quinta-feira, 8 de abril de 2010

Consultório com cara de casa


Um ambiente acolhedor é um convite para o auto-conhecimento,
considerando que é preciso se sentir seguro e
à vontade para falar sobre as intimidades.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Meu lugar no público

Nunca me expus tanto como neste momento da minha vida. Sou Psicólogo de um clube com 5000 sócios, 90 funcionários e 1000 atletas em formação. Minha atuação envolve intervenções em todos estes níveis. Posso começar um dia com treinamento de funcionários com 15 a 30 anos trabalhando nesta função e terminar o dia com uma reunião de equipe de basquete ou natação com crianças de 11 e 12 anos.

Como professor, leciono disciplinas no curso de Psicologia para todos os semestres, salvo os do último ano. Embora valorize a oportunidade que é oferecida pela Universidade, com turmas de cerca de 30 alunos que chegam mais tarde e mais maduros no curso, também estou exposto diante dessa grande quantidade de estudantes.

Talvez o meu consultório seja o que me exponha menos por hora de trabalho, já que a proporção é de um para um. Um terapeuta para um paciente. Mas talvez também me evidencie em algum grau por dar acesso às versões dos próprios autores de muitas das histórias desta cidade de interior. Há também os pacientes que tomam a palavra do terapeuta e a repetem o tempo todo fora do consultório para lhe autorizar certas condutas, mesmo que seja preciso editar o dito.

Como psicólogo do trabalho e do esporte, costumo ser procurado pelas razões mais distintas para uma conversa privada. Em contrapartida, procuro os funcionários e atletas para trabalhar seus comportamentos em grupo. Desde que iniciei este trabalho, tenho me deparado com o quanto algumas pessoas se incomodam com minha presença e as possibilidades de ameaça que poderia significar neste ambiente de trabalho. Explico para não parecer um delírio persecutório. Muitas vezes o psicólogo é visto como alguém que vem procurar problemas ou mostrar falhas. Ninguém gosta de ser apontado, ainda mais aquele que conseguiu se cercar de avaliações do seu trabalho durante anos e se sente frágil perto desta possibilidade que minha presença desperta.

Quando era estudante de psicologia, assistia minhas colegas suspirando pelos professores. Sempre existia uma que se derretia pelo professor mais esquisito. Hoje ocupo o lado oposto e vejo que independente do que faça, não posso impedir que alguma aluna ou algum aluno fantasiem a respeito de como sou fora da sala de aula e até queira me conhecer neste contexto. Procuro respeitar estes sentimentos, mas tem horas que me incomodo e até me questiono sobre qual minha responsabilidade nisso tudo.

Outro dia discutia com meu terapeuta esses acontecimentos, quando ele descreveu propriedades de meus comportamentos. As pessoas tendem me enxergam como disponível e acessível. Tenho cara de disposição para o outro quando procuro ser educado, cumprimentar todos aqueles que encontro, ajudar quando me pedem, corresponder aos que se interessam por aquilo que estou ensinando no meu trabalho. Trato de igual para igual quem está disposto a aprender comigo.

Mesmo assim, chegam aos meus ouvidos críticas descabidas feitas por quem sequer tem idéia do meu trabalho, ou seja, de quem avaliou sem conhecer de perto. Ou também fico sabendo que determinado aluno pensa que pego no seu pé por questões de nota, quando eu na verdade o considero um ótimo aluno.

Os estudiosos experimentais do comportamento afirmam que pequenos detalhes em nossas atitudes podem ser estímulos para o comportamento do outro. Penso que o melhor exemplo para esta constatação é uma tela chamada Madrugada que fica numa parede de meu consultório. Ela é grande do tamanho de uma janela, possui um caminho com árvores ao redor, mas seu maior efeito se dá por ser toda preta.

Esta tela foi estímulo para diferentes relatos em meus pacientes. Uma moça dizia detestá-la, que a tristeza sentida diante do painel incomodava, preferindo o lugar que ficava de costas para a pintura. Outros conseguiam ver que embora escuro e entre a névoa, o caminho era visível e que a madrugada é o que precede o nascer do dia. Mais interessante foi o relato de uma mesma pessoa em diferentes momentos. Ora o quadro lhe despertava sentimentos ruins ora agradáveis.

Este exemplo ilustra o quanto não temos controle sobre a reação do outro. Se o quadro, que é um objeto estático, pode despertar comportamentos tão opostos em uma única pessoa, quem dirá um psicólogo falante durante os diversos momentos do dia cheio de pessoas e objetivos a cumprir.

