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| Arte de Weberson Santiago |
Angela e Rubens se casaram muito jovens e tiveram três
filhos, duas mulheres e um homem, que lhes deram 7 netos. Foram casados por 54
anos, quando Seu Rubens veio a falecer. Teve um infarto seguido de
complicações, faleceu dois dias depois de ser internado.
Eu conheci Dona Angela no balcão da padaria. Todas as manhãs nos
encontravamos, quando ela tomava um café e comia um mini pão francês com
manteiga. A interação é inevitável quando a repetição do encontro promove a
convivência. Era minha parceira de guardanapo. Sempre que eu apontava na porta
da padaria, Dona Angela mudava a caixinha preta de lugar. Era seu convite para
sentar ao seu lado no balcão.
Dona Angela me contou que desde o dia seguinte de sua festa
de casamento, Seu Rubens adquiriu o hábito de levantar com os primeiros raios
de sol e passar o café. A primeira xícara que saía do coador era dela. Ele
levava até a cama e acordava a amada. O café era o bom dia de Rubens para
Angela.
No amor, o hábito vira obrigação. Nos 54 anos em que
estiveram casados, era assim que funcionava. Quando viajavam, se eram hóspedes
de um hotel, ele descia até a sala do café da manhã e subia com a xícara cheia
e fumegante. Em um fim de semana no litoral com um dos filhos e os netos, ainda
assim ele cumpria seu ritual. Sua primeira providência no novo lugar era
descobrir o coador e o pó de café. Contrariando a medicina, acordar com uma dose
de café não termina em gastrite. A explicação não é nada científica: nessa xícara
eram adicionadas três colheres de chá de amor.
Ela nunca recusou, nem quando estava sem vontade. O gesto de
amor não pode ser rejeitado, qualquer espécie de carinho não merece negativas,
ainda que seja inconveniente. “Algumas
vezes eu acompanhava os famíliares na cerveja até as duas da manhã, enquanto
ele se deitava quando o relógio marcava dez da noite. Às seis horas, mesmo com
a ressaca e como hóspedes na casa da nossa filha, ele me levava o café na cama”,
confessou.
Quando Angela perdeu Rubens, não sabia fazer café, mas não se
abateu. Elegeu a padaria para lhe fornecer o mimo de todas as manhãs. Preferia lembrar,
na padaria, da imagem do despertar com o café e o chamado carinhoso do marido, a
esperar que isso acontecesse na cama depois da imposição de sua ausência. A
contrapartida para o amor que recebera todos os dias era conservar a disposição.
A história de Dona Angela me fez lembrar um hábito de minha
avó. Ao passar o café de manhã, assim que enchia o suporte de plástico do
coador de papel com água fervente, levantava o coador e enchia uma xícara
esmaltada amarela. Servia o primeiro café para São Benedito. Quando criança,
questionei o café do santo, mas fui severamente repreendido e obrigado a
retirar a xícara da frente da imagem quando o santo estava satisfeito (o que se dava perto da hora do almoço).
Minha avó não está mais entre nós e talvez até se encontre
no mesmo lugar que Seu Rubens. Juntos estão passando café pro São Benedito. Minha surpresa foi perceber, dias destes, que seu hábito foi
preservado pela sua cozinheira. Ela faz a comida de meu avô e todas as
manhãs serve o café do São Benedito.
Permeando as atitudes de Seu Rubens e de minha avó está a
subserviência. O cuidado em servir, em fazer por alguém. Eles não foram
obrigados a coar o café sob pena de alguma consequência grave, mas escolheram
fazer assim. A atitude com amor é sensível à vontade alheia. É uma submissão
voluntária que se torna uma obrigação a partir de uma iniciativa. Não existe
fidelidade mais bonita do que a escondida por detrás de um hábito.
| Coador. Coa a dor. Com fé. Café.
Café e coador. Cafezinho com
Amor.
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2 comentários:
Que lindo!
Desculpo minha mãe de viciar-se no café...
Emocionante....
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