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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O Prefácio da Dissertação

Enfim a Dissertação foi entregue neste quatro de agosto de 2010. Para deixar este trabalho acadêmico com a minha cara, abro-o com uma crônica que publico agora no Observatório. Conto a minha trajetória na psicologia experimental em uma apresentação que foge aos padrões deste tipo de trabalho. A banca avaliará o estudo em breve, quando defenderei o Título de Mestre.


"Um relato de pesquisa conta sempre uma história. A história do tema pesquisado e a história do pesquisador com o tema da pesquisa. O sentido dessa história é para o desenvolvimento da ciência do comportamento humano e para a compreensão dos fenômenos verbais no desenvolvimento humano típico. Todavia, este prefácio é o espaço para o pesquisador relatar, em primeira pessoa, como se deu a entrada do tema da pesquisa em sua trajetória acadêmica.

Introdução à Psicologia Experimental era uma das disciplinas do primeiro ano do curso de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), em 2001. A Profa. Maria Martha Costa Hübner me apresentava, naquela ocasião, uma área específica da Psicologia que aparentava rigor no estudo dos processos envolvidos nos comportamentos humanos e animais. Como jovem de 17 anos, que se interessava pelo conhecimento, dedicava-me às aulas e registrava as exposições verbais dos professores. As aulas da Profa. Martha foram um convite para conhecer a fundo a observação, os registros e os delineamentos experimentais empregados nas pesquisas.

De fato, o comportamento textual diante dos materiais introdutórios em ciência e pesquisa em Psicologia foi mantido em altas taxas naquele ano. Um episódio verbal ocorrido ao final do semestre foi significativo e por isso está descrito aqui. Estávamos reunidos em uma sala do Núcleo de Pesquisa em Psicologia, enquanto a Profa. Martha distribuía as provas finais aos alunos quando citou meu nome e disse: “Augusto, você foi o único da sala que tirou dez!”. O efeito do reforço foi preciso. E não havia como não ser em uma sala com oitenta alunos. Ao final daquele ano, a Profa. Martha deixou de ser docente da UPM, mas meu comportamento, então reforçado, aumentou de frequência. Contei com outros excelentes analistas de comportamento que me incentivaram à Iniciação Científica e à publicação de artigos.

Durante o início do quinto ano do curso, declarei a vontade de iniciar um Mestrado e seguir a carreira acadêmica que me trouxera tantos reforços positivos durante a graduação. A emissão verbal foi reforçada pela família e pelos professores. Nesta época, trabalhava como estagiário de recursos humanos da Infraero (Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária), na cidade de Guarulhos/SP. Faltavam pouco mais de seis meses para o término da graduação e a preocupação em buscar uma Instituição para a pós-graduação era recorrente. Numa quinta feira de junho de 2005, tentei, por vezes, sair do ambiente de trabalho para ir ao banco no aeroporto e fui impedido por compromissos profissionais. Até que por volta de 11 horas saí em direção à agência, caminhando pelos largos corredores do amplo aeroporto, dispondo do meu crachá pendurado no pescoço. De longe, avistei uma pessoa conhecida vindo em minha direção. A aproximação lenta me evocou a história ocorrida cinco anos antes até que estávamos frente a frente: “Professora Martha?”, imediatamente ela olhou meu crachá e disse: “Augusto, você foi meu aluno, não foi?”. “Sim, e fui o único da sala que tirou dez!”, respondi. E foi neste reencontro fortuito, promovido pelas contingências da sua volta de Chicago, onde estivera participando da Reunião Anual da ABA (Association of Behavior Analysis) que estreitamos os nossos contatos. Após a reunião seguinte da ABPMC (Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental), em agosto de 2005, fui convidado pela Profa. Martha a participar do Grupo de Pesquisa em Comportamento Verbal, no Laboratório de Estudos dos Operantes Verbais, ligado ao Departamento de Psicologia Experimental da USP.

No decorrer dos cinco anos como membro do grupo de pesquisa, posteriormente como aluno de pós-graduação dessa Instituição, pude conhecer a fundo as relações empíricas entre comportamento verbal e não verbal na ciência do comportamento humano, tive o privilégio de assistir às aulas de professores visitantes de muitos países e, sobretudo, de ter tido o respaldo para me comportar como pesquisador dentro das contingências sociais de um grupo de pesquisadores. Os 10 anos da Análise do Comportamento em minha vida, marcados por este trabalho, demonstram como estímulos verbais, consequenciados positivamente, são responsáveis por escolhas significativas. A partir do estudo do Comportamento Verbal, novos comportamentos foram evocados e novas contingências foram estabelecidas. Tornei-me cronista, aquele que relata o fato que poderia ser neutro no ambiente do escritor ou do leitor, mas que descrito promove um efeito, ao menos transitório, no comportamento textual dos ouvintes. O interesse pelos efeitos das palavras escritas sobre o comportamento do ouvinte passou a ser o meu principal objeto de estudo e será a variável independente na pesquisa desta dissertação.

O produto desta história de interações verbais e não verbais está nas páginas que se seguem, trabalho com o qual espero contribuir com o arcabouço científico da Análise Experimental do Comportamento. Desta forma, a história do pesquisador estará registrada na história do tema pesquisado" (p. 10).

