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sábado, 29 de setembro de 2012

Sentimento Escondido no Tumulto

Arte de Weberson Santiago



Em família, bastam alguns segundos. E tudo o que ia indo bem se torna uma grande confusão.

A Natália tinha acabado de acordar num domingo em que iria trabalhar e ido direto para o chuveiro. Eu havia levantado um pouco antes e estava as voltas com o café da manhã, imbuído da tentativa de aproveitar o pouco tempo que teríamos juntos naquele dia.

Até que a pequena Ane, ainda ensonada e já sabendo que a mãe iria trabalhar desde a véspera, foi até o banheiro, parou do lado de fora do box e disse:

— Mãe, eu quero tomar banho com você!

Da mesma maneira que eu queria arrumar o café para aproveitar a convivência, ela queria o banho para ficar um pouco mais perto da mãe. Acontece que ainda nem eram sete horas de uma manhã fria, e o banho poderia lhe render uma dor de garganta ou resfriado, preocupação excessiva e previsão improvável já que o amor previne doenças quando correspondido. Quando negamos o pedido, ela abriu o berreiro. Instalou a balbúrdia em nossos sentimentos apelando com o uso do choro e do grito. A desordem havia tomado conta. O que deveria ser o aproveitamento da única hora em família disponível se tornou um pesadelo. Birra e choro da parte de Anelise. Culpa de trabalhar dias e dias seguidos, e ainda estudar a noite, da parte da Natália. E eu tentando retomar o controle da situação, já arrependido de ser autoritário e não ter deixado ela tomar o banho com a mãe. Até tudo se acalmar, o relógio marcava a hora da Natália sair.

Foi a Natália dobrar a esquina e a Anelise estava calma e distraída enquanto contrariava as linhas retas das pautas do seu caderno com rabiscos coloridos. Foi então que eu entendi o que havia acontecido. Ela sabe muito bem ficar sem a mãe. A Natália trabalha bastante desde muito antes dela existir. Ela aprendeu a distância pouco depois que nasceu. A birra não era o sintoma da incapacidade de suportar a ausência. Era um manifesto de insatisfação pela vida exigir o contrário do que ela gostaria que acontecesse: querer passar um dia juntas.

O domingo que a Natália trabalha para mim já é uma segunda-feira. Eu disparo a preencher o tempo com períodos de trabalho e alguns momentos em família. Não é a mesma satisfação de quando estamos todos lá, fazendo as coisas que não couberam na semana, muitas vezes cada um num cômodo, mas sabendo que o outro está disponível dentro de casa. Já reparei que esse domingo em família é o que me renova a disposição pra começar mais uma semana. A Natália diz que sente o mesmo. Fica difícil deixar de lado a insatisfação dela ter que trabalhar no dia sagrado.

O mundo funcionava quando as coisas ainda não abriam aos domingos. Se eu pudesse, escolheria por todo mundo. O acesso as compras restrito até o sábado. O almoço da minha avó saía no domingo quando não tinha supermercado aberto. Ninguém precisava sair pelado porque a loja de roupas do shopping não estava disponível no domingo. Se eu conseguisse fechar o comércio noste dia, acredito que as pessoas seriam mais felizes, talvez até salvaguardaria o orçamento das famílias do endividamento. Os funcionários não atenderiam com tão pouco caso quando a vontade falasse mais alto e ele não quisesse estar ali naquele dia. Enquanto meu devaneio não se faz realidade, me sobra a opção de administrar os efeitos das ausências da Natália.

O que a Anelise precisa aprender é a lidar de uma forma diferente com a insatisfação de ver a sua mãe saindo pro trabalho no fim de semana. Aprender a aceitar a carência da companhia. Eu entendo bem o que se passa com ela. No começo do meu namoro com a Natália, quando ela tinha de trabalhar no domingo, eu cavava algumas brigas no sábado a noite. No dia seguinte, acordávamos separados por uma parede de travesseiros nos cantos da mesma cama, com o corpo em formato de parênteses contrariados, cada um pra um lado.

