quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

À Carpinejar

Ela gosta das verdades do amor

Porque encontra nelas o que é comum nos relacionamentos.

Descobre que nos é permitido apenas “felicidade à vista”, vivida no ato.

Que o amor precisa mais de exalação do que de inspiração.

Então ela dá sentido ao que vive: “a paixão é o medo de se perder; o amor é o medo de perdê-lo”.

Percebe então que as palavras não ditas a deixam nervosa.

E se acalma com as doses de verdade em letras e espaços.

Desvenda que “o amor é não pedir segredo e ser todo guardado”.

É-lhe dito que “o pessimista no amor não é o que pensa que a relação pode acabar, e sim aquele que pensa que a relação nunca existiu”.

Revelado que “amor é quando a gente conta o que está acontecendo para todo mundo e o segredo nunca se esgota”.

E que “o verdadeiro amor platônico começa depois da transa”.

O que a leva a concluir que “costumamos chamar de amor o que a gente já conhece, mas que ele é o que não sabemos”.

Porém, e se ela vier a acreditar que não pode vivê-lo?

É porque não aceita que o amor que ele pode lhe dar não é o que ela espera.

Mas, enfim, ela suspira aliviada ao ler:

“No amor, em algum momento, você terá que ser ingênuo e acreditar. Terá que largar uma vida, refazer sua vida. Terá que abandonar a filosofia pessimista, a inteligência solteira do botequim e se declarar apaixonado. Terá que ser incoerente, contradizer fundamentos inegociáveis. Terá que rasgar a certidão negativa, a proteção bancária, os manifestos de aversão ao casamento e filhos”.

E a pergunta que não quer calar:

Esta ela à Carpinejar?

-oOo-

Entre aspas aforismos de autoria de Fabrício Carpinejar extraídos de seu Blog e Twitter [carpinejar.blogspot.com][twitter.com/CARPINEJAR].






21.01.2010


domingo, 17 de janeiro de 2010

Domingo-Feira

Domingo definitivamente é dia da feira. Qualquer cidade que se preze tem feira aos domingos. E resta alguma dúvida de que a feira é um lugar excelente para observar comportamentos?

A feira é descendente do escambo, a famosa troca de mercadorias que foi forma dominante de comércio nalgum lugar de nossa história. Se você quer realmente conhecer uma cidade, conheça a sua feira, ela dará a ficha completa: alimentos típicos, formas de preparo, pessoas e hábitos, poder aquisitivo e distribuição de renda, oportunidade de conversar e interagir.

O comum entre todas é que começam cedo, antes do sol raiar, mas os melhores preços são os do fim da feira, o que ocorre geralmente pouco depois do meio dia e é conhecido no Brasil como hora da xepa. No sul é chamado de guimba.

A feira é como o samba, tem o dom de agregar pessoas de todas as classes sociais. As crianças contam moedas, os adultos choram o desconto. Quem resiste ao produto trazido direto do produtor, recém colhido e fresco?

Costumava freqüentar a feira da Rua João Guimarães Rosa, travessa da Consolação e da Augusta, a um quarteirão de minha casa em São Paulo. Aproveitava o Minhocão interditado para pedestres e ciclistas pra dar uma volta e ia à feira. O bacalhau fresco era uma das opções que levava pro almoço. Há uma semelhança entre o trânsito das ruas e das feiras em São Paulo: a concorrência entre carrinhos é grande, e a pressa é companheira até na hora da feira. Os feirantes gritam para atrair os fregueses, alguns até se posicionam à frente da barraca oferecendo degustação seguida de um “não vai levar mesmo?”.

Hoje vou à da Rua Pernambuco, em Mococa. Também muito freqüentada, tem produtores que vendem seus cultivos apenas aos domingos. Não se houve gritos dos feirantes, apenas o burburinho das vendas e conversas. A comida típica é uma das partes mais interessantes de qualquer feira. Hoje assisti a uma senhora montando as pamonhas com queijo e cozinhando na hora e fiquei até agradecido em ficar na fila, pois vi a feitura antes de trazê-la pra casa. O pastel é um clássico da feira, geralmente cada um tem a sua barraca preferida. É impossível sair com poucas sacolas, mesmo com pouco dinheiro.

Engana-se quem pensa que apenas comida é vendida na feira. Quem não se importa com a pirataria volta pra casa cheio dos filmes inéditos, roupas, tênis e sapatos. Pode-se esolher mudas diversas, galinhas vivas, apetrechos de cozinha, brinquedos e até pen drive e MP3 player.

Indico que procure a mais próxima e freqüente aos domingos. Dá até pra paquerar na feira!

