, duas semanas pareciam uma eternidade.
ef
Este conto chega ao fim daqui a duas edições do Democrata, em 15 dias.

UM CAFÉ E A CONTA!
| O que causa estranheza de longe pode causar uma agradável surpresa quando nos aproximamos.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 27/06/2015, Edição Nº 1361.

sábado, 13 de junho de 2015

O Menino que se Tornou Olhos e Ouvidos

Arte de Weberson Santiago



Vitor tinha quatro anos quando o Sr. Arthur se mudou para a casa do outro lado da rua com sua esposa, dona Olímpia. O casal não era de conversa e ninguém da rua sabia de onde tinham vindo. Pouco tempo depois da mudança, a vizinha fofoqueira, dona Elvira, procurou sua mãe para lhe contar o boato que corria na vizinhança. Diziam que o novo morador havia saído fugido de uma cidade do interior de Minas onde morava por ter matado um homem.
A vizinhança cultivou uma distância. Os homens acenavam ou diziam bom dia quando abriam o portão da garagem e encontravam seu Arthur na frente de casa. As mulheres sequer cumprimentavam dona Olímpia. O casal nunca tomou iniciativa para o entrosamento e manteve-se, de certo modo, isolado dos vizinhos.
De ouvir os comentários dos pais, as crianças cresceram com medo do casal. A partir dos sete anos, Vitor e seus amigos passaram a ir pra escola a pé e toda manhã de dia de aula tinham de passar pela calçada da casa de seu Arthur e dona Olímpia para chegar até a escola. Jorjão apertava a campainha da casa deles sem avisar os outros dois amigos e saia correndo na frente, seguido pelos dois. Remela jurava de pé junto que tinha visto um dia, pela fresta entre o portão e o muro, seu Arthur cortando um cadáver com o serrote no fundo do terreno. Todos da rua ouviam barulhos de ferramentas diariamente vindos de lá.
Depois dos sete anos de idade, Vitor perdeu um pouco do medo e passou a se interessar pelo que lhe causava estranheza. Um dia saiu pra escola sozinho e viu seu Arthur na porta. Desejou-lhe bom dia. Ouviu como resposta um murmúrio seguido de um bom dia mais pra dentro do que pra fora. Na semana seguinte, acompanhado de Jorjão e Remela, viu o seu Arthur de costas, recolhendo as folhas que varreu na calçada. Disse-lhe bom dia e teve o silêncio como resposta. Virando a esquina, os amigos lhe repreenderam:
— Tá louco, Vitor? – perguntou o Remela.
— Você não sabe que ele é um assassino? Não viu a enxada na calçada? Vai que ele resolve arrancar a sua cabeça fora! – emendou o Jorjão.
Vocês são dois cagões! – respondeu.
Num dia qualquer, após o almoço, a mãe de Vitor foi limpar a gaiola do canário de estimação do menino – batizado por ele de Falcão – quando, sem querer, o deixou escapar. Vitor, que estava por perto, viu que o canário pousou na cadeira da sala de jantar. Na ponta dos pés, se aproximou para tentar capturar o pássaro, mas ele percebeu sua aproximação e bateu asas, deu um rasante na sala de estar e escapou pela janela da frente, para fora da casa. Vitor, que seguiu o pássaro até a sala, subiu na mesa de centro e acompanhou a trajetória do pássaro. Ele foi na direção da casa do seu Arthur e pousou na goiabeira plantada na frente da casa.
Sua mãe, sentindo-se culpada, disse que lhe compraria outro. Mas ele não queria outro. Nenhum canário cantaria tão bonito quanto o Falcão. Se ele quisesse recuperar seu pássaro teria de pedir ajuda para o vizinho enfezado. A goiabeira ficava do lado de dentro da casa, atrás do muro, em frente da varanda da porta de entrada, onde o casal costumava ficar sentado algumas horas do dia.
Vitor não hesitou, atravessou e tocou a campainha.
ef
Este conto continua na edição do Democrata daqui a 15 dias.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Às vezes a vida nos impõe mudar de direção. Somos obrigados a ir de encontro ao que evitávamos manter contato.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 13/06/2015, Edição Nº 1359.