Eu prolongava a indiferença e o conflito economizando no bom dia. Enquanto sofria com os sentimentos da briga depois que ela havia saído, parei pra pensar porque eu fazia isso. Minhas atitudes não eram para para apaziguar os ânimos. Eu não queria entrar em acordo. Queria que a raiva dela que eu havia criado e nutrido me fizesse a companhia que ela não poderia me fazer. Entrar em consenso só aumentaria a saudade. Depois que eu percebi isso, passei a enfrentar o impedimento do amor de maneira menos infantil. Passei a cozinhar nos dias em que estou de folga e ela trabalha. Entre procurar a receita nos livros, comprar os ingredientes e preparar a comida, me distraio da saudade. Quando ela chega e encontra o jantar, vejo que consegui transformar toda a falta que ela me fez em temperos e na combinação de ingredientes.

A Ane precisa achar uma estratégia. Como a que eu arrumei para os momentos que sinto falta dela quando ela passa alguns dias na casa das suas avós, longe de mim. Eu roubo um CD da sua estante e coloco no meu carro. Durante a correria entre os compromissos de trabalho, ligo uma das suas músicas preferidas e imagino os percursos que fazemos juntos, cantando. É assim que eu não transformo mais as minhas insatisfações de saudade em confusões. Eu só não sei como eu posso ensinar isso pra ela sem que ela passe a dar falta dos seus discos preferidos.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Amadurecer não é deixar de ter sentimentos infantis. Amadurecer é voltar a ser criança para encontrar na espontaneidade a melhor forma de lidar com estes sentimentos.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 3, 29/09/2012, Edição Nº 1219. 

sábado, 15 de setembro de 2012

Toda Família é um Zoológico

Arte de Weberson Santiago



Toda família é um zoológico.Cheguei a esta conclusão quando assisti ao filme “Compramos um Zoológico”. O título lembra os filmes exibidos na sessão da tarde, mas o longa-metragem é belíssimo. Baseado na história real do jornalista Benjamin Mee, que perdeu sua esposa e decide se adaptar a esta situação, mas precisa de uma nova casa para viver com seus filhos, uma encantadora menina de cinco anos e um garoto adolescente com problemas na escola.

Buscando a nova casa na companhia de sua filha, se interessam por um imóvel na zona rural da cidade. Decididos a ficar com a propriedade, descobrem que ela é parte de um zoológico, e a exigência para concretizar o negócio é administrar os animais e salvar o zoológico, com a ajuda da equipe de funcionários tratadores. Benjamin aceita o desafio de reabrir o zoo e se muda para a casa com seus dois filhos.

A história se desenrola em torno da reabertura, mas o que me chamou a atenção no filme foram alguns pontos da história do personagem central com a sua mulher, já falecida no início do filme. As cenas de flashback mostram que o casal era muito feliz. Benjamin se dedicava a profissão de repórter intensamente. A mulher cuidava dos filhos e da casa, dando suporte para ele se dedicar inteiramente as suas reportagens e cobertura internacionais.

Minhas observações na vida me fazem acreditar que é possível se apegar pessoas insuportáveis e a relações difíceis, de maneira que a perda dessa pessoa possa ser um grande sofrimento, ainda que livre o seu cotidiano de uma boa dose de aborrecimento. O caso de Benjamin é o contrário, foi a perda de um grande amor, de uma parte importante de uma família que a fazia funcionar, que era importante para viver momentos felizes. A morte da mulher causa um desequilíbrio na trajetória familiar, exigindo que Benjamin se adapte. O filme me fez pensar que a perda de um grande amor só pode ser curada com a compra de um zoológico. Dizendo de uma maneira menos poética, que só é possível não se entregar diante da perda de um amor se arrumarmos um desafio para se dedicar, uma grande empreitada para se entregar.

Não como uma substituição de cuidados ou para esquecer a perda, e sim para aprender a suportá-la. Para lidar com a morte é preciso se distrair do buraco deixado pela partida de quem amamos e, enquanto isso, vamos processando a sua falta cuidando de algo. Encarar somente a dor da perda e se esquivar do que ficou no mundo é o que faz alguém se deprimir.

Durante a aventura com os animais e no gerenciamento da equipe de profissionais, Benjamin precisa superar seus limites para resolver coisas que ele nunca havia lidado na vida, como se aproximar do filho. Uma das cenas mais emocionantes é quando ele se nega a sacrificar um tigre muito velho, contrariando o parecer da veterinária. Foi na necessidade de aceitar a morte do tigre que ele decide deixar a saudade da esposa para trás, viver o presente e reconstruir sua vida afetiva.