No ínterim acabo me divertindo com as constatações dos papéis que ocupo na vida das pessoas. Me aborrecer seria perder tempo com algo que não tenho comando. Este papel de longe é definido apenas pela natureza de minha profissão de psicólogo ou pelo meu comportamento como pessoa. Quanto mais pública fica minha imagem, mais me surpreendo com o lugar que eu ocupo na vida do outro. O que salva é a porção privada que me resta, e que só tem acesso quem eu permito. O lugar que ocupamos no público é transformado a cada dia, nas pequenas situações. E o que realmente sou pode demorar a ser perceptível àquela pessoa que faz parte do meu dia.

Madrugada
Massa acrílica e tinta látex sobre painel
100x120 cm







Para João Camargo, μεγάλος φίλος.

sábado, 3 de abril de 2010

Crônicas com dispositivo GPS

Os aparelhos de GPS automotivos são usados para localizar o motorista nos mapas do local onde ele trafega, para levá-lo a um destino desconhecido e finalmente, para dar segurança de que não ficará perdido por onde houver cobertura de mapa. Informo aos leitores que minhas crônicas têm um dispositivo de GPS.

Com a mesma finalidade do motorista, cada crônica escrita carrega um dispositivo que registra as informações do leitor. O GPS de minhas crônicas chama-se Google Analytics. Posso saber em qual cidade o leitor acessou, qual navegador usava (Internet Explorer, Google Chrome, Firefox), quanto tempo permaneceu no site (acesso não é sinônimo de leitura), qual dos meios de divulgação o levou ao Observatório (Twitter, Facebook, Orkut ou pesquisa no Google) e muitos outros dados.

Veja bem, caro leitor que está sendo registrado ao ler estas palavras, o objetivo é o mesmo do motorista. Quero ver quais as ruas, avenidas, estradas e até os vôos transcontinentais por onde percorreram minhas palavras (recentemente constatei visitantes de Portugal, Irlanda, Estados Unidos, Espanha e Argentina).

Os dados mostram o quanto os textos atingem os leitores. É um desafio publicar com freqüência e dá segurança saber como o que é publicado é aceito por você que dispensa seu precioso tempo aqui.

No mês de março último foram 710 visitas de 249 leitores diferentes. Só este dado me mostra que o meu Blog fideliza o visitante, que retorna em busca de novas leituras. Destes leitores, 32% conheceram o Blog neste mês, sinal de que o leitor recomenda o que leu e que a divulgação está adequada. O recorde de visitas num único dia, desde que começou a ser monitorado, é de 98 acessos.

No Brasil, percorreu longos trajetos facilitado pela grande rede e chegou do Rio Branco no Acre até Lajeado no Rio Grande do Sul. A grande maioria dos leitores estão perto do cronista, dos dois lados da divisa onde se localiza a cidade de Mococa, nos estados de São Paulo e Minas Gerais.

Nós Analistas de Comportamento (minha linha de trabalho na psicologia) temos uma comunicação intensa e organizada por todo o Brasil, isso contribui para que os meus amigos da área se interessem em ver o que publico, independente do local em que estejam produzindo suas análises funcionais.

Neste findo mês os mais lidos foram Sara e seus 10 anos com 92 exibições, seguido de Os Cronistas e as Mulheres com 64. Tudo isso é muito importante para o cronista, que sente como se conversasse com o leitor, instigando a produção de novos textos. Esse é o lado interessante do Blog como meio de publicação e de produção literária: a rapidez da divulgação e agora a resposta mais rápida do leitor.

Gosto do feedback mais tradicional também. Gabriel, meu irmão que mora em Marília e faz medicina chegou contando neste feriado que foi abordado por uma colega que perguntou o que ele era do Augusto Amato Neto. Ela lê este Blog e quando viu o Gabriel numa foto da família que postei, suspeitou que fossemos irmãos e foi ter certeza. Gabriel disse que ficou orgulhoso de ver a repercussão do Observatório. E eu também.

Sempre bem-vindo leitor, fique tranqüilo ao acessar este Blog, pois o GPS do Observatório ainda não é capaz de registrar nomes, nem comentários imaginados na hora da leitura, muito menos expressões faciais na frente do computador. O Observatório lhe preserva a identidade anônima.

“Assim são os textos literários que, valendo por si, pertencem antes à ordem dos monumentos do que à dos documentos.” Antonio Cicero







Para os leitores do Observatório.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A fé duvidosa no amor

Oi Augusto!