sábado, 30 de maio de 2015

Descascar o Abacaxi

Arte de Augusto Amato Neto



Em nome de uma vida mais saudável, resolvemos manter um estoque de frutas e verduras em nossa cozinha. A ideia era aumentar o consumo de alimentos naturais, o que diminuiria nossa ingestão de alimentos menos saudáveis.
Me lembrei da casa da minha avó, lugar onde comi as melhores frutas da minha vida. Sempre que ela servia uma fruta, ela estava no ponto, gelada e doce. A fruteira sempre repleta de frutas em espera do ponto ideal. Se eu queria o mesmo, conclui que deveria deixar que elas chegassem ao ponto.
Também deveria saber escolher as frutas. E segredos como puxar a folha da coroa do abacaxi e ver se ela se solta com facilidade foi coisa que eu aprendi com a minha avó.
O primeiro abacaxi que comprei ficou por três dias na fruteira. Ele exalava um perfume doce quando conclui que era a hora de descascá-lo e cortá-lo. Quando dei os primeiros golpes de faca descobri que um quarto do abacaxi estava estragado. Não deu pra salvar nada, acabou inteiro no lixo.
Não quis me dar por vencido. O segundo abacaxi comprei com orientação da moça que toma conta do hortifrúti. Pedi que ela me indicasse um abacaxi que estivesse pronto para cortar. Ela utilizou o truque de puxar uma folha da coroa e foi comparando um com o outro.
Cheguei em casa e comecei a descascar. Se você passa a faca muito superficialmente, o abacaxi fica cheio de pontas de cor marrom na lateral. Se você retira uma fatia muito grossa da casca, desperdiça uma parte da polpa. E enquanto você descasca, vai escorrendo uma calda por toda a pia. Descobri que tem que ser descascado em uma vasilha depois de fazer aquela lambança.
Achei que seria fácil, mas descobri o quão difícil é descascar um abacaxi. Não estou falando de resolver os problemas da vida, mas de conseguir aproveitar o melhor da fruta.
O segundo abacaxi eu consegui comer com a Natália e a Anelise. Depois que cortei, deixei gelar. Lá em casa, deixamos a canela num saleiro. Isto eu também aprendi com a minha avó. Eu salpico a canela no abacaxi e mando ver. Fica bom demais.
O terceiro abacaxi, a Natália descascou. Ela se saiu bem, estamos começando a aprender os segredos das frutas. Mas dois dias depois de cortado, ele já começou a escurecer na geladeira. Acabamos desperdiçando uma parte do abacaxi. Deveríamos tê-lo comido mais depressa.
É preciso aprender o tempo da fruta. Conhecer seus detalhes, seus sinais. É preciso dominar a prática. Não desistir facilmente na primeira vez que deu errado. Esse segredo de puxar as folhas nem sempre dá certo. Às vezes ela está dura pra sair mas o abacaxi está doce. Passei a analisar outros fatores: a coloração e o cheiro. Se dois dos três fatores estão indicando que ele está bom, abro o abacaxi. Por exemplo: se a folha se solta com facilidade e a cor está amarelada, pode abrir; ou se o cheiro está doce e a cor amarelada, está no ponto.
Escolher abacaxi é uma ciência. Descascar abacaxi é uma arte. Saudade do tempo em que eu encontrava o abacaxi descascado, fatiado e gelado na mesa.
Amadurecer é aprender a descascar seus próprios abacaxis.
UM CAFÉ E A CONTA!
| A complexidade também está presente nas coisas simples.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 30/05/2015, Edição Nº 1357.

sábado, 16 de maio de 2015

O Primeiro e Último Voo do Teodoro

Arte de Augusto Amato Neto


Foi numa fração de segundo. Enquanto a faxineira limpava a sua gaiola, num instante em que uma fresta ficou aberta. Ele fugiu. Eu assisti a cena. Foi tão rápido que não deu tempo de fazer nada. Num segundo ele estava dentro da gaiola, no outro saiu voando sem dar tempo de enxergar pra que lado foi.
Na hora partimos para a casa dos vizinhos para ver se ele estava nalguma árvore do quintal. Nem sinal dele.
Teodoro era nossa calopsita de estimação. Veio para nossa casa ainda filhote, há mais ou menos um ano. Quando eu fui busca-lo no pet shop, o vendedor insistiu em lhe cortar as asas mesmo eu dizendo que não queria. A partir deste dia ele passou a se esquivar e temer o contato com as mãos. Eu gastei um bom tempo tentando dessensibilizá-lo deste medo, mas ainda não tinha conseguido que ele confiasse em mim a ponto de subir em meu dedo. O ponto que eu havia chegado era o de colocar meu dedo em sua cabeça e lhe fazer um cafuné. Ele adorava: andava pra trás e voltava pra ganhar outro afago.
Se a interação não envolvia a mão, fluía melhor ainda. Alguns meses após chegar, Teodoro aprendeu a piar, depois a cantar. Estava treinando-o a assoviar a música do desenho do pica pau. Ele já havia aprendido as três partes separadas da música, mas ainda não conseguia cantá-la inteira. Teodoro morava na lavanderia, do lado de fora da cozinha, de frente a pia e ao fogão.
A primeira coisa que eu faço quando acordo é tomar água. Às cinco horas da manhã, era eu acender a luz e ele começava a assoviar a música (“re-re-re-re-rê”) e eu respondia continuando a música em assovio. E ele repetia este comportamento toda vez que eu passava pela cozinha. Às vezes assoviávamos um pro outro dos extremos da casa.
Trouxe o Teodoro para casa para alegrar nossos dias e ele alegrou muito. Já tínhamos um pássaro, a periquita australiana Yvonne. Ela já é mais velha e mais pacata, mas Teodoro conseguiu alegrar até a vida dela. Ele era cativante. Tão cativante que foi difícil aceitar o seu sumiço.
A Natália quando chegou em casa e ele não estava sentou no degrau da porta da cozinha e destampou a chorar. A Anelise não se conformou:
— Não tem como a gente ensinar a Yvonne a falar pra ver se ela viu pra onde ele foi e nos dar alguma pista? – questionou a pequena.
Durante alguns dias, eu acordava e ia pro quintal. Chegava do trabalho e ia pro quintal. Dava o assovio inicial (“re-re-re-re-rê”) para ver se ele respondia, na esperança que ele estivesse por perto. O silêncio me doía. A Natália resolveu deixar a porta da gaiola aberta, caso ele encontrasse o caminho de volta. E até hoje, nada.
Como é ruim acordar sem ele do lado de fora. Cozinhar aos finais de semana sem ele dependurado de ponta cabeça na gaiola.
Teodoro deu seu primeiro e único voo de liberdade, ganhando o mundo e nos deixando a saudade.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Se não for na minha gaiola, será na de outro alguém, então que seja na minha pra que eu possa cuidar bem.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 16/05/2015, Edição Nº 1355.