Para saber se ele consegue reabrir o zoológico e qual o destino dessa família você terá que assistir o filme. Vale a ida até a locadora. Você pode pedir para o seu marido buscar o dvd. A não ser que ele seja do tipo bicho preguiça, daquele que se esparrama no sofá da sala e não é capaz de responder uma pergunta pergunta sequer depois de um dia de trabalho. Mas não desista, peça para o pavão. O pavão é o filho adolescente que privatizou o banheiro só pra ele, deixando todo o resto da família rugindo de raiva feito leão. Entre as horas trancado no banheiro e o isolamento na frente do computador (feito um cachorro diante do frango assado girando no espeto) o filho pavão pode buscar o dvd pra você.

Se as duas sugestões acima não parecem possíveis, o jeito é acordar com as galinhas e buscar você mesma. Ponha na TV assim que a família terminar o almoço. O marido preguiça e o filho pavão vão adorar o filme. Mesmo fazendo você de gato e sapato, terá valido a pena o esforço, sobrando apenas a pilha de louça para depois da subida dos créditos no final do filme. Administre o latido cachorro ou a briga entre o gato e a calopsita durante as partes mais importantes da história.

Só não tente convidar qualquer parente porco espinho. O convite vem com brinde: a certeza que você levará um espetada. Não adianta se arrepender depois do fim do filme. É preciso ser macaco velho e não esperar que as coisas deixem de ser como sempre foram. Não se deixe enganar com o cunhado ouriço, ele também tem espírito de porco e vai trazer uma caixa de cerveja pra assistir o filme, transformar o marido em cavalo no dia seguinte, cheio da ressaca, distribuindo coices.

Toda família é um zoológico. Um zoológico disfarçado que finge ser civilizado.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Os quartos podem se tornar jaulas. A escolha é entre domar as feras ou ser devorado por elas.



Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 15/09/2012, Edição Nº 1217. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

20 Coisas Que Não Me Avisaram

Arte de Weberson Santiago




Existem coisas que ninguém fala pra gente e temos de descobrir na prática. O problema é que as vezes demoramos para chegar a uma conclusão que, falada, certamente simplificaria nossa caminhada. Faço uma lista das coisas que descobri e que gostaria que tivessem me avisado.

Não me avisaram que os dias quentes não justificam a moleza [1]. Nunca fui avisado que a segunda-feira é um dia de adaptação [2]. Não me contaram que demoramos uma semana para se acostumar com o tempo livre das férias e que começamos a sofrer uma semana antes de retornar as atividades [3]. Nunca me disseram que férias só existem na infância, certamente teria aproveitado mais [4].

Se alguém tivesse me dito que o casamento deve combinar os três sentimentos, tudo seria mais fácil. Uma grande dose de amor com pitadas de paixão e amizade [5]. Se tivessem me avisado que o amor é menos explosivo que a paixão e que o amor é menos morno e seguro do que a amizade, talvez não tivesse tido tanta dificuldade nessa questão [6]. Se alguém tivesse me dito que eu passaria o resto da vida tentando equilibrar o amor, a paixão e a amizade, mais fácil seria encontrar o sentimento de felicidade [7].

Alguém se esqueceu de me avisar que promessa não é dívida, é compromisso [8]. Faltou dizer que é mais difícil cumprir o que prometemos a nós mesmos do que aquilo que firmamos com os outros [9]. E que comprometimento  verdadeiro são as ações que promovem o bem da maioria das pessoas. Não me avisaram que ser justo na conduta é o mesmo que ser protegido pela sua própria ação [10].

Ninguém me falou que o melhor amigo do homem não deveria ser o cachorro, mas sim o próprio homem [11]. Me disseram que sem atrevimento não é possível conquistar as coisas na vida, mas não me informaram que quando a ousadia for na hora errada, o resultado é o contrário do que se queria [12].  Tive de descobrir que uma atitude correta no contexto inadequado só pode trazer um resultado inesperado [13].

Esqueceram de me avisar que um dos desafios da vida é construir uma ponte entre o agir e o pensar, de forma que se estabeleça uma coerência [14]. Por não ter sido avisado, tive de superar o conflito entre o que eu penso e o que eu faço.

