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| Arte de Weberson Santiago |
| Amadurecer não é deixar de
ter sentimentos infantis. Amadurecer é voltar a ser criança para encontrar na
espontaneidade a melhor forma de lidar com estes sentimentos.
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| Arte de Weberson Santiago |
UM CAFÉ E A CONTA!
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| Amadurecer não é deixar de
ter sentimentos infantis. Amadurecer é voltar a ser criança para encontrar na
espontaneidade a melhor forma de lidar com estes sentimentos.
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| Arte de Weberson Santiago |
UM CAFÉ E A CONTA!
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| Os quartos podem se tornar jaulas. A escolha é entre domar as
feras ou ser devorado por elas.
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| Arte de Weberson Santiago |
UM CAFÉ E A CONTA!
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| O que não me avisaram, eu tive que aprender na prática,
experimentando.
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Arte de Weberson Santiago
Durante algum tempo pensei que amor era jogo de azar. Vivia esperando a grande oportunidade. A cartada certeira na rodada que me garantiria uma relação feliz e duradoura. Quando percebia a oportunidade fazia um baita investimento, punha largas expectativas e me enganava acreditando que a minha vontade era mais do que o suficiente para provar o quando meus sentimentos eram fortes e para convencê-la de que estar ao meu lado era esbanjar alegrias no futuro.
Tudo isso até aprender, à duras penas, que o amor não é investimento de risco. Não é o tamanho do montante que dispomos inicialmente que determinará seu lugar no infinito. Amor é como poupança. Começa sem exigir valor mínimo de depósito e não promete facilidades em multiplicar a moeda. Quem poupa esperando rendimento se decepciona. Acompanhar obsessivamente os ganhos é garantia de frustração. É preciso dar espaço e tempo para poder render. O sentimento do encontro deve ser vivido, as lembranças das sutilezas merecem ocupar espaço nos devaneios, mas o amor não suporta viver de débitos e sobrevive com a concessão de créditos. Os juros desta conta estão no futuro, o investimento está no presente.
Chegava para mais uma sessão da terapia. Adentrava a sala de espera com as mãos ocupadas com papéis, carteira, chave do carro e celular. O velho hábito de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Fui pegar um café e perdi o equilíbrio como um malabarista iniciante. O café caiu na minha camisa e no chão com os objetos, evento seguido pelos olhares dos pacientes que aguardavam.
Saí em direção ao banheiro, peguei papel para limpar o chão e molhei a camisa na esperança de amenizar a mancha. Olho no espelho e vejo que, além da mancha, minha camisa estava com problema de alagamento. “Seca” - pensei. Voltei pro meu lugar no sofá como se nada tivesse acontecido, quando olhei e a peguei sorrindo. Ela tratou de disfarçar. O interesse não combina com olhar fixo, mas o olhar desviado é reincidente. Não era um sorriso de chacota, mas de quem havia acompanhado toda a cena e concluía algo a meu respeito. Foi ao vê-la ser chamada que descobri que ela buscava alívio para o desconforto na fisioterapia, enquanto eu buscava o conforto na psicoterapia.
Naquele dia tratei de outros assuntos com o terapeuta, mas aquele sorriso não saía da minha cabeça. Não saiu durante a semana inteira, assim como a ideia de encontrá-la na sessão seguinte e do medo da não repetição do encontro. Chegado o dia, não a vejo ao entrar e a decepção toma conta. De repente havia mudado de horário ou recebido alta. Para minha surpresa, ela chega após alguns minutos, mas ao mesmo tempo em que eu sou chamado para entrar. E ali, durante alguns segundos a gente se olhou com o interesse de algumas horas, sem que ninguém percebesse. Com algumas desviadas de olhar demonstramos alegria e constrangimento.
Na semana seguinte, nos encontramos chegando do lado de fora, quando nos apresentamos e começamos a conversar. Este passou a ser também o espaço para nossas esbarradas semanais. Passamos a chegar mais cedo para um pouco de papo, descobrindo um pouco mais um do outro. Queríamos a conversa e a disponibilidade para o encontro foi sendo naturalmente maior. Lembrávamos-nos da história do café e caíamos na risada. Ela se apaixonou pela minha disposição para consertar a besteira e pela minha indiferença com uma tentativa frustrada. Eu me apaixonei pelo seu sorriso divertido diante das minhas trapalhadas e pela ingenuidade madura de seu olhar.