sábado, 2 de maio de 2015

Imagens do Rio de Janeiro

Foto de Augusto amato Neto


Quando o avião percorre um trecho do litoral e se aproxima do Rio de Janeiro já é possível entender porque aquela paisagem encanta desde o descobrimento do país. Na descida para aterrisagem no Aeroporto Santos Dumont, ao passar ao lado do Cristo Redentor no Corcovado, da Urca e do Pão de Açúcar fica fácil compreender porque aquela cidade inspirou tantos poetas, escritores, músicos. São trezentos e sessenta graus de belezas esculpidas pela natureza.
Quando se conhece o Rio de perto, percebe-se que o Cristo Redentor só olha por metade da cidade e dá as costas à outra metade, como fala o Chico Buarque na letra da música Subúrbio. É uma cidade de contrastes: de um lado o condomínio de luxo, girando levemente o pescoço vê-se a favela. É uma cidade encantadora e incômoda ao mesmo tempo. De um lado da montanha as paisagens são bonitas de onde quer que se esteja. Do outro lado do morro tudo é cinza.
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Andando pelas ruas de diversos bairros do Rio, sentia um cheiro de esgoto ou de ralo que me fazia procurar um bueiro vazando. Não achava. De repente, meu olfato era invadido por um perfume delicioso no meio da multidão. Não sei seu nome, queria perguntar a quem estava usando, mas não tinha como identificar no meio de tanta gente. A estada oscilou entre os dois odores opostos.
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Esperando um ônibus no ponto com a Natália, vi um homem de cinquenta anos segurando na mão de filho de aparentes vinte anos. Nitidamente o garoto tinha desenvolvimento atípico, mas não sei qual transtorno ele tinha. Pararam do nosso lado, enquanto o filho batia com a unha nos dentes incisivos repetidamente. Ele se virou e questionou: - “Pai, a vida é difícil?”. Nesse entremeio o ônibus deles chegou e o pai lhe respondeu “É.” enquanto lhe pegou pela mão e entrou no ônibus.
Noutro dia, almoçávamos na Confeitaria Colombo do Forte de Copacabana quando notei uma família. Os pais de um lado da mesa e o filho, portador de Síndrome de Down, do outro lado acompanhado de sua namorada. Ela tinha a cabeça pequena em relação ao corpo, mas parecia não ter comprometimento cognitivo. A felicidade dos quatro era transbordante. Durante todo o tempo que estive lá, as risadas foram muitas. Os pais tomaram um vinho, enquanto o jovem casal competiu na hora de dividir a sobremesa. Foi a cena de convivência familiar mais leve e bonita que presenciei na minha vida, já que não era um filme ou cena de novela.
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Exatamente metade dos motoristas e cobradores de ônibus, balconistas de restaurantes, supermercados e padarias foram extremamente gentis, cordiais e solícitos em nossos pedidos mais diversos. Riram de quando eu falava o erre caipira ao perguntar ou pedir qualquer coisa, mas se contiveram por educação. A outra metade estava de muito mau humor e fazia questão de deixar claro que estava tomado pela ira. Não costumo ser maltratado pelos insatisfeitos com o trabalho ou com a vida, e fui um bom bocado maltratado no Rio. Como estava a passear, ignorei a grosseria e recorri às imagens boas que haviam passado.
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Conheci a famosa noite boêmia da Lapa. Descemos na Marina da Glória e fomos caminhando até os arcos da lapa. Nos entremeios do bairro, cruzei pontos de prostituição, feiras de objetos usados expostos em tapetes usados, muita pobreza até chegar no casarão antigo transformado em bar. No ar-condicionado, curti o som do cantor e compositor da nova geração do samba Moyseis Marques, acompanhado da Banda Joia Rara. Do meu lado esquerdo um casal de alemães, do lado direito um casal e uma mulher mais velha falavam espanhol. Passávamos frio com o ar condicionado, os gringos já haviam retirado casacos das bolsas quando pedi para diminuírem o ar condicionado. As duas mesas ao lado me agradeceram. Ficaram mais felizes com a minha atitude do que quando viram a caipirinha chegando. Ninguém vai ao Rio para passar frio.
UM CAFÉ E A CONTA!
| Apesar de todas as agruras, as belezas compensam. Voltaria para ficar o dobro do tempo que passei no Rio.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do caderno Dois, 02/05/2015, Edição Nº 1353.