Eu e o Cláudio nos desentendemos muito facilmente, a gente pensa diferente - óbvio que ninguém pensa igual, mas eu não sei se eu estou exagerando, mas a gente pensa muito diferente e não só a crença religiosa é BEM DIFERENTE, mas nossos objetivos de vida. A gente se gosta muito e pensa em casar e construir uma família, mas eu acho que ele espera que eu me converta pra que isso aconteça e eu não vou me converter - eu o acompanhei na Igreja algumas poucas vezes e já participei de alguns eventos da Igreja só pra estar junto, mas pra isso eu procurei ver só o lado bom dessa Igreja.

As divergências não se restringem à religião, mas isso pesa bastante, principalmente porque ele está se dedicando cada vez mais e eu fico irritada com isso porque eu não consigo ver a gente se casando com ele participando e super envolvido com a Igreja.

Na verdade, em tudo que ele diverge de mim eu quero que ele faça como eu, pense com eu, queira como eu... Eu estou doente! Eu me irrito com as divergências e acabo falando o que não devo, acabo ferindo. Então, por um breve momento - mas muito breve mesmo - eu não faço julgamento nem emito minha opinião, mas essa não sou eu! Eu peço desculpas - sou sempre eu que jogo merda no ventilador - e as coisas se acalmam. Eu tenho muitas expectativas e sou muito impaciente e ele me dá a oportunidade de repetir meus erros. Eu não sei quem é mais acomodado - acho que ele - o meu problema é a insegurança.

Eu sei que um casal não precisa nem consegue ter a mesma visão e o mesmo sonho, eu sei que uma vida a dois não se faz anulando-se, mas algumas concessões precisam ser feitas, alguns sonhos precisam ser sonhados juntos, um precisa acompanhar o outro, estar junto, apoiar.

Eu ainda o amo e, por isso, vou tentar fazer dar certo - não sei como, mas eu vou tentar. Eu quero muito que dê certo. Ele é meu melhor amigo. Eu não quero perder ele.

Beijos,

Célia.

-oOo-

Célia,

A religião acaba por ocupar um espaço muitas vezes distinto da exigência da fé. Quando percebemos, não estamos seguindo a Deus, mas um sacerdote humano. Sem esperar surge uma dúvida sobre como o grupo interpreta as Sagradas Escrituras e faz disso o "pensamento de Deus". Quando uma religião torna-se o empecilho de um relacionamento afetivo, ela está cumprindo o oposto de sua obrigação: o de agregar as pessoas, de disseminar valores morais como a noção de irmãos enquanto filhos de Deus e o respeito às diferenças.

A Igreja está sendo a questão que vai mostrar que existem algumas divergências importantes entre vocês. O duro é que em certas Igrejas não se permite nada além do Canto Gregoriano que recita a Bíblia em uma melodia que não aceita cantores que se destaquem. Nesta "casa", as diferenças devem ser superadas sem sequer assumi-las, já que o Cristão verdadeiro não criaria conflitos, mesmo que não defender seu ponto de vista seja uma anulação.

Sentir o desejo de constituir família quando se ama não é sinal que o relacionamento comportaria este novo passo. Você define o casal como acomodados, e talvez o que queira seja uma relação que te apresente novos mundos, o que só acontece quando sai do lugar de sempre. Sobre as diferenças, o seu namorado foi a única coisa que te fez bem no emprego "seguro", mas sufocante na pressão. Você foi corajosa para trocar o certo pelo duvidoso nos empregos e talvez quisesse que ele te acompanhasse trocando o certo da Igreja pela fé duvidosa no amor.

O fato é que ele é o primeiro, fica difícil ter referências quando só se conhece um tipo de todos os possíveis. Claro que é possível ser feliz tendo sido uma única relação, mas é preciso estar consciente das implicações desta escolha. Seu email está cheio de “mas”, como se essa relação estivesse repleta de ressalvas. Ele te ama, mas... Ele quer se casar e ter filhos, mas... Não acho que seja você quem joga a merda no ventilador, ela já está excretada, você apenas mostra que ela está ali, o que vem a contrariar a “paz” que plainou até então.

Ele parece ser mesmo mais acomodado, mas tem o álibi de agir em prol da Igreja. Por vezes o início de uma prática religiosa começa na fé e termina na esquiva da vida. Passo meu dia cuidando da Igreja, da comunidade e do líder para que não encare o mundo fora deste território: a vida em seu sentido mais amplo.