Ensaiei algumas sessões para contar ao meu terapeuta esta história até o dia em que percebi o detalhe ignorado durante um ano frequentando o seu consultório. Uma frase do Mario Quintana em adesivo acima do batente da porta de saída do corredor. “O segredo não é correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Concluí que tem questões pessoais que não precisam ser abordadas em terapia para serem trabalhadas.
Continuamos adeptos da fisioterapia e da psicoterapia, mas o alívio para o desconforto dela e para a minha necessidade de conforto foram resolvidos na sala de espera.
| UM CAFÉ E A CONTA! | | Findam-se as poesias e as metáforas, ficam os fatos. |
Publicado no Jornal Democrata
Caderno Cultura, p. 3, 23/04/2011, Edição N° 1144.

A feira é descendente do escambo, a famosa troca de mercadorias que foi forma dominante de comércio nalgum lugar de nossa história. Se você quer realmente conhecer uma cidade, conheça a sua feira, ela dará a ficha completa: alimentos típicos, formas de preparo, pessoas e hábitos, poder aquisitivo e distribuição de renda e uma oportunidade única de conversar e interagir.
O comum entre as feiras de domingo é que começam cedo, antes do sol raiar, mas os melhores preços são os do final, geralmente pouco depois do meio dia, o que é conhecido no Brasil como hora da xepa. No sul é chamado de guimba.
A feira é como o samba, tem o dom de agregar pessoas de todas as classes sociais. As crianças contam moedas, os adultos choram o desconto. Quem resiste ao produto trazido direto do produtor, recém-colhido e fresco?
Costumava frequentar a feira da Rua João Guimarães Rosa, travessa da Consolação e da Augusta, a um quarteirão do apartamento que morava em São Paulo. Aproveitava o Minhocão interditado para pedestres e ciclistas pra dar uma volta e ia à feira. O bacalhau fresco era uma das opções que mais me agradava. Há uma semelhança entre o trânsito das ruas e o das feiras em São Paulo: a concorrência entre carrinhos é grande, e a pressa é companheira até na hora das compras. Os feirantes gritam para os fregueses, numa espécie de buzinaço para atrair clientes. Alguns até se posicionam a frente da barraca oferecendo degustação seguida de um “não vai levar mesmo?”.
Também muito frequentadas, as feiras do interior tem produtores que vendem seus cultivos apenas aos domingos. Não se houve gritos dos feirantes como em Sampa, apenas o burburinho das vendas e conversas. A comida típica é uma das partes mais interessantes de qualquer feira. Uma vez assisti a uma senhora montando as pamonhas com queijo e cozinhando na hora e fiquei até agradecido em ficar na fila. Vi a feitura antes de trazê-la pra casa. É impossível sair com poucas sacolas, mesmo com quase nenhum dinheiro.
O pastel é um clássico da feira, geralmente cada um tem a sua barraca preferida. É tão reverenciado pelos visitantes que é possível encontrar alguém comendo um as sete da matina, com o toque especial do molho vinagrete ou da pimenta. Que o diga a Dona Penha, que todo domingo na Avenida Perimetral, em São José do Rio Pardo, recebe os recém-saídos da balada e mais aqueles que começam o domingo no pastel enquanto fazem a feira da semana. Também vou à da Rua Pernambuco, em Mococa, quando não passo nas duas.
Engana-se quem pensa que apenas comida é vendida na feira. Quem não se importa com a pirataria volta pra casa com os bolsos repletos de filmes inéditos, sacolas de roupas, tênis e sapatos. Pode-se escolher mudas das mais diversas, galinhas vivas, apetrechos de cozinha, brinquedos e até pen drive e MP3 player.