Uma dica: percorra todas as barracas até última e faça as comprar na volta, assim não corre o risco de achar mais barato ou de melhor qualidade depois que já comprou.





17.01.2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Tribunal do Júri: in dubio pro reo ou in dubio pro societate?


Sala ampla com móveis de madeira maciça. Púlpitos diversos para acomodar juiz, promotora, escrivã, advogados de defesa e lugar para sete jurados escolhidos entre vinte e um convocados para o sorteio. Um entalhe logo abaixo do juiz, a balança, símbolo da justiça.

A sessão inicia-se com o pedido de entrada do réu escoltado para o sorteio do júri. O juiz faz a lista de chamada para os jurados convocados, dos presentes sorteia um e submete à aceitação da promotoria e da defesa até que sete tenham sido aprovados. Os demais estão dispensados, ao passo que os sete não tem hora pra sair, devem permanecer isolados e incomunicáveis até o final da sessão. Está composto o Júri formado por pessoas da sociedade e que julgará o crime doloso, entenda-se intencional, contra a vida.

Lugares ocupados, os jurados recebem a sentença de pronúncia, que pode ser entendida como os relatos dos fatos ocorridos colhidos em diferentes momentos entremeados pelas análises do juiz que se pronuncia e pede uma avaliação do júri para um possível crime. A sentença nada mais é que o magistrado dizendo o que sente. Sendo o crime de competência do juiz e estando ele em dúvida, deverá absolver o réu diante da máxima in dubio pro reo (em dúvida, a favor do réu). Com base na doutrina e na jurisprudência, na fase de pronúncia vigora o princípio in dubio pro societate (na dúvida, em favor da sociedade). Sob este enfoque, quando encaminhado ao colégio popular, somente a prova descontaminada de dúvidas em favor do réu poderia impedir sua condenação, ou seja, absolvê-lo.

A sentença de pronúncia satisfaz os detalhistas:

“Denunciados como incisos nas penas do Artigo 978, § único do Código Penal, artigo 14, inciso III, IV e V da lei 77.257/00. (...) Narra a denúncia que no dia 25 de junho de 2007. (...) Consta da denúncia que o réu estava acompanhado por (...). Em consonância com a denúncia foram encontrados dois revólveres (...). Os acusados dizem (...). Os defensores dos acusados alegam (...)”. Tudo recheado de depoimentos diversos, por vezes contraditórios, provas colhidas e analisadas. Conclui então “O acusado está sendo submetido a julgamento perante o tribunal do júri em razão de crime a ele imputado (...)”.

O juiz chama o réu para que sente a sua frente e pergunta o nome, alguns dados pessoais e faz perguntas como: o que aconteceu na noite do dia 25 de junho de 2007? Conhecia os demais presentes? O que foram fazer naquela cidade? Qual a razão de parar naquela praça? Todas as questões têm respostas evasivas, com o objetivo de evitar comprometimentos. O juiz oferece a palavra ao colégio popular e à promotora, mas ambos decidem não fazer mais perguntas.

- Você quer dizer mais alguma coisa? – pergunta o juiz.

- Sou inocente – economiza o réu.

O juiz solicita a promotora para defender o direito coletivo através de sua denúncia. O trabalho do promotor é de promover o ocorrido de forma a fundamentar uma culpabilidade evidente de forma que convença o júri. Uma boa dose de persuasão é necessária, todavia pode soar como exagero ou cinismo, tendo em vista que insiste em outra direção que não a do discurso defensivo monossilábico do réu. Seu desafio é utilizar-se dos dados (depoimentos e provas) de forma clara e precisa provando a ocorrência do crime. Assim, estará fazendo seu papel de representante do Estado perante o juiz.

Este último passa a palavra para a defensoria, mas não antes da pausa para o almoço. Todos, com exceção do réu, dirigem-se para o refeitório. Jurados não devem proferir uma palavra sequer sobre o caso. Após almoço, repouso pós-prandial e café, todos retornam e o juiz retoma passando a palavra à defesa.

Parece mais nobre defender ao invés de acusar, entretanto, a depender do crime cometido, fica difícil o convencimento da justificativa para uma absolvição. Nestas situações, o advogado de defesa sai à caça de possíveis lacunas na lei criminal para abonar qualquer diminuição de responsabilidade e, portanto, de pena.

Quando terminado a defesa, oferece-se a réplica para a procuradora e a tréplica à defesa, ambas podem ser recusadas. Aos jurados o juiz pergunta se sentem-se capazes de julgar o caso, dispensa o réu e todos vão para a sala secreta. Bem, a sala não é nem um pouco secreta, fica atrás da tribuna. O que é secreto é o voto de cada um dos sete componentes. O juiz expõe as assertivas que deverão ser respondidas com sim ou não. As respostas são recolhidas em um saco preto e a outra descartada em outro saco. Com quatro respostas define-se a culpa ou não na contagem dos votos para cada critério. Terminada a sessão, o juiz retira-se para elaborar a sentença.

