sábado, 27 de abril de 2013

Vide a Vida

Arte de Weberson Santiago



Viver é nascer. Ser expelido no mundo e lutar para preservar seu lugar nele.

Viver é se alimentar. É comer demais para sentir saudade da fome. É ficar um tempo sem comer para recuperar a vontade.

Viver é ser satisfeito para ficar mal acostumado. É ficar insatisfeito para correr atrás.

Viver é ir soltando a ingenuidade para abraçar a maturidade.

Viver é conquistar a autonomia e deixar a liberdade.

Viver é enterrar alguns ideais para tropeçar numa nova forma de ver o mundo.

Viver é ter mais sonhos do que comporta a realidade.

Viver é escolher um ritmo principal para a trilha sonora da sua vida.

Viver é a eterna busca pela intensidade adequada. E viver é oscilar entre a moderação e o exagero.

Viver é deixar a roupa da atividade física no fundo da gaveta para redescobrir o prazer de se exercitar.

Viver é arranhar e amassar o carro pra ele ficar velho e ser trocado.

Viver é ganhar dinheiro e pagar contas. E ter que ganhar de novo para pagar mais uma vez.

Viver é ter paciência de banho-maria quando se está dentro da panela de pressão.

Viver é enrugar e manchar a pele. Viver é esculpir uma corcunda, enferrujar as articulações, enumerar dores.

Viver é colecionar machucados e cicatrizes.

Para os homens, viver é prolongar a testa em direção à nuca.

Para as mulheres, viver é o exercício eterno de arrumar os cabelos enquanto se aceita que os peitos e as nádegas cedem à gravidade.

Viver é sonegar fraqueza e esbanjar disposição.

Viver é despistar a morte a cada dia, querendo empurra-la pra frente para adiar o fim.

Viver é abrir mão sem ficar de mãos vazias. É conceder sem sentir que perdeu.

Viver é ficar amigo da solidão estando sempre acompanhado.

Viver é ter vergonha de não ser feliz.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Vide a vida para vir a viver de verdade.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p.4, 27/04/2013, Edição Nº 1249. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

MATHEUS INCLUIU O VIVER EM TODA A SUA VIDA

Matheus Braga




Eu tenho um lindo exemplo na minha família do que hoje as pessoas chamam de inclusão.

Meu tio Paulo Braga é casado há muitos anos com a tia Denise. Tiveram três filhos: Vinicius, Matheus e Lucas. Matheus, o do meio, nasceu com paralisia cerebral devido à falta de oxigênio durante o parto. O diagnóstico inicial foi definido, mas o prognóstico era dolorosamente indefinido. As sequelas só seriam descobertas durante seu desenvolvimento.

Buscaram tratamento para que ele se desenvolvesse o máximo que pudesse, mas o grande acerto do tio Paulo e da tia Denise foi dar a mesma educação que deram ao Vinícius e ao Lucas para o Matheus. Eles nunca o trataram como incapaz ou inferior. Com isto, se recusaram a ensinar que ele deveria se excluir por suas limitações.

Talvez esse seja o erro da nossa sociedade. Criamos e mantemos todas as condições que excluem quem tem algum tipo de deficiência para depois ficar tentando consertar com a inclusão. Aí já é tarde. Se sentir excluído dói demais. Ser considerado e tratado como capaz é o que faz desenvolver. O Matheus é a prova disso.

Matheus foi criado com os mesmos limites e os mesmos deveres que seus irmãos. Mesmo com um déficit na perna que dificultava um pouco o andar, nunca foi poupado das tarefas de casa, igualmente distribuídas. Os irmãos é que às vezes o protegiam, em tom de cumplicidade e lhe poupavam oferecendo ajuda nos deveres. Naturalmente, o Vinicius e o Lucas continuaram a ajudar o Matheus também na vida adulta. Recentemente, o Vinicius e sua esposa Ellen, nas últimas férias, o levaram para passear em Buenos Aires, na Argentina.

Na adolescência, onde um dos irmãos ia, lá estavam os três. Eu que tinha vergonha de sair com meus irmãos na adolescência, ficava constrangido quando encontrava os três, sempre tão unidos. Embora a vida tenha levado a família do tio Paulo e a tia Denise para São José dos Campos, encontrar com eles sempre foi divertido. Os três irmãos são donos de uma risada única e marcante, um riso exagerado e contagiante. São bonachões, falam alto.