In Amato-Neto, A. (2010). Efeitos do Comportamento Verbal Modelado e Instruído sobre a Escolha de Modalidades Esportivas em um Jogo de Videogame. Dissertação de Mestrado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Skinner e Yvonne

Os novos moradores da minha casa são um casal de Periquitos Australianos ou Budgerigars (Melopsittacus undulatus). Juntamente com os canários, são as aves mais comuns criadas em gaiolas como animais de estimação, já que são fáceis de cuidar e dóceis no convívio.

Adaptaram-se facilmente a nova moradia, atraindo outros pássaros livres. Eles nasceram em um criadouro próximo ao Rio Canoas, em meio a centenas da mesma espécie e dezenas de Calopsitas. Um pedaço de terra em que tudo dá com qualidade, sejam frutas, plantas e animais. Foram escolhidos por mim a dedo e capturados pelo criador para que pudesse trazer para minha casa.

O macho de pelagem amarela esverdeada recebeu o nome de Skinner, homenagem ao fundador da Análise do Comportamento, B. F. Skinner, que propôs uma abordagem em psicologia na busca de compreender as raízes do comportamento humano por meio de uma metodologia científica experimental. Sua proposta revolucionou a psicologia e se disseminou mundo afora.

Hoje o Brasil possui o segundo maior número de analistas de comportamento, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, terra natal de Skinner. Países Orientais, como a China e Jordânia começam a receber pesquisadores renomados para formar analistas de comportamento com objetivo de tornar a psicoterapia comportamental acessível a um número cada vez maior de pessoas.

Skinner presidiu o Departamento de Psicologia da Universidade de Indiana e integrou o Departamento de Psicologia da Universidade de Harvard alguns anos mais tarde, onde ficou até o fim da sua carreira. Casou-se com a especialista em língua inglesa e história da arte Yvonne Blue e teve duas filhas: a pedagoga Julie e artista Deborah. Julie dedicou-se a continuar os passos do pai, tive o prazer de conhecê-la em 2004, quando esteve no Brasil.

Dez dias antes de morrer, Skinner recebeu um prêmio da American Psychological Association e deu uma palestra para um auditório lotado. Embora já bastante debilitado fisicamente, repetiu com clareza de raciocínio as idéias que defendeu durante toda a sua vida. Seu último artigo foi finalizado no dia em que morreu, em 18 de agosto de 1990.

Skinner, meu periquito, é sério e tranqüilo. Já Yvonne é brincalhona e mais agitada, gosta de saltar de um poleiro ao outro e de fazer brincadeiras com Skinner, que corresponde. Ainda não aceitam frutas, apenas os grãos. Skinner gosta de carinho no peito, Yvonne gosta de dar bicadas no meu dedo. Deixaram a casa mais alegre e com mais vida, não moro mais sozinho.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Falar e Fazer

Falar. Como o fazemos. O tempo todo, de diferentes maneiras, por diversos meios. Falo, leio, escrevo, descrevo, observo, escuto, respondo, digo, entendo, compreendo, rabisco, desenho, desdenho, rio, emudeço, esqueço, perco, quieto, penso, traduzo.

Linguagem é uma ferramenta? Linguagem é um meio? Não sei, só uso!

O fato é que nos estimula, por qual seja a via, e produz um efeito. Nos modifica. E é modificada por nós, à medida que não é estática, é alterada e, portanto, recriada a todo momento. Perguntaram-me se a palavra tem poder. Tem. Por razão simples.

Quando ouvimos algo, este provoca um efeito. Cada pequena característica é importante: onde foi dita, por quem, em qual momento, a entonação, a eventual presença de outrem, pontos em comum com outras interações verbais de mesma característica ocorrida em outro momento e a própria história de interações dos falantes e ouvintes envolvidos.

Para clarificar, trago um exemplo: na minha sala de trabalho existe uma tela pintada a mão. Enquanto estímulo, esta tela é estática, está sempre no mesmo lugar e com a mesma cor e iluminação. Entretanto, ela já eliciou os mais diversos tipos de reações, comentários, sentimentos. E até diferentes sentimentos para a mesma pessoa em meses diferentes.

Uma conclusão acerca do poder da palavra seria: já que ela tem poder, se eu repetir muito uma coisa que quero, ela poderá tornar-se realidade?

A resposta é não, pois seu efeito não é linear. Explico: não é a repetição excessiva que vai mudar alguma coisa, mas a reflexão acerca das condições que mantêm aquilo que se quer mudar ou conseguir. Uma frase colocada em lugar estratégico pode ajudar nesta reflexão, à medida que produz um pensamento sobre aquele assunto quando visualizada. Entretanto, reler exaustivamente na esperança de tornar-se realidade é uma atitude em vão.

O que se poderia conseguir é uma boa dose de fadiga. Sejamos estrategistas. Deixe-se distanciar da questão e pensar outras coisas, pois ela permanecerá a ser respondida e talvez a resposta possa surgir quando você estiver sobre outro contexto. Voltemos à pratica: sempre que estou me exercitando, por exemplo, costumo me abastecer de idéias sobre os mais diversos assuntos. Se tenho um estímulo no meu espelho, seja uma frase ou pergunta, pode ser que ao exercitar-me ou fazer outra coisa consiga pensar em uma resposta ou em uma atitude a ser tomada naquele sentido.

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Crônica dedicada a amiga Cida Cilli que, com sua curiosidade incessante, incentivou-me com uma pergunta a colocar meus pensamentos sobre este assunto sob a forma de texto.