A sentença é um relatório que revela a argumentação do juiz. No Brasil o juiz é livre para decidir, desde que o faça em consonância com as provas dos autos e fundamente sua decisão, o que é chamado de princípio de persuasão racional.

O réu é chamado e volta à frente do juiz, que pede que todos fiquem de pé para a leitura da sentença, condenatória ou não.

Animus necandi é a expressão em latim que significa intenção de matar e animus laedendi significa intenção de ferir. Após a senteça, a verdade está consumada pelo julgamento, a despeito de qualquer questão subjetiva. O réu pode recorrer a instâncias superiores, mas só o faz quando não se conforma com a sentença, quando não perde nada em recorrer ou quando quer ganhar tempo.

Julgado e condenado.

Julgado e absolvido.






16/01/2010

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Medida

Acordar cedo demais arrasta o fim do dia, e aumenta a produtividade pela manhã.

Água em excesso deixa o café fraco, em pequena quantidade o deixa forte.

Falar demais é o melhor caminho para não ser ouvido, calar demais é ser passivo na comunicação.

Arroz com muita água fica empapado, com pouca fica duro.

De leve o frio refresca, em demasia resseca.

De longe o fogo ilumina, de perto queima.

Escrever forte demais marca as folhas seguintes do caderno, muito de leve fica ilegível.

Um barulhinho é bom, persistente torna-se confusão.

Um pouco de bagunça é parte do produzir, um tanto dela é uma balbúrdia.

Alguns quilos é sobrepeso, dezenas de quilos obesidade mórbida.

Um pouco de idéias, criatividade. Pensamento excessivo sem prática, ilusão.

Algumas pessoas formam uma fila, muitas delas uma aglomeração.

Vivemos buscando a medida certa.

E a melhor medida é aquela que cabe todo conteúdo.





08.01.2010

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

Camadas de Tinta II

Aquela não era a única porta com excesso de tinta, havia outra. Constatação importante: ela não tinha chave. Não é sabido quando deixou de ter aquilo que lhe permite a autoridade da porta. Uma porta sem chave é como um deficiente físico, por mais que supere suas dificuldades e continue na batalha, não recupera o que foi perdido.

O trinco da fechadura não encaixava no seu respectivo buraco no batente. A porta estava totalmente vulnerável, qualquer vento era capaz de levá-la. E sem chave para trancar. Diferentemente da outra, chegava a fechar, mas não com o trinco. Alguns excessos de tinta estavam atrapalhando o encaixe. Lixa, estilete e furadeira foram necessários para remover as camadas de tinta indesejadas em pontos específicos. Agora o trinco se encaixa, mantendo-a fechada quando necessário.

Por mais boa vontade que se tenha, ela continuará sendo uma porta sem chave. Talvez precisem trocá-la por uma com chave, ou trocam a fechadura ou toda a porta. Trocar de fechadura para uma porta é o equivalente a um transplante de coração. Há risco de rejeição e de óbito, mas reza-se para dar certo.

Que satisfação em ver que as portas podem ser fechadas! E abertas!

02.01.2010


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Receita de Crônica

Receita de Crônica

1 punhado de aforismos

400 g de idéias

200 g de argumentos

1 colher de açúcar

2 colheres de sal

Pitadas de poesia

Modo de Preparo

Separe um punhado de aforismos. Selecione um deles para ser ponto de partida. Agora retire o pacote de idéias da embalagem, mas não se esqueça de separar aquelas que se relacionam e fundamentam a idéia central, a saber, do aforismo selecionado.

Separados tais ingredientes, é preciso por a mão na massa. Encadeie as idéias, descrições, definições e pensamentos de forma que fiquem bem misturados. Toda massa precisa ser sovada, esta é a parte árdua. Não tenha medo de recomeçar, reescrever e apagar. É possível desistir de usar alguns dos ingredientes no meio do preparo.

Deixe a massa descansando por 30 minutos. Agora, analise o resultado da fermentação, verificando a qualidade do produto após o tempo de descanso. Experimente e ajuste com pitadas de sal e de açúcar, a depender do recheio escolhido.

Prepare a montagem e intercale camadas de massa e recheio, colocando as pitadas de poesia, que darão um toque especial para o degustador, no caso o leitor. Na hora de decorar o prato, verifique o paladar das palavras ao saborear com o ouvido. Cada prato é único, mesmo que a receita se repita, portanto, merece um título a cada preparo. Dê-o.