Nossas famílias sempre se identificaram. Talvez porque as duas têm três filhos homens. Foi com o tio Paulo que meu pai aprendeu um método de resolver conflitos entre filhos. O tio Paulo sentava os dois que estavam brigando e perguntava o motivo da briga. Vinha uma lista de coisas que um fez pro outro até que ele apartasse. Então ele falava: “você não está com raiva do seu irmão? Então bate nele! Vai, vamos resolver isso agora!”. Os dois choravam e não tinham coragem de se bater. Aí ele fazia dar um abraço. Mandava repetir até que tivesse o mínimo de carinho. Quando meu pai aplicou o tal método, foi tão incômodo que eu passei a economizar nas provocações com os meus irmãos.

O Matheus sempre foi um exemplo de superação e contou com seus pais que puderam proporcionar tudo, mas não tudo aquilo que o dinheiro compra e sim o que o amor pode construir. Falando assim, parece uma família perfeita. A deles não é, como a minha e a sua que me lê também não são.

Eu só conheço um ponto em que os irmãos se divergem drasticamente. É no futebol. Desde pequeno, o Vô Mauro foi convencendo o Matheus com bolas e uniformes do seu time do coração e ele se tornou um são-paulino roxo. A briga na família é porque o Vinicius, o Lucas e o tio Paulo são corintianos.

Matheus trabalha há sete anos na loja de construção Leroy Merlin. Calmo e tranquilo, sempre disposto a ajudar, assim Matheus é descrito por seus colegas de trabalho. Leitor voraz de revistas e jornais, gosta de dar notícias de tudo e entende de todos assuntos: política, economia e, principalmente, de esportes.

O trabalho permitiu acumular um dinheiro na poupança. Com a ajuda dos irmãos e do Vô Mauro, na última terça, Matheus fechou a compra de um apartamento. Estava tão emocionado, tão feliz.

Quando acordou na quarta-feira para ir ao trabalho, Matheus começou a passar mal e teve um infarto fulminante.

Assim como toda a família e os seus colegas de trabalho, ainda está difícil aceitar o que aconteceu. Eu mesmo não consegui contar essa história no tempo passado, resistindo ao fato de termos perdido o Matheus. A minha vontade é de que tudo isso continue no presente e no futuro.

Todos nós escolheríamos a continuidade. Quem sabe ele pudesse realizar o sonho de fazer faculdade de jornalismo. Queríamos que ele pudesse encarar os desafios do novo apartamento, as situações do seu trabalho que surgiriam e o que mais a vida lhe pudesse oferecer.

É duro aceitar esta imposição. Para nos ajudar a processar a perda, resolvi tornar pública a história do Matheus e do amor que o tio Paulo, a tia Denise, o Vinicius e o Lucas, seus avós, tios e primos tinham por ele. O que ele viveu estará sempre na nossa memória como sinônimo de superação e, agora, fará parte das lembranças de quem leu e conheceu o quanto especial o Matheus foi para nós.


sábado, 13 de abril de 2013

E Se... Eu Deixasse os Dilemas de Lado?

Arte de Weberson Santiago



Todo dilema é seguido por uma justificativa. “E se...” tem como sequência um “É que...”.

E se eu tivesse nascido em outra família?

É que me incomodo com a minha história de vida. Não aceito os meus pais, meus irmãos me irritam. Queria ter tido outros modelos, outros exemplos. Talvez assim não tivesse as dificuldades que me perseguem, nem as falhas que me pego repetindo e que aprendi com eles. Penso que as coisas poderiam ter sido diferentes se eu não tivesse nascido nessa família.

E se eu tivesse feito outra faculdade?

É que eu tenho tido tantas dificuldades para me colocar no mercado de trabalho. Se eu tivesse optado por outro curso, talvez o meu salário fosse melhor. Quando me comparo com outros profissionais, parece que para mim as coisas são mais difíceis.

E se eu tivesse aberto um negócio ao invés de ser empregado?

É que estou canelando muito nesse meu emprego. Se eu tivesse meu próprio negócio, trabalharia para o que é meu e poderia ter ganho mais dinheiro. Ou talvez estivesse endividado.

E se eu tivesse comprado um carro ao invés de uma moto?

É que se eu tivesse um carro, não teria tomado chuva de manhã e nem na hora do almoço. Gastaria mais gasolina e ainda estaria pagando o financiamento, mas chegaria seco no serviço.

E se eu tivesse aprendido a dizer não? A falar o que eu penso?