Não fui avisado que focinho de porco não é tomada e pensei que o aparelho estava quebrado, que faltava a energia e até que eu era azarado [15]. Não me preveniram que cada escolha tem suas consequências e que, feita a escolha, as outras opções devem ser deixadas de lado, esquecidas, ignoradas [16]. Nunca me disseram que a gente se acostuma com o que é ruim, que a gente se sujeita a situações humilhantes para manter o pouco daquilo com que nos apegamos [17].

Não fui conhecedor de que brincar com as palavras pode ser perigoso, mas precisei aprender a usá-las para me defender [18].

Ninguém me fez ciente que mataría boa parte do meus problemas se trabalhasse mais a aceitação e o comprometimento [19].

Nunca me ensinaram que amor não se exige, se dá. E que uma vez dado, não há como pedir de volta [20].

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O que não me avisaram, eu tive que aprender na prática, experimentando.


sábado, 23 de abril de 2011

Amor é Poupança e Não Jogo de Azar

Arte de Weberson Santiago


Durante algum tempo pensei que amor era jogo de azar. Vivia esperando a grande oportunidade. A cartada certeira na rodada que me garantiria uma relação feliz e duradoura. Quando percebia a oportunidade fazia um baita investimento, punha largas expectativas e me enganava acreditando que a minha vontade era mais do que o suficiente para provar o quando meus sentimentos eram fortes e para convencê-la de que estar ao meu lado era esbanjar alegrias no futuro.

Tudo isso até aprender, à duras penas, que o amor não é investimento de risco. Não é o tamanho do montante que dispomos inicialmente que determinará seu lugar no infinito. Amor é como poupança. Começa sem exigir valor mínimo de depósito e não promete facilidades em multiplicar a moeda. Quem poupa esperando rendimento se decepciona. Acompanhar obsessivamente os ganhos é garantia de frustração. É preciso dar espaço e tempo para poder render. O sentimento do encontro deve ser vivido, as lembranças das sutilezas merecem ocupar espaço nos devaneios, mas o amor não suporta viver de débitos e sobrevive com a concessão de créditos. Os juros desta conta estão no futuro, o investimento está no presente.

Chegava para mais uma sessão da terapia. Adentrava a sala de espera com as mãos ocupadas com papéis, carteira, chave do carro e celular. O velho hábito de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Fui pegar um café e perdi o equilíbrio como um malabarista iniciante. O café caiu na minha camisa e no chão com os objetos, evento seguido pelos olhares dos pacientes que aguardavam.

Saí em direção ao banheiro, peguei papel para limpar o chão e molhei a camisa na esperança de amenizar a mancha. Olho no espelho e vejo que, além da mancha, minha camisa estava com problema de alagamento. “Seca” - pensei. Voltei pro meu lugar no sofá como se nada tivesse acontecido, quando olhei e a peguei sorrindo. Ela tratou de disfarçar. O interesse não combina com olhar fixo, mas o olhar desviado é reincidente. Não era um sorriso de chacota, mas de quem havia acompanhado toda a cena e concluía algo a meu respeito. Foi ao vê-la ser chamada que descobri que ela buscava alívio para o desconforto na fisioterapia, enquanto eu buscava o conforto na psicoterapia.

Naquele dia tratei de outros assuntos com o terapeuta, mas aquele sorriso não saía da minha cabeça. Não saiu durante a semana inteira, assim como a ideia de encontrá-la na sessão seguinte e do medo da não repetição do encontro. Chegado o dia, não a vejo ao entrar e a decepção toma conta. De repente havia mudado de horário ou recebido alta. Para minha surpresa, ela chega após alguns minutos, mas ao mesmo tempo em que eu sou chamado para entrar. E ali, durante alguns segundos a gente se olhou com o interesse de algumas horas, sem que ninguém percebesse. Com algumas desviadas de olhar demonstramos alegria e constrangimento.

Na semana seguinte, nos encontramos chegando do lado de fora, quando nos apresentamos e começamos a conversar. Este passou a ser também o espaço para nossas esbarradas semanais. Passamos a chegar mais cedo para um pouco de papo, descobrindo um pouco mais um do outro. Queríamos a conversa e a disponibilidade para o encontro foi sendo naturalmente maior. Lembrávamos-nos da história do café e caíamos na risada. Ela se apaixonou pela minha disposição para consertar a besteira e pela minha indiferença com uma tentativa frustrada. Eu me apaixonei pelo seu sorriso divertido diante das minhas trapalhadas e pela ingenuidade madura de seu olhar.