Ainda continuo achando que a reposta estaria em um distanciamento para abrir espaço para revisar os sentimentos, mas tenho minhas dúvidas sobre essa possibilidade no seu caso, por duas razões: primeiro pela Igreja não apoiar esta iniciativa dos fracos que "não perdoam" ou "não aceitam submissão", segundo que a insegurança que diz carregar talvez não permita esse grito de liberdade mesmo que seja para a sobrevivência deste amor.

Discordo um pouco de uma de suas últimas frases. "Eu sei, um casal não precisa nem consegue ter a mesma visão e o mesmo sonho". Um casal não precisa sempre ter a mesma visão, mas precisa sim compartilhar o mesmo sonho. O sonho também inclui todos os passos do caminho para concretizá-lo. Se ele não se dispuser a estes passos (esteja certa de que deixou claro quais são), não compartilha o seu sonho. Neste caso restaria a vocês serem apenas amigos ou a ele ser apenas aquela parte que você diz que ele já é: seu melhor amigo. Qual parte dele não quer perder?

Uma hora essa negociação precisa vir à tona.

Beijos,

Augusto.





Nota do Autor: Este Blog não publica casos clínicos, e sim estórias baseadas na convivência social do autor. Os questionamentos e as respostas foram feitas por alguém que procurou o amigo psicólogo e não o psicólogo amigo. Foi publicado com autorização da personagem principal, cuja identidade foi preservada pelo nome fictício.

segunda-feira, 29 de março de 2010

São Paulo em Fotos

Cores do Concreto
Prédios do centro de São Paulo vistos do "Minhocão"
(Elevado Costa e Silva), interditado aos
domingos para pedestres e ciclistas.

sábado, 27 de março de 2010

Sara e seus 10 anos


Levei um susto hoje na hora do almoço. Os familiares que se acalmem, aviso que não fui assaltado, não bati o carro, nem serei pai daqui a nove meses. Fui levar a Sara, minha irmã adotada, a seu compromisso quando fui surpreendido por uma atitude dela.

Ela foi abrindo a porta da frente do carro e sentando no passageiro. Desde quando se tornou integrante da família, com vinte dias de idade, sempre andou no banco de trás para sua própria segurança. Quando a vi entrando, fui logo dizendo pra que fosse pra trás e ela imediatamente respondeu: “você esqueceu que agora eu tenho 10 anos?”.

Desconcertado, tratei de tirar a minha mochila e as bugigangas para que ela fosse sentada no lugar do passageiro. Ela sentou, colocou o cinto de segurança sem que eu dissesse nada e foi aproveitando o panorama novo de visão, me perguntou qualquer coisa do painel e depois se ateve a questões da cidade que o lugar da frente permitia observar.

Eu me escondi por detrás de meus óculos escuros e comecei a chorar. As lágrimas tomaram conta enquanto tentava ver se os óculos escuros poderiam ficar gigantes para que eu pudesse me esconder por inteiro. Era como se até o minuto anterior ela não tivesse crescido e neste momento falasse comigo de igual pra igual, com uma serenidade que me pegou desprevenido. Eu estava em seu aniversário de 10 anos, no dia 16 de fevereiro, mas só fui perceber o que significava a autoridade de uma década de vida neste episódio.

Sara é uma sobrevivente. Viveu adversidades quando precisava de abrigo, apoio e carinho nos seus primeiros dias de vida. Quando veio integrar nossa família não foi somente capaz de aprender a receber nosso carinho, mas sempre fez questão de retribuir em amor, sem ser cobrada para isso.

A demora para falar, seguida de dificuldades fonéticas para algumas sílabas foram as primeiras preocupações durante seu desenvolvimento. Para ela, custa muito mais esforço apreender do que para outras crianças. Mas quem se importa com essa diferença?

Admito que a preocupação existe, sobretudo quando o ponto de vista é como seu desenvolvimento poderia ser. Mas me recuso a olhar o que falta ao invés de olhar o que foi conquistado. Demorou certo tempo para pronunciar a sílaba “sa” do seu próprio nome, mas hoje ela fala essas e outras que tinha dificuldade. A letra dela está ficando cada vez mais bonita, mesmo que tenha tido que refazer alguns anos letivos. Desde bebê, tem uma sensibilidade rítmica muito forte, o que poderá aproximá-la de algum instrumento musical, da mesma maneira que ela descobriu a dança. Por falar em habilidades motoras, desde pequena mostrou grande capacidade, chegava a fazer uma seqüência de “estrelas” e cambalhotas no gramado de casa. Poderia se dar bem na ginástica olímpica. É capaz de cativar adultos com muita facilidade, desde bebê, assim como é leal nas suas amizades, demonstrando habilidades sociais muito adequadas.