É que desta forma eu poderia me sentir respeitado. Mas é provável que eu tivesse agredido demais meus familiares e eles tivessem se afastado. Estaria desempregado se me negasse no trabalho como queria poder discordar.

E se eu não tivesse casado e tido filhos?

É que assim eu teria viajado, conhecido mais parceiros antes de me prender. Teria mais dinheiro para gastar e ter prazer.

O “E se...” é uma ilusão que nasce morta. Ninguém garante que qualquer uma dessas coisas teria acontecido se a escolha tivesse sido a outra. “E se...” é uma forma de justificar a impotência e a impossibilidade de fuga, uma estratégia para enganar a si mesmo e se esquivar das responsabilidades da situação atual.

O passado é como um tanque de água que represa todas as nossas experiências. As novidades que nos fazem felizes são como a chuva. A chuva cai em diferentes intensidades, quando cai. De vez em quando se retira e dá lugar a estiagem. A felicidade é mais ocasional do que gostaríamos. E quando ela cai, logo se mistura às águas passadas. A novidade se dilui rapidamente e passa a ser parte da rotina.

O problema é que passamos boa parte do tempo tentando baldear o passado com uma caneca de dilemas (E se...) e uma concha de justificativas (É que...), na esperança de que, tendo esvaziado uma boa parte do tanque, uma grande quantidade de novidade venha a cair do céu.

Ledo engano. Doce ilusão. O negócio é desfazer a miragem e aceitar a sua origem, o percurso da sua vida, o trabalho e o meio de transporte disponível, os sapos engolidos e aprender a lidar com a família que constituiu.

É mais fácil se perder entre dilemas e justificativas do que partir para a ação diante das coisas do jeito que são (ou estão).

 UM CAFÉ E A CONTA!
|Em vez de tentar eliminar o passado, agarre-o. É a sua história. Abrace-o como irreversível que é e estará pronto para as novidades.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 3, 09/04/2013, Edição Nº 1247. 

sábado, 30 de março de 2013

Uma Pilha de Jornais de Herança

Arte de Augusto Amato Neto



Na minha família, existe uma forma muito particular de pais e filhos trocarem afeto. É a entrega de artigos, o receber recortes de jornal, o ganhar alguma matéria selecionada.

Meu avô Tino, 93 anos, diz que sua bagagem intelectual saiu dos jornais. Apesar de ter  concluído o curso de contabilidade antes de se casar e ter feito faculdade de economia quando já tinha dois filhos, foi debruçado nas páginas do jornal que ele descobriu oportunidades de negócios, de trocar seus carros e esteve por dentro dos assuntos mais importantes de cada época.

Desde que começou a trabalhar, antes de fazer carreira como industrial, foi ajudante de barbeiro. Foi nessa época, aproveitando o tempo livre no salão, que aprendeu a abrir os braços para as notícias e se tornou um hábil espiador de manchetes e letras miúdas. Quando não havia tempo, levava o jornal da véspera para casa e o lia de cabo a rabo.

Quando arrumou seu primeiro emprego assalariado, tornou-se assinante de um importante jornal, sendo hoje um de seus mais antigos leitores.

Nessas décadas, cada notícia lida que remetia a algum de seus filhos ou netos, ele fazia o recorte. Muito antes de eu ter nascido, seu Tino percorre os quatro cantos da notícia com a tesoura para fazer o assunto chegar a quem interessa. Um cuidado para que nós não fiquemos por fora da última notícia.

Quando eu ingressei no curso de psicologia, passou a separar artigos de terapeutas, resenhas de novas obras publicadas, notas elucidando a tradução de um clássico da área.

Mais adiante, depois de treinar minhas habilidades de cozinhar, quando tive a coragem de apresentar algum prato à família, ele passou a guardar o caderno culinário do jornal para que eu pudesse aprimorar os modos de preparo e descobrir novos ingredientes.

E ele fez o mesmo com com os filhos engenheiros, com os netos que estudaram medicina, com o neto publicitário. E teria feito se na família tivesse um advogado, um físico ou um dentista.

O meu pai mantêm a mesma tradição, só que de uma maneira um pouco diferente. Ele é assinante de revistas especializadas na área de gestão de negócios e recursos humanos. Durante as suas leituras assíduas, faz uma clipagem dos artigos que são mais interessantes. Ele grifa os trechos mais importantes da matéria e faz um índice de assuntos em um papel preso na capa. Oportuno para mim, que tenho uma vida corrida e agitada.

