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| Arte de Weberson Santiago |
Se você prestar
bem a atenção, verá que águas passadas movem moinhos. Sabe quando você
reconhece que enfrenta a mesma situação repetidamente em diferentes momentos da
sua vida?
Estou falando de
quando a vida trás a tona uma mesma maneira de agir, se relacionar, de
enfrentar os dilemas e os conflitos. Isto acontece porque temos padrões de
comportamento e, por vezes, insistimos na mesma forma de lidar com as coisas,
ainda que existam outras formas mais apropriadas. E é aí que eu considero que
águas passadas podem mover moinhos.
No curso do rio da
vida, minhas águas seguem o caminho e por vezes atravessam o mesmo moinho. Eu
bem que gostaria que as águas saíssem da nascente e fossem sempre em frente,
até que um dia moressem no mar. Só que eu descobri que no percurso da vida é
preciso vencer alguns impedimentos através da constatação de sua repetição.
Se o obstáculo for
um tronco, tudo é simples. As águas passam por cima, ou por baixo, ou pelo
lado. Mas se o empecilho for uma pedra dura, é preciso aguentar a dor de cabeça
pra bater na pedra até que ela fure.
Ao ser lançada
como um raio, a verdade trás nuvens negras e carregadas. Quando as tempestades se
anunciam, tenho medo do poder das minhas águas. Sem muito esforço me vejo como
o responsável pelo desastre. As águas que empurram os peixes e movem os moinhos
podem levar consigo montanhas com casas. O mundo é mais catastrófico do que a
gente gostaria que fosse e isso depende diretamente de nossas escolhas. Parece
difícil aceitar como lidamos com o incontrolável e com o imprevisível. Mas
muito mais difícil e constatar que não estamos conseguindo mudar o que está sob
nosso próprio controle.
As tempestades
caem e as nuvens vão se esvaindo, se dissipando em chuva até que se aviste um
primeiro pedaço do horizonte. Em meio aos primeiros raios de sol, percebo que a
água que caiu fez o rio transbordar. É a consequência do excesso. Descubro
pelas águas que caíram que sou exagerado, dramático e enfático demais quando
passo pelo temporal.
Quando o rio
começa a baixar, ficam as poças. As poças são as cicatrizes que restaram do
transbordar do rio da vida. As águas que não fazem mais parte da corredeira e
estão represadas na solidão, isoladas à míngua. Só restará aguentar o calor do
sol e evaporar.
Não importa que
águas passadas movam os mesmos moinhos, se foi alterada pela experiência de
passar por cada caminho. Se aprendeu conforme se transformou nos seus estados
característicos. Ora! A água passada que move um moinho novamente não e a mesma
água.
Quando eu estiver
no estado líquido, que escorra por onde o vento e a terra me levarem. Que eu
não derrame meus sonhos e possa ser contido quando precisar que alguém me
represe. Quando o calor me transformar em vapor, que eu não me perca pela
atmosfera, não me esqueça das raízes que me absorveram e me levaram ao alto da
mais verdejante folha. Que no estado gasoso não seja apenas como o ar quente,
que só aceita ficar por cima. E ao passar pela estação das nuvens, que desembarque
o medo e embarque a inspiração. Quando minhas águas congelarem, que possa ser
sólido, mas não gélido.
Aproveitei as
águas passadas para lavar a alma e agora estou na espreita de descobrir novos e
velhos moinhos.
| O que você pode aprender com as suas repetições?
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