Na nossa família, Sara tem espaço para ser o que ela é e o apoio para demorar o quanto for preciso para superar suas próprias limitações. Sua mãe preparou-se inclusive para o caso dela querer buscar informações de sua família de origem. O pai, como autodidata em neurologia, está sempre disposto a estimulá-la nas suas melhores potencialidades. O irmão mais velho e padrinho é psicólogo, e tem se esforçado para cumprir a promessa de quando ela chegou de estar sempre disponível quando ela precisar. O segundo irmão é o que não se importa em “estragar” com os presentes que ela mais gosta, só pra ver sua felicidade. O terceiro estuda medicina e promete todos os cuidados de sua profissão.

Com toda essa história, o fato é que a partir de agora, no meu carro, ela só ocupará o lugar do passageiro. Ela esperou 10 anos para poder vislumbrar o caminho que só é visto deste lugar. O mérito da espera e a persistência para a superação são o que fazem das pessoas vencedoras na vida. Consigo imaginar, sejam lá quais forem suas escolhas, Sara dando seu melhor e obtendo sucesso no futuro. Sabe por que imagino tudo isso pra ela? Pois foi o que a vi fazendo até agora.





Para Priscila, que também sabe o que é o amor incondicional, no caso pelo caçula Antonio, que já está tão metido com sua década de vida quanto a Sara.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Padarias

A padaria é como uma mãe isenta de culpa. Se você pedir leite, ela dá; se prefere refrigerante, na mão; mas se estiver em busca de uma dose de cachaça, ela também dá. Se quiser um lanche natural tem; se quiser x-salada também tem; peça uma porção de frango a passarinho e lhe dão sem questionar sua taxa de colesterol.

As semelhanças não param por aí. Algumas não têm higiene e acreditam que sujeira aumenta a resistência do sistema imunológico. Outras padarias são obsessivas com a limpeza, pra pegar o pão com o pegador de alumínio, é preciso usar touca, luva e avental.

Com toda essa variedade, é possível encontrar padarias com cara de bar, onde os homens se aglomeram para tomar cerveja e assistir jogo de futebol. Existe a padaria que parece restaurante e oferece self service de café da manhã, almoço e jantar ou os tradicionais PFs (pratos feitos). Tem ainda aquela com cara de supermercado, com prateleiras e produtos diversos para casa.

Se a variedade de produtos oferecidos é a parte materna da padaria, o serviço é a parte paterna. Do chapeiro ao balconista a maioria são homens. Uma ou outra cozinheira é mulher, mas sabe se lá porque ficam escondidas na cozinha. Talvez pensem que o homem se saia melhor ao exigir respeito tanto diante do pedido do Rabo de Galo (dose de cachaça com conhaque) até o do Brioche (pão doce de origem francesa).

O outro lado do atendimento masculino é o serviço personalizado capaz de fidelizar o mais safado dos clientes. Se você freqüenta a padaria mais de uma vez por semana, será tratado pelo nome e economizará a saliva do pedido a partir da quarta semana. O bom balconista de padaria é como um pai herói que adivinha seu gosto apenas pela cara que está fazendo.

Nas viagens que faço acompanhando atletas, a primeira coisa que procuro perto do hotel, alojamento ou local de competições é a padaria. Se ficar com sono, peço um café. Com fome, corro pra fazer um lanche. Cansado, saio pra dar uma volta. Inspirado, tenho onde sentar para escrever. E sempre preciso dela para todas essas coisas.

Tenho me dedicado a experimentar as diferenças do sanduíche de pão francês com queijo minas na chapa. Em São Paulo, o balconista pede ao chapeiro pelo Mineiro. Não é toda padaria que oferece a iguaria no cardápio, mesmo aquelas que se localizam em Minas. Não é só no sotaque que tenho referências mineiras. Mococa fica em São Paulo, mas faz divisa com Minas e alguns modos e costumes não respeitam a fronteira interestadual.







Para o Jonas da Riopardense e para o Zé (balconista) do Bar do Zé (dono) no centro de sampa.
Ilustração: Pães - tinta acrílica sobre papel canson.