Com todo este cuidado, fica difícil recusar a informação. Recortes do meu avô e as revistas encaminhadas pelo meu pai são minhas leituras obrigatórias, o resto é bibliografia complementar.

Trata-se de um compartilhar de informação como se fosse uma troca de bilhetes, um recado de preocupação.

Esse hábito que nasceu com meu avô e já atravessou duas gerações é a versão paterna do lembrete da mãe para levar a blusa de frio ou o guarda-chuva.

Implícito nas entrelinhas das reportagens da vida estão duas máximas em matéria de afeto masculino. Os homens se protegem da chuva com o conhecimento. Os homens se aquecem sabendo da última notícia da sua área de atuação. Meu guarda-chuva e minha colcha são feitos de retalhos de jornal. 

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Um filho meu, ao chegar em casa, não me verá sentado na poltrona com as páginas abertas. Que pena. Na sua memória eu estarei fazendo o mesmo dando piparotes na tela de um tablet.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 30/03/2013, Edição Nº 1245. 

sábado, 16 de março de 2013

Se Meu Espelho Falasse

Arte de Weberson Santiago



Se meu espelho falasse, não aceitaria apenas assistir ao entra e sai todos os dias.

Se meu espelho falasse, conversaria comigo durante todo o tempo que passo no banheiro. Iria querer saber exatamente o que eu faço durante o período que estou fora de casa. Tentaria entender porque eu saio renovado da ducha e volto cansado, precisando de um bom banho.

Se o espelho falasse, mostraria o quanto eu estou diferente a cada dia. Provaria que, seguindo o mesmo ritual todas as manhãs, o resultado nunca é o mesmo. E insistiria até me mostrar que o resultado é diferente de como eu imagino que estou.

Se meu espelho falasse perguntaria por que, logo depois de acordar, fico alguns minutos olhando para meu reflexo. Questionaria se eu demoro a me reconhecer ou se estou dormindo de olhos abertos.

Se meu espelho falasse, pediria para que eu tentasse mais uma vez. Me aconselharia a diminuir o tempo que eu passo tentando entender tudo o que acontece. Tudo, tanto, o tempo todo. Apenas tente mais um vez, diria ele.

Se meu espelho falasse, alguns dias meu reflexo pediria para que eu saísse da sua frente. Sai da frente que eu quero ficar aqui, já que não posso passar. Cansei de você. Cansei do quanto você se habituou a me ver sem me olhar. Será que percebe como o tempo passou? Ele questionaria.

Se meu espelho falasse, jogaria na minha cara que não é possível dormir com medo e acordar de cara com a coragem. Que quando eu escovo preocupado os dentes pra dormir, é impossível escovar despreocupado os dentes pela manhã. Escancararia que nenhum problema se resolve por si só, depende de esforço.

Se meu espelho falasse, daria gargalhadas comigo. Choraria no meu ombro amigo. E tentaria me convencer a pensar apenas no meu umbigo.

Se o espelho falasse, pediria que eu diminuísse as comparações. Deixe de olhar para o que os outros são e preste mais atenção no que você é, falaria ele. Esqueça o que os outros têm e pense apenas em como você vai fazer para conquistar.

Se meu espelho falasse, um dia ficaria rouco. Perderia a voz e emudeceria de vez em quando. Por vezes ficaria de queixo caído.

E quando ele parasse de falar comigo, me deixaria pensando, até que eu concluísse:

Quando olhamos no espelho, não buscamos encontrar um estado excelente de aparência. Estamos tentando evitar qualquer detalhe estranho que prejudique nossa aceitação.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Se meu espelho falasse não seria mais o meu reflexo, seria o oposto de mim mesmo a me completar.

Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, Caderno Dois, p. 4, 16/03/2013, Edição Nº 1243. 

sábado, 2 de março de 2013

O Colecionador de Chapéus

Arte de Augusto Amato Neto




Gustavo, 42 anos, é gerente administrativo de uma empresa. Casado com Tatiana, 39, há 18 anos. O casal tem dois filhos. Luciana, de 15 anos, e Vítor, de 6.

Há dois anos, Gustavo chegou em casa após o expediente de trabalho carregando uma caixa. Curiosa, Tatiana questionou o conteúdo. “Comprei um chapéu Panamá, igual ao do Tom Jobim”, disse. Ela gostou da novidade, sempre achou um charme homem de chapéu.