Ensaiei algumas sessões para contar ao meu terapeuta esta história até o dia em que percebi o detalhe ignorado durante um ano frequentando o seu consultório. Uma frase do Mario Quintana em adesivo acima do batente da porta de saída do corredor. “O segredo não é correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Concluí que tem questões pessoais que não precisam ser abordadas em terapia para serem trabalhadas.

Continuamos adeptos da fisioterapia e da psicoterapia, mas o alívio para o desconforto dela e para a minha necessidade de conforto foram resolvidos na sala de espera.

UM CAFÉ E A CONTA!

| Findam-se as poesias e as metáforas, ficam os fatos.


Publicado no Jornal Democrata

Caderno Cultura, p. 3, 23/04/2011, Edição N° 1144.


sábado, 16 de abril de 2011

Domingo-Feira

Arte de Weberson Santiago



Domingo definitivamente é dia da feira. Qualquer cidade que se preze tem feira aos domingos. Um dia a feira de domingo foi tão importante que deu nome a todos os outros dias da semana, como se fossem a mera repetição deste evento semanário.

A feira é descendente do escambo, a famosa troca de mercadorias que foi forma dominante de comércio nalgum lugar de nossa história. Se você quer realmente conhecer uma cidade, conheça a sua feira, ela dará a ficha completa: alimentos típicos, formas de preparo, pessoas e hábitos, poder aquisitivo e distribuição de renda e uma oportunidade única de conversar e interagir.

O comum entre as feiras de domingo é que começam cedo, antes do sol raiar, mas os melhores preços são os do final, geralmente pouco depois do meio dia, o que é conhecido no Brasil como hora da xepa. No sul é chamado de guimba.

A feira é como o samba, tem o dom de agregar pessoas de todas as classes sociais. As crianças contam moedas, os adultos choram o desconto. Quem resiste ao produto trazido direto do produtor, recém-colhido e fresco?

Costumava frequentar a feira da Rua João Guimarães Rosa, travessa da Consolação e da Augusta, a um quarteirão do apartamento que morava em São Paulo. Aproveitava o Minhocão interditado para pedestres e ciclistas pra dar uma volta e ia à feira. O bacalhau fresco era uma das opções que mais me agradava. Há uma semelhança entre o trânsito das ruas e o das feiras em São Paulo: a concorrência entre carrinhos é grande, e a pressa é companheira até na hora das compras. Os feirantes gritam para os fregueses, numa espécie de buzinaço para atrair clientes. Alguns até se posicionam a frente da barraca oferecendo degustação seguida de um “não vai levar mesmo?”.

Também muito frequentadas, as feiras do interior tem produtores que vendem seus cultivos apenas aos domingos. Não se houve gritos dos feirantes como em Sampa, apenas o burburinho das vendas e conversas. A comida típica é uma das partes mais interessantes de qualquer feira. Uma vez assisti a uma senhora montando as pamonhas com queijo e cozinhando na hora e fiquei até agradecido em ficar na fila. Vi a feitura antes de trazê-la pra casa. É impossível sair com poucas sacolas, mesmo com quase nenhum dinheiro.

O pastel é um clássico da feira, geralmente cada um tem a sua barraca preferida. É tão reverenciado pelos visitantes que é possível encontrar alguém comendo um as sete da matina, com o toque especial do molho vinagrete ou da pimenta. Que o diga a Dona Penha, que todo domingo na Avenida Perimetral, em São José do Rio Pardo, recebe os recém-saídos da balada e mais aqueles que começam o domingo no pastel enquanto fazem a feira da semana. Também vou à da Rua Pernambuco, em Mococa, quando não passo nas duas.

Engana-se quem pensa que apenas comida é vendida na feira. Quem não se importa com a pirataria volta pra casa com os bolsos repletos de filmes inéditos, sacolas de roupas, tênis e sapatos. Pode-se escolher mudas das mais diversas, galinhas vivas, apetrechos de cozinha, brinquedos e até pen drive e MP3 player.

Indico que procure a mais próxima e a frequente aos domingos. A feira é a boutique do alimento de melhor qualidade. É o desfile de moda ao contrário em que desfilamos para observar o hortifrutigranjeiro. É o shopping center cuja praça de alimentação tem cara e gosto de interior. A diversidade de oportunidades é tanta que tem quem entre solteiro e saia casado da feira.

