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| Arte de Weberson Santiago |
Educar uma criança sempre é um desafio. Precisamos dedicar
tempo para ensinar, corrigir, mostrar como se faz, explicar o que não se deve
fazer na esperança que a lição seja entendida e que o comportamento futuro seja
adequado.
A Anelise é uma criança que conquista facilmente a simpatia
de quem a conhece. Sua espontaneidade é envolvente, suas percepções contadas
são interessantes para uma menina de quatro anos. Apesar de não passar
indiferente em qualquer ambiente, andei preocupado com o fato dela fugir de
cumprimentar as pessoas quando nós chegamos em algum lugar.
Preocupado com a questão, resolvi recorrer a minha tia Egle.
Me lembrava que ela usava um procedimento interessante quando a minha prima Ana
Helena era criança. Ela se destacava por cumprimentar todas as pessoas quando
chegava em um aniversário ou reunião de família. Sabia que a minha tia teria o
passo a passo para que eu pudesse ensinar este novo comportamento à pequena.
Como eu já desconfiava, ela me disse que o maior erro é
forçar a aproximação, empurrar a criança para beijar o parente. Forçar a
aproximação pode incitar aquele comportamento de esconder atrás do pai ou da
mãe, de grudar na perna feito um macaquinho. Ela explicou que adultos
estranhos, mesmo que em meio a conhecidos, parecem ameaçadores para a criança. Pode
ser pior coagir do que não cumprimentar. Quando se obriga, corre-se o risco
dela explicar porque não quer dar um beijo na tia Cacilda e gerar aquele tipo
de constrangimento:
— Vai, Anelise, dá um beijo na tia
Cacilda!
—
Eu não quero, ela tem bigode e parece uma bruxa...
O
procedimento bem sucedido da tia Egle começava dentro de casa. Ela explicava
pra Ana Helena aonde eles iriam e quem estaria lá. Especificava os convidados
da festa, citava seus nomes e dizia que teria mais algumas pessoas que ela não
conhecia, mas que eram amigos dos conhecidos. No percurso de carro, relembrava
a Ana Helena de cumprimentar cada um dos presentes porque eles ficariam felizes
com a sua educação.
A
Natália e eu registramos todos os detalhes e colocamos o plano em prática. E
não é que funcionou? A Anelise deixou de se retrair e passou a saudar as
pessoas quando chegamos nalgum lugar. Animado, voltei para contar o resultado
para minha tia.
Ela
ficou satisfeita com os primeiros passos, mas, como boa professora, resolveu
contar o que aconteceu em uma determinada ocasião. Sua família chegava a uma
festa acompanhada dos meus avós. Na porta da casa estava sentado um morador de
rua conhecido na cidade. Minha prima Ana Helena não hesitou em pôr em prática o
costume de sempre. Deu a mão ao pedinte para lhe cumprimentar. Minha avó já
queria interceder e impedir o contato quando minha tia pediu que ela deixasse.
E a Ana Helena tascou um beijo no rosto do mendigo.
Ela
disse que deixou para me contar esta parte de sua experiência depois que eu acreditasse
e testasse a técnica que ela me ensinou, pois só assim ela poderia funcionar. A
segunda parte da lição consistia em entender que eu não deveria desdizer uma
regra que eu mesmo criara, mesmo numa situação difícil como aquela que
aconteceu com a minha prima. “Foi só levar ela pra lavar a mão depois”, contou.
Para
educar é preciso ser coerente naquilo que anunciamos e naquilo que fazemos. A
criança não aceita exceções que partam do adulto que a ensinou como deve fazer.
Ao descumprir a regra, jogamos fora todo o esforço de proporcionar a
aprendizagem.
É quando a gente acha que está ensinando que descobrimos quem
tomou a lição. Educar é desaprender o que a gente acha que sabe para ensinar o
que a gente ainda não aprendeu.
| Desaprender é tão importante quanto estar disposto aprender. Há
quem passe uma vida achando que sabe.
|
Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 3, 10/11/2012, Edição Nº 1225.

Um comentário:
Muito boa...
Realmente se deixar aprender é muito bon! Se percebermos aprendemos todos os dias...
Saudades de todos...
Bjos Na Natalia e Anelise.
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