Indico que procure a mais próxima e a frequente aos domingos. A feira é a boutique do alimento de melhor qualidade. É o desfile de moda ao contrário em que desfilamos para observar o hortifrutigranjeiro. É o shopping center cuja praça de alimentação tem cara e gosto de interior. A diversidade de oportunidades é tanta que tem quem entre solteiro e saia casado da feira.
Uma dica: percorra todas as barracas até última e faça as compras na volta, assim não corre o risco de achar mais barato ou de melhor qualidade depois que já comprou.
| UM CAFÉ E A CONTA! | | O banana é aquele que se eximiu da responsabilidade na hora de fazer e atribuiu o erro a quem fez. A banana com casca não deixa de ser uma banana. |
Publicado no Jornal Democrata
Caderno Cultura, p. 3, 16/04/2011, Edição N° 1143.

A padaria é como uma mãe isenta de culpa. Se você pedir leite, ela dá; se prefere refrigerante, tá na mão; mas se estiver em busca de uma dose de cachaça, ela também dá. Se quiser um lanche natural tem; se quiser x-salada também tem; peça uma porção de frango a passarinho e lhe dão sem questionar sua taxa de colesterol.
As semelhanças não param por aí. Algumas padarias não têm higiene e acreditam que sujeira aumenta a resistência do sistema imunológico. Outras são obsessivas com a limpeza e para pegar o pão com o pegador de alumínio, é preciso usar touca, luva e avental.
Com toda essa variedade, é possível encontrar padarias com cara de bar, onde os homens se aglomeram para tomar cerveja e assistir jogo de futebol. Existe a padaria que parece restaurante: oferece self-service de café da manhã, almoço e jantar ou os tradicionais PFs - leia-se pê-efes, de pratos feitos. Tem ainda a padaria com cara de supermercado, cheia de prateleiras e produtos diversos para levar pra casa.
Se a variedade de produtos oferecidos é a parte materna da padaria, o serviço é a parte paterna. Do chapeiro ao balconista a maioria são homens. Apesar da presença das mulheres, parece haver um machismo no posto do balcão. Talvez pensem que o homem se saia melhor ao exigir respeito tanto diante do pedido do Rabo de Galo (dose de cachaça com conhaque) até o do Brioche (pão doce de origem francesa).
O outro lado do atendimento masculino é o serviço personalizado capaz de fidelizar o mais safado dos clientes. Se você frequenta a padaria mais de uma vez por semana, será tratado pelo nome e economizará a saliva do pedido a partir da quarta semana. O bom balconista de padaria é como um pai herói que adivinha seu gosto apenas pela cara que está fazendo.
Nas viagens que faço, seja qual for o motivo, a primeira coisa que procuro perto do local da hospedagem é a padaria. Se ficar com sono, peço um café. Com fome, corro pra fazer um lanche. Cansado, saio pra dar uma volta. Inspirado, tenho onde sentar para escrever. E sempre preciso dela para todas essas finalidades. Quando não são sobre as padarias, minhas crônicas foram escritas em mesas ou balcões de padarias.
Tenho me dedicado a experimentar as diferenças do sanduíche de pão francês com queijo minas na chapa. Em São Paulo, o balconista pede ao chapeiro pelo Mineiro. É preciso tomar cuidado com as armadilhas de padaria. Nem mesmo aquelas que se localizam em Minas Gerais oferecem o Mineiro no cardápio. Em tempos de globalização e empreendedorismo, alguns modos e costumes não respeitam a fronteira interestadual e fica difícil saber sua origem.
Na última viagem pelas montanhas e serras mineiras, descobri que café expresso com pão de queijo é hábito de paulista. Tendo a padaria um lado materno e um lado paterno, o que interessa mesmo é o filho sair bem alimentado.
| UM CAFÉ E A CONTA! | | Sua coragem não é medida somente pelo quanto você se expõe, mas também pelo quanto se preserva. |
Publicado no Jornal Democrata
Caderno Cultura, p. 3, 02/04/2011, Edição N° 1141.

| UM CAFÉ E A CONTA! | | Depois de aprender a usar a linguagem, é necessário aprender a usar o silêncio para se comunicar. |