Uma dica: percorra todas as barracas até última e faça as compras na volta, assim não corre o risco de achar mais barato ou de melhor qualidade depois que já comprou.

UM CAFÉ E A CONTA!

| O banana é aquele que se eximiu da responsabilidade na hora de fazer e atribuiu o erro a quem fez. A banana com casca não deixa de ser uma banana.


Publicado no Jornal Democrata

Caderno Cultura, p. 3, 16/04/2011, Edição N° 1143.


sábado, 2 de abril de 2011

Padarias

Arte de Augusto Amato Neto


A padaria é como uma mãe isenta de culpa. Se você pedir leite, ela dá; se prefere refrigerante, tá na mão; mas se estiver em busca de uma dose de cachaça, ela também dá. Se quiser um lanche natural tem; se quiser x-salada também tem; peça uma porção de frango a passarinho e lhe dão sem questionar sua taxa de colesterol.

As semelhanças não param por aí. Algumas padarias não têm higiene e acreditam que sujeira aumenta a resistência do sistema imunológico. Outras são obsessivas com a limpeza e para pegar o pão com o pegador de alumínio, é preciso usar touca, luva e avental.

Com toda essa variedade, é possível encontrar padarias com cara de bar, onde os homens se aglomeram para tomar cerveja e assistir jogo de futebol. Existe a padaria que parece restaurante: oferece self-service de café da manhã, almoço e jantar ou os tradicionais PFs - leia-se pê-efes, de pratos feitos. Tem ainda a padaria com cara de supermercado, cheia de prateleiras e produtos diversos para levar pra casa.

Se a variedade de produtos oferecidos é a parte materna da padaria, o serviço é a parte paterna. Do chapeiro ao balconista a maioria são homens. Apesar da presença das mulheres, parece haver um machismo no posto do balcão. Talvez pensem que o homem se saia melhor ao exigir respeito tanto diante do pedido do Rabo de Galo (dose de cachaça com conhaque) até o do Brioche (pão doce de origem francesa).

O outro lado do atendimento masculino é o serviço personalizado capaz de fidelizar o mais safado dos clientes. Se você frequenta a padaria mais de uma vez por semana, será tratado pelo nome e economizará a saliva do pedido a partir da quarta semana. O bom balconista de padaria é como um pai herói que adivinha seu gosto apenas pela cara que está fazendo.

Nas viagens que faço, seja qual for o motivo, a primeira coisa que procuro perto do local da hospedagem é a padaria. Se ficar com sono, peço um café. Com fome, corro pra fazer um lanche. Cansado, saio pra dar uma volta. Inspirado, tenho onde sentar para escrever. E sempre preciso dela para todas essas finalidades. Quando não são sobre as padarias, minhas crônicas foram escritas em mesas ou balcões de padarias.

Tenho me dedicado a experimentar as diferenças do sanduíche de pão francês com queijo minas na chapa. Em São Paulo, o balconista pede ao chapeiro pelo Mineiro. É preciso tomar cuidado com as armadilhas de padaria. Nem mesmo aquelas que se localizam em Minas Gerais oferecem o Mineiro no cardápio. Em tempos de globalização e empreendedorismo, alguns modos e costumes não respeitam a fronteira interestadual e fica difícil saber sua origem.

Na última viagem pelas montanhas e serras mineiras, descobri que café expresso com pão de queijo é hábito de paulista. Tendo a padaria um lado materno e um lado paterno, o que interessa mesmo é o filho sair bem alimentado.

UM CAFÉ E A CONTA!

| Sua coragem não é medida somente pelo quanto você se expõe, mas também pelo quanto se preserva.


Publicado no Jornal Democrata

Caderno Cultura, p. 3, 02/04/2011, Edição N° 1141.


sábado, 26 de março de 2011

Crônicas de Padaria

Caros leitores do Observatório,

Inauguro a coluna semanal no Jornal DEMOCRATA cujo nome é Crônicas de Padaria. Todo sábado uma crônica fresquinha, simultaneamente publicada no Observatório. O charme da coluna é o rodapé, chamado Um Café e a Conta!, onde cada semana é publicado um aforismo de minha autoria.