Na semana seguinte, Gustavo trouxe para casa uma sacola. Tatiana encontrou-a na sala quando chegava com os filhos. Entreabriu a boca do saco plástico e encontrou outro chapéu, diferente do primeiro. Achou estranho o marido repetindo a compra sem sequer ter usado o outro. Gustavo costumava levar a esposa quando saia para comprar roupas e consultava sua opinião a cada troca no provador. Ficou encafifada com a independência repentina, mas acabou esquecendo a atitude incomum do marido.

Passados dez dias, a família toda passeava num shopping. Passando em frente a uma vitrine, Gustavo avisou que iria entrar na loja. Foi direto à prateleira de chapéus e começou a analisar os modelos. Escolheu um exemplar de estampa xadrez pequena, sóbrio. Tatiana ficou sem graça de questionar a compra na frente das vendedoras e dos clientes. Saindo da loja, ela não se conteve:

— Guto, que mania é essa agora de ficar comprando chapéus? Já levou três para casa!

— Não posso mais comprar o que eu quero? – retrucou.

— Só não estou entendendo o motivo da coleção. Você compra o chapéu mas não o usa. Semana passada, fomos no churrasco na casa do Arthur e você não usou o chapéu. No dia seguinte, fomos ao clube e você também não usou.

Ele se calou, não apresentou um motivo sequer. Não justificou as aquisições. As compras continuaram a se repetir. Em um ano, Gustavo juntou dezoito chapéus. Tatiana questionou cada uma das compras. E ele sempre devolveu respostas evasivas. Ficou preocupada, chegou a pensar que o marido estava ficando doido. Consultou um psiquiatra para investigar a possibilidade de Gustavo estar com TOC, Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mas ele não se enquadrava no transtorno, já que sua mania se resumia a colecionar chapéus sem usá-los, sem prejuízo algum nas demais atividades.

No fim da tarde de uma quarta-feira, Gustavo e Tatiana receberam uma ligação dos pais de Tatiana pedindo que eles fossem até lá para uma conversa urgente. Preocupados, deixaram o que faziam em casa e foram ao encontro do casal. Sebastião, o pai de Tatiana, descobriu naquele dia que estava com câncer de próstata. Seria operado ainda naquela semana e depois passaria por sessões de quimioterapia.
Após a cirurgia, quando Sebastião havia tido alta para o quarto, Gustavo e Tatiana se dirigiram ao hospital para uma visita. Foi quando Gustavo desceu do carro, abriu o porta-malas e retirou uma caixa.

— O que é isso, Guto? – questionou surpresa.

— Você vai ver.

Entraram no hospital e foram em direção ao quarto onde Sebastião se recuperava. Entregou a caixa ao sogro. Era o primeiro chapéu que Gustavo havia comprado, entregue para que ele usasse quando o seu cabelo caísse após a quimioterapia.

Ao assistir a cena, Tatiana suspeitou entender, ainda que vagamente, o motivo da coleção. Saindo de lá, Gustavo lhe explicou que a palavra câncer era proibida na casa de seus pais. Quando a doença foi descoberta e divulgada, os motivos do seu aparecimento eram pouco claros. Evitar falar o nome da doença, naquela época, era tentar que ela passasse longe dos entes queridos. Ouvia seus pais se referindo ao câncer como “aquilo” ou “a coisa”.

Gustavo percebeu que deixar de falar não evitava um câncer ao observar a perda de alguns amigos e colegas. Passou a se preocupar com a doença e se deparou com sua origem silenciosa e imprevisível. Não conseguia falar sobre o assunto com a esposa, tão forte era a regra que vigorou na sua infância. Foi aí que decidiu colecionar chapéus. Se ele viesse a descobrir uma neoplasia em seu corpo, quando enfrentasse o tratamento, queria ter uma coleção de chapéus para usar a cada dia, uma tentativa de manter viva a esperança.

Se fosse agraciado de não passar por um câncer, entregaria os chapéus para os que tivessem de enfrentar a doença. Não escolheria o doente, poderiam ser pessoas que ama ou até um desconhecido que cruzasse seus caminhos e ele soubesse que lutava pela vida.

A partir do dia que descobriu isso, Tatiana começou a colecionar lenços sem usá-los. Passaram, os dois, a proteger a cabeça e a fazer um carinho no cocuruto dos bravos que enfrentam um câncer.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| O melhor analgésico é se sentir cuidado.



Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 02/03/2013, Edição Nº 1241. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Vida Continua Depois do Carnaval

Arte de Weberson Santiago


Quarta feira de cinzas, 14 horas, dia chuvoso de fevereiro. Hora marcada para a reunião dos integrantes do “No Comando do Seu Peso”, um grupo que se encontra com o objetivo de incentivar a “eliminação” de quilos indesejados. Cristina é a presidente da reunião, comanda o grupo, leva materiais para discussão e acompanha os resultados da balança. Algo discreto. Sobe-se no pesadouro em frente aos demais presentes.

O que importa a tal privacidade se Cristina conseguiu “eliminar”, como ela própria diz, 45 quilos sem cirurgia? Cada membro novo que chega às reuniões, ela exibe a foto de um passado obeso. Aquela foto que durante muito tempo ela tinha horror só de imaginar, hoje usa como medalha pendurada no pescoço. O programa americano adaptado no Brasil diz que o líder deve ser um exemplo de comportamento.

Depois de mais de uma hora de palestra temática para aprender a diferenciar a “fome física” da “fome compulsiva”, o que segundo Cristina “é a chave do sucesso”, abre-se espaço para quem quiser falar. O momento que precede a pesagem mais parece um confessionário de farras alimentares.

Tereza, 43 anos, casada, 2 filhos que moram em outra cidade, 112 Kg, pede a palavra: “Sempre gostei de carnaval. Esse ano eu fui assistir ao desfile das escolas de samba da cidade. Meu marido, como sempre, não quis me acompanhar. Os meninos foram viajar com os amigos. Então chamei e Kelly, minha vizinha, e fomos pro sambódromo. Como na semana passada aprendemos a nos preparar para quando saímos da rotina alimentar, peguei uma sacola térmica e coloquei os lanches do jeito que mandava a dieta. Aí, tivemos que chegar cedo pra pegar um bom lugar. Esperamos na fila no meio de um monte de gente e quando olhei para o lado, cadê a sacola de comida? Algum esfomeado ficou de olho e pegou quando me distraí com o aquecimento da bateria. Aí, sabe como é, né? Aquela vaca da Kelly, magra de ruindade, ficou do meu lado comendo tudo o que passava vendendo. Era churros, pastel, pipoca, amendoim... Eu fiquei lá mais de 12 horas, como não ia comer nada? Mas eu tentei controlar a quantidade...”.

Marcos, 52 anos, solteiro, 169 quilos, interrompe dizendo: “É por isso que eu não gosto de carnaval, uma bagunça, aquele povo bêbado, aquela pouca vergonha. Não vou a um lugar desses nem me pagando. Fiquei o feriado todo em casa. Assisti alguma coisa pela televisão, até porque só passa isso. Na segunda, eram três horas da manhã, aquele desfile sem fim e a narração sem graça da TV, começou a me dar uma fome... Não compro mais doces, pra não ter recaídas nessas horas. Como não tinha nada de sustância, me deu vontade de comer caqui porque eu tenho um pé em casa. Fui lá no fundo e matei minha vontade: comi três dúzias de caqui”.

Em meio às risadas incontroláveis e patéticas, Maria, 37 anos, deprimida e solitária com seus 143 quilos: “Eu não vejo graça nessa história do caqui. Até acho que vocês dois deveriam comemorar. Um não queria sair e ficou em casa. A outra não deixou de fazer o que queria. Meu carnaval foi mais trágico que isso, essa data completa 12 anos...”. “Que o seu namorado te largou, abandonou sem muitas explicações e levou tudo o que você tinha, não é, Maria?”, antecipa Marcos. “Sei que vocês já estão cansados da minha história, mas eu nunca me senti tão sozinha. Não sei onde eu achei forças para ir até o salão de festa do condomínio, onde todo ano fazem uma matinê. Bem que tentei paquerar por lá, mas o único homem desimpedido era o Seu Joaquim, aposentado e viúvo de 78 anos. Resumindo, já que vocês sempre ficam irritados com as minhas histórias: esse meu carnaval teve confete e serpentina. Enchi a cara de chopp na festa do condomínio e terminei a noite comendo chocolates coloridos no sofá da sala, sozinha”.

“Que tal vermos como cada um está em relação a sua meta, pessoal?”, diz Cristina.

 UM CAFÉ E A CONTA!
| Se o ano começa depois do carnaval, deixa eu me apressar que agora é pra valer. Pelo menos até o próximo feriado.


Publicado no Jornal Democrata, coluna Crônicas de Padaria, capa do Caderno Dois, 16/02/2013, Edição Nº 1239.