Veiculado na região de São José do Rio Pardo/SP, o conteúdo do impresso pode ser conferido no site do DEMOCRATA: www.jornaldemocrata.com.br

Na primeira Crônica de Padaria, me apresento como cronista definindo o gênero literário. Publicado no Caderno Cultura DEMOCRATA, p. 3, 26/03/2011, Edição N° 1140

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A Crônica da Crônica

A crônica me fascina. A vontade de escrever foi aumentando à medida que visitava as mega livrarias e observava o espaço que as coletâneas ocupavam nas prateleiras. Foi quando descobri autores de diversas profissões se aventurando por este caminho, dentre os quais destaco As Crônicas de Niemeyer, do arquiteto Oscar, lançado às vésperas de seu 101º aniversário.

Na ocasião da festa de lançamento de seu livro, Niemeyer relatou um descontentamento com sua publicação. Não constam as datas das crônicas, que foram escritas para jornais e revistas nas últimas décadas. Considero legítima a reclamação do autor, a característica essencial deste gênero literário é descrever cronologicamente situações ou eventos - a palavra deriva do Latim Chronica, que significa relato de acontecimentos ocorridos no decorrer do tempo. A data remete ao contexto no qual foi escrita pelo autor. Niemeyer identifica que as crônicas mais antigas são pessimistas nas respostas, enquanto as mais recentes assumem uma posição de esperança. Entretanto, com a ausência de datas, o leitor não pode fazer uma análise do posicionamento do autor em diferentes momentos.

Fernando Sabino define a crônica como um comentário leve e breve sobre algum fato cotidiano. Seu tema pode ser poético ou irônico, mas o seu motivo, na maioria dos casos, é o fato miúdo: a notícia em quem ninguém prestou atenção, o acontecimento insignificante, a cena corriqueira. No relatar estas trivialidades, o cronista surpreende com a beleza, a comicidade, os aspectos singulares. O tom, como acentua Antonio Candido, é o de uma conversa aparentemente banal, que promove o efeito mais importante da crônica: proporcionar a familiaridade entre o escritor e aqueles que o leem.

De uma perspectiva histórica, ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Jornal de Débats, publicado em Paris. A crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, nas páginas de uma revista ou de um jornal. Caracteriza-se por ocupar um espaço sempre igual e com a mesma localização, com frequência determinada.

A mistura entre jornalismo e literatura leva o cronista a um frequente impasse: para se constituir como texto artístico, o seu comentário sobre o cotidiano precisa apresentar uma linguagem que ultrapasse a da mera informação. Para tanto, usa-se uma linguagem mais pessoal. O estilo deve dar a impressão de naturalidade e a língua escrita aproximar-se da fala. Essa oscilação entre se colocar como autor e abrir espaço pra questões cotidianas, retirando-se do texto, é uma das características que mais me agradam na crônica.

Se crônica sofre da urgência do prazo de publicação, o autor pode se valer de sua frequência para amadurecer suas ideias. Se quiser rever, completar ou mudar basta outra nova crônica ou uma alteração naquela já escrita. Aliás, nas novas edições de seus livros, Rubem Braga fazia pequenas alterações em suas crônicas, sobretudo em alguns títulos. Braga foi o único brasileiro que conquistou consideração na literatura escrevendo somente crônicas.

No universo das inovações tecnológicas, as crônicas ganharam espaço no mundo virtual através dos blogs especializados no gênero, já que uma página arrancada de um diário não é, necessariamente, uma crônica. Na imensidão da internet, o blog pode ser comparado a um beco dentro de uma metrópole. Quando a crônica é eternizada na publicação impressa, aí sim ela atinge os mais diversos lugares e as mais variadas pessoas. Um bom cronista não se importa em ver sua crônica forrando o chão perto da parede a ser pintada ou até mesmo embrulhando meio quilo de carne. Espera, com isso, conquistar com as palavras o pintor e a cozinheira.

Sua extensão combina bem com o ritmo da pós-modernidade. Pode ser lida por inteiro em um pequeno intervalo entre atividades. Se o desafio do cronista é escrever no prazo proposto e, ao mesmo tempo, alcançar a linguagem literária de beleza singular, esta será minha missão no Democrata. Para finalizar, cabe realçar a importância da opinião dos leitores para o cronista. Convido você, caro leitor, para este diálogo sem pressa.


UM CAFÉ E A CONTA!

| Depois de aprender a usar a linguagem, é necessário aprender a usar o silêncio